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Ré vista (2)

por desvela, em 10.06.14
(005) Durante o período de Janeiro a Abril de 2010 devo ter lido mais obras literárias antigas do que julguei possível. Não estava muito interessado em escrever nessa altura, estava muito mais ocupado a ler o suficiente para colar de novo as peças históricas.
A carta enviada por Angelo Poliziano a D. João II, bem como a resposta, foi muito importante para ter uma ideia independente, de como era entendida a figura do rei português no Renascimento italiano.

Por um lado, a percepção de um rei estrangeiro ao italiano Poliziano, por ele colocado acima de Alexandre Magno, Júlio César, Átila, ou até de Hércules. Por outro lado, pela estória feita história, será ainda uma figura quase desconhecida do protagonismo mundial. A carta tem o lado subjectivo de se propor a um trabalho, ao trabalho que Camões, 80 anos depois, teve que fazer em circunstâncias muito mais difíceis. Camões já pouco podia mencionar em nome de D. João II, o rei que o então já famoso humanista Poliziano queria cantar para a eternidade. Quando Poliziano refere:

                                             Então haveria eu também de absolver de toda a suspeita de falsidade o grande Platão e os annaes seculares do Egipto, que, sem prestarem crédito, fizeram menção d'esse Oceano por ti subjugado com poderosos exércitos.

... parece bastante claro a referir-se à referência de Platão tirada dos anais egípcios sobre a existência da Atlântida, ou melhor da América enquanto fronteira do Oceano Atlântico, a tal "ilha" cujas dimensões se reportavam ao conjunto da África e Ásia. Sobre a subjugação que D. João II terá feito no Oceano Atlàntico é difícil encontrar registos, a menos que nos reportemos à já mencionada presença islâmica na América.

Ambos os correspondentes vão morrer envenenados, e de alguma forma, a resposta de D. João II transmite bem a Poliziano esse perigo funesto.

(006) A questão do Tejo Mahalay, mais conhecido hoje como Taj Mahal aparece no texto seguinte, que começa por abordar a bandeira de quinas em Jerusalem, no Livro de Marinharia.
Foram duas hipóteses lançadas, tendo em conta o domínio completo que Portugal detinha sobre o Índico no Séc. XVI. Não procurei, nem encontrei, mais informação sobre estas possibilidades.
Sobre o Taj Mahal a questão é um mero detalhe da menção "Tejo Mahalay" e da construção de tão imponente monumento num subcontinente indiano sob controlo português, que certamente não se alheavam do Império Mogol sediado na nova Agra.

Mais enigmático é a bandeira portuguesa, a quina com cinco bezantes, estar colocada em Jerusalém em 1514 (ou anos seguintes).
Para nexo suplementar relevam os 3 bezantes de Bolonha (Boulogne), de onde sairiam os irmãos Bulhão, primeiros reis de Jerusalem, e cujo outro irmão Guilherme seria o avô de Afonso Henriques, segundo as investigações de Damião de Goes.
Todos estes irmãos seriam filhos de Eustácio II, Conde de Bolonha, que acompanha em 1066 o ataque bem sucedido do Duque da Normandia, Guilherme I.
Escudos de quinas em Hastings, e a admitida ilustração de Eustácio II,
completando a inscrição apagada de EVSTACIVS que segura uma bandeira 
talvez com uma quina (4 bezantes tem, o bezante central apagado é duvidoso)

O episódio de Hastings em 1066, que forma a base da monarquia inglesa posterior, é interessante.
Primeiro, é um problema de sucessão de Eduardo o Confessor, que gera uma disputa entre 3 candidatos ao trono vacante:
- Guilherme da Normandia,
- Haroldo Godwinson, Conde de Wessex
- Harald Hardrada, Rei da Noruega, aliado de Tostig Godwinson

Segundo a Tapeçaria de Bayeux, que ilustra a pretensão normanda (e é atribuída a Matilde, mulher de Guilherme), o rei Eduardo teria encarregue Haroldo de passar a coroa a Gulherme, seu primo. Numa certa desventura, Haroldo acaba capturado, liberto por resgate pago por Guilherme que o convida a uma investida contra um certo Conan II, então duque da Bretanha, de que sai vencedor.
Lembramos que desde o primeiro Conan, havia uma ligação entre as Bretanhas, e Guilherme terá tratado de afastar a Grã-Bretanha da pretensão bretã. Porém, do lado nórdico ainda aparecia Harald, rei da Noruega a reclamar o trono.
Quando Haroldo regressa e o rei Eduardo morre, é investido como rei pela nobreza Anglo-Saxónica, e a tapeçaria não deixa de colocar o Cometa Halley, que aparece em 1066, como prelúdio dos eventos seguintes.
O já rei Haroldo vê-se confrontado com duas invasões.
De um lado o seu irmão Tostig alia-se ao rei norueguês Harald e desembarcam em Inglaterra, quase ao mesmo tempo que Guilherme desembarca, vindo da Normandia.
Haroldo é vencedor em Stamford Bridge (conhecida no futebol por ser nome do Estádio do Chelsea), parando a invasão do rei norueguês Harald, que é aí morto, tal como o irmão Tostig.
Quadro moderno da Batalha de Stamford Bridge (25/09/1066).
Vitória de Haroldo sobre o rei norueguês.

