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Num comentário recente João Ribeiro fez notar que D. Afonso Henriques, teria passado a andar de coche, dado que tinha ficado coxo. Acrescentou que a passagem se poderia ler na Monarquia Lusitana (3ª parte) de António Brandão. Transcrevemos por isso o trecho relevante:
(...) E que neste passo afirmam alguns autores modernos que El Rey de Portugal prometeu de ir às Cortes de Leão, tanto que se pudesse pôr a cavalo e melhorasse da perna quebrada. E que depois, estando já são, usara sempre o coche, por não estar obrigado a cumprir a promessa. É mera fábula contra o que deixaram escrito os autores antigos. O Arcebispo D. Rodrigo não afirma tal coisa, antes dá por razão de El Rey D. Afonso Henriques andar de coche, não poder subir a cavalo, pelo mau tratamento da perna. O mesmo diz com expressas palavras D. Lucas, Bispo de Tuy, autor também antigo e grave, e se afirma na Crónica geral d'el Rey Dom Afonso.(...)
Aqui o cronista António Brandão está claramente mais interessado em mostrar a autoridade moral de D. Afonso Henriques, que não ia disfarçar estar coxo para não cumprir uma promessa. Convém relembrar que, por esta altura, cortar cabeças a mouros não representava qualquer mácula na moral cristã.

Ora, como na Idade Média o uso de coches era coisa rara (... seria só justificável por o rei estar coxo!) esta citação também significa que haveria um coche de D. Afonso Henriques.
Poderia ser um coche insignificante, depois abandonado ou perdido... mas não é o caso.
Além disso, o uso de coches pela realeza só voltou a estar na moda a partir do Séc. XVI, e é a partir daí que começa a grande colecção existente no Museu dos Coches. 
Mas poderia começar bem antes...

Tendo consultado a tradução da obra do príncipe polaco Felix Lichnowsky, Portugal: Recordações do anno de 1842 (pág. 84) fiquei pois bastante surpreendido com esta leitura:
(...) No Calvario a pouca distancia do palacio real de Belem, em um edificio construido de proposito por D. João V, acha-se uma collecção de coches antigos, talvez a mais admiravel que existe no mundo. É muito notavel o coche de galla do rei D. Afonso Henriques, (governou de 1128 até 1185), que tem sete bellos vidros Venezianos, cada um de oito a nove palmos em quadrado, assentos de estofo tecido com fio de ouro, pinturas, dourados, e ornatos de bronze dourado; particularmente os objectos de bronze dourado igualam os mais bellos trabalhos de or-moulu dos Francezes, ou talvez os excedem. Junto acha-se um desengraçado coche feito no Brazil, e coberto de ouro por toda a parte. Outro coche igualmente rico do grande rei D. Manoel, é todavia coberto de aprimorados relevos. Encontra-se tambem alli o coche de galla do rei D. Diniz, (que reinou de 1279 até 1325); a caixa tem flores e escudos de armas, pintados com a maior perfeição sobre um fundo de ouro; interiormente é forrada com brocado de ouro. (...)
Portanto em 1842 o príncipe Lichnowsky teve o privilégio de visitar o (antigo) edifício do Museu dos Coches, mas ao contrário de todos os visitantes populares, ele teve a oportunidade de ver:
  • o Coche de Gala do rei D. Afonso Henriques, 
  • o Coche de Gala do rei D. Dinis, 
  • um Coche todo coberto de ouro (provavelmente de D. João V), 
  • um Coche igualmente rico do rei D. Manuel. 
Como o príncipe polaco dizia, era talvez "a mais admirável colecção de coches existente no mundo", e continua a ser, mesmo estando noutro espaço e tendo sido rapinados 4 coches de valor incalculável (repare-se que ele nem sequer menciona os restantes... que serão aqueles a que temos acesso hoje).

O coche "todo coberto de ouro" não será o Coche dos Oceanos, de D. João V, até porque este não é nada "desengraçado":


Se compararmos fotos antigas e mais recentes do museu, não notamos grande diferença, excepto talvez na disposição das peças:


... pelo que a subtracção (da vista pública) terá ocorrido entre 1842 e 1905 (altura da abertura do museu ao público).

Ora, entre 1842 e 1905, não consta ter havido nenhuma Invasão Francesa, nenhum Terramoto, nenhum Tsunami, nenhum Incêndio, ou mesmo nenhum Roubo que tivesse retirado aquelas peças da família real. 
Bom, eram peças da família real, e esta é uma hipótese, de fraco entendimento, que pode ter tido a família real, em ter ocultado as peças preciosas do património português, entendendo-as como propriedade privada. Fraco entendimento, porque mesmo que quisessem ter os coches para passear na quinta de Vila Viçosa, nada impedia que permitissem que fosse sabido do seu paradeiro. Caso tenham ficado com os exemplares, confundiram realeza com o Estado, mesmo quando o Estado passou a ser republicano. E essa confusão seria tanto mais lamentável, porque a principal função real era ser o factor de união, de identificação, e não um mero agente privado que se aproveitaria da nação, para consumo e exploração própria. Outro entendimento, ainda poderia ser moda no Séc. XIX, mas seria profundamente provinciano mantê-lo no Séc. XX. No entanto, não estranharíamos.

Estejam os coches num subterrâneo de Vila Viçosa, guardados em cascos de carvalho numa cave do Porto, ou vendidos a uma colecção privada, revelar o paradeiro seria honrar a participação real na memória antepassada... Caso contrário será dissociar a identificação da família real à história de Portugal, ou seja, será ver os calhambeques como propriedade de um qualquer conde, barão, ou sapateiro, e aí os bens não têm mesmo nenhum valor significativo. Ou seja, enquanto herança da família do Barbadão podem guardá-los à vontade, porque nesse caso também pouco valem. Pouco valem os coches roubados, e muito menos vale quem os roubou à memória do Estado.

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publicado às 05:19


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