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Peças dos Painéis de S. Vicente (4)

por desvela, em 07.01.13

[continuação]
de Peças dos Painéis de S. Vicente (3)
e de Peças dos Painéis de S. Vicente (2) 


13) Santos
Talvez a primeira coisa a notar é que não será fácil encontrar "santos" nesta história. 
Há projectos familiares, heranças, que se disputam pelo interesse patrimonial, indiferentemente de serem grandes terras, um simples cordão de ouro da avó, ou um território de caça de um felino.
Algo completamente diferente é um projecto social, uma solução de convivência com vantagens para os diversos intervenientes, um sistema protector das diversas ameaças.
Os conceitos misturam-se de forma complexa nos conflitos históricos, e se os projectos familiares se apoderaram do projecto social, outras vezes, raras, foram os próprios projectos familiares a cederem face ao futuro do projecto social idealizado. A nobreza é o projecto social, e degenerou pela sua confusão com o projecto familiar... projectos familiares todos têm, mesmo as alimárias. A separação de classes seria uma protecção do modelo da ordem medieval, não tinha benefícios em ser estanque, e isso acabou por perverter o seu sentido, tornando-se num conjunto cada vez mais caótico de projectos familiares.
Um grande pelicano seria capaz de sacrificar a sua carne para alimentar um ideal de sociedade. E isso deixou marcas profundas, de admiração, mas também de indignação.

Não consta ter havido nenhum apuramento especial das circunstâncias "misteriosas" em que ocorreu a morte do príncipe Afonso. Para um rei que puniu exemplarmente eventuais conspirações contra si, seria de esperar um outro tipo de reacção, e não propriamente deixar sem grande investigação o "acidente". Porém, creio que a D. João II não o preocupava especialmente a sua pessoa, mas sim o projecto social - pela lei, pela grei. Mas, pela grei, colocava-se, se necessário, acima da lei. Há um poder executivo que dá relevo ao poder da justiça, e de certa forma à representação do povo (que já existia nas cortes pela figura dos concelhos). Parece-nos um prelúdio de uma separação de poderes, tendo como objectivo o serviço da população e não apenas dos interesses da nobreza.

Dificilmente encontramos outro quadro europeu da época que coloque com destaque semelhante frades e pescadores, reis, navegadores, cavaleiros e sábios. Porque essa sugestão de representação também se encontra no quadro, e motivou as designações popularizadas.
Só por si, essa sugestão, reflexo da ousadia na governação, e não da ousadia arriscada de um pintor, deixaria a datação circunscrita a duas regências - a do Infante D. Pedro, ou mais provavelmente do neto, D. João II.

Quanto aos dois Santos, pareceu-me ver aí uma oposição de destinos na orientação das navegações.

Pelo lado ocidental, abria-se o livro do Novo Mundo e a colonização, não impediria ainda o comércio com o Oriente, evitando o conflito no Índico. Pelo lado oriental, fechava-se o negro pano, dava-se a batuta de comando, e haveria conflito nos mares. Pelo lado oriental, antevia-se ainda uma sangrenta expedição, com o velho motivo da Cruzada templária do Infante, e recordamos de novo as palavras do Cardeal Saraiva:
He portanto fora de duvida, que o sábio Infante levou na gloriosa empreza de seus descobrimentos hum fim mais alto e mais importante do que a mesquinha idéa de colher os Mouros pela retaguarda, idéa da qual se não diz uma só palavra na vida do Infante, nem de seu augusto pai, nem tão pouco em historia alguma dos descobrimentos Portuguezes.
(Cardeal Saraiva, Obras Completas, 1875)
[... e o ficheiro PDF onde coloquei isto, entretanto desapareceu-lhe o link, e terei que repor isso]

Aos Infantes abriam-se duas perspectivas, e ainda que D. João II tenha virado o tio a ocidente, acho que a tal "ideia mesquinha de colher os Mouros pela retaguarda", da qual "se continua a não dizer palavra"... essa ideia oriental, era a parte principal do projecto de D. Henrique.

Nessa perspectiva, procurámos identificar um Santo como Bartolomeu, que marcava a data das novas investidas contra os marroquinos, em Arzila e Tanger. Colocámos outras possibilidades, uma dualidade S. Jorge/ S. Bartolomeu ou S. Vicente/ S. Tomé, ainda a possibilidade de serem duas faces de S. Vicente, e não esquecendo o nome do mosteiro "São Vicente de Fora", admitimos que o nome pudesse resultar desse Santo não estar presente, ou de uma alusão à ocultação dos painéis.
Pois bem, essa questão do Santo estar "de Fora" parece ganhar um novo dado.

