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O templo de Diana em Évora, não nos chegou com este aspecto:

Com efeito, ao que consta funcionava como açougue, desde o tempo de D. Manuel, e há cerca de 150 anos atrás, antes de ser intervencionado, o aspecto seria este:


Esta fotografia do Séc. XIX não conhecia e encontrei-a no blog:

Deverá ter sido tirada antes de 1870, pois foi nessa altura que começaram a ser demolidas as paredes e restantes estruturas superiores. Este tema será conhecido de alguns, mas a esmagadora maioria dos portugueses desconhece que o templo teria funcionado como açougue. E, de facto, era já um embaraço em 1836, quando o açougue passou para outro lugar, pois o assunto era mencionado pela "imprensa internacional". Por exemplo, os ingleses criticavam o desprezo ibérico pelas antiguidades, e não restar uma placa romana, ou qualquer coisa anterior aos árabes em Lisboa. Não podemos dizer que restasse também alguma coisa de Londinium, mas enfim, a crítica fazia sentido.

Quer a página do blog, quer a da wikipédia, dão extensas informações sobre o assunto, que me abstenho de repetir. 
Gostaria apenas de frisar o seguinte:
- Vendo a fotografia, e pensando na largura de paredes de castelos, igrejas, e outras, quantos monumentos mais antigos não poderiam ter ficado emparedados, desta forma?

A ligação do templo à deusa Diana tem sido questionada mais recentemente, porque a fachada com 6 colunas coríntias seria dos templos imperiais. Acresce que se teria encontrado nas redondezas um dedo enorme (aproximadamente de meio metro), que segundo recentes interpretações seria de um imperador.
Deixo ao lado a imagem do dedo, no Museu de Évora, para ficar ao critério de cada um perceber se é dedo de imperador ou de deusa.
Encontrou-se também uma pátera, e no caso de ser deusa, seria mais normalmente de Vesta do que de Diana. Se bem que esta nossa Diana seria muito mais "de Ana", do rio Ana, agora Guadiana, uma deusa que se ligaria melhor ao culto Vestal.

Sertório e o Arco
Alguns eborenses, e outros escritores antigos (p.ex. Lavanha), teriam optado por indicar o Templo como construção de Sertório, já que Évora chegou a ser o principal aquartelamento do general romano, quando se juntou aos lusitanos para enfrentar os romanos. É dito que não, que nessa altura os romanos não conseguiriam fazer um templo daquela qualidade, etc... mas não vou perder tempo com argumentos aniquiladores de possibilidades, sem nexo. 

Introduzo Sertório, porque também existiria um "arco de triunfo" em Évora, ao que consta, na Praça do Geraldo, que teria sido feito na época de Sertório. 
No entanto, este teria sido demolido em 1570 por vontade do Cardeal D. Henrique, com o consentimento de D. Sebastião, seu sobrinho. Podemos ler no Archivo Pittoresco Vol.6, (1863), pág. 286, um pequeno artigo sobre o "Arco Triumphal Romano da Praça de Évora", onde se dá grande destaque a esse arco triunfal ou pórtico, em conjunto com um chafariz com leões, etc.

Mais recentemente, F. Bilou apresenta o texto:
O pórtico (ao)romano da Praça Grande, em Évora. Novas achegas para um velho equívoco
em que dá a opinião de que o pórtico não seria nada de monumental, sendo uma principal razão (e já sabida) a ausência de referência pelo ilustre eborense André de Resende, dominicano e talvez o primeiro arqueólogo português, que dedica um livro a Évora (1553). Bilou cita a despropósito Gaspar Barreiros, acerca da sua desvalorização de um "arco do triunfo" em Mérida, e não dá crédito à opinião do padre Manuel Fialho:
«do portico so agora ouvimos falar, e supomos que era couza magnifica, como frontespicio de algum templo, ou couza semilhante, e era todo de marmores que tomava a largura da praça que tinha três serventias ou portoens por bacho(…)»
Ao que parece daquele pequeno nada, que atrapalhara o Cardeal D. Henrique, ficaram 8 colunas de mármore do refeitório de Colégio do Espírito Santo:
e três dos quatro leões que estavam no chafariz. É muito nada para não merecer menção, até pelo dominicano André de Resende.

