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A 4 de Agosto de 1578 deu-se a batalha de Alcácer Quibir, e o desaparecimento de D. Sebastião, com 24 anos de idade. Deixamos aqui dois dos seus retratos mais conhecidos, e depois uma representação de São Martinho, pelo pintor espanhol "El Greco", de origem grega.

 


Que o quadro de El Greco, realizado uns 20 anos depois de Alcácer-Quibir, na figura de S. Martinho me fez lembrar imediatamente as representações anteriores de D. Sebastião, pois isso não há nada a fazer, e que o tenha visto pela primeira vez exactamente neste dia (4 de Agosto), também não.

Adiante... porquê São Martinho?
Ora, acontece que Malyn Newitt no seu livro "Portugal in European and World History", diz na página 93, algo muito interessante, a propósito da "Armada Invencível" de Filipe II:
"The flagship of the Armada was the now veteran São Martinho, which had accompanied Dom Sebastião to Morocco and had already served three times as the flagship of Spanish armadas in the Atlantic."
Ou seja, existia um grande galeão português, de nome São Martinho, que teria acompanhado D. Sebastião na expedição de Alcácer-Quibir, e que encabeçava em 1588, dez anos depois, a frota comandada pelo Duque de Medina-Sidónia, no planeado ataque à Inglaterra. (Esta informação é razoavelmente diferente da que consta na Wikipedia, enfatizando que o galeão teria sido construído em 1580.)

Independentemente do resto, ficam algumas questões: 
- o que aconteceu aos galeões, naus, ou caravelas, que transportaram o exército de D. Sebastião a Marrocos? Aparentemente, de Tanger terão regressado a Portugal, sem uma boa parte do exército de D. Sebastião, que acabou preso em Marrocos; 
- quem teria dado a ordem de regresso, uma vez que o rei estaria "desaparecido em combate"?
- ou ainda, quem tinha ficado com o comando da força naval estacionada em Tanger? estaria excluída a opção de atacar navalmente Laracha, para proteger uma retirada? 

Doménikos Theotokópoulos, muito antes de ser catalogado como "El Greco", começou por pintar, assim que chegou a Toledo, em 1577, a figura de um São Sebastião algo confiante e indiferente às setas que lhe atravessavam o corpo:

Porém, no final da sua vida, entre 1610-14, irá fazer um outro retrato de São Sebastião, muito mais estilizado, e o qual chegou ao Séc. XX dividido em duas partes, tendo a parte de cima sido recortada. 

Não penso que tenha havido propriamente uma vontade de mutilar a parte superior, mas muito mais uma vontade de separar a parte superior da parte inferior. Para perceber a razão desta necessidade de separação, mostramos a parte inferior do quadro de S. Martinho e a parte inferior deste quadro:
... ora o que se veria em ambos os quadros seria a mesma paisagem - Toledo à distância, com as mesmas muralhas, arcos e pontes.

A inconveniência do assunto seria estabelecer a relação entre um e outro... entre um São Martinho, que tem uma figura de cavaleiro que - desde as feições, à armadura, à cor do cabelo, e jeito das mãos - se pode identificar com o retrato de D. Sebastião feito por Cristovão de Morais; e entre o outro, que sendo de São Sebastião, se identificaria naturalmente com o monarca sacrificado, pelo nome do santo.

Além de tudo o resto, a genialidade de El Greco parece evidente, mesmo na técnica... como se tivesse saltado uns séculos para antecipar o movimento modernista parisiense, onde Picasso viveu, e muito se terá inspirado nele. 
Que El Greco não poderia ignorar o drama de D. Sebastião, isso parecerá visível até para um cego, pois para um grego sob domínio veneziano e sob ameaça turca, que chega a Toledo no momento em que D. Sebastião vai desaparecer em África, combatendo a expansão turca, seria difícil considerar que em nada lhe interessava a matéria. 
Porém, por outro lado, trabalhando para Filipe II, já terá sido uma sorte ter resistido o quadro de São Martinho, facilmente argumentando que o modelo poderia ser um qualquer outro cavaleiro alourado, com armadura da época, e que não fosse D. Sebastião, montado no seu cavalo branco - até porque faltava o nevoeiro (... e mesmo assim a pintura original acabou nos EUA). 
Que outra associação mais directa levaria a que lhe "cortassem as pernas", parece ter acontecido literalmente com o segundo quadro de São Sebastião, dado exibir a mesma paisagem de Toledo, que esteve assim, com a parte das pernas separada do corpo.

Que o mendigo se encontra numa posição semelhante à reservada ao canídeo, no quadro de Cristovão Morais, e que o último São Sebastião terá afinal passado da posição de cavaleiro à posição de martírio, poderá ou não relacionar-se com o destino dos pretendentes sebastianistas, que acabaram condenados e mortos... sendo o Prisioneiro de Veneza mais credível que os outros.

Enfim, tudo poderá não passar de uma pequena série de coincidências... como também se pode encarar como uma série de coincidências - o sol nascer e pôr-se todos os dias. A diferença está na compreensão - num caso pode ficar-se dependente de rezas e sacrifícios para o sol ir renascendo, noutro tipo de compreensão isso tornou-se simplesmente ridículo...


Aditamento [5/08/2017]:
Donizetti, o grande compositor italiano do "Elixir do Amor", teve seu último sucesso na grande ópera "Dom Sebástien", cantada em francês e estreada em Paris em 1843, com base numa peça ficcionada de P. Foucher, com um grande sucesso teatral em 1839.

Dom Sebastien - ópera de Donizetti (em 1998, pela Orquestra de Bolonha).

Apesar do libreto ser inspirado no tema da sucessão do rei português, juntava num mesmo palco D. Sebastião, Camões, o Prior do Crato, e até uma princesa árabe, visando adicionar à história elementos exóticos e românticos.
Donizetti terá escrito a Mayr:
           «Neste momento estou a escrever uma nova ópera em cinco actos para Paris. É D. Sebastiano di Portogallo - você vai reconhecer a história da mal fadada expedição organizada pelo rei contra os mouros, a perda do seu exército e a sua morte que ainda hoje permanece misteriosa. O assunto resume-se a isto. Vai ainda incluir o grande poeta Camões - a inquisição que trabalha secretamente para tornar Portugal num escravo de Espanha - um pouco de tudo na realidade.»

Esta foi a última ópera das 75 escritas por Donizetti, que após isto foi entrando num estado de demência progressivo, levando à sua morte alguns anos depois.
Esta ópera é especialmente pouco conhecida em Portugal, onde não sei se alguma vez terá sido apresentada, apesar do grande sucesso que teve na sua estreia em Paris, há quase 175 anos.


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