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No ano passado escrevi algumas coisas na Wikipedia (portuguesa) sobre o período das "Invasões bárbaras", e aproveitarei para trazer a história da imperatriz mãe Gala Placídia, do Conde Bonifácio, e do general Flávio Aécio... uma história que, mesmo que fosse inventada, mereceria ser contada.
Para já, colocamos as coisas no ambiente que antecede o colapso.

Será fácil entender que o colapso favoreceu apenas uma causa - a destruição das religiões pagãs, e da sociedade romana baseada nelas, visando a implantação do cristianismo como religião única. 
O cristianismo começou a destruição da Roma pagã ainda antes da chegada dos bárbaros, e isto foi convenientemente negligenciado, procurando responsabilizar apenas os bárbaros pela destruição.

O Cáspio e os Hunos
Normalmente a história bem conhecida, começa com a pressão dos Hunos, que saem da Ásia, possivelmente da Mongólia, e vão conquistando territórios em direcção à Europa, gerando uma fuga acumulada de refugiados, e uma pressão invasora sobre o Império Romano.
Na fuga, o que os une?... os Hunos.
O que teria mudado, para haver essa pressão asiática sobre a Europa?
Já avancei a hipótese do Mar Cáspio ter sido mesmo um mar e não apenas um lago, conforme apontam alguns historiadores da Antiguidade (hipótese que não se pode colocar na Wikipedia, como é óbvio). A mudança geográfica teria ocorrido com uma pequena transição climática, possivelmente no Séc. IV (ou seja, teria sido nessa altura que os romanos deixaram de mostrar as pernas!)
O recuo das águas do Mar Cáspio, foi dando origem a regiões pantanosas, que entretanto solidificaram com uma vegetação, que foi depois coberta pela taiga siberiana. Isso terá definitivamente fechado o Cáspio como lago, e terá permitido o avanço da cavalaria de mongóis em direcção às paragens europeias. Se foram convidados, ou se se fizeram convidados, pois isso é outra questão mais complicada, mas...
- os Hunos permitiriam a implantação do cristianismo como religião una.
Possível fecho do Mar Cáspio e avanço dos Hunos para a Europa (Séc. IV).
Há um primeiro registo de Guerra Gótica em 376, contra o Império Romano Oriental, que dura 6 anos, e é já justificada pela pressão da chegada dos Hunos. Apesar de diversas derrotas militares, os romanos obtêm uma vitória conseguindo resolver a ameaça, incorporando os Godos derrotados no seu exército e atribuindo-lhes terras nas fronteiras do Império.

Foederati
O problema dos Romanos era complicado. Com o cristianismo, a cultura de violência era menosprezada, o exército romano já não teria a dimensão e motivação doutrora. Numa cultura urbana, mais dada aos luxos das cidades, faltaria um número significativo de combatentes, nascidos numa cultura de guerra. Incorporar no seu exército elementos estrangeiros tinha sido sempre uma solução (tal como hoje em dia, no exército americano abundam emigrantes latino-americanos)... esses mercenários de tribos aliadas eram chamados "federados" (foederati). É assim que na transição para o ano 400 uma boa parte dos militares romanos teria origem germânica, e isso vai estar na origem de um problema seguinte - a ordem da chacina das suas famílias.
Para além da ameaça externa, a divisão entre Império Ocidental e Oriental, foi uma constante fonte de guerras civis, com as pretensões de um imperador de uma parte reclamar a outra. O último a agrupar ambos os lados foi Teodósio I, durante 3 anos, mas quando morreu em 395, dividiu de novo o império entre os filhos.

393 - Fim dos Jogos Olímpicos
Nesta altura, além de disputas pessoais, estava em curso a completa implantação do cristianismo como única religião. Com Teodósio I, terminou qualquer tolerância ao paganismo, o que implicou a destruição generalizada de templos na Grécia, especialmente com os éditos do ano 393. 
Os Jogos Olímpicos, com mais de mil anos de existência, eram dedicados a Zeus, e por serem considerados parte de um ritual pagão, foram igualmente suprimidos (já nem se tinham realizado em 392). 
Assim, outra fonte de guerra interna era a divisão religiosa, não apenas entre cristãos e pagãos, mas até entre as tendências cristãs (quando o arianismo tinha ainda um grande peso).
Porém o principal trabalho era o de desmantelar a velha cultura romana pagã, considerada impura e depravada. Com o objectivo de instaurar uma pureza cristã, que levaria às trevas da Idade Média, não faltaram vários "santos" cristãos, apelando e financiando a destruição dos antigos monumentos e templos (por exemplo, São João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla).

