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Ao fim de muito tempo, vi ontem, pela primeira vez em televisão, alguém referir-se à descoberta do Brasil em 1498 por Duarte Pacheco Pereira. Quem o fez foi Miguel Sousa Tavares, respondendo à pergunta final num programa da SIC-Notícias, chamado "Conversas Improváveis".

O incidente é isolado e nada tem de especial, para além de ir completamente contra a versão oficial, que atribui o relato de descoberta à viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500.
A tese deveria ser largamente conhecida desde a publicação do Esmeraldo de Situ Orbis em 1892, por Raphael Basto, conservador da Torre do Tombo. Mais conhecida ainda quando Jorge Couto em 1995 sustentou a tese dessa descoberta anterior, com documentação adicional. Jorge Couto é uma figura reconhecida, tendo sido presidente do Instituto Camões e director da Biblioteca Nacional (2005-2011).
No entanto, apesar disso, que eu saiba, a tese de 1500 nunca foi beliscada em comunicações públicas, para uma larga plateia, por exemplo em televisão. Assim, a demonstração por Jorge Couto da viagem de Duarte Pacheco Pereira, em 1498, passa ao lado do folclore oficial, e de todo o comentário ou discussão, ao longo dos últimos 20 anos. Nada de estranhar, pois já teria passado ao lado da discussão do grande público durante todo o Séc. XX. Afinal, passam já 120 anos desde a publicação por Raphael Basto, que confrontou dois exemplares do Esmeraldo de Situ Orbis. Os exemplares estavam incompletos, sem nenhum dos 16 mapas (vistos na biblioteca dos Marqueses de Abrantes), e aparentemente em Setembro de 1844, para além da lei sobre funerais que originou depois a Revolta da Maria da Fonte, também houve uma portaria que retirou o livro da Biblioteca de Évora.
O detalhe da descoberta do Brasil em 1498, inscrito no livro, não passou obviamente despercebido, pois é referido pelo próprio inspector em 1891, na primeira página.

A afirmação que Duarte Pacheco Pereira dirige a D. Manuel é esta:
(...) alem do que dito é, a experiência que é madre das coisas nos desengana & de toda duvida nos tira & portanto bem aventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro ano de vosso Reinado do ano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte ocidental passando alem a grandeza do mar oceano onde é achada & navegada uma tão grande terra firme com muitas & grandes ilhas adjacentes a ela que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo artico  & posto que seja assaz fora é grandemente pauorada, & do mesmo circulo equinocial toma outra vez & vai além em vinte & oito graus & meio de ladeza contra o polo antartico (...)

Fica completamente claro que Duarte Pacheco Pereira ao referir-se a uma extensão de terra firme que vai da latitude 70ºN (Gronelândia, Norte do Canadá) a 28ºS (Rio Grande do Sul, Brasil), dá logo no ano de 1506 uma informação demasiado detalhada sobre o que se conhecia da América. Aliás, dá informações precisas sobre a parte da América que estaria destinada dentro do Hemisfério português, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Isto praticamente mostra que o conhecimento do continente americano era completo, antes mesmo do nome América ter sido associado a Alberico Vespúcio. Dizer que 1498 é a data da primeira viagem ao Brasil apenas peca por ser tão escasso quanto tudo o que esconde essa afirmação e que Duarte Pacheco Pereira revela.

Quando falei do Esmeraldo de Situ Orbis, em 17 de Dezembro de 2009, no Knol da Google, escrevi o seguinte:

Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!
Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Nessa altura procurei ligar a descrição da Costa de África à descrição da Costa Americana
Paralelismo África-América (Tese de Alvor-Silves, Dezembro 2009)

Vim na altura a saber (pelo José Manuel-CH) que a Duquesa de Medina-Sidonia, Luisa Alvarez de Toledo tinha argumentado no mesmo sentido no livro Africa versus America.

Provavelmente, caso fosse hoje, nem teria escrito nada acerca desse paralelismo... simplesmente porque é difícil sustentar a tese baseando-nos apenas na leitura de textos antigos, já que facilmente se poderá contra-argumentar que se tratam de coincidências interpretativas, sem usar outras provas.
Se usei aqui muitas interpretações, e fui avançando com diversas possibilidades, elas foram sendo sustentadas cada vez mais em citações literais, e factos documentais. Inicialmente não fazia ideia de que existisse tanta matéria "escondida com o rabo de fora", e por isso ainda procurava estabelecer relações fugazes, que pouco a pouco deixaram de ser fugazes... 

Quebrada a confiança com o conhecimento oficial, aquilo que escrevi sofre de toda a incerteza sobre as fontes e sobre a interpretação que fazemos delas. As diversas hipóteses que fui escrevendo resultam de tentativas parciais de encontrar nexo lógico, sem desacreditar tudo o que nos foi transmitido. O formato de blog tem a vantagem de não pretender ser mais do que uma interpretação escrita naquela data, em face da conjugação dos diversos dados acumulados, procurando focar mais no nexo lógico global do que no detalhes contraditórios.
Afinal, o que podemos saber resulta apenas do que nos é dado a saber... nada mais do que isso.
A maioria dos textos a que temos acesso é posterior à Idade Média, e muito tempo terá havido para definir o conhecimento que se divulgaria e o que iria ser ocultado. O povo nasce órfão de informação antiga... mal conhecemos os nomes dos trisavós, e poucas famílias passaram no seu seio histórias anteriores ao Séc. XIX. A partir daí fica só a confiança na cultura comum aprendida na escola formadora de mentes... Mesmo sobre monumentos/livros, devemos contar com reconstruções/ reedições, com a boa-fé dos criadores/autores, etc.
Quebrada a confiança, a grande certeza é a incerteza... e se dela não se livra o povo, órfão de antigos legados familiares, também não estarão muito mais seguros os depositários de conhecimento mais antigo. Afinal, têm que contar que a informação nunca foi alterada, coisa algo difícil de assumir mesmo em casas reais europeias, cujo legado teve múltiplas oscilações, e dificilmente chega ao Séc. X d.C. Indo mais longe, o registo perde-se nos legados religiosos. 
De qualquer forma, esquecendo o encobrimento nas descobertas arqueológicas, não há aparentemente um registo fiável para além das civilizações egípcias ou mesopotâmicas... como se os nossos anteriores antepassados nada nos tivessem querido deixar de importante. 
E, no entanto, em todos os povos parece ter havido a necessidade de transmitir um legado, não tanto uma história factual, mas antes uma tradição cultural religiosa, cujo significado primeiro se perdeu. A excepção parece ser a tradição hebraica, já que o Velho Testamento engloba também uma história do povo.
Vemos assim que o conhecimento que foi passando, não apagado entre gerações, foi uma mensagem religiosa autorizada. As histórias de heróis deveriam ser igualmente populares, mas retirando personagens divinos, poucas ficaram nos mitos, e talvez Hércules seja a excepção humana.
As novas gerações nasciam com conhecimento restrito, com pouco mais do que recebiam dos pais,  quase ignorando os avós. Quando isso acontece a evolução é normalmente pequena, e os jovens arriscam a fazer apenas uma repetição do percurso dos progenitores, sem acumular inovação no conhecimento. Isso seria tanto mais efectivo quanto as imposições religiosas visassem condicionar o progresso do conhecimento. A motivação poderia ser simplesmente manter o maior conhecimento na pequena elite reinante, para facilitar o controlo. No entanto, essa estagnação cultural funciona localmente, permite manter uma elite tribal, pelas condicionantes e proibições, mas não aguenta o embate com outra civilização em que o progresso de conhecimento seja mais valorizado e generalizado. Basta ver que em pouco mais de 200 anos de difusão de conhecimento, passámos de carruagens para aviões e foguetões....
Na tentativa de preservar a ordem, mantendo a habitual distância entre o conhecimento da elite e o conhecimento popular, compromete-se o progresso e a sociedade cairá no vício de estagnação, alimentado por sucessivas imposições e proibições, tal como nas primitivas sociedades tribais condicionadas pela religiosidade e tradição cultural fechada.

No santuário de Delfos haveria a inscrição "conhece-te a ti mesmo"... e sem dúvida que esse é o primeiro passo do homem, mas depois deve ser aplicado aos homens em conjunto, na sua unidade de conhecimento. 
Enquanto não percebermos o que fomos, o que nos condicionou e condiciona, dificilmente podemos definir o que devemos ser, funcionando como uma hidra insana... com múltiplas cabeças não coordenadas, competindo pelo controlo do mesmo corpo.
Temos até um exemplo interno... se os nossos hemisférios cerebrais direito e esquerdo funcionassem isoladamente e competitivamente, desconfiando um do outro, mentindo um ao outro... alguma vez teríamos tido sucesso enquanto organismo?

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publicado às 20:43

A mitologia grega, reportada por Hesíodo, ilustra uma Teogonia que já aqui comentei várias vezes.
Para quem estiver demasiado enredado em teorias que explicam "sim, porque sim", será fácil negligenciar eventuais mensagens e classificá-las como poesia. 
Vou por outro caminho, demonstrando como se pode retirar alguma filosofia interessante.

O universo existe, e cada um de nós é testemunha dessa existência.
Poderia não existir, ou o que seria equivalente, poderia não ganhar consciência da sua existência!

O universo puramente material, de pedras e calhaus, não poderia ter essa consciência.

Para ser observado, o universo precisa, pelo menos, de um observador... que estará obviamente dentro do universo, por definição de universo!
Um observador básico pode não ter consciência de si, pode apenas reflectir internamente o que vê externamente. 
Se puder ver tudo então o observador e o observado coincidem... por correspondência directa. Se o observador for superior ao observado, então é porque não se observa completamente a si próprio, e caso contrário, o observador tem uma óbvia lacuna na sua observação.
Para além de eventuais alegorias políticas, a mitologia grega dá a entender que de um "caos inicial", emergem estruturas, e para o que nos interessa, há uma Gaia universal que não fica satisfeita com a ocultação em que Úrano colocará alguns dos seus filhos.
Isto sugere justamente um problema de observação incompleta, e não ficaria resolvido se parte dos filhos de Gaia, estruturas emergentes do "caos inicial", ficassem ocultados... não vissem a luz.
Há por isso, uma segunda geração, onde aparece Cronos... associado ao tempo.
Podemos ver isto também como uma passagem da palavra ao verbo. O verbo induz sempre uma acção, nem que seja contemplativa, e pressupõe a existência de tempo.

A noção de tempo vai cortar o universo entre passado e futuro, no entanto não deixa numa posição definitiva os não-observados. Os titãs, remetidos antes à escuridão, poderiam ver a luz... poderiam ser observados. A noção de tempo permite uma alternância de observação, mas induz uma outra perda, o corte temporal originaria um passado, sem acesso imediato, pela ordenação. O corte de Úrano faz assim surgir uma Afrodite, deusa do amor, que reflecte uma preferência, que vai contra as alterações temporais. Essa noção de amor primordial reflectiria um desejo de preferência, no sentido contrário ao equilíbrio de tratamento pretendido por Gaia.
Aqui podemos encontrar ainda as antigas de noções orientais de Yin e Yang, que alternam, já que qualquer preferência num sentido, assume implicitamente a existência da sua negação. Se queremos algo, sabemos da hipótese contrária, e portanto as duas coexistem, nem que seja no plano ideal, dos sonhos (ou pesadelos).