Lendo entretanto o site paineis.org, retive este excerto sobre o "manuscrito do Rio", que desconhecia:
Por outro lado, o único testemunho histórico que parece referir de forma inequívoca pelo menos dois dos painéis (os maiores), coloca-os no retábulo das relíquias de S. Vicente na Sé de Lisboa, mas limita-se a descrever de forma vaga cenas que não entende. Trata-se do frequentemente citado manuscrito do Rio de Janeiro, descoberto por Artur da Motta Alves em 1936, onde um autor anónimo faz uma resenha dos retratos de figuras reais existentes em igrejas e mosteiros de Lisboa.
O documento data de fins do séc. XVI, e nele se refere expressamente que os dois painéis, descritos de memória, já não se encontram no local, sendo o seu paradeiro ignorado («... dirão os cónegos onde estão...»).
A forma como o autor recorda os painéis, atribuindo-os a um tal Mota, pintor de D. João II, não identificando uma única das figuras que rodeiam o «santo», e justificando o estranho aspecto efeminado deste último através da identificação do seu rosto com o de um adolescente – o infante D. Afonso, filho de D. João II, nascido em 1475 e falecido aos 16 anos – indica uma estranha ignorância do significado das duas cenas e da identidade dos seus protagonistas, por parte de quem se mostra informado acerca de outros retratos de reis existentes em Lisboa. Note-se que o exame radiográfico indica que a hipotética repintura tardia de um rosto adolescente numa figura adulta, necessária à sua identificação com o do malogrado príncipe, não teve lugar. 
Desta importante informação adicional, que destaquei, fica clara a atribuição que era dada ao quadro no Séc. XVI... como se dúvidas ainda houvesse.
S. Vicente está "de fora", é aí colocado o príncipe D. Afonso. Não é que isto seja determinante na interpretação, as interpretações são múltiplas, mesmo em quadros actuais. Nem será pelo facto de ter feito todo o caminho de dedução para a datação, e contexto envolvente na execução, que as minhas opiniões interpretativas, sejam mais que isso - opiniões pessoais, mas justificadas.

O objectivo destes textos era justificar "melhor" a opinião que coloquei há três anos, não me afectaria muito que ela fosse considerada certa ou errada, interessava-me que ela fosse consistente com a informação que procurei, sem omitir as eventuais fragilidades da tese. Penso ser este o melhor caminho para a procura de uma verdade comum, partilhada.

Bom, pode-se dizer que aqui eu estava errado - é possível, não escrevi a hipótese de D. Afonso ser a figura representada num santo, mas também me lembro que não deixei de considerar essa possibilidade.
Agora, que ela fica mais clara, pela revelação do "manuscrito do Rio", avanço então com a possibilidade "mais profana", no sentido de que seriam elevados a santos outras figuras.

Há duas caras nos santos, e parece claro que não seria por falta de engenho do pintor... foi propositado, e assim haveria dois modelos. Que modelos poderiam ser ali considerados ao nível de "santos"?
Um, como já ficou claro pelo manuscrito, é D. Afonso, e está no 4º painel.
Quem é o outro "santo" que está no 3º painel?
- Santa Joana Princesa, irmã do rei, que cuidou de D. Jorge, como uma mãe... como já o tinha feito com o próprio irmão, órfão à nascença da sua mãe, D. Isabel de Coimbra.

Talvez até estejam as duas Joanas (irmã e tia), na própria representação de mãe, que D. João II nem conheceu, mas sendo já três invocações, continuarei as contas da forma que um célebre reitor/cantor ensinou "... quatro, cinco, seis, é uma história de reis", não deixando por isso de considerar que as dualidades de santos, que escrevi, fazem sentido ainda como parte desta história.

Para quem considerar esta tese, percebe a riqueza da composição, do mau e bom génio de um enorme Rei, e percebe como é complicado aceitar que isto seja ocultado. Perceberá também porque nem gosto muito de recordar o assunto.

Não falei muito da Rainha D. Leonor, mas será uma peça chave no que se seguirá em Portugal.
O seu drama pessoal será enorme.
Depois de ver o seu irmão assassinado pelo marido, tem o filho morto em circunstâncias suspeitas... um filho que o marido considerava fraco, e manifestara as suas dúvidas sobre a sua capacidade de governação. Promovia agora outro filho, em detrimento do seu irmão D. Manuel.
Por esta razão fiz aquela pequena introdução sobre como a dualidade entre o projecto social e o projecto familiar poderiam entrar em profundo conflito na nobreza. Que rei seria capaz de ferir a sua própria carne? O pelicano de D. João II certamente que não ajudaria às interrogações de D. Leonor.
Houve assim suspeitas que não estivesse completamente alheada da cobrança que D. João II sofreu na carne, que o terá envenenado, irremediavelmente, vindo a morrer poucos anos depois (1495).

