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Lembro-me de em criança ver saltar as fogueiras de S. João.

Num texto que aqui escrevi há 4 anos sobre Fernão de Oliveira,  citei o manuscrito onde ele remetia para Vitrúvio e Diodoro Sículo, a especulação de que a linguagem teria tido como origem um grande fogo nos Pirinéus:
"(...) primeiro souberam falar os da nossa terra. Porque Vitrúvio diz no 2º livro dos seus Edifícios que, ajuntando-se os homens a um certo fogo, o qual por acerto com grande vento se acendeu em matos, e ali, conversando uns com os outros, souberam formar vozes e falar. E não dizendo ele onde foi esse fogo, conta Diodoro Siculo, no 6º livro da sua Biblioteca, que foi nos Montes Pirinéus (...)"
Gramática da Linguagem Portuguesa. Fernão de Oliveira (1536)

Sim, lembro-me de ver saltar as fogueiras de S. João. Creio que nunca saltei, porque enquanto criança era um bocado "flor-de-estufa", e o fogo assustava-me o suficiente para me afastar dele.
festa junina terá passado a festa joanina por razão do condicionamento católico que varreu toda a Europa durante a Idade Média. 
Ou seja, como é sabido, as festas do solstício, que assinalavam a entrada do Verão foram reprimidas, e a população encontrou nova forma de comemoração... usando o pretexto do nascimento de S. João Baptista. De acordo com o Evangelho de S. Lucas, o primo de Jesus teria nascido 6 meses antes, o que dava um jeito providencial. Assim, se o Natal entrava na comemoração do solstício de Inverno, o S. João entrava na comemoração do solstício de Verão. 
Por isso, as comemorações juninas, de Juno, de Junho, passaram a comemorações joaninas, de S. João... especialmente conhecido pelo baptismo - pela água! Apesar da pequena contradição, de usar o "fogo pagão" para celebrar S. João que proclamara o uso da "água purificadora", a Igreja tinha a sapiência suficiente para não forçar demasiado a quebra das velhas tradições.
Tinha pelo menos mais tolerância do que as multas até 5000 euros, passadas agora a quem decidir levantar uma lanterna de Kongming, afinal o mesmo balão de S. João que no ano passado o primeiro-ministro e o presidente da república ajudaram a lançar no Porto. Se repetirem a graça este ano, os dois máximos representantes do estado, ajudam à festa, oferecendo uma multa aos foliões. 
Um pouco na linha sarcástica das companhias de seguros, que todos os anos nos dizem que temos o "vencimento" do "prémio" do seguro. Alguém se poderá queixar da falta de sentido de humor desta sociedade?

Ora, o baptismo foi pensado como necessário porque o nascimento encerrava um "pecado original", coisa notável que Santo Agostinho, no "brilho" do seu intelecto pantanoso, argumentara ser transmitido hereditariamente desde Adão e Eva, e que para salvação da alma impura, desobediente às instruções de Deus sobre a Árvore do Conhecimento, fariam o ignoto ser encharcado com água benta pela cabeça. 
Praxe a que não escapou Deus, pois o próprio Jesus foi baptizado pelo primo, permitindo assim salvar-se do pecado original, ou seja da desobediência hereditária contra si mesmo. Isto se alguém quiser dar sentido às diversas narrativas religiosas que primam pela completa ausência de nexo.
Mas, a população ao invés de comemorar a data com um banho purificador, preferiu manter o fogo.

Fogo que, no desenrolar do politicamente correcto, tende a tornar-se num espécime em vias de extinção, e não admiraria que, no espaço de algumas décadas, as crianças só o venham a vislumbrar por acidente, por proibição de fósforos, isqueiros, etc...

No entanto, na história da humanidade, sempre foi dado ao fogo um papel marcante. Teriam as fogueiras servido para afastar animais perigosos, para manter quentes os abrigos em tempos frios, especialmente na Idade do Gelo, teria também o fogo sido usado para a cozinha, inclusive para fundir e cozinhar novos materiais metálicos, e tendo até o fogo sido associado à criação da linguagem, conforme citava Fernão de Oliveira, o seu papel foi marcante na História. 
Os Pirinéus estavam naturalmente associados ao fogo pelo nome, já que o prefixo "Pyro" significava fogo em grego, mas com a transliteração do upsilon em "u" e não em "y", isso remeteria a palavra grega para "Puro". A pureza do fogo constou de diversas religiões, como nos rituais de druidas, no zoroastrismo, ou até na inquisição cristã. 
Como o fogo apenas se propaga com matéria combustível, que é matéria orgânica, o fogo é posterior ao aparecimento da vida, e de certa maneira reduz as diversas combinações do carbono a carbonizações, de onde apenas restam resíduos carbónicos, as cinzas. Assim, se o carbono nas suas combinações orgânicas permitiu uma multiplicidade de formas, o fogo permitia destruir todas, e pela destruição renovar a criação.

O fogo florestal não apresenta nenhuma novidade para sociedades que se habituaram a conviver com ele durante milénios, tirando as vantagens e desvantagens. A única novidade da sua imprevisibilidade relativa é a sistemática e desavergonhada incompetência que procura usar isso como justificação da sua incúria.

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