Ainda assim, Cronos, o filho de eleição de Gaia, vai originar uma nova ocultação, de si próprio... já que haverá filhos seus que são ocultados, engolidos dentro de si. Nesta segunda geração temporal é Raia que toma o papel de Gaia, e Cronos enfrentará um destino de deposição, tal como o pai Úrano, e assim previsto por ele... Afinal o problema temporal não resolvia a observação interna, apenas a incompletude das observações externas.
É neste sentido que aparece Zeus, o filho que liberta os irmãos, afinal iguais ao pai.
Nesta terceira geração pode encarar-se que se introduz a "observação do observador", e onde se poderia cumprir o desejo de Gaia-Raia, de ser contemplada em toda a sua beleza, mas eu diria que falta a Maia...
O problema, conforme relatado na Teogonia grega, é que Zeus irá remeter de novo alguns Titãs à escuridão, mesmo os que o ajudam na Titanomaquia contra Cronos.
A razão é perceptível... num mundo ideal, agora com o amor de Afrodite, alguns dos Titãs seriam menos amados, e cria-se uma divisão ao nível do desejo. Há simplesmente alguns Titãs que são remetidos definitivamente para o Tártaro... o inferno grego. Ou seja, acaba por haver conhecimento proibido, não por incapacidade, mas por vontade. Talvez nessa altura Gaia tenha começado a girar, fazendo oscilar entre a luz do dia, e as trevas nocturnas... onde o sonho faria emergir afinal o que não se queria ver.

Prometeu, um dos titãs não condenados, mas inconformado, criador dos humanos, obriga Zeus a uma escolha relativa às oferendas aos deuses. Das oferendas, resultantes do trabalho dos humanos, Zeus teria que escolher apenas uma das partes.
Zeus prometeu a Prometeu respeitar a escolha, não sabendo que o titã iludira "os ossos", que ficariam assim para os deuses, e deixando "a carne" para os humanos. 
Como Zeus não fez tenção de cumprir o prometido, Prometeu decide entregar o fogo, a centelha divina, aos humanos... que antes disso seriam provavelmente vistos como hominídeos.
Essa capacidade humana, semelhante à dos deuses, terá enfurecido definitivamente Zeus, que condenou o titã a ver o fígado ser devorado por uma águia, provavelmente a águia imperial. 

Ou seja, a mitologia grega leva-nos até ao momento em que os deuses constituíam uma elite, uma inteligência com alguns poderes superiores aos humanos vulgares, mas que interagia com ela, num acordo diferente do prometido a Prometeu.
O acordo era simples... os humanos submetiam-se à vontade divina, faziam as suas oferendas no sentido dos desejos de ambos. Esses desejos incluíam manter os titãs ocultos no Tártaro, e livrar-se de todas as más influências, ainda que para isso os humanos sofressem com os caprichos dos deuses.
Durante a vida terrena, os deuses serviriam como um garante de que os humanos poderiam ter os seus desejos satisfeitos, mediante as devidas oferendas, ou trocas comerciais. Os humanos alinhariam assim com estes deuses do Olimpo na ocultação de conhecimento.
Afinal, tal como a maçã, a caixa de Pandora seria demasiado perigosa.

Termino, com uma consideração final, no mesmo sentido, mas não tanto no aspecto mitológico, mas sim no aspecto mais racional.

Conforme dito, o universo puramente material, de pedras e calhaus, não poderia ter consciência de existência.
Os seres animais mais básicos conseguiriam observar uma parte do universo, mas com uma reflexão semelhante à do espelho. O que era interno reflectia o exterior, sem conhecimento acrescentado... dito doutra forma, limitavam-se a replicar, sem acrescentar nada de novo.
Não seria apenas assim que o universo tomaria consciência da sua existência.
Seria necessário ligar a essa informação exterior uma informação interior, diferente, nova... uma apreciação pessoal, interna ao ser.
Os seres poderiam evoluir no sentindo de organizarem internamente a informação externa, e a sua apreciação sobre ela, terminando numa capacidade de consciência... ou seja, que existiriam para além do exterior que viam!

Só que cada ser teria a capacidade de desenvolver uma visão individual do exterior, que poderia ser completamente arbitrária, variando de ser para ser, e não acrescentaria propriamente nada de novo.
A apreciação teria que ter um custo individual, para que tivesse algum valor.
É neste sentido que aparece a "necessidade" de uma "realidade" que interage com cada um dos seres... eles deixam de ser simples espectadores arbitrários de uma parte do universo.
A sua cognição é formada com um propósito de sobrevivência, uma cognição desadequada implicaria  a extinção antecipada, e assim por um processo de selecção seria determinada a cognição mais apta para interagir com a realidade comum criada.
Neste sentido funciona o "evolucionismo", já que a cognição que melhor modelar o mundo exterior, permitirá uma sobrevivência.
Porém, isso depende das leis do mundo exterior... e o objectivo não será encontrar o animal melhor capaz de sobreviver num determinado mundo exterior. Caso tivesse sido isso, podíamos ver os dinossauros, ou análogos muito maiores, como destino final evolutivo.
Do ovo de crescimento individual, não acompanhado, sem interacção social, não surgiu acréscimo cognitivo para além da transmissão genética. Foi a estrutura de acompanhamento familiar, típica dos mamíferos (e aves), que permitiu essa evolução, pela comunicação.
O acréscimo de cognição, que tornou o homem como mais apto à sobrevivência na Terra, trouxe uma capacidade de entendimento que vai para além da realidade que compreende. Trouxe o mundo de ideias abstractas, que não estão restritas a uma realidade particular, ainda que possam ter aí a sua origem.
A competição "evolucionista" que passou por uma capacidade de sobrevivência nesta realidade física, e que foi preservando genes pela reprodução, guardando material genético do mais apto, misturou-se com uma nova competição. O homem passou da competição pela guarda do código genético, para guerras motivadas por ideias. A competição pelo código genético seria ainda um comportamento animal, passado para tribos, povos, nações... mas a competição pela prevalência de ideias é algo completamente diferente. Os irmãos não são necessariamente irmãos de sangue, passam a irmãos de ideias, ainda que possam estar ligadas à cultura de um povo.
Isto é um salto, já que o espaço de algo imaterial, como uma ideia, ganha estatuto de máxima relevância material, ao ser disputado no campo de uma realidade, misturando os dois conceitos, e colocando em causa a própria sobrevivência individual, e consequentemente das ideias.

Como explicitei, o caminho será o do auto-conhecimento, mas não de um indivíduo particular.
O indivíduo é um detalhe no meio do processo... como já o tinha sido enquanto portador de genes. Os indivíduos foram dispensados na evolução, apenas ficando um traço genético, que permitiu o raciocínio complexo. Um puro materialista verá o raciocínio como consequência da evolução.
Evoluções haveria muitas, mas poucas levariam a privilegiar uma evolução no sentido do conhecimento. Se não houvesse qualquer objectivo, a evolução mais natural terminaria rapidamente em seres que nada tinham de pensante.
A evolução que levou ao estádio em que estamos teve como objectivo o conhecimento, e é por isso que a percepcionamos. Nesse sentido, o conhecimento é a causa da nossa evolução e não a consequência, e por isso foi tão frágil, misterioso, com saltos algo inexplicáveis, e não tão linear.
Limitar o conhecimento tem custos claros, já que podemos evitar procurar o que desconhecemos, mas arriscamos obviamente a que o desconhecido nos procure a nós.
(12 e 15 Maio 2012)

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publicado às 07:47

A mitologia grega, reportada por Hesíodo, ilustra uma Teogonia que já aqui comentei várias vezes.
Para quem estiver demasiado enredado em teorias que explicam "sim, porque sim", será fácil negligenciar eventuais mensagens e classificá-las como poesia. 
Vou por outro caminho, demonstrando como se pode retirar alguma filosofia interessante.

O universo existe, e cada um de nós é testemunha dessa existência.
Poderia não existir, ou o que seria equivalente, poderia não ganhar consciência da sua existência!

O universo puramente material, de pedras e calhaus, não poderia ter essa consciência.

Para ser observado, o universo precisa, pelo menos, de um observador... que estará obviamente dentro do universo, por definição de universo!
Um observador básico pode não ter consciência de si, pode apenas reflectir internamente o que vê externamente. 
Se puder ver tudo então o observador e o observado coincidem... por correspondência directa. Se o observador for superior ao observado, então é porque não se observa completamente a si próprio, e caso contrário, o observador tem uma óbvia lacuna na sua observação.
Para além de eventuais alegorias políticas, a mitologia grega dá a entender que de um "caos inicial", emergem estruturas, e para o que nos interessa, há uma Gaia universal que não fica satisfeita com a ocultação em que Úrano colocará alguns dos seus filhos.
Isto sugere justamente um problema de observação incompleta, e não ficaria resolvido se parte dos filhos de Gaia, estruturas emergentes do "caos inicial", ficassem ocultados... não vissem a luz.
Há por isso, uma segunda geração, onde aparece Cronos... associado ao tempo.
Podemos ver isto também como uma passagem da palavra ao verbo. O verbo induz sempre uma acção, nem que seja contemplativa, e pressupõe a existência de tempo.

A noção de tempo vai cortar o universo entre passado e futuro, no entanto não deixa numa posição definitiva os não-observados. Os titãs, remetidos antes à escuridão, poderiam ver a luz... poderiam ser observados. A noção de tempo permite uma alternância de observação, mas induz uma outra perda, o corte temporal originaria um passado, sem acesso imediato, pela ordenação. O corte de Úrano faz assim surgir uma Afrodite, deusa do amor, que reflecte uma preferência, que vai contra as alterações temporais. Essa noção de amor primordial reflectiria um desejo de preferência, no sentido contrário ao equilíbrio de tratamento pretendido por Gaia.
Aqui podemos encontrar ainda as antigas de noções orientais de Yin e Yang, que alternam, já que qualquer preferência num sentido, assume implicitamente a existência da sua negação. Se queremos algo, sabemos da hipótese contrária, e portanto as duas coexistem, nem que seja no plano ideal, dos sonhos (ou pesadelos).

Ainda assim, Cronos, o filho de eleição de Gaia, vai originar uma nova ocultação, de si próprio... já que haverá filhos seus que são ocultados, engolidos dentro de si. Nesta segunda geração temporal é Raia que toma o papel de Gaia, e Cronos enfrentará um destino de deposição, tal como o pai Úrano, e assim previsto por ele... Afinal o problema temporal não resolvia a observação interna, apenas a incompletude das observações externas.
É neste sentido que aparece Zeus, o filho que liberta os irmãos, afinal iguais ao pai.
Nesta terceira geração pode encarar-se que se introduz a "observação do observador", e onde se poderia cumprir o desejo de Gaia-Raia, de ser contemplada em toda a sua beleza, mas eu diria que falta a Maia...
O problema, conforme relatado na Teogonia grega, é que Zeus irá remeter de novo alguns Titãs à escuridão, mesmo os que o ajudam na Titanomaquia contra Cronos.
A razão é perceptível... num mundo ideal, agora com o amor de Afrodite, alguns dos Titãs seriam menos amados, e cria-se uma divisão ao nível do desejo. Há simplesmente alguns Titãs que são remetidos definitivamente para o Tártaro... o inferno grego. Ou seja, acaba por haver conhecimento proibido, não por incapacidade, mas por vontade. Talvez nessa altura Gaia tenha começado a girar, fazendo oscilar entre a luz do dia, e as trevas nocturnas... onde o sonho faria emergir afinal o que não se queria ver.