Dois desses leões estão a definhar à beira estrada, num outro chafariz público (Chafariz dos Leões):

enquanto um terceiro está no museu de Évora (creio que o outro andará fugido...) [ver Nota]

Poderá dizer-se que o leão do museu ficou melhor, mas do bicho só encontrei esta foto com quase 100 anos... se alguém o vir no Museu de Évora, pois envie-nos uma foto para saber se ele está bem. 
Quanto aos outros dois, estão aparentemente à mão de semear, mas o povo deixou-os ficar, ninguém chegou com um monta-cargas e uma pick-up para os levar... o tempo não tem sido meigo para eles, e parece que o chafariz estar classificado como monumento público não os protege da chuva. 
É apenas dito que estavam na Praça do Geraldo, mas pode-se suspeitar pela sua forma, que respeitem a tempos muito mais antigos, até talvez mais antigos que Sertório.

Sebastião e o Arco
Gostaria de terminar o texto, mas quando se abre o livro, o novelo desenrola-se...
Acontece que, ao mesmo tempo que D. Sebastião autorizava o tio a destruir a memória do passado, queixava-se de não haver nenhum monumento a comemorar a Batalha de Ourique!

Em visita a Évora em 1573, D. Sebastião arrancou com um projecto de fazer um templo e monumental arco nos campos de Ourique. Diz-se que terá contado com a colaboração de André de Resende, no seu último ano de vida, na inscrição que deveria aparecer no arco:
Heic contra Ismarium, quatorque alios Saracenorum Reges, innumeramque barbarorum multitudinem, pugnaturus felix Alphonsus Henricus , ab exercitu primus Lusitaniae Rex adpellatus est: et a Christo, qui ei crucifixus adaparuit, ad fortiter agendum commonitus, copiis exiguis tantam hostium stragem edidit, ut Cobris ac Tergis fluovirum confluentes cruore inundarit. Ingentis ac stupendae rei, ne in loco ubi gesta est, per infrequentiam, obsolesceret, Sebastianus I Lusitaniae Rex, bellicae virtutis admirator, et majorum suorum gloriae propagator, erecto titulo memoriam renovavit
O templo é a Igreja Matriz de Castro Verde, e segundo António Castilho (Quadros Históricos de Portugal, 1847) deveria ainda constar o arco... o Arco de Ourique, que desapareceu. 
Castilho critica aqueles que procuram encontrar esse arco nos arcos da igreja, comentando que nesses arcos faltava a inscrição pedida a Resende.

Interior da Igreja Matriz de Castro Verde

A igreja sofreu um restauro por D. João V, que terá adicionado os azulejos, e é especialmente curioso ver-se que ao centro está Nª Senhora e não a imagem de Cristo crucificado. Há de facto, arcos, mas não parece que se possam ajustar a um arco com uma inscrição... que não têm.

Bom, e que tem o assunto a ver com Évora?
Com a morte de D. Sebastião e do seu tio, Portugal perde a independência para Madrid, e conforme já tivemos oportunidade de escrever, a propósito da visita de Filipe III de Espanha, em Lisboa ergueram-se dezenas de arcos triunfais. Quando se trata de sabujice, em Portugal temos dos melhores exemplares, e esta visita do rei foi um bom exemplo disso. 

Ao que parece Évora quis seguir o exemplo, e construir apressadamente um arco triunfal, segundo o que reporta Lavanha, porque o rei só posteriormente considerou passar por Évora.
No entanto, F. Bilou comenta que a cidade estava preparada, tinha outros arcos preparados, apenas não estava à espera de uma chegada pela Porta da Lagoa.
Ao que se sabe, todos esses arcos triunfais erigidos, a quem poucos ou nenhuns triunfos teve, desapareceram rapidamente da vista, especialmente após a Restauração.

Interessa assim ao assunto ponderar a sequência de acontecimentos:
- Existiria um arco antigo, atribuído a Sertório, em Évora.
- Esse arco foi mandado abaixo por D. Sebastião a pedido do Cardeal D. Henrique em 1570
- D. Sebastião decide mandar construir em 1573 em Castro Verde um arco monumental
- Esse arco monumental desapareceu (... ou estará incluso na Igreja de Castro Verde?)
- Évora manda construir apressadamente um arco triunfal para a entrada de Filipe III em 1619
- Não restam sinais desses arcos...