Haroldo acorre então para Hastings, tentando parar a invasão de Guilherme. Nas ilustrações de Bayeux, ao contrário da cavalaria de Guilherme, o exército de Haroldo irá então lutar apeado.
Em 14 de Outubro, menos de um mês depois de Stamford Bridge, dá-se a Batalha de Hastings, onde os normandos de Guilherme saem vencedores, e Haroldo é morto.
Batalha de Hastings (14/10/1066)
Haroldo é morto por Guilherme da Normandia

A vitória de Guilherme não será imediata, a instalação de uma corte afrancesada encontrará muita resistência britânica. Os normandos provinham da concessão da Normandia a piratas vikings liderados por Rolão. Assim, a Inglaterra manteria a sua ligação a uma corte de origem viking com os normandos, depois de um longo período de domínio de invasões de anglos e saxões que se perdem na mitologia do Rei Artur, de um domínio original bretão.

Este apontamento é interessante porque mostra a importância que tinham aqueles terrenos no Canal da Mancha, da Normandia, de Bayeux, Bolonha, Brabante, Bulhão, etc.
Quando as tropas inglesas desembarcam na Normandia no dia D, há 70 anos, em Junho de 1944, é visto como um regresso para libertar a Normandia natal de Guilherme, a quem remonta a monarquia inglesa.
Aliás, até ao Séc. XIII a Normandia continuava a fazer parte dos domínios dos reis ingleses, situação que levou aos problemas da Guerra dos 100 anos, já que a troca da Normandia com a Guiana (na Aquitânia francesa) não resolvia essa velha ligação normanda à França.

A participação de Eustácio II, conde de Bolonha, ao lado de Guilherme, ganha especial relevo quando são os seus filhos, e muitos nobres da Normandia, que irão estabelecer o Reino de Jerusalém.
Entre 1066 e 1099, nesses 33 anos, a Normandia aparece na invasão da Inglaterra e da Terra Santa.
Segundo Damião de Góis, o próprio Conde D. Henrique seria neto de Eustácio II, pelo que a primeira dinastia seria Bolonhesa e não Borgonhesa.
Esta ligação à Bolonha francesa seria depois indiscutível com Afonso III, o Bolonhês, que é Conde de Bolonha por casamento com outra Matilde. Afonso III irá depor o irmão Sancho II e terminar a conquista do Algarve. 

A quina, com o número de bezantes em 5 ficou só definitivo com D. João II, e inscrições anteriores mostravam escudos até com maior número de bezantes. O número de bezantes fixado para Bolonha passou a 3, mas também variou, e podemos ver nas ilustrações de Bayeux cavaleiros com maior número de bezantes nos seus escudos.

A única informação nova, face ao já exposto antes, será assim a associação de Eustácio II a esses escudos com bezantes, provavelmente 5, que irão definir também o símbolo português. O filho, Godofredo de Bulhão, primeiro regente de Jerusalém, será associado também ao número cinco, com o símbolo de cinco cruzes.

(007) Ainda nas paragens do Mar do Norte, temos o texto Navegações Islandesas que retrata os relatos das navegações vikings que teriam chegado à América. É o conhecido período de expansão viking, que leva Rolão à Normandia como duque em 911, mas também Eric, o Ruivo, à Gronelândia em 982, e o depois o seu filho Leif Ericson à América.
Convirá referir que até ao Séc. XIII a cristinização da Escandinávia era escassa, e portanto um dos objectivos da Igreja foi também inserir a ameaça viking no quadro aristocrático europeu... de forma semelhante ao que tinha sido feito nas invasões bárbaras.
Os piratas vikings passaram a normandos, e esses normandos serviam as Cruzadas. De inimigos em raides mortais contra mosteiros e populações, os vikings iriam ser inseridos na sociedade e aristocracia europeia pela "porta grande".
O que começou na Normandia prosseguiu com a cristianização da Escandinávia.
Stavekirke Borgund - Séc. XII - Primeiras igrejas na Noruega

Um dos aspectos curiosos na Tapeçaria de Bayeux é ilustrar o irmão de Guilherme, o Bispo Odo na sua vertente militar, com uma maça a incentivar os cavaleiros.
Essa vertente de monges militares, que tem em 1066 com Odo o seu primeiro registo visível, terá depois sequência nas Cruzadas com toda uma lista de Ordens militares de monges guerreiros.

(008) Sobre o texto Tagus Aureo é importante a citação de Juvenal, e de outros autores romanos, acerca da riqueza do Tejo enquanto fonte interminável de ouro!
Aparentemente seria algo que rivalizaria com as míticas lendas de Midas e Creso, ligadas ao minúsculo rio Pactolus, na Lídia (Turquia).
É ainda feito aqui um primeiro avanço sobre as associações à mitologia que remeterá a Ulisses de Olissipo, mas mais a Calipso, pelo nome Calipos dado ao Sado.
A associação pelos nomes serve apenas como pista e não é nenhum tipo de prova.
O que é uma prova de bom-senso é que Ulisses não iria ficar perdido no Mediterrâneo, e portanto a sua viagem foi muito além do circuito clássico. Encarar Tróia como vizinha à Grécia também não faz qualquer sentido. Ítaca estava mais longe de Micenas do que Tróia... o cerco de 10 anos que tinha afastado os gregos da pátria seria ridículo com uma Tróia ali ao lado na Turquia.
Há limites para o ridículo... e Homero não era certamente ridículo.

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publicado às 04:02


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