Prometeu, um dos titãs não condenados, mas inconformado, criador dos humanos, obriga Zeus a uma escolha relativa às oferendas aos deuses. Das oferendas, resultantes do trabalho dos humanos, Zeus teria que escolher apenas uma das partes.
Zeus prometeu a Prometeu respeitar a escolha, não sabendo que o titã iludira "os ossos", que ficariam assim para os deuses, e deixando "a carne" para os humanos. 
Como Zeus não fez tenção de cumprir o prometido, Prometeu decide entregar o fogo, a centelha divina, aos humanos... que antes disso seriam provavelmente vistos como hominídeos.
Essa capacidade humana, semelhante à dos deuses, terá enfurecido definitivamente Zeus, que condenou o titã a ver o fígado ser devorado por uma águia, provavelmente a águia imperial. 

Ou seja, a mitologia grega leva-nos até ao momento em que os deuses constituíam uma elite, uma inteligência com alguns poderes superiores aos humanos vulgares, mas que interagia com ela, num acordo diferente do prometido a Prometeu.
O acordo era simples... os humanos submetiam-se à vontade divina, faziam as suas oferendas no sentido dos desejos de ambos. Esses desejos incluíam manter os titãs ocultos no Tártaro, e livrar-se de todas as más influências, ainda que para isso os humanos sofressem com os caprichos dos deuses.
Durante a vida terrena, os deuses serviriam como um garante de que os humanos poderiam ter os seus desejos satisfeitos, mediante as devidas oferendas, ou trocas comerciais. Os humanos alinhariam assim com estes deuses do Olimpo na ocultação de conhecimento.
Afinal, tal como a maçã, a caixa de Pandora seria demasiado perigosa.

Termino, com uma consideração final, no mesmo sentido, mas não tanto no aspecto mitológico, mas sim no aspecto mais racional.

Conforme dito, o universo puramente material, de pedras e calhaus, não poderia ter consciência de existência.
Os seres animais mais básicos conseguiriam observar uma parte do universo, mas com uma reflexão semelhante à do espelho. O que era interno reflectia o exterior, sem conhecimento acrescentado... dito doutra forma, limitavam-se a replicar, sem acrescentar nada de novo.
Não seria apenas assim que o universo tomaria consciência da sua existência.
Seria necessário ligar a essa informação exterior uma informação interior, diferente, nova... uma apreciação pessoal, interna ao ser.
Os seres poderiam evoluir no sentindo de organizarem internamente a informação externa, e a sua apreciação sobre ela, terminando numa capacidade de consciência... ou seja, que existiriam para além do exterior que viam!

Só que cada ser teria a capacidade de desenvolver uma visão individual do exterior, que poderia ser completamente arbitrária, variando de ser para ser, e não acrescentaria propriamente nada de novo.
A apreciação teria que ter um custo individual, para que tivesse algum valor.
É neste sentido que aparece a "necessidade" de uma "realidade" que interage com cada um dos seres... eles deixam de ser simples espectadores arbitrários de uma parte do universo.
A sua cognição é formada com um propósito de sobrevivência, uma cognição desadequada implicaria  a extinção antecipada, e assim por um processo de selecção seria determinada a cognição mais apta para interagir com a realidade comum criada.
Neste sentido funciona o "evolucionismo", já que a cognição que melhor modelar o mundo exterior, permitirá uma sobrevivência.
Porém, isso depende das leis do mundo exterior... e o objectivo não será encontrar o animal melhor capaz de sobreviver num determinado mundo exterior. Caso tivesse sido isso, podíamos ver os dinossauros, ou análogos muito maiores, como destino final evolutivo.
Do ovo de crescimento individual, não acompanhado, sem interacção social, não surgiu acréscimo cognitivo para além da transmissão genética. Foi a estrutura de acompanhamento familiar, típica dos mamíferos (e aves), que permitiu essa evolução, pela comunicação.
O acréscimo de cognição, que tornou o homem como mais apto à sobrevivência na Terra, trouxe uma capacidade de entendimento que vai para além da realidade que compreende. Trouxe o mundo de ideias abstractas, que não estão restritas a uma realidade particular, ainda que possam ter aí a sua origem.
A competição "evolucionista" que passou por uma capacidade de sobrevivência nesta realidade física, e que foi preservando genes pela reprodução, guardando material genético do mais apto, misturou-se com uma nova competição. O homem passou da competição pela guarda do código genético, para guerras motivadas por ideias. A competição pelo código genético seria ainda um comportamento animal, passado para tribos, povos, nações... mas a competição pela prevalência de ideias é algo completamente diferente. Os irmãos não são necessariamente irmãos de sangue, passam a irmãos de ideias, ainda que possam estar ligadas à cultura de um povo.
Isto é um salto, já que o espaço de algo imaterial, como uma ideia, ganha estatuto de máxima relevância material, ao ser disputado no campo de uma realidade, misturando os dois conceitos, e colocando em causa a própria sobrevivência individual, e consequentemente das ideias.

Como explicitei, o caminho será o do auto-conhecimento, mas não de um indivíduo particular.
O indivíduo é um detalhe no meio do processo... como já o tinha sido enquanto portador de genes. Os indivíduos foram dispensados na evolução, apenas ficando um traço genético, que permitiu o raciocínio complexo. Um puro materialista verá o raciocínio como consequência da evolução.
Evoluções haveria muitas, mas poucas levariam a privilegiar uma evolução no sentido do conhecimento. Se não houvesse qualquer objectivo, a evolução mais natural terminaria rapidamente em seres que nada tinham de pensante.
A evolução que levou ao estádio em que estamos teve como objectivo o conhecimento, e é por isso que a percepcionamos. Nesse sentido, o conhecimento é a causa da nossa evolução e não a consequência, e por isso foi tão frágil, misterioso, com saltos algo inexplicáveis, e não tão linear.
Limitar o conhecimento tem custos claros, já que podemos evitar procurar o que desconhecemos, mas arriscamos obviamente a que o desconhecido nos procure a nós.
(12 e 15 Maio 2012)

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publicado às 23:47

Para além das considerações históricas, os agentes da História são homens, não apenas enquanto personagens, mas enquanto actores, ainda que a sua acção esteja algo limitada pelo enredo.
É nesse sentido que importa perceber o que moveu os homens para empreenderem as suas acções, muito vezes parecendo arriscar muito empenho por pouco retorno. A sua relação com o desconhecido, através da religião, filosofia ou ciência, foi uma das facetas políticas.

Para não entrar em considerações que podem ser vistas como lunáticas, vou-me socorrendo de outros que foram desbastando preconceitos, e não deixam sozinho este caminho comum.
Encontrei uma entrevista da BBC a Carl Jung:
Estes 10 minutos da parte final da entrevista merecem ser vistos. Para o que se segue escolho as seguintes passagens:
- Lembro que disse que a morte é psicologicamente tão importante quanto o nascimento e que ela é parte integrante da vida. Mas não pode ser assim, se é um fim; ou pode?
- Certo, se ela for um fim, mas... não estamos muito certos sobre esse fim porque existem as faculdades especiais da psique, ela não é inteiramente limitada pelo espaço e pelo tempo. Pode ter sonhos ou visões do futuro, pode ver mais longe do que as esquinas. Apenas a ignorância recusa tais factos. É evidente que eles existem... e sempre existiram. Mostram que a psique, ao menos parte dela, não depende desses limites.
- E daí?
- Se a psique não é obrigada a viver no espaço e no tempo apenas, e obviamente não vive, então até tal ponto a psique não está sujeita àquelas leis, o que indica uma continuação prática, uma espécie de existência psíquica além do tempo e do espaço.

Começamos pelo trivial.
O homem tem conhecimento de realidades alternativas, normalmente designadas por sonhos.
Ao dormir, o sonho inconsciente confronta-nos perante realidades que não têm lugar no espaço da realidade comum, que partilhamos com outros. Esses cenários alternativos não foram criados por nós, no sentido em que não fazemos a mais pálida ideia de como construímos o cenário do sonho, ou porquê. Também aí tomamos o lugar de personagens intervenientes numa realidade de que desconhecemos as regras, e que é suficientemente imprevisível e credível.

O sonho pode ser visto como um teste ao nosso pensamento em resposta a mundos diferentes do que conhecemos. Quem produz esses mundos? Não é o nosso consciente, e quanto ao inconsciente dificilmente podemos chamar-lhe "nosso"! É tão externo quanto a realidade que nos é oferecida, e é por isso que no sonho acreditamos estar a viver uma experiência real.
Como não é uma experiência partilhada, quando regressamos à realidade comum, há uma tendência clara de ser socialmente negligenciada... não o seria se um grupo de pessoas tivesse partilhado o mesmo sonho.

Em contrapartida, como ao individuo é atribuída a criação do sonho, através do seu inconsciente, também o indivíduo pode pensar que a realidade "comum" é produto do seu inconsciente.
Essa convicção solipsista foi especialmente notória na filosofia hindú, ou na concepção de Parménides, e nos resultantes idealismos, de Platão à escola idealista alemã.
No entanto, é indiferente... o que importa é que o indivíduo é sempre colocado perante uma realidade que não controla completamente. Pode acreditar que é o "seu" inconsciente, ou que é "outro" que origina essa realidade que percepciona. Esse "outro" tanto assumir a forma de crença numa divindade consciente, como a forma de crença numa ordem inconsciente (na perspectiva materialista).

Convirá aqui notar que a justificação para certas entidades, ou acontecimentos, não explicáveis pelo conhecimento comum, tem várias formas quase equivalentes. Consoante a época, podemos falar de deuses, magos, vampiros, alienígenas, etc... pouco importa. Não importa a forma, importa a sua essência. Há entidades que surgiram como metáforas literárias a um poder humano submerso, e que ganharam espaço no imaginário, propagando-se de forma errada por interpretação diversa dos leitores, e há outras que têm um conceito diferente.
Podemos chamar "vampiro" a um ser que suga o sangue, no mesmo sentido em que criticamos uma elite ociosa que subsiste do trabalho dos restantes. E neste caso o seu poder forma-se nas trevas, no secretismo, no desconhecimento da população, e tal como o vampiro, não suportará que caia luz sobre si.
Esta figura metafórica de Bram Stoker tanto fez a delícia dos que a compreendiam, como a dos que não compreendiam (apenas se assombravam com tal ideia) e por isso acabou por ser inócua, e fazer parte da cultura popular como um medo, o que até agradou às mesmas elites.
No sentido oposto, creio que se pretendeu depois substituir esses medos por uma ciência primária que ostracizou qualquer ideia de espiritualidade, varrendo todas as ocorrências mais estranhas para debaixo da ocultação. Fica assim confuso perceber o que são apenas manifestações literárias alegóricas, mitológicas, de outras que podem corresponder a verdadeira observação (por exemplo, uma questão serão os eventuais registos arqueológicos de gigantes).

Não se pode experimentar a ideia de morte na realidade "comum", no entanto há sonhos em que o próprio se vê confrontado com uma realidade cujo o único desfecho lógico, mesmo no mundo do sonho, seria a morte. Assim, o próprio pode aceitar nesse sonho a ideia de que morreu, mas dá consigo a pensar sobre isso, e percebe que não pode estar morto. Tem que acordar para outra realidade... e acorda!
Conforme diz Carl Jung, há uma distinção entre a morte individual e a morte dos outros. No espaço da realidade "comum" observa-se a morte dos outros, que se desligam do nosso convívio, e é uma consequência lógica da realidade partilhada por todos. No entanto, o simples materialismo não reconhece as suas contradições, e acaba por inventar umas partículas chamadas "pensões", que não justificam o pensamento, servem antes para financiar a sua ocultação.