Santo Agostinho, na sua obra "A cidade de Deus", tenta responder aos que culpavam os cristãos sobre a destruição que chegaria a Roma e a todo o império, com os bárbaros.
No entanto, parece óbvio que o cristianismo ao pretender arrasar toda a estrutura pagã, em que assentava a sociedade romana, teria uma enorme vantagem em convocar os bárbaros à sua ajuda.
A ideia seria perigosamente simples.
Os éditos de Teodósio responsabilizavam o cristianismo pela destruição da Roma antiga, pagã. 
No entanto, ao favorecer uma invasão externa, seria esse inimigo, que seria responsabilizado pela destruição de Roma. Não seriam os cristãos, seriam os bárbaros. Este argumento foi ensaiado, e repetido à exaustão até hoje.
Santo Agostinho é claro no seu argumento... os romanos que abraçavam a religião cristã eram até poupados pelos bárbaros, porque afinal de contas, o trabalho de cristianizar os godos já estava em curso. Portanto, o problema de Roma não eram os cristãos - que os godos poupavam, por "piedade divina"... mas sim os pagãos, que não escapavam ao fio da espada, pela sua impiedade.
Santo Agostinho morrerá depois no decurso do cerco que os vândalos irão fazer a Hippo.

Os filhos de Teodósio
Teodósio divide na herança o império: Arcádio no Oriente, e Honório no Ocidente, ambos jovens, e com o poder delegado em tutores - Rufino no Oriente, e Estilicão no Ocidente. Rufino será morto no mesmo ano em que Arcádio toma posse, e o seu rival Estilicão será condenado à morte uns anos mais tarde. Por detrás do poder, está um poder de bastidores muito mais complicado e efectivo.

Estilicão era parcialmente de origem vândala, mas como para a maioria dos bárbaros em contacto com o império, Roma não era vista como um objectivo a abater, mas sim como um objectivo a alcançar. Estilicão tendo chegado ao topo da hierarquia militar romana, considerava-se defensor de Roma, e para Edward Gibbon terá sido o "último dos generais romanos".
No dia 31 de Dezembro de 406, passam a fronteira do Reno simultaneamente os Suevos, Alanos e Vândalos, e o pretexto para a entrada no império é a fuga aos Hunos, causando grande instabilidade na Gália.
Antes disso, a paz com os Visigodos terminara, também pela pressão dos Hunos, que levara o rei godo Radagaiso a sair da Hungria em direcção a Itália. Estilicão consegue parar a ameaça em Florença, e Radagaiso será morto (não cumprindo a sua promessa de sacrificar os senadores romanos aos seus deuses pagãos).
Apesar das diversas vitórias militares de Estilicão, a sua derrota será política. Não conseguindo ao mesmo tempo parar a entrada dos bárbaros pelo Reno, e demorando também a intervir decisivamente contra o rei godo Alarico, será acusado de conluio com este. O jovem imperador Honório, que ele protegera no trono, irá condená-lo à morte no ano 408.
Pior, é ao mesmo tempo lançada a suspeita de que todos os foederati de origem germânica eram efectivamente inimigos de Roma, e Honório emite ordem de morte a todos, inclusive famílias.
Perante tal ordem irracional, e com o começo das matanças familiares, os militares germânicos desertam em massa para o lado do rei godo Alarico, que tinha sido nomeado chefe do exército de Arcádio, irmão de Honório, imperador do Oriente.

410 - Saque de Roma
Ao contrário de Radagaiso, Alarico era cristão, ainda que ariano.
Assim, com Estilicão morto e o exército romano desfalcado, não é difícil a Alarico chegar a Roma e impor cercos.
No ano 410 as tropas de Alarico acabam por entrar na cidade de Roma, algo que não acontecera desde o tempo da incursão do gaulês Breno em 387 a.C. Não será Alarico a provocar nenhuma destruição significativa a Roma, essa acontecerá mais com a incursão dos Vândalos, alguns anos mais tarde.
Sendo Alarico cristão haveria a tal piedade com os que se refugiavam em igrejas cristãs, conforme salientava Santo Agostinho, antes deste ter sofrido o ataque e cerco vândalo à sua cidade de Hippo.
Assim, a incursão dos visigodos de Alarico em Roma, quando Honório estava refugiado em Ravena (a nova capital), foi essencialmente um saque.
Nestes cercos, alguns romanos, para não padecerem pelos sofrimentos dos cercos, acabavam mesmo por abrir os portões da cidade, calculando que o cerco causaria mais vítimas, por doença e fome, do que as espadas dos invasores.

Alarico acaba por morrer no ano seguinte, em 411, e é sucedido por Ataúlfo, que tinha casado com Gala Placídia, filha de Teodósio e meia-irmã de Honório. Ela irá desempenhar um papel fulcral nos últimos tempos da Roma imperial, sendo mãe do futuro imperador Valentiniano III.
Nesta altura, a ameaça não são apenas os povos que fogem dos Hunos, são os próprios Hunos.
Mas, conforme é relatado, o Papa Leão I toma então a iniciativa singular de ir ao encontro de Átila, evitando a incursão em Roma.
Por essa altura, poderá ter sido considerado que religião implantada já era Una, e a legião do Huno era dispensada!

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publicado às 07:53


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