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Há já bastante tempo coloquei aqui um mapa datado de 1970, do Museu da Marinha, que pretendia ilustrar os descobrimentos portugueses.
Apesar do mapa dizer ser feito pelo "pessoal técnico do Museu da Marinha", não deixava de conter indicações algo enigmáticas. Uma que notei foi a presença de pinguins na Gronelândia, a que erradamente atribuí um erro de execução, e também a de cangurus na Austrália (algo que não se parece observar em nenhum mapa anterior a Cook):

Acontece que desenhar pinguins árticos num mapa de 1970 parece muito estranho, mas não o seria se fosse baseado num original, desconhecido... Porquê? Porque os últimos pinguins árticos foram mortos em 1844, perto da Islândia. Isso eu não sabia, e parece ser propositadamente pouco divulgado!
Encontrei essa informação neste blog: oeco.com.br, e daí encontrei depois a informação natural sobre as "grandes alcas" - assim se chamavam os pinguins do Ártico:

Assim, a menos que se pretenda a coincidência do erro, a ilustração do Museu da Marinha assentará num mapa que tinha esses pinguins do norte e que colocava a Terra de Corte Real sob coroa portuguesa. E como a coroa está aberta, não será provavelmente de D. Sebastião, que a veio a fechar, em sinal de independência ao poder imperial, será talvez do seu avô, D. João III. No entanto, tal como se ilustram os pinguins do norte, também aparecem desenhos de cangurus na Austrália, com uma imprecisão que até sugere autenticidade...

Sobre estes pinguins e sobre a presença portuguesa na Terra Nova e Canada, acho que é suficientemente esclarecedora a obra de Jean de Laet, "L'Histoire du Nouveau Monde...", 1640. 
Na página 33, introduz a Nova França e Terra Nova, atribuindo a descoberta da Terra Nova aos Cabotos, venezianos a serviço de Inglaterra, tal como Colombo seria genovês a serviço de Espanha.
A rivalidade Génova-Veneza, habitual na escolha dos Papas, era transportada na legalização da descoberta americana... um genovês para as Antilhas, em 1492, e um veneziano para as Satanazes - Terra Nova, em 1498. É praticamente óbvio que Génova e Veneza sabiam perfeitamente os contornos desse mundo, mas pelas suas limitações logísticas seguiam os cuidados necessários para a aceitação das descobertas - navegaram em serviço de potências externas.

No entanto, Laet não deixa de referir Gaspar Corte Real, dizendo 
"Pouco depois dos Cabotos, a saber no ano 1500, Gaspar Corterealis visita as mesmas terras a comando do rei de Portugal e as descobre pouco depois" (pág. 34). 
Algo perfeitamente justificável... D. Manuel queria definir as possessões outorgadas por Tordesilhas, e assim em 1500, dois anos depois da incursão de Caboto a norte, retira do encobrimento a Terra Nova e o Brasil. Durante um século os ingleses não mais se aventuraram aí e, até à morte de D. Manuel, ninguém reclamou a Terra Nova ou o Canadá.

Depois, Laet justifica o nome "Nova França", dizendo que se chama assim porque os franceses foram os primeiros a penetrar no meio do país, e a se estabelecer a mando do rei. Portanto, é suficientemente lúcido para não atribuir nenhum papel especial de descoberta a Jacques Cartier, que apenas ali chegou em 1535, uma quinzena de anos após a morte de D. Manuel, quase quarenta anos após Caboto.

É sempre instrutivo rever a carta "Pedro Reinel a fez", datada de 1504, mas que suspeitamos ser contemporânea ao Tratado de Tordesilhas. Para além das outras suspeitas, de representação implícita, atentemos aos nomes atribuídos à parte da carta respeitante à Terra Nova (clicar p/ aumentar):

De cima para baixo, podemos ver os nomes:

- y da fortuna,   - y da tormenta
- c do marco,     - sam joham
- sam pedro,      - y das aves
- a dos gamas,           - c de boa ventura
- y de boa ventura,    - c do marco
- y de frey luis,         - b de santa ana (?)
- y dos bacalhaos,     - b da comcepção
- c da espera,            - r das pa...
- r de sam (?)...
- c Raso
( mais em baixo: sam johã e santa cruz)







Uma boa parte destes nomes vai ser mantida na descrição de Jean de Laet, que fala no Cabo de Raz (cabo raso), na ilha das aves, na ilha dos bacalhaus, baía da concepção, na ilha de Frei Luís, e na ilha da tormenta (nome a que associava origem francesa, e de que já falámos a propósito de Melgueiro).