D. Leonor era de Viseu, D. João assumia a herança de Coimbra, do seu avô, o quadro apontava para terceiros culpados, os Bragança e as ligações a Castela/Espanha... Porém, a colocação das peças no quadro revela o génio, o bom e o mau... Aquele quadro, mas sobretudo o enquadramento da sua intemperança, poderão ter ditado a morte do artista... ou dos artistas, porque pouco mais se soube de Nuno Gonçalves. O seu nome foi até esquecido, e poderá ter sido confundido com outro, não é relevante. Lê-se na Infopedia que o último documento que o menciona em 1492 é já a título póstumo. Pensamos perceber porquê, mas se o "braço artista" do rei foi cortado, também parece ter sido o da pintura, durante alguns anos.
Passados muitos séculos, a sua arte viu a luz, ocultando-se a condução da composição, do rei. Temos dúvidas que Nuno Gonçalves possa ser banido por algum código da nobreza, ele não seria nobre, e pode até ter sido um simples executor de instruções reais, se as entendeu ou não, era irrelevante.
Compreendemos que num estrito formalismo, em que a sintaxe suplanta a semântica, a arte de D. João II seja ainda banida pelos circuitos mais conservadores, "vencedores" da velha querela.
Apesar de ter logo dito
"O clima fúnebre e sinistro do quadro, mantém-se hoje..."
... não esperava que esse tipo de mentalidade ainda estivesse tão activa, mas fui aprendendo.


14) A Relíquia
Não li ainda a obra de Eça de Queirós, mas já deveria ter lido.
Bom, no 6º painel, a que é dado o nome "relíquia", considerei que os personagens principais se tratavam dois sábios da confiança de D. João II, ou seja Mestre Rodrigo de Lucena, médico (ou "físico-mor"), e mais acima Mestre José Vizinho, matemático, de origem judaica.
O escrito anterior reforça essa hipótese e por isso pouco tenho a acrescentar de novo. Noto agora que a existência de dois livros, um em latim, e outro em hebreu, mesmo em segundo plano, poderá ter aberto outro problema - religioso.

A interpretação de que a relíquia se tratava do osso do crânio de D. Afonso mantém-se válida, disse então:
                         A relíquia, o osso craniano, pode ser uma alusão ao defunto Afonso, indicando a fractura da futura cabeça do reino. Falta a relíquia - o cérebro, para ler tudo o que o painel representa. Falta ainda o cérebro para prosseguir a herança do conhecimento de Avis - é essa a relíquia que o Mestre Rodrigo nos mostra.

Só para esclarecer eventuais mal-entendidos que, como sabemos há muitos, quando referi que faltava  "- o cérebro para ler tudo o que painel representa...", estava obviamente a referir ao de um qualquer observador! Não considerei que o intuito do quadro fosse um enigma por resolver, apenas é visto assim pelas condicionantes que se criaram à sua volta.

Não falei da caixa, e nem tinha reparado que se considera outra, preta, no 1º painel. Admito que possa ser o caixão que foi temporariamente aberto para permitir toda a representação, juntando presentes e ausentes (a parte preta seria a sua tampa).

Quanto ao "velho", que nem tem a barba bem feita, trata-se claramente de uma figura popular, talvez quem tenha descoberto "a relíquia", ou levado o corpo do príncipe morto. Por outro lado, será genuinamente a única figura que não frequentava o paço real, o povo distante de Lisboa. A melhor compreensão deste painel passará ainda por identificar os dois personagens nos bastidores, algo que nem sequer tentei.


15) Navegar
O 4º painel, de que pouco falei até aqui, considerei-o dos "navegantes", genericamente.
Adiantei uma possível identificação de Gama, talvez Paulo e não tanto Vasco, não especifiquei, porque creio que Paulo, mais velho, seria o preferido por D. João II, mas para reduzir as explicações ao mínimo, não quis entrar em detalhes, na altura.
Assim sendo, com este nível de incerteza, não valerá muito a pena comparar imagens, mas o excelente quadro de Vasco da Gama atribuído a Gregório Lopes, poderia ser uma comparação possível, e com essa latitude não vejo impedimento que se tratassem de irmãos.