Há uma realidade partilhada e uma realidade individual. Só o indivíduo que abdique por completo da vivência dos sonhos, atribuindo a si o que não é seu, chamando-lhe "inconsciente", pode negar essoutra realidade. A realidade partilhada, essa tem um fim previsto, quanto à outra, conforme diz Jung, há fortes razões para pensar que não se esgota nesta realidade. Tem nascimento neste útero da realidade terrestre, onde adquire consciência e ideias primevas, mas nada lógico impede que  prossiga para além desta realidade física.

Acreditar num acaso que formou este universo e mais nenhum outro, acaba por nos remeter e prender a uma visão funesta, redutora para além do necessário, em que é cultivado o excessivo medo da morte. E, como sabemos, os medos são excelentes recrutadores de vontades...
Nem sempre terá sido assim, já que as circunstâncias de guerra implicavam até uma visão voluntarista, em que o modelo de vida, a ideia da morte honrada, seria até usada no sentido oposto - recrutamento de guerreiros que não temiam a morte. Na maioria das vezes esses combatentes desconheceriam pouco mais do que um código de valores eficaz para a fidelidade ao líder, ou à tribo... podendo ser tribo de preservação genética, ou de preservação religiosa. Na prática foram progressivamente usados contabilisticamente por uma inteligência secreta, como autómatos em confrontação.

O que aprendemos em conjunto, e que vai para além desta realidade material, é que há noções abstractas que não são apenas ilusões individuais... e na pior das hipóteses serão ilusão da espécie humana. Essas noções abstractas estão na nossa linguagem, ajudaram a descrever e compreender a realidade comum, mas vão muito para além dela.
Nem calhaus, nem vegetais, pensam abstractamente (pode duvidar-se de alguns animais com comportamento social...), por isso essas noções abstractas só emergem da realidade através do nosso pensamento, e no entanto, pela abstracção matemática, acabamos por constatar que essas ilusões mentais têm afinal algum correspondente na nossa realidade, e servem para modelá-la.
Portanto pretende-se fazer crer que apenas esta realidade é possível, quando é esta própria realidade que nos induz ideias que mostram que ela é apenas um caso particular sujeita a leis de modelação, que até podemos grosseiramente simular em computador.

Poderemos até no futuro ser capazes de simular realidades virtuais, onde os pequenos entes computacionais ganhem cognição capaz de iludir uma auto-consciência, mas isso não faria de nós seus deuses, seríamos apenas criadores, já que as dúvidas sobre criação que levou à nossa própria existência não ficariam resolvidas por esse meio.

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publicado às 05:43

Para além das considerações históricas, os agentes da História são homens, não apenas enquanto personagens, mas enquanto actores, ainda que a sua acção esteja algo limitada pelo enredo.
É nesse sentido que importa perceber o que moveu os homens para empreenderem as suas acções, muito vezes parecendo arriscar muito empenho por pouco retorno. A sua relação com o desconhecido, através da religião, filosofia ou ciência, foi uma das facetas políticas.

Para não entrar em considerações que podem ser vistas como lunáticas, vou-me socorrendo de outros que foram desbastando preconceitos, e não deixam sozinho este caminho comum.
Encontrei uma entrevista da BBC a Carl Jung:
Estes 10 minutos da parte final da entrevista merecem ser vistos. Para o que se segue escolho as seguintes passagens:
- Lembro que disse que a morte é psicologicamente tão importante quanto o nascimento e que ela é parte integrante da vida. Mas não pode ser assim, se é um fim; ou pode?
- Certo, se ela for um fim, mas... não estamos muito certos sobre esse fim porque existem as faculdades especiais da psique, ela não é inteiramente limitada pelo espaço e pelo tempo. Pode ter sonhos ou visões do futuro, pode ver mais longe do que as esquinas. Apenas a ignorância recusa tais factos. É evidente que eles existem... e sempre existiram. Mostram que a psique, ao menos parte dela, não depende desses limites.
- E daí?
- Se a psique não é obrigada a viver no espaço e no tempo apenas, e obviamente não vive, então até tal ponto a psique não está sujeita àquelas leis, o que indica uma continuação prática, uma espécie de existência psíquica além do tempo e do espaço.

Começamos pelo trivial.
O homem tem conhecimento de realidades alternativas, normalmente designadas por sonhos.
Ao dormir, o sonho inconsciente confronta-nos perante realidades que não têm lugar no espaço da realidade comum, que partilhamos com outros. Esses cenários alternativos não foram criados por nós, no sentido em que não fazemos a mais pálida ideia de como construímos o cenário do sonho, ou porquê. Também aí tomamos o lugar de personagens intervenientes numa realidade de que desconhecemos as regras, e que é suficientemente imprevisível e credível.

O sonho pode ser visto como um teste ao nosso pensamento em resposta a mundos diferentes do que conhecemos. Quem produz esses mundos? Não é o nosso consciente, e quanto ao inconsciente dificilmente podemos chamar-lhe "nosso"! É tão externo quanto a realidade que nos é oferecida, e é por isso que no sonho acreditamos estar a viver uma experiência real.
Como não é uma experiência partilhada, quando regressamos à realidade comum, há uma tendência clara de ser socialmente negligenciada... não o seria se um grupo de pessoas tivesse partilhado o mesmo sonho.

Em contrapartida, como ao individuo é atribuída a criação do sonho, através do seu inconsciente, também o indivíduo pode pensar que a realidade "comum" é produto do seu inconsciente.
Essa convicção solipsista foi especialmente notória na filosofia hindú, ou na concepção de Parménides, e nos resultantes idealismos, de Platão à escola idealista alemã.
No entanto, é indiferente... o que importa é que o indivíduo é sempre colocado perante uma realidade que não controla completamente. Pode acreditar que é o "seu" inconsciente, ou que é "outro" que origina essa realidade que percepciona. Esse "outro" tanto assumir a forma de crença numa divindade consciente, como a forma de crença numa ordem inconsciente (na perspectiva materialista).

Convirá aqui notar que a justificação para certas entidades, ou acontecimentos, não explicáveis pelo conhecimento comum, tem várias formas quase equivalentes. Consoante a época, podemos falar de deuses, magos, vampiros, alienígenas, etc... pouco importa. Não importa a forma, importa a sua essência. Há entidades que surgiram como metáforas literárias a um poder humano submerso, e que ganharam espaço no imaginário, propagando-se de forma errada por interpretação diversa dos leitores, e há outras que têm um conceito diferente.
Podemos chamar "vampiro" a um ser que suga o sangue, no mesmo sentido em que criticamos uma elite ociosa que subsiste do trabalho dos restantes. E neste caso o seu poder forma-se nas trevas, no secretismo, no desconhecimento da população, e tal como o vampiro, não suportará que caia luz sobre si.
Esta figura metafórica de Bram Stoker tanto fez a delícia dos que a compreendiam, como a dos que não compreendiam (apenas se assombravam com tal ideia) e por isso acabou por ser inócua, e fazer parte da cultura popular como um medo, o que até agradou às mesmas elites.
No sentido oposto, creio que se pretendeu depois substituir esses medos por uma ciência primária que ostracizou qualquer ideia de espiritualidade, varrendo todas as ocorrências mais estranhas para debaixo da ocultação. Fica assim confuso perceber o que são apenas manifestações literárias alegóricas, mitológicas, de outras que podem corresponder a verdadeira observação (por exemplo, uma questão serão os eventuais registos arqueológicos de gigantes).

Não se pode experimentar a ideia de morte na realidade "comum", no entanto há sonhos em que o próprio se vê confrontado com uma realidade cujo o único desfecho lógico, mesmo no mundo do sonho, seria a morte. Assim, o próprio pode aceitar nesse sonho a ideia de que morreu, mas dá consigo a pensar sobre isso, e percebe que não pode estar morto. Tem que acordar para outra realidade... e acorda!
Conforme diz Carl Jung, há uma distinção entre a morte individual e a morte dos outros. No espaço da realidade "comum" observa-se a morte dos outros, que se desligam do nosso convívio, e é uma consequência lógica da realidade partilhada por todos. No entanto, o simples materialismo não reconhece as suas contradições, e acaba por inventar umas partículas chamadas "pensões", que não justificam o pensamento, servem antes para financiar a sua ocultação.

Há uma realidade partilhada e uma realidade individual. Só o indivíduo que abdique por completo da vivência dos sonhos, atribuindo a si o que não é seu, chamando-lhe "inconsciente", pode negar essoutra realidade. A realidade partilhada, essa tem um fim previsto, quanto à outra, conforme diz Jung, há fortes razões para pensar que não se esgota nesta realidade. Tem nascimento neste útero da realidade terrestre, onde adquire consciência e ideias primevas, mas nada lógico impede que  prossiga para além desta realidade física.

Acreditar num acaso que formou este universo e mais nenhum outro, acaba por nos remeter e prender a uma visão funesta, redutora para além do necessário, em que é cultivado o excessivo medo da morte. E, como sabemos, os medos são excelentes recrutadores de vontades...
Nem sempre terá sido assim, já que as circunstâncias de guerra implicavam até uma visão voluntarista, em que o modelo de vida, a ideia da morte honrada, seria até usada no sentido oposto - recrutamento de guerreiros que não temiam a morte. Na maioria das vezes esses combatentes desconheceriam pouco mais do que um código de valores eficaz para a fidelidade ao líder, ou à tribo... podendo ser tribo de preservação genética, ou de preservação religiosa. Na prática foram progressivamente usados contabilisticamente por uma inteligência secreta, como autómatos em confrontação.

O que aprendemos em conjunto, e que vai para além desta realidade material, é que há noções abstractas que não são apenas ilusões individuais... e na pior das hipóteses serão ilusão da espécie humana. Essas noções abstractas estão na nossa linguagem, ajudaram a descrever e compreender a realidade comum, mas vão muito para além dela.
Nem calhaus, nem vegetais, pensam abstractamente (pode duvidar-se de alguns animais com comportamento social...), por isso essas noções abstractas só emergem da realidade através do nosso pensamento, e no entanto, pela abstracção matemática, acabamos por constatar que essas ilusões mentais têm afinal algum correspondente na nossa realidade, e servem para modelá-la.
Portanto pretende-se fazer crer que apenas esta realidade é possível, quando é esta própria realidade que nos induz ideias que mostram que ela é apenas um caso particular sujeita a leis de modelação, que até podemos grosseiramente simular em computador.

Poderemos até no futuro ser capazes de simular realidades virtuais, onde os pequenos entes computacionais ganhem cognição capaz de iludir uma auto-consciência, mas isso não faria de nós seus deuses, seríamos apenas criadores, já que as dúvidas sobre criação que levou à nossa própria existência não ficariam resolvidas por esse meio.

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publicado às 21:43

Um dos aspectos engraçados das ciências consiste em excluir da sua observação, da sua matéria de análise, o processo que levou à sua existência... ou seja, excluem-se os cientistas.
No maior pragmatismo material, pretende-se modelar, compreender, todos os processos racionais do universo, falando-se em coisas absurdas como o Big-Bang, etc... procurando transmitir uma ideia de grande potência e controlo, mas varre-se para debaixo do tapete uma constatação óbvia - ninguém faz a mais pálida ideia do processo que leva os cientistas a produzir tais modelos. 
Inventaram-se palavras para isso - inspiração, génio, etc... e a posteriori até podem tentar encontrar-se nexos justificativos, que não são ciência, mas mero prognóstico depois do desfecho. Conforme já foi aqui mostrado, tal capacidade está fora do alcance dentro do próprio sistema.