Os nomes portugueses ainda por lá estão: Baccalieu Island na Conception Bay (baía da Concepção), Bonavista, o Manuel's river e St. Johns, sendo o mais explícito Portugal Cove (já mencionado no Portugalliae.blogspot) que, tendo sido destruída e incendiada pelos franceses em 1696, talvez reporte a si o incidente ilustrado "na descida dos franceses à Terra Nova".

Jean de Laet dá-nos uma imagem diferente do simples aportar de Corte Real à Terra Nova. Numa citação (carta enviada a Hayklut), fala-se claramente numa seca de peixe (bacalhaus, claro) e no Cap. III, dá uma descrição dos portos que vão desde o Cabo Raso, falando nos nomes e seguindo as cartas portuguesas:
- Porto Formoso, Água Forte, Ponta do Farilhão, Iheu de Galeotas, Ponta de Ferro, Cabo de Esp(h)era,  St. Jean (São João), Baía da Concepcion, Ilha dos Bacalhaos, Cabo da Boa Vista, Ponta dos Ilhéus de Frei Luis... ilhas de S. Pierre - São Pedro, e ainda uma Ilha dos Pinguins - certamente as Grandes Alcas, que viriam a ser extintas dois séculos mais tarde.
Depois retornando ao Cabo Raso, no outro sentido, fala da Angra dos Trespassam, de um rio Chincheta, indo em direcção ao Cabo dos Bretões (Cap Breton) e passando pelo Porto dos Bascos... (o que dá uma clara ideia de que os pescadores da orla do atlântico, não apenas portugueses, mas também galegos, bascos, bretões e até irlandeses, cruzavam aqueles mares, pela abundância de peixe nos grandes bancos da Terranova).
Fala ainda claramente (pg. 40) de estabelecimentos portugueses na Ilha do Cap Breton, nomeando Ninganis ("enganos" hoje Ingonish, segundo o site dightonrock.com), que depois foi abandonado, bem como outros lugares, devido ao rigor climático. Também diz que os portugueses se tentaram estabelecer na Ilha de Sable, mas sem sucesso, como aconteceria com os franceses através do Marquês de la Roche.

Ou seja, acaba por ser através de Jean de Laet que temos o melhor panorama da presença portuguesa na Terra Nova. Sendo um relato francês, restam poucas dúvidas sobre a permanência naquelas paragens, pelo menos desde 1500 até 1696, aquando da "descida dos franceses"... 
Dada a existência de material estrangeiro atestando a presença nacional na Terra Nova e Nova Escócia (as Satanazes no mapa de Pizzigano de 1424), quanto mais não fosse pela presença para secar o bacalhau... percebe-se pouco a persistência interna em ignorar o assunto, talvez porque se tenha vergonha de assumir que a colónia foi abandonada à sua sorte.
Para além disso, existem mapas que atestam esse senhorio da Terra Nova e Lavrador ao Rei de Portugal e em particular aos Corte-Reais (cf. JM-CH, ver o Catálogo Huntington HM41- folha 4).

Note-se que "Canada" é uma palavra portuguesa antiga para medidas líquidas - era um duodécimo do almude, e dividia-se em seis quartilhos. À época de D. Manuel, uma "canada" seria um litro e meio, em Lisboa, e chegava a mais de dois litros a norte (ver "Mosteiro de St. Tirso", de F. Carvalho Correia). No site dightonrock.com fala-se num imposto de um décimo para o pescado na Terra Nova, sendo a "canada" um duodécimo do almude, não é de descartar que o termo se aplicasse nesse sentido de um imposto menor (8% em vez de 10%...).