O caminho das Índias seria atribuído aos Gamas, pedido posterior de D. João II a D. Manuel (quando já se afigurava incontornável a sucessão), provavelmente por recompensa de outras navegações notáveis. Lembramos que havia uma "Angra dos Gamas" na Carta ou Portulano do Atlântico Norte, naquilo que poderia ser uma procura da entrada para a Passagem Noroeste, ou seja, outra ligação para a China. Se os Corte-Real a tentaram de novo, pode ter sido porque Paulo da Gama já era morto. Paulo recusara ser o protagonista da viagem de circum-navegação africana, mas acompanharia o seu irmão. Morreu na viagem de regresso e o seu barco, S. Rafael, foi queimado... Apenas resta dizer que, se assim foi, pelo menos a sua memória permaneceu nos painéis.

Do lado sul, convém lembrar que Pigafeta "descai-se" sobre a viagem de Magalhães, dizendo que Magalhães sabia de memória um mapa de Martin Behaim que teria o caminho do estreito... e como já dissemos, Behaim acompanhava Diogo Cão em 1483, quando foi declarada a chegada ao Congo (o suposto grande feito de avançar mais umas tantas milhas na costa africana, cheia de "praias difíceis"!).
Não se conhecem a Behaim muitas mais viagens, ou pretensões de outras navegações. Se Behaim tinha esse mapa, foi porque provavelmente acompanhou Diogo Cão na outra parte dessa viagem ao "Congo" - e pelo caminho descobriu assim a "Cola do Dragão", ou seja, o Estreito "de Magalhães"... em 1483.

A norte, Paulo da Gama, a sul, Diogo Cão, pouco importa, dois hipotéticos protagonistas das passagens americanas, ficariam colocados com um destaque de realeza, tal como Mestre Rodrigo, aliás.

Sendo este "Nuno Gonçalves" o segundo texto da série de sete que apresentava na altura, não iria logo descriminar estes detalhes, que foram aparecendo nos textos seguintes.

A batuta era dada a Paulo da Gama, mas para usar um caminho diferente, e isso justificaria a sua posterior recusa perante a oferta de D. Manuel. O quadro talvez mostrasse uma cedência parcial de D. João II - o caminho seria o oriental, mas não contornando África. Esse caminho teve D. João II muito tempo (7 anos) para o abrir, declarado o Monte Prasso (depois Cabo da Boa Esperança) em 1488, por um certo Bartolomeu Dias, cujo nome nos sugeriu Dia S Bartolomeu.
Esse caminho de S. Bartolomeu, manifestamente não parece ter sido pretendido por D. João II, mas foi depois retomado por D. Manuel, mas já com outro Gama.

Talvez... Paulo da Gama e Diogo Cão

A colocação neste painel de um D. Diogo morto, ou de um D. Manuel, levantaria ainda mais impossibilidades de qualquer aceitação de tal cenário numa corte plena de hostilidade. Mas D. João II não era hostil a D. Manuel, ainda jovem, por isso preferi considerar que poderia estar no 5º painel, dos "cavaleiros". A colocação de D. Diogo naquela posição talvez se referisse ao diferendo que houve entre ambos e que levou ao seu assassinato... era possível que D. Diogo pretendesse aquele protagonismo de descobertas para a nobreza, para si! Se aquele era um rosto similar ao de D. Manuel, poderia constituir um "aviso de navegação", sobre atitudes similares, ou negociatas de partilha de explorações com os espanhóis.

Um pouco mais acima, temos dois personagens em destaque, mas mais difíceis de identificar.
À esquerda, pela sua idade, creio que pensei em Diogo de Azambuja, homem de confiança de D. João II, a quem confiara o Castelo de S. Jorge da Mina (outro santo escolhido), à direita acho que não pensei em nenhum candidato, mas haverá certamente muitos, e entre aqueles cuja história o nome não lembra. Não creio que seja necessariamente um navegador, talvez alguém mais ligado à parte militar.

Acima de todos, surge um arcebispo, que dá nome ao painel. Pensei em D. Pedro de Noronha, não com razões especiais, para além de se poder ajustar... ou ainda em D. Jorge Costa, um arcebispo exilado em Roma, inimigo que considerava morto, e a sua colocação, próximo de Afonso de Bragança, poderia indicar essa hostilidade. Como já foi notado por outros, a sua jóia assenta no "barrete mal cosido" de D. Diogo/ D. Manuel. Isto favorece a dupla representação, já que Roma certamente que apoiaria D. Manuel e não D. Jorge (que tem apenas uma pequena pérola no seu "barrete", contrastando com a magnífica jóia que "acidentalmente" fica no barrete de D. Manuel).