Assim, os materialistas que só vêem ciência, retiram o homem criador das suas equações.
Entram na mais básica contradição - pois não há matéria que justifique o homem que modela a matéria.

Apesar disso, não deixam de levar ao limite uma concepção universal, que praticamente chama "acaso" a tudo o que não consegue explicar. Conforme já dissemos, numa deriva algo ateísta, a visão científica introduziu o monoteísmo da deusa Fortuna... o "tive sorte" substitui o "graças a Deus". 
É claro que há reacções humanas semi-previsíveis, que podem constituir alguma ciência, mas não se aplicam a cada indivíduo, mas sim a grandes conjuntos... aliás como também se passa na ciência atómica.
A estatística pode funcionar bem se o sistema não for muito volátil...

Por isso, para efeitos de controlo humano, procuram-se estudos de acção-reacção... sendo mais ou menos óbvio que uma promoção de preços provocará um fluxo consumista. Induz-se ainda uma ideia de racionalidade, de filiação ideológica, que permite previsões eleitorais... ninguém considera possível que o eleitor assinale uma cruz "ao acaso"... e no entanto seria mais eficaz isso do que uma abstenção, ou voto em branco.
A ideia de racionalidade humana é muito útil para o controlo e organização da sociedade. Por isso, vão-se criando leis, modas, costumes, tendências, onde com base nessa racionalidade induzida se pode prever o comportamento humano. Apesar das pessoas terem a possibilidade de escolher a cor do seu vestuário, ninguém espera que mudem consoante as cores do arco-íris durante os 7 dias da semana. Ao contrário, o sistema até sugere quais as cores que estão "na moda", e uma boa parte das pessoas acaba por ter essa tendência adquirida de obedecer, seguindo a moda. Aliás, as modas de diversos grupos são  um bom aferidor da sua penetração, facilmente visível pelo sistema (caso paradigmático foram as tendências hippies ou punks, onde nem era necessário haver inquéritos para saber quantos existiam!)

O homem que se torna rígido, reactivo apenas a condicionantes externas, fica previsível, e em casos graves, abdica da sua individualidade, operando como uma máquina numa lógica em que a sua acção é apenas reacção. Há mau génio individual no pontapé que Salvador Dali dá num mendigo de Paris, para afirmar o seu surrealismo, enquanto há bom génio dos novos deuses ao deixarem cair a maçã na cabeça de Newton, permitindo a divulgação da teoria da gravidade. Para evitar os excessos do mau génio individual, que já conduziram a grande caos, os deuses do velho e novo panteão vão-no guardando numa Lucerna, só deixando escapar aquilo que não considerem perturbar a sua ordem.
Como morder a maçã do conhecimento é perigoso, pode haver génios autorizados, desde que o seu bom  génio seja controlável, e não ganhem vida própria a ponto de despertar o seu mau génio. 

Tal como a ciência produzida pelo Homem não será suficiente para justificar o Universo do ponto de vista material, também a visão religiosa clássica não é mais eficaz. Há diversas concepções, mas não são muito diferentes, talvez pretendendo mais modelar uma classe dirigente (normalmente diferem mais na forma física ou espiritual, e nas hierarquias e poderes atribuídos).

É claro que há uma concepção religiosa primeva, que assenta na possibilidade filosófica de cada homem se poder ver como um deus ensimesmado. O seu aspecto mais simples é ilustrado neste excelente cartoon de Bill Waterson:
(a frase final da mãe... I'll bet he grows up to be an Architect!)
[imagem em progressiveboink.com ]

Numa básica brincadeira infantil, Calvin ilustra essa capacidade de podermos agir como deuses, onde podemos decidir o curso da história, em que os bonecos são efectivas marionetas, peças mentais sujeitas ao enredo. Nesses enredos normalmente há uns escolhidos para maus, outros para bons, uns filhos da escrava má-sorte, outros filhos eleitos, destruições, etc... dir-se-ia coisas de crianças!
Porém, para além dessas criações de brincadeiras conscientes, sabemos ainda que somos alvo criações inconscientes, que aparecem sob a forma de sonhos. Também aí parecemos ter a capacidade de criar mundos, e graças a essa inconsciência, aparecemos até como personagens do próprio mundo que "criamos". Como sabemos, o nosso percurso nesses sonhos nem sempre é favorável, e o enredo pode virar pesadelo. No entanto, em condições normais, ninguém tem medo de partir para um mundo desconhecido, que é o mundo dos nossos próprios sonhos. Fazemos isso todas as noites, sem colocar o problema definitivo de nem sequer acordar... confiamos que acordaremos.

De facto, nada obsta considerar um nível superior criador de um nível inferior... o grande problema é que isso assume implicitamente uma sequência infindável de níveis superiores. A ideia da autocriação, a partir do nada, é semelhante à do Big-Bang... pode justificar, ou melhor, ilustrar, o resultado da criação, mas ignora completamente o processo criador. Para além disso, conforme evidenciado no texto Paradoxo do Pensador vai levar a contradições com ideias de omnipotência, omnisciência, e outras faculdades, a menos que sejam dirigidas ao nível inferior, e não ao próprio nível.

Aquilo que Calvin ilustra ainda é que o seu papel divino é solitário, e sem outra resposta dos bonecos, que não seja conhecida por si, a brincadeira rapidamente perderá o interesse, e ele irá procurar trocar experiências com outra criança, alguém imprevisível... até que se aborreça de novo com as incompreensões dos outros, e volte para o modo dos brinquedos obedientes.

A introdução de entidades externas, tanto pode resultar de necessidade de um complemento justificativo, como da necessidade de resolver um problema, funcionando aí quase o papel dos deuses como o de escravos, que deveriam cuidar das necessidades e problemas individuais dos humanos, garantindo-lhes ainda um lugar paradisíaco... já previamente construído! A ideia de serem os próprios humanos a empenharem-se em construir um paraíso terrestre, parece carregar o nome dado por Thomas More, será utopia.

É claro que há sempre a hipótese de nos fecharmos no universo feito à nossa medida, onde seremos os escolhidos, e onde os outros ou não têm lugar, ou terão que se encaixar, mas o seguimento desse fecho tem um desfecho mais ou menos previsível de ficarmos almas solitárias, pela eterna desconfiança nos outros. Essa eterna solidão nem resulta de um julgamento doutrém, surge como resultado do caminho seguido, pelo próprio julgamento.

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publicado às 07:57

Um dos aspectos engraçados das ciências consiste em excluir da sua observação, da sua matéria de análise, o processo que levou à sua existência... ou seja, excluem-se os cientistas.
No maior pragmatismo material, pretende-se modelar, compreender, todos os processos racionais do universo, falando-se em coisas absurdas como o Big-Bang, etc... procurando transmitir uma ideia de grande potência e controlo, mas varre-se para debaixo do tapete uma constatação óbvia - ninguém faz a mais pálida ideia do processo que leva os cientistas a produzir tais modelos. 
Inventaram-se palavras para isso - inspiração, génio, etc... e a posteriori até podem tentar encontrar-se nexos justificativos, que não são ciência, mas mero prognóstico depois do desfecho. Conforme já foi aqui mostrado, tal capacidade está fora do alcance dentro do próprio sistema.

Assim, os materialistas que só vêem ciência, retiram o homem criador das suas equações.
Entram na mais básica contradição - pois não há matéria que justifique o homem que modela a matéria.

Apesar disso, não deixam de levar ao limite uma concepção universal, que praticamente chama "acaso" a tudo o que não consegue explicar. Conforme já dissemos, numa deriva algo ateísta, a visão científica introduziu o monoteísmo da deusa Fortuna... o "tive sorte" substitui o "graças a Deus". 
É claro que há reacções humanas semi-previsíveis, que podem constituir alguma ciência, mas não se aplicam a cada indivíduo, mas sim a grandes conjuntos... aliás como também se passa na ciência atómica.
A estatística pode funcionar bem se o sistema não for muito volátil...

Por isso, para efeitos de controlo humano, procuram-se estudos de acção-reacção... sendo mais ou menos óbvio que uma promoção de preços provocará um fluxo consumista. Induz-se ainda uma ideia de racionalidade, de filiação ideológica, que permite previsões eleitorais... ninguém considera possível que o eleitor assinale uma cruz "ao acaso"... e no entanto seria mais eficaz isso do que uma abstenção, ou voto em branco.
A ideia de racionalidade humana é muito útil para o controlo e organização da sociedade. Por isso, vão-se criando leis, modas, costumes, tendências, onde com base nessa racionalidade induzida se pode prever o comportamento humano. Apesar das pessoas terem a possibilidade de escolher a cor do seu vestuário, ninguém espera que mudem consoante as cores do arco-íris durante os 7 dias da semana. Ao contrário, o sistema até sugere quais as cores que estão "na moda", e uma boa parte das pessoas acaba por ter essa tendência adquirida de obedecer, seguindo a moda. Aliás, as modas de diversos grupos são  um bom aferidor da sua penetração, facilmente visível pelo sistema (caso paradigmático foram as tendências hippies ou punks, onde nem era necessário haver inquéritos para saber quantos existiam!)

O homem que se torna rígido, reactivo apenas a condicionantes externas, fica previsível, e em casos graves, abdica da sua individualidade, operando como uma máquina numa lógica em que a sua acção é apenas reacção. Há mau génio individual no pontapé que Salvador Dali dá num mendigo de Paris, para afirmar o seu surrealismo, enquanto há bom génio dos novos deuses ao deixarem cair a maçã na cabeça de Newton, permitindo a divulgação da teoria da gravidade. Para evitar os excessos do mau génio individual, que já conduziram a grande caos, os deuses do velho e novo panteão vão-no guardando numa Lucerna, só deixando escapar aquilo que não considerem perturbar a sua ordem.
Como morder a maçã do conhecimento é perigoso, pode haver génios autorizados, desde que o seu bom  génio seja controlável, e não ganhem vida própria a ponto de despertar o seu mau génio. 

Tal como a ciência produzida pelo Homem não será suficiente para justificar o Universo do ponto de vista material, também a visão religiosa clássica não é mais eficaz. Há diversas concepções, mas não são muito diferentes, talvez pretendendo mais modelar uma classe dirigente (normalmente diferem mais na forma física ou espiritual, e nas hierarquias e poderes atribuídos).

É claro que há uma concepção religiosa primeva, que assenta na possibilidade filosófica de cada homem se poder ver como um deus ensimesmado. O seu aspecto mais simples é ilustrado neste excelente cartoon de Bill Waterson:
(a frase final da mãe... I'll bet he grows up to be an Architect!)
[imagem em progressiveboink.com ]

Numa básica brincadeira infantil, Calvin ilustra essa capacidade de podermos agir como deuses, onde podemos decidir o curso da história, em que os bonecos são efectivas marionetas, peças mentais sujeitas ao enredo. Nesses enredos normalmente há uns escolhidos para maus, outros para bons, uns filhos da escrava má-sorte, outros filhos eleitos, destruições, etc... dir-se-ia coisas de crianças!
Porém, para além dessas criações de brincadeiras conscientes, sabemos ainda que somos alvo criações inconscientes, que aparecem sob a forma de sonhos. Também aí parecemos ter a capacidade de criar mundos, e graças a essa inconsciência, aparecemos até como personagens do próprio mundo que "criamos". Como sabemos, o nosso percurso nesses sonhos nem sempre é favorável, e o enredo pode virar pesadelo. No entanto, em condições normais, ninguém tem medo de partir para um mundo desconhecido, que é o mundo dos nossos próprios sonhos. Fazemos isso todas as noites, sem colocar o problema definitivo de nem sequer acordar... confiamos que acordaremos.