Poderá em todos estes casos se ter tratado de desmontar e voltar a montar?
Tendo as pedras do arco original sido retiradas, a questão também seria o que fazer com elas, e por que não haveria D. Sebastião de aproveitá-las, e refazer o monumento no sítio que lhe parecia mais adequado? - Fica apenas como hipótese em aberto... 

Termino, referindo ainda que o tamanho das paredes da Igreja Matriz de Castro Verde são, segundo Castilho, de 16 palmos e meio! Ou seja, estamos a falar de mais de 3 metros de largura nas paredes.
Pode ver-se que as janelas têm de facto uma grande profundidade (mas não me parece chegarem aos 2 metros):

Voltando à pergunta inicial:
- Vendo esta fotografia, será ou não possível que, em vez de uma parede maciça tenhamos uma parede oca, com dimensões suficientes para conter quartos, ou múltiplas divisões, dentro de si?


________________________
Notas adicionais: (04.06.2020)
Em comentário a este postal, Carlos Figueiredo teve a amabilidade de fornecer imagens tiradas por si, dos dois leões que estão no Museu de Évora:

Portanto, o conjunto de 4 está presente, dois no museu, e dois no chafariz, na estrada.
Repare-se que, o museu não teve problemas em juntar os leões a outras antiguidades "romanas".
E coloco "romanas", entre aspas, porque o friso superior tem um conjunto de escudos e cabeças bovinas, que não me parecem se enquadrarem no contexto romano conhecido.

Ao mesmo tempo, é habitual dizer-se que os leões faziam parte do chafariz da Praça do Geraldo. Veja-se que não há qualquer referência ao tempo "romano" quando se fala do Chafariz dos Leões:
Arquitectura infraestrutural, quatrocentista. Chafariz quatrocentista de tipologia semelhante à do Chafariz d’el Rei, do Chafariz das Bravas e do Chafariz de São Bartolomeu. As gárgulas de mármore em forma de cabeça de leão são provávelmente originárias do antigo Chafariz da Praça do Geraldo. 
Ver os leões como gárgulas, apenas porque lhes abriram um buraco para escoar água, é outra coisa frequente. Mas se é mais ou menos claro que o leão da esquerda era o que se encontrava na foto antiga do museu, o que aconteceu ao leão da direita?
 
Na placa do leão à direita, que se consegue ler na foto de Carlos Figueiredo, está escrito "Convento de S. Bento de Castris". Numa descrição desse convento (neste link) lê-se:
No mencionado quintal da Lavagem subsistem, além deste tanque, com velha gárgula constituída por leão de mármore, quinhentista, mais dois poços, a saber: (...)
Como a descrição não parece ter origem no blog, não consigo saber a data, e assim saber se este mencionado leão poderá coincidir com o que foi parar ao museu.
Caso contrário, há bastantes leões em redor de Évora, e não serão propriamente "quinhentistas"... existindo uma probabilidade razoável de nem sequer serem romanos. Com efeito, se repararmos nos traços capilares do leão, uns traços que decoram o dorso, esse padrão está ausente de outras representações romanas ou gregas, que normalmente os viam com juba mais encaracolada, ainda que o leão grego de Knidos (Sec. II a.C) tenha certas semelhanças (na posição e cauda).

Como se não bastasse o destino mais degradado dos leões do chafariz na estrada, alguém da câmara, ou da junta, terá tido a bizarra ideia de caiar os leões, conforme Carlos Figueiredo fez notar:

Tratando-se de problemas que acumulam mais de 400 anos, é de esperar que 400 minutos não cheguem para o resolver, nem tão pouco 400 dias.

______________________
Nota Adicional (05.06.2020)
Ainda num outro comentário, foi apontada a existência de uma fotografia do Séc.XIX da parte anterior do Açougue, antes da sua demolição, que encontrei num artigo brasileiro (An. mus. paul. vol.26, Epub Nov 23, 2018) sobre Évora e a missão jesuíta de São Miguel:
Parte anterior do Templo de Diana, que serviu de açougue, antes de ser destruído.
Conforme apontado no comentário é possível ver na parede anterior um brasão de armas, que aparenta ser real.

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publicado às 04:22


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