Para compensar aquela figura hostil morta/viva, que se oporia em Roma aos planos de D. João II, procurei saber os bispos que seriam seus eventuais aliados, enumerando Coimbra, Tanger e Algarve, e também o Prior do Crato...
Como é óbvio, tudo isto foram apenas suposições secundárias, com uma escolha de personagens ligeira, com eventuais falhas, mas que em nada afectava a interpretação global já avançada.

Finalmente, é claro, a corda no chão contribuiu bastante para esta associação às navegações.
D. Leonor tem no seu símbolo de camaroeiro uma corda, provavelmente ligada à rede, mas não creio que se tratasse dessa ligação.
Se a ideia do quadro era uma união através daquela corda, há pelo menos uma ponta solta, e até uma sombra rectangular, demasiado errada, parecendo uma emenda.
As cordas farão parte integrante da chamada "arquitectura manuelina", mas já se nota a sua presença em muitas construções, ainda no Séc. XV.


16) Últimos Cavaleiros
Já fui descrevendo porque considerei a ambivalente a possibilidade de D. Manuel estar representado  também neste painel, acima do pai D. Fernando de Viseu, e do seu tio-avô, o Infante D. Pedro.
Esta seria uma linha em que D. João II poderia mostrar à sua mulher, D. Leonor, que a prezava, por aquela ascendência paterna, e não pela sua outra ligação materna, que através de D. Beatriz tocava o "lado Bragança", como mostrava no painel simetricamente oposto. Este seria o painel para uma ligação Coimbra-Viseu, que invocaria o avô/tio-avô D. Pedro, o tio/pai D. Fernando, e o primo/irmão D. Manuel.
Poderia ter considerado o Infante D. João, não fora quebrar a "regra das mãos", e daria seguimento acima, para o "Infante Santo, D. Fernando", onde se vislumbram sinais do seu martírio africano, quer pelo capacete, que já foi entendido, por outros, mostrar em reflexo a "janela de Arzila", da sua cela.
No entanto, podemos considerar a omissão do Infante D. João pelo seu casamento com Isabel de Barcelos, e para mais, remetemos ao comentário sobre o painel dos "pescadores".

Era mais natural ver a seguir a D. Pedro, de que já falámos, D. Fernando de Viseu, um tio que provavelmente D. João II admirava, pela sua faceta de navegador pelas paragens atlânticas, americanas, mais do que pelo simples facto de ser pai de D. Leonor.
D. Fernando de Viseu estava já morto, e desde essa data tinha sido a mulher, D. Beatriz, a dirigir a Casa de Viseu, e não só... tornou-se na única mulher a ser Mestre da Ordem de Cristo, sucedendo assim ao seu marido, e não deixando de financiar expedições a ocidente.

Ora, estando D. Fernando morto, mais uma vez colocava-se o problema "das mãos", que não estavam em sinal de paz, mas por outro lado também não se viam, porque era o único elemento da composição com luvas. Assumi que isso poderia ser entendido como uma excepção, dadas as luvas, e o seu "não descanso"...
Quanto a uma comparação com um retrato conhecido, dificilmente se pode considerar muito favorável.
No retrato mais antigo usa barba, e não são visíveis grandes detalhes do rosto. A linha do nariz não é incompatível, mas está longe de ser convincente. Ainda que o retrato antigo não seja de grande qualidade, os olhos e a ligação ao rosto não parecem condizer.
Poderá ser outro personagem, mas estragaria a lógica deste painel (não dos restantes).
Bom, mas foi com base nessa eventual lógica que prossegui para o seu filho, D. Manuel (talvez trocando feições com D. Diogo), e acima apareceria, algo deslocado, o Infante Santo.
A sua presença teria lógica como um aviso sobre a vontade de Cruzada, que era herdada por D. Manuel pela Casa de Viseu, do Infante D. Henrique.
O que se teria passado com o sacrifício do Infante D. Fernando arriscava a voltar a acontecer com a ideia de Cruzada pelo Índico, em direcção a Jerusalém, pela "retaguarda".

Foi assim que entendi, e preferi a lógica do conjunto à maior ou menor parecença dos retratos.

---------------------------

Creio que abordei extensamente os diversos pontos que levantei, e alguns que outros levantaram, já que da outra vez fui necessariamente breve nas explicações, que me demorariam todo este tempo e detalhe.
Agradeço ao Clamente Baeta ter despertado de novo o assunto, que estava enterrado, para mim. É tempo de voltar a fechar a tampa do caixão e dar nova paz a este assunto.

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