De facto, nada obsta considerar um nível superior criador de um nível inferior... o grande problema é que isso assume implicitamente uma sequência infindável de níveis superiores. A ideia da autocriação, a partir do nada, é semelhante à do Big-Bang... pode justificar, ou melhor, ilustrar, o resultado da criação, mas ignora completamente o processo criador. Para além disso, conforme evidenciado no texto Paradoxo do Pensador vai levar a contradições com ideias de omnipotência, omnisciência, e outras faculdades, a menos que sejam dirigidas ao nível inferior, e não ao próprio nível.

Aquilo que Calvin ilustra ainda é que o seu papel divino é solitário, e sem outra resposta dos bonecos, que não seja conhecida por si, a brincadeira rapidamente perderá o interesse, e ele irá procurar trocar experiências com outra criança, alguém imprevisível... até que se aborreça de novo com as incompreensões dos outros, e volte para o modo dos brinquedos obedientes.

A introdução de entidades externas, tanto pode resultar de necessidade de um complemento justificativo, como da necessidade de resolver um problema, funcionando aí quase o papel dos deuses como o de escravos, que deveriam cuidar das necessidades e problemas individuais dos humanos, garantindo-lhes ainda um lugar paradisíaco... já previamente construído! A ideia de serem os próprios humanos a empenharem-se em construir um paraíso terrestre, parece carregar o nome dado por Thomas More, será utopia.

É claro que há sempre a hipótese de nos fecharmos no universo feito à nossa medida, onde seremos os escolhidos, e onde os outros ou não têm lugar, ou terão que se encaixar, mas o seguimento desse fecho tem um desfecho mais ou menos previsível de ficarmos almas solitárias, pela eterna desconfiança nos outros. Essa eterna solidão nem resulta de um julgamento doutrém, surge como resultado do caminho seguido, pelo próprio julgamento.

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publicado às 23:57

Puto de Vénus

20.08.11
Um famoso quadro de Botticeli, "Nascimento de Vénus" ilustra o nascimento de Afrodite/Vénus, das ondas do mar (Ponto), resultado do corte adamantino de Cronos a Urano:
(é dito que Botticeli teria seguido uma descrição de Angelo Poliziano)

A modelo usada para o quadro foi Vespucci, Simonetta Vespucci, que casou em Florença com Marco, um primo de Alberico, depois dito Américo, Vespucci.

Convém notar que há uma confusão de Afrodites... uma original, que é a que sempre referimos - a Afrodite Uraniana, ligada a Dione, e a sua filha com Zeus, designada Afrodite Pandemos, ligada ao amor físico.
Parténon: Vesta, Dione e Afrodite (Pandemos).

Se começámos a "Questão Gaia" com uma ousada ligação de Gaia pela substituição de I por J, o que daria Gaja, e falámos ainda dos gaiatos, vamos terminar o tópico com os "Putos".

Putti
Os Putos são pequenas crianças, representados na Arte Renascentista e Barroca, e que não são exactamente os habituais anjos (Querubins e Serafins) - têm "estatuto inferior" por serem associados a entidades pagãs - ou seja, Cupido/Eros:


A associação de Vénus a Cupido é bem conhecida e antiga. A entidade pagã, a pequena criança que dispara setas de amor, é o original Puto de Vénus. Há uma relação maternal que se estabeleceu entre estas duas divindades, caso raro em que são representadas quase sempre em conjunto:
Afrodite com Eros 
(terracota do Séc. IV a.C., Hermitage Museum)

Após o Renascimento, esta representação singular de associação divina, numa relação mãe-filho, será retomada em múltiplos quadros... e como é óbvio não estamos a referir-nos apenas à representação destas divindades pagãs. Esta relação nem será nenhuma novidade, pois há vários textos que sinalizam as semelhanças.

A relação divina entre mãe e filho passa claramente para o catolicismo, e será um dos focos de cisma entre protestantes e católicos. Numa primeira análise superficial esta associação seria desadequada para ser retomada pelo catolicismo... mas depende do nível a que a colocamos. Tal como existia uma Afrodite primordial, na Teogonia de Hesíodo também Eros é colocado a um nível ainda mais primevo, um amor surgindo como fonte de luz, e resultando do Caos, tal como Gaia e Tártaro (Eros, é assim mesmo anterior a Urano, filho de Gaia). Como Afrodite, também Eros tem uma segunda encarnação, mais conhecida, enquanto filho de Afrodite e Ares, e é aí representado como uma criança que surge da relação entre os deuses do amor e da guerra, que dispara flechas de paixão. (Este novo Eros será mesmo vítima da sua própria flecha, ficando apaixonado por Psique, numa história que terá inspirado o beijo da Bela Adormecida.)

A representação simultânea de Vénus e Cupido, está muitas vezes presente na pintura e escultura:

 
Venus e Cupido / Afrodite e Eros

Não colocamos aqui a imagem da mais famosa Vénus de Milo... mas, seguindo esta linha, talvez não faltassem apenas os braços, talvez faltasse ainda um Cupido ao colo (assim o sugere o olhar, a posição da perna avançada e do braço elevado). Uma representação assim poderia colidir de "forma grave" com as imagens clássicas, denominadas "Madonas"... isso justificaria a mutilação, uma polémica secreta e a consequente fama associada à estátua. Se Renoir a chamou "grande polícia" talvez não se referisse à falta de beleza, que claramente possui, mas sim ao que representaria a sua mutilação. 
Mais precisamente, aludimos a uma possível representação desta forma:

Há, é claro, uma versão alternativa, relacionada com a devolução da Vénus de Medici, que tem ambos os braços em baixo,  tal como a Afrodite de Cnido (onde Eros está ausente). Aliás a própria "Vénus de Medici" tem uma cópia com um Cupido maior:
 
"Venus de Medici" (de Praxiteles?) e "cópia romana" (imagens)


Vieira
Na representação de Botticeli temos essa Vénus primordial, que emerge adulta da espuma do mar primevo, como uma pérola de uma vieira (ou ostra). Isso já ocorre antes, conforme podemos ver num fresco de Pompeia:
Há assim, uma associação muito antiga, que liga o nascimento de Vénus, enquanto deusa primeva do amor, a uma vieira, e que foi recuperada no quadro de Botticeli.
Não podemos deixar de notar que essa vieira é ainda o símbolo de Santiago, e que os peregrinos seguiam esse caminho levando num cajado esse símbolo primevo do amor. A mensagem profunda da vieira de Santiago, é assim o reflexo em Cristo desse símbolo ancestral do amor espiritual, ligado ao nascimento da Afrodite Uraniana.
Isso terá tido uma grande influência na comunidade peninsular que já venerava Cupido (chamado Endovélico), conforme escreveu Carvalho da Costa. Venerar, de Venera (Vénus), é aqui mesmo a palavra correcta. A relação entre mãe e filho terá factores acrescidos de ligação, na propagação dessa mensagem de amor primeiro. O caso singular do cristianismo enquanto religião é a capacidade de colocar um Deus omnipotente em posição humana, com as fragilidades inerentes na situação de reflexão literal, recuperando uma noção primeva de amor, complemento ao equilíbrio dinâmico, possível com o corte temporal de Cronos.
A lâmina adamantina de Cronos cindiu um universo de todos os tempos, de Úrano, mostrando um tempo de cada vez, em contínuo. As ideias, os verbos, iriam ser definidos pela sua emergência dessa sequência imparável. O tempo surgia assim como uma ilusão de reprodução dinâmica do estado anterior, saindo de todo o caos possível uma aparente inteligibilidade. É assim que emerge a noção de amor, de partilha dinâmica do mesmo universo, pelos seres pensantes... e esse amor pode ser local, quando os seres reduzem o seu universo, a uma pessoa, ou a uma ocasião, ou pode ter contornos mais profundos, procurando uma harmonia global. Digamos que estão definidos todos os caminhos das Moiras, mas não o caminho que cada um decide seguir... é isso que o define enquanto ser emergente da estrutura estática, e que assim passa a "existir" na "ilusão" temporal.

Pombas e Peleiades
Se o Corvo está muitas vezes associado a Helios/Sol/Apolo, por outro lado, a pomba está associada a Afrodite e a Eros, havendo várias representações nesse sentido!

Será escusado dizer que também a pomba foi colocada no cristianismo como elemento revelador a Maria, para a concepção de Jesus, e ainda como um símbolo de paz e amor ligado à mensagem cristã.
Deus ao colocar-se numa posição humana através de Cristo, terá o seu complemento, o Espírito Santo, representado na pomba. Fica obviamente definida a trindade inevitável, pela abnegação do todo numa parte... teria que existir o seu complemento. 
Convirá referir que Zeus, escrito com um dzeta, se poderá ler Dzeus, da mesma forma que na componente romana, Júpiter tinha como nome alternativo Jove, que não difere muito de Jeova. Ou seja, os nomes não são assim tão diferentes quanto aparentam, à primeira vista... 

Peleiades significa em grego - pombas, e encontramos aqui ligação à designação das Pleiades, que enquanto agrupamento estelar representa as filhas de Atlas, um bando de pombas perseguidas pelo caçador Orion,. As referências às Pleiades são variadas, e estão inevitavelmente ligadas ao Ocidente, ao paraíso perdido, após o Atlas e Atlântico. 
Limite do Atlântico que será quebrado, após o Corvo (ilha), por um pombo que se chamará Colombo.
Colombo terá sido antes Colón, ou terá tido outro nome... mas seria afinal um pombo que se iria juntar às pombas passando o Atlântico, do pai Atlas que sustentava o mundo. A viagem de Colombo toma assim um aspecto simbólico de revelação, que ultrapassou o limite ocidental do Corvo, ave de Apolo.
[Peleiades era ainda o nome das sacerdotisas do templo de Dodona, ligado a Gaia, Reia e Dione (de alguma forma identificadas), sendo Dione a Afrodite Uraniana.]

Vénus ou Lucifer?
Uma das Pleiades é Maia, filha de Atlas e mãe de Hermes/Mercúrio. Tal como Gaia e Reia, também Maia acabou por ser uma divindade ligada à Terra, em diversas culturas. 
Se Vénus estava ligada a Mercúrio, e como ambos os planetas têm órbitas aparentes próximas um do outro, e próximas do Sol, não é de excluir que Mercúrio possa ter sido identificado ainda a Eros/Cupido. Há outros aspectos que concorrem nesse sentido, nomeadamente a célebre menção do Hermes Trimegisto e o hermético Hermetismo, onde a mensagem do caduceu se complementará com as ligações pelas setas de Cupido.