Os pinguins do ártico acabaram por desaparecer, tal como praticamente a notícia dos portugueses que colonizaram a Terra Nova, ficou talvez a pequena "Portugal cove". Com o perigo da extinção dos bacalhaus no Canada, a criação de cotas restritivas no início dos anos 1970, e depois o fim dos navios coloniais em 1975, colocaram um ponto final na grande tradição marítima portuguesa. O patrocínio ao abate das frotas de pesca, no final dos anos 80, foi o golpe final. Em pouco menos de 10 anos, a tradição da nação de navegadores reduzia-se à pesca costeira artesanal.

Os colombos americanos
Termino com um outro apontamento de extinção surpreendente.
No Séc. XIX a colombofilia norte-americana parecia concentrar-se na figura de Colombo, recuperando o mito do descobridor caído em desgraça. Do outro lado, para os nativos pombos americanos, os pombos-migratórios, a columbofilia foi diferente. 
Último pombo-migratório (passenger pigeon) - Cincinati zoo.

Consta que os sociáveis pombos-migratórios infestavam os céus americanos, estimando-se em milhares de milhões a sua população. Porém, este sucesso reprodutivo acabaria por levar à sua extinção num curto período de tempo. Foi instaurada uma caça ao pombo, que só pode ser satirizada com o clássico "Stop the pigeon", ainda que este desfecho nada tenha de comédia:

Compreende-se o efeito devastador nas colheitas que poderia ter um bando de pombos com centenas de milhares de indivíduos, e nesse sentido a sua caça indiscriminada pode ser vista nesse contexto. Porém, ao que parece houve um autêntico patrocínio à exterminação completa, terá havido caçadores que sozinhos abateram mais de um milhão de aves.  Havia competições e jogos cujo objectivo era o extermínio. Quando alguns ambientalistas solicitaram uma protecção no estado do Ohio, em 1857, foi considerada absurda pelo número de pássaros existente. Em 1897 as leis de protecção foram ineficazes para travar a extinção. O último exemplar em cativeiro morreria em 1914 no zoo de Cincinati.

Os pombos eram associados a paragens euro-asiáticas, e foi talvez com alguma surpresa que foram sendo encontrados em todo o globo, na África tropical, nas Américas e até na Nova Guiné (onde a espécie "columba coronata" é algo curiosa).

Não me parece que o carácter migrátorio particular aos pombos americanos carregasse alguma mensagem perigosa que levasse a colombofilia a atacar a columbofilia. Já aqui falámos no papel simbólico mensageiro dos pombos, e do seu contraponto na falcoaria.
E acaba por ser simbólico termos as Pleiades, as pombas filhas de Atlas, na Hespérida ocidental, a América, termos um "Colombo" a desencobrir essas paragens,  e depois olhar para a foto de Martha, a última dos pombos-migratórios, vítimas de um holocausto programado:

Nota complementar (2/12/2012): 
Na sequência do comentário do José Manuel, lembrando o acordo de exploração de 1461, entre Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, que envolveu viagens ocidentais do pai dos Cortes-Reais, ficam aqui os links por ele indicados, que complementam a informação:
http://portugalliae.blogspot.ch/2009/06/o-amundsen-ex-quebra-gelo-sir-john.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pesca_do_bacalhau

Aproveito ainda para referir a página do Instituto Camões sobre Diogo Teive:
onde se fala da sua descoberta das ilhas do Corvo e Flores, em 1452, confirmada por cartas de régias de doação, de Afonso V. Em particular é relevante a informação do filho de Cristovão Colombo, que reportando uma viagem ocidental ao Faial de 150 léguas (aprox. 900 km), coloca Diogo Teive mais próximo da Terra Nova do que do Corvo ou Flores (a 200 km).
E também é relevante a informação de Lorenzo Anania já aqui citada, que fala sobre a partida (em 1576) de Aveiro de numerosa frota de navios para a pesca ao bacalhau na Terra Nova.

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