Um aspecto sinistro nestas ligações mitológicas, acabam por ser as contradições propositadas, criadas com objectivos obscuros... um dos mais evidentes é transformar Lucifer (em latim "o portador da luz"), a estrela da manhã, ou seja Vénus, a deusa do amor, numa personificação do mal. Como vimos, as contradições disto seriam totais, se Vénus não fosse também a estrela da tarde, e como tal Hesper... a esperança! 
É claro que, pretendendo-se manter a obscuridade, qualquer luz será encarada como um mal, que subverte a ordem instalada... nem que para isso se tenham que colocar educacionalmente reflexos condicionados. Pensar-se-à assim sobrepor uma "verdade social fabricada", mas até quando? Até que ponto será preciso ir, para que a verdade do passado deixe de pesar sobre o presente e ensombrar/assombrar o futuro?

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publicado às 07:56

Puto de Vénus

19.08.11
Um famoso quadro de Botticeli, "Nascimento de Vénus" ilustra o nascimento de Afrodite/Vénus, das ondas do mar (Ponto), resultado do corte adamantino de Cronos a Urano:
(é dito que Botticeli teria seguido uma descrição de Angelo Poliziano)

A modelo usada para o quadro foi Vespucci, Simonetta Vespucci, que casou em Florença com Marco, um primo de Alberico, depois dito Américo, Vespucci.

Convém notar que há uma confusão de Afrodites... uma original, que é a que sempre referimos - a Afrodite Uraniana, ligada a Dione, e a sua filha com Zeus, designada Afrodite Pandemos, ligada ao amor físico.
Parténon: Vesta, Dione e Afrodite (Pandemos).

Se começámos a "Questão Gaia" com uma ousada ligação de Gaia pela substituição de I por J, o que daria Gaja, e falámos ainda dos gaiatos, vamos terminar o tópico com os "Putos".

Putti
Os Putos são pequenas crianças, representados na Arte Renascentista e Barroca, e que não são exactamente os habituais anjos (Querubins e Serafins) - têm "estatuto inferior" por serem associados a entidades pagãs - ou seja, Cupido/Eros:


A associação de Vénus a Cupido é bem conhecida e antiga. A entidade pagã, a pequena criança que dispara setas de amor, é o original Puto de Vénus. Há uma relação maternal que se estabeleceu entre estas duas divindades, caso raro em que são representadas quase sempre em conjunto:
Afrodite com Eros 
(terracota do Séc. IV a.C., Hermitage Museum)

Após o Renascimento, esta representação singular de associação divina, numa relação mãe-filho, será retomada em múltiplos quadros... e como é óbvio não estamos a referir-nos apenas à representação destas divindades pagãs. Esta relação nem será nenhuma novidade, pois há vários textos que sinalizam as semelhanças.

A relação divina entre mãe e filho passa claramente para o catolicismo, e será um dos focos de cisma entre protestantes e católicos. Numa primeira análise superficial esta associação seria desadequada para ser retomada pelo catolicismo... mas depende do nível a que a colocamos. Tal como existia uma Afrodite primordial, na Teogonia de Hesíodo também Eros é colocado a um nível ainda mais primevo, um amor surgindo como fonte de luz, e resultando do Caos, tal como Gaia e Tártaro (Eros, é assim mesmo anterior a Urano, filho de Gaia). Como Afrodite, também Eros tem uma segunda encarnação, mais conhecida, enquanto filho de Afrodite e Ares, e é aí representado como uma criança que surge da relação entre os deuses do amor e da guerra, que dispara flechas de paixão. (Este novo Eros será mesmo vítima da sua própria flecha, ficando apaixonado por Psique, numa história que terá inspirado o beijo da Bela Adormecida.)

A representação simultânea de Vénus e Cupido, está muitas vezes presente na pintura e escultura:

 
Venus e Cupido / Afrodite e Eros

Não colocamos aqui a imagem da mais famosa Vénus de Milo... mas, seguindo esta linha, talvez não faltassem apenas os braços, talvez faltasse ainda um Cupido ao colo (assim o sugere o olhar, a posição da perna avançada e do braço elevado). Uma representação assim poderia colidir de "forma grave" com as imagens clássicas, denominadas "Madonas"... isso justificaria a mutilação, uma polémica secreta e a consequente fama associada à estátua. Se Renoir a chamou "grande polícia" talvez não se referisse à falta de beleza, que claramente possui, mas sim ao que representaria a sua mutilação. 
Mais precisamente, aludimos a uma possível representação desta forma:

Há, é claro, uma versão alternativa, relacionada com a devolução da Vénus de Medici, que tem ambos os braços em baixo,  tal como a Afrodite de Cnido (onde Eros está ausente). Aliás a própria "Vénus de Medici" tem uma cópia com um Cupido maior:
 
"Venus de Medici" (de Praxiteles?) e "cópia romana" (imagens)


Vieira
Na representação de Botticeli temos essa Vénus primordial, que emerge adulta da espuma do mar primevo, como uma pérola de uma vieira (ou ostra). Isso já ocorre antes, conforme podemos ver num fresco de Pompeia:
Há assim, uma associação muito antiga, que liga o nascimento de Vénus, enquanto deusa primeva do amor, a uma vieira, e que foi recuperada no quadro de Botticeli.
Não podemos deixar de notar que essa vieira é ainda o símbolo de Santiago, e que os peregrinos seguiam esse caminho levando num cajado esse símbolo primevo do amor. A mensagem profunda da vieira de Santiago, é assim o reflexo em Cristo desse símbolo ancestral do amor espiritual, ligado ao nascimento da Afrodite Uraniana.
Isso terá tido uma grande influência na comunidade peninsular que já venerava Cupido (chamado Endovélico), conforme escreveu Carvalho da Costa. Venerar, de Venera (Vénus), é aqui mesmo a palavra correcta. A relação entre mãe e filho terá factores acrescidos de ligação, na propagação dessa mensagem de amor primeiro. O caso singular do cristianismo enquanto religião é a capacidade de colocar um Deus omnipotente em posição humana, com as fragilidades inerentes na situação de reflexão literal, recuperando uma noção primeva de amor, complemento ao equilíbrio dinâmico, possível com o corte temporal de Cronos.
A lâmina adamantina de Cronos cindiu um universo de todos os tempos, de Úrano, mostrando um tempo de cada vez, em contínuo. As ideias, os verbos, iriam ser definidos pela sua emergência dessa sequência imparável. O tempo surgia assim como uma ilusão de reprodução dinâmica do estado anterior, saindo de todo o caos possível uma aparente inteligibilidade. É assim que emerge a noção de amor, de partilha dinâmica do mesmo universo, pelos seres pensantes... e esse amor pode ser local, quando os seres reduzem o seu universo, a uma pessoa, ou a uma ocasião, ou pode ter contornos mais profundos, procurando uma harmonia global. Digamos que estão definidos todos os caminhos das Moiras, mas não o caminho que cada um decide seguir... é isso que o define enquanto ser emergente da estrutura estática, e que assim passa a "existir" na "ilusão" temporal.

Pombas e Peleiades
Se o Corvo está muitas vezes associado a Helios/Sol/Apolo, por outro lado, a pomba está associada a Afrodite e a Eros, havendo várias representações nesse sentido!

Será escusado dizer que também a pomba foi colocada no cristianismo como elemento revelador a Maria, para a concepção de Jesus, e ainda como um símbolo de paz e amor ligado à mensagem cristã.
Deus ao colocar-se numa posição humana através de Cristo, terá o seu complemento, o Espírito Santo, representado na pomba. Fica obviamente definida a trindade inevitável, pela abnegação do todo numa parte... teria que existir o seu complemento. 
Convirá referir que Zeus, escrito com um dzeta, se poderá ler Dzeus, da mesma forma que na componente romana, Júpiter tinha como nome alternativo Jove, que não difere muito de Jeova. Ou seja, os nomes não são assim tão diferentes quanto aparentam, à primeira vista... 

Peleiades significa em grego - pombas, e encontramos aqui ligação à designação das Pleiades, que enquanto agrupamento estelar representa as filhas de Atlas, um bando de pombas perseguidas pelo caçador Orion,. As referências às Pleiades são variadas, e estão inevitavelmente ligadas ao Ocidente, ao paraíso perdido, após o Atlas e Atlântico. 
Limite do Atlântico que será quebrado, após o Corvo (ilha), por um pombo que se chamará Colombo.
Colombo terá sido antes Colón, ou terá tido outro nome... mas seria afinal um pombo que se iria juntar às pombas passando o Atlântico, do pai Atlas que sustentava o mundo. A viagem de Colombo toma assim um aspecto simbólico de revelação, que ultrapassou o limite ocidental do Corvo, ave de Apolo.
[Peleiades era ainda o nome das sacerdotisas do templo de Dodona, ligado a Gaia, Reia e Dione (de alguma forma identificadas), sendo Dione a Afrodite Uraniana.]

Vénus ou Lucifer?
Uma das Pleiades é Maia, filha de Atlas e mãe de Hermes/Mercúrio. Tal como Gaia e Reia, também Maia acabou por ser uma divindade ligada à Terra, em diversas culturas. 
Se Vénus estava ligada a Mercúrio, e como ambos os planetas têm órbitas aparentes próximas um do outro, e próximas do Sol, não é de excluir que Mercúrio possa ter sido identificado ainda a Eros/Cupido. Há outros aspectos que concorrem nesse sentido, nomeadamente a célebre menção do Hermes Trimegisto e o hermético Hermetismo, onde a mensagem do caduceu se complementará com as ligações pelas setas de Cupido.

Um aspecto sinistro nestas ligações mitológicas, acabam por ser as contradições propositadas, criadas com objectivos obscuros... um dos mais evidentes é transformar Lucifer (em latim "o portador da luz"), a estrela da manhã, ou seja Vénus, a deusa do amor, numa personificação do mal. Como vimos, as contradições disto seriam totais, se Vénus não fosse também a estrela da tarde, e como tal Hesper... a esperança! 
É claro que, pretendendo-se manter a obscuridade, qualquer luz será encarada como um mal, que subverte a ordem instalada... nem que para isso se tenham que colocar educacionalmente reflexos condicionados. Pensar-se-à assim sobrepor uma "verdade social fabricada", mas até quando? Até que ponto será preciso ir, para que a verdade do passado deixe de pesar sobre o presente e ensombrar/assombrar o futuro?

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publicado às 23:56

Teogonias (3)

13.08.11
Um acontecimento não desprezável, e que merece a nossa atenção como "coincidência" notável é o seguinte:
- a filosofia e o saber grego apareceram após a subida ao poder de Ciro, o Grande, e consolidação do Império Aqueménida... na Pérsia!
... mas não só, aparecem ainda pouco depois - Buda, na Índia, e Confúcio, na China.
O que tinha de notável, o novo império aqueménida?
- seguia a doutrina de Zaratustra (Zoroastro), tendo como entidade suprema Mazda (Ahura).

 
(falcão que olha o oriente?... depois no zoroastrismo as águias olhavam o ocidente 
- tal como romanas, americanas, ou mesmo nazis... a  opção dupla cabeça foi Habsburgo)

Os conflitos entre gregos e persas começam justamente com esta expansão aqueménida... (e digamos que se os gregos já escreviam da esquerda para a direita, a língua avéstica fazia o contrário, como era comum à época... apenas um detalhe, como é claro!)

A questão principal é que houve conhecimento similar que foi difundido, e iluminou subitamente vários povos, nas fronteiras da expansão aqueménida, sobretudo feita por Ciro, Cambisses e Dario. É ainda nessa altura que se dá a libertação judaica, do cativeiro na Babilónia, e se recompilam os textos bíblicos. A transição do Séc. VI a.C. para o Séc. V a.C. parece ser assim uma altura de salto no conhecimento e religião.

A expressão mais notável é a grega... podemos dizer que acordam subitamente, e começam a debitar vários tratados, com uma profundidade que não parece ter paralelo anteriormente. É evidente que o conhecimento persa não está ausente, mas muito podia estar presente pelo lado dos babilónios!
Perante a invasão persa, e adopção da nova religião, o Zoroastrismo (que os sacerdotes Medos haviam combatido) era natural algum medo face ao desequilíbrio na ordem hierárquica da classe. Os magos vão ser os novos sacerdotes do zoroastrismo.

Os egípcios não conseguem fazer face ao avanço persa, mas uma Grécia ainda arcaica, acordando para o registo histórico, vai suster de forma surpreendente o embate - em proporções que são ilustradas pela defesa das Termópilas. Havia é claro, toda a Guerra de Tróia, e até uma Guerra contra os Atlantes, que passaram a fazer parte da história que se escreveu e consolidou nessa altura, onde os gregos de então se identificaram com os aqueus, nessa altura já lendas com muitos séculos ou milhares de anos.

A Grécia passou a ser lugar de embate entre duas concepções... um modelo de racionalidade e progresso, mas ao mesmo tempo um modelo místico, que não se desligava do panteão de deuses, dos oráculos, das oferendas, das decisões tomadas pelas entranhas ou voo dos pássaros.
Levantamos a hipótese de a Grécia ser ainda um campo externo de uma guerra interna que se passava no Império Aqueménida... entre os novos magos do zoroastrismo, e os antigos sacerdotes babilónios. Os primeiros procuravam que os gregos aderissem ao império e à filosofia de Zaratustra, os segundos quereriam a resistência grega, como forma de segurar a expansão e voltar ao culto dos velhos deuses. O conflito entre racionalidade e o misticismo teve o seu episódio com Sócrates e a cicuta...
Com Aristóteles e Alexandre, a defesa grega passa a ataque macedónico, e os persas são mais uma vez surpreendentemente derrotados, a ponto de perderem o império num par de anos. Porém, as políticas de Alexandre não corresponderiam exactamente ao acordo de quem tão prontamente o acolheu e inseriu. Alexandre queria ir mais longe, para além da Pérsia, e seguiria a filosofia grega... mas morreu demasiado cedo. O império estilhaçou na divisão interna entre os generais. Preparava-se um novo império, o romano, onde mais uma vez imperou o conflito entre adeptos republicanos e os da monarquia imperial.
Com o fim da República e a instalação do Império Romano terminaram as expansões territoriais significativas, e até o génio inventivo e literário começou a estagnar. O Mundus Clausus, fechado sobre os limites antigos chegou a deixar aventuras para além das Colunas de Hércules como primeiras obras de ficção científica, com reinos alienígenas e viagens à Lua (caso de Luciano de Samosata).
Se o advento cristão teve a benção dos (reis) magos, o modelo que a igreja cristã seguiu foi um modelo de casta sacerdotal, seguido por Roma e Bizâncio, após Constantino.
Ainda assim, o Império Romano seria demasiado heterogéneo, multi-racial e multi-cultural... um imperador poderia resultar de equilíbrios de forças instáveis, e raras vezes seguia a linha hereditária. Os segredos não eram tão estanques, quanto pretendido, e flutuavam numa classe demasiado vasta...
Mais eficaz seria introduzir um factor racial, fácil distintivo... a escolha recaiu sobre os godos, que ficaram encarregues de preservar uma linhagem aristocrata, que se misturasse pouco com as populações autóctones. Como sempre, se os romanos tinham um poder esmagador e conseguiram suster a divisão do Império com Aureliano, nunca conseguiram grandes progressões a norte... já estariam designados os godos/suevos como possíveis sucessores.
Ao mesmo tempo conseguia-se um retrocesso civilizacional, que caracterizou a Idade Média, e que com Carlos Magno assumiu contornos de novo império romano, perfeitamente controlado, com hierarquias e castas bem definidas... nenhum soldado passaria a general e daí a imperador, como podia acontecer em Roma. A casta tinha o modelo ariano, afinal aquele que desde o princípio estava centrado na extensa zona de influência babilónica/persa/indiana, e serviu não só na Europa, mas ainda como modelo racial no sistema de castas da Índia. Curiosamente, é ainda ariano o nome da filosofia monofisista que os godos vão adoptar, mas por nomeação de Arius de Alexandria, seu proponente.
Esta linha ariana acaba por ser derrotada sucessivamente, afinal os magos teriam confirmado o carácter divino de Jesus Cristo,  cuja vida em muitos aspectos tem analogias assinaladas com o percurso do próprio Zaratustra. O ataque ao que restava do Império Romano será feito pelos árabes. Constantinopla resiste até quando pode... e a Península Ibérica fica também embrenhada em guerras de reconquista. O Mediterrâneo antigo mar estável, fica em permanente confronto entre duas civilizações que não se falam, divergindo profundamente na questão da vinda do Messias (e de Maomé enquanto profeta). Será esse o principal foco da discórdia entre cristãos, judeus e árabes.

A Península Ibérica ficou como território ambíguo, resistiu à invasão árabe, e também ao Império de Carlos Magno, na sua derrota em Roncesvalles (haverá uma outra Roncesvalles com Napoleão).
O mais significativo nisto é que só no momento em que o Infante D. Pedro se coloca ao serviço do Imperador Sacro-Germânico é que de alguma forma os reis portugueses se sujeitam a alguma vassalagem imperial, passam a ter o direito a ter Príncipes (deixa de haver Infantes...), e as suas viagens marítimas começam a ter chancela oficial.
A Europa tem autorização de expansão, para além das fronteiras... Portugal e Espanha vão dar relevância aos Reis Magos nalgumas nomeações que vão fazer. A situação é estranha, ao ponto da Europa estar ao mesmo tempo ameaçada com a queda de Constantinopla, até Viena e Veneza, e  ameaçar o Império Otomano nas paragens orientais com a presença portuguesa no Suez, em Ormuz, etc...
As navegações ficam de novo suspensas - há territórios proibidos... e surge novo conflito ideológico.
De um lado, uma cultura protestante procurando manter um monoteísmo, e do outro lado o catolicismo abre uma quantidade enorme de devoções secundárias. O fecho da Igreja Católica usa métodos drásticos, especialmente com a Inquisição, e continua a restringir alguns territórios. O Renascimento já iniciado, que basicamente vai repiscar e republicar toda a literatura antiga, proibida, fica em perigo.
A herança que ficara em Alexandria e Constantinopla, vai passar pela Hispânia, tendo árabes e judeus como transmissores. Mas esse privilégio hispânico cai definitivamente na Guerra dos 30 anos... e o novo avanço será dado pelo lado protestante, que também vai colaborar no esquema de ocultação, mas através de instituições secretas.
Uma coisa será o poder estabelecido e visível, outra coisa completamente diferente serão os acordos entre nações. A ocultação será mantida, e voltamos ao velho problema... como evitar que os segredos ou o poder caia na mão de um cidadão que passa a imperador?
O teste maior terá sido feito na Revolução Francesa e com Napoleão. Viram-se aí os barretes frígios, mas a Verdade não se impõe num ápice sobre a "verdade social". A "verdade social" é volátil, e precisa de um farol de referência... o resultado foi caótico, onde tudo seria alvo de dúvida, e os executores passaram a executados, no Regime de Terror que se seguiu a 1789. Napoleão foi uma solução contra esse caos, mas pelo lado indesejado... julgou deter um poder absoluto, e ao coroar-se imperador, não se terá apercebido da dimensão do problema que enfrentava (aliás, tal como terá ocorrido com D. Sebastião)... o sistema aristocrático implantado deixou de o considerar como um problema, ao ponto da Conferência de Viena ter mesmo começado antes de se ter dado a Batalha de Waterloo (que definiria o seu asilo final).

Se a anterior lógica era uma lógica repressiva, dispendiosa e que abria novas brechas de conflito, a implantação monetária definiu novos executantes e um novo sistema. A "verdade social" tinha um preço, que cada nação tinha de preservar na "fabricação"... estímulos monetários, reconhecimentos, etc, tudo iria servir para garantir a preservação dos segredos. Controlando o sistema de publicação, o sistema de divulgação, a "verdade social fabricada" poderia ser mantida, criando manobras de diversão, prémios ou ameaças veladas se necessário.
Para os inseridos no sistema não há outra solução sob pena de se cair na desordem ou fraqueza... uma parte não pode abrir o jogo unilateralmente, sob pena de ser aproveitado pela outra. Após séculos de conflito, não há confiança entre as partes para que possam deixar cair a máscara - até porque ninguém vai querer aparecer como parte fraca na fotografia. Assim, a certeza aparente é a de que o sistema se deve manter, ou então que se deve ainda fechar mais. A pressão de divulgação é vista como tentativa de uns para trocarem os lugares de poder com os outros... porque tudo é sempre visto numa lógica de poder. Será difícil distinguir entre aqueles que o querem fazer sinceramente, e os que o querem fazer aparentemente, preparando a estratégia seguinte. Uns gozam com outros, de maneira explícita ou velada para a população, mas sabendo que há muitos que percebem os códigos, coisas habitualmente infantis e perversas, aprendidas em muitos séculos de diletantismo nas cortes. Esse pretenso elitismo, fruto de um preço inato de silêncio, e de ausência de liberdade, tem assim uma recompensa incompleta num estatuto artificial, sem objectivo, nem outra finalidade que não seja a preservação.
As dívidas são essencialmente dívidas à verdade, que são remetidas ao próprio povo, pela sua felicidade na ignorância, paz e soberania iludida...

É aqui que entra de novo a filosofia de Zaratustra, "o velho camelo".
Se pensarmos que somos cindidos e uma parte de nós se separa da outra, perdendo uma parte das nossas memórias, artes e faculdades de raciocínio para a parte restante, aceitaríamos ou não regressar ao ponto em que pelo menos pudéssemos trocar informação e cooperar com essa parte separada fisicamente? - Claro que sim! Porquê... porque nos lembramos dessa identificação. A menos que uma parte seja colocada em posição de ter que escolher entre si e a outra, poderia haver dúvidas... e mesmo assim, se o próprio der mais valor à sua reflexão, poderá sacrificar-se, no que normalmente se chama amor.
Essa cooperação sente-se mais facilmente em famílias, em aldeias, sem pressões e influências externas... e é claro que está mais afastada numa cidade onde a lógica competitiva ocorre todos os dias, e em várias ocasiões.

Naturalmente um objectivo estável de um universo pensante, separado em diversas componentes, será a troca sincera de informações entre essas componentes separadas. Chama-se a isso curiosidade...
Poderá pensar-se que se podem definir estratos, mas a menos que não sejam comunicantes, de nenhuma forma, uns influenciam-se aos outros, de forma indissociável.
Pode pensar-se em fechar, como protecção... mas isso só significa uma coisa - medo!
E portanto como não está aberto ao desconhecido, ficará aberto ao medo que tem dele.
Estes são alguns dos processos que o Universo usará para um objectivo muito simples - concentrar toda a informação num único ser pensante - que será resultado da junção de todos os seres pensantes, através de canais de comunicação fiáveis. Só assim poderá observar-se em plenitude, e até observar o passado... mas isso é outra história, e por enquanto seguimos adormecidos nas estorietas de quem julga que o sonho que inventa se sobreporá à realidade.

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