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Segundo Manuel de Figueiredo teriam existido 7 monarquias até à época em que escrevia:

  • 1ª Monarquia - Assírios (2183 a.C - 823 a.C) - de Nembroth (Nimrod) a Sadanalapo (Sardanapalo)
  • 2ª Monarquia - Medas e Caldeus (823 a.C - 531 a.C) - de Arbaces a Astiages; de Beloco Sul (??) a Baltazar (Belshazar)
  • 3ª Monarquia - Pérsia (531 a.C - 329 a.C) - de Ciro II a Dario III
  • 4ª Monarquia - Macedónica (329 a.C - 46 a.C) - de Alexandre Magno à linha sucessória dos generais
  • 5ª Monarquia - Romana (46 a.C. - 331 d.C) - de Júlio Cesar a Constantino Magno
  • 6ª Monarquia - Constantinopla (331 d.C - 800 d.C) - de Constantino Magno a Carlos Magno
  • 7ª Monarquia - Germânica (800 d.C - .... ) - de Carlos Magno até então (1603).
A 7ª Monarquia terá terminado em 1806, pois de facto com Francisco II terminou o Sacro-Império Germânico... momentaneamente terá passado para Napoleão, que se sagra imperador em 1804, mas a potência que se estabeleceu como reinante foi a Inglaterra, de Jorge III, definitivamente com a vitória de 1815 em Waterloo. Esse domínio foi consolidado alguns anos depois, com a Rainha Vitória e Disraeli, mas já era efectivo desde a vitória na Guerra dos Sete Anos (1756-63). Podemos por isso falar de uma 8ª monarquia britânica, que se estende na Commonwealth.

O que era entendido por Figueiredo nesta divisão por monarquias seria a definição da potência dominante. Não vemos aí listada a Grécia, o Egipto, a Fenícia, ou Cartago... mas vemos uma sequência ininterrupta!
A origem está na Babilónia, e mantém-se nessa parte até ao advento de Alexandre... são quase 2000 anos, e como só Júlio César a levará para Roma, temos aí depois outros 2000 anos. 
Os grandes protagonistas, os "Magnos", estão aí listados, mas também estão outros personagens menos conhecidos.

(1) Para ilustrar Nimrod, que Figueiredo diz ser "o inventor da monarquia", basta apresentar o conhecido quadro de Bruegel sobre a Torre de Babel:
Nimrod é visto como alguém que desafiou o poder de Deus, procurando que o homem atingisse esse estatuto divino. Na prática teria tentado essa perfeição instaurando uma tirania, que originou fugas. Uma das fugas dessa tirania teria desembarcado em Lisboa, de acordo com Pinho Leal. Tendo havido múltiplas fugas, de cuja migração surgiram várias nações, faz sentido associá-lo à questão da divisão em várias línguas. O ponto comum dessas várias tribos dissidentes seria o repúdio à tirania de Nimrod.
Dante coloca-o preso no seu Inferno, soltando a frase enigmática: "Raphèl maí amèche zabí almi".

(2) Há um excepcional quadro de Delacroix que ilustra a queda de Sardanapalo... o último rei desta primeira monarquia, deposto por Arbaces.
Apesar de Arbaces ser uma figura "demasiado" pouco conhecida, terá dividido o poder entre duas potências - os Medas e os Caldeus/Babilónia. Aqui não haveria apenas uma potência, tendo surgido dois focos de poder. Assurbanipal e Nabucodonosor serão protagonistas desse domínio...
É difícil perceber até que ponto Figueiredo ignora tudo o resto... 
Por exemplo, nesta divisão, a Guerra de Tróia não tem qualquer efeito na alteração da potência dominante. A vitória dos Aqueus sobre os Troianos é um facto lateral que não teria tido importância no domínio da potência Assíria. Isto já para não falar na omissão dos reinos orientais, hindús, mongóis ou chineses... Sobre os Egípcios, Figueiredo irá fazer uma divisão em dinastias, mas não os inclui nas monarquias!
Uma possível interpretação é que se os Assírios exerciam um poder sobre o resto do mundo (pelo menos europeu), os Egípcios teriam conseguido apenas manter alguma independência.

(3) Da Babilónia, passamos a Persépolis com Ciro II, o Grande. Ciro derrotará os arianos, e estabelecerá o Império Aqueménida/Persa. Se na tradição bíblica as figuras anteriores são mal retratadas, o mesmo não se poderá dizer de Ciro, que libertará os judeus do seu cativeiro. 
Ciro visita os corpos do Rei de Susa (tornado seu aliado) e da mulher que se suicida.

Com Ciro há também uma substituição religiosa, com a instituição do Zoroastrismo, de Zaratustra, e parece ter havido alguma harmonia multicultural sob o seu império. No entanto, nem Ciro, nem Dario ou Xerxes, seus sucessores, iriam deixar a política de conquistas... tendo os gregos sido uns dos principais visados! É especialmente estranha esta insistência na rivalidade greco-persa que só se terá manifestado acentuadamente com os Aqueménidas, tendo passado despercebida antes, com Nabucodonosor ou Assurbanipal, por exemplo.

(4) Como contraponto, serão os gregos macedónios a conquistar a Pérsia e a destruir todo o legado cultural existente em Persépolis, com a vitória de Alexandre Magno sobre Dario III, em Ipsus, 333 a.C. Alexandre que morrerá aos 33 anos e por isso rapidamente a sua monarquia é dividida pelos generais.
O estatuto de potência única deixará de existir, convivendo na rivalidade entre Seleucidas, Antigonidas, e Ptolomaicos. É especialmente instrutiva a menção sobre o testamento de Alexandre, ao dizer que pretendia circumnavegar... a África(!), mas especialmente que pretendia uma migração de populações de ocidente para oriente e vice-versa, com o propósito de miscigenação. Que ocidente tinha ele em seu poder? Toda a sua conquista não tinha sido feita no sentido oriental?
Se este último desejo tivesse sido satisfeito, pois seria natural encontrar populações ocidentais deslocalizadas em territórios orientais, talvez mantendo o seu antigo nome, mas em territórios diversos, prestando-se à confusão!

(5) Este domínio multipartido dos generais de Alexandre será quebrado com a ascenção de Roma.
O protagonista fulcral será Júlio César... mas parece aqui claro que o seu principal papel na consolidação do império pelo lado romano ocorrerá na destituição do último reduto do legado de Alexandre. Ou seja, no domínio sobre o Egipto dos Ptolomeus... na cedência de Cleópatra. A última resistente vai sucumbir, depois da vitória de Octávio Augusto sobre Marco António.
César e Cleópatra

Porém, é aqui que importa parar um pouco... não há dúvida de que Roma passou a ser a monarquia dominante... mas, antes de Júlio César era uma República!
Ou seja, a Roma é dado este estatuto, de sucessor para a 5ª monarquia, justamente quando muda esse regime político... como se isso fosse condição necessária para um poder que já estava consolidado desde a queda de Cartago! (Roma já nessa época não teria rival à altura...)
Acrescenta-se a isto que os próprios romanos vão ficar muito limitados nas suas progressões.
Sintoma destas monarquias... atingem rapidamente uma grande expansão territorial, mas depois estabilizam nesses territórios, não havendo propriamente uma segunda expansão significativa.
Há vários factores, que há muito nos fazem suspeitar que este poder monárquico não seria o último degrau na cadeia de poder... Sejamos mais precisos. De que forma se instituiu o primeiro poder monárquico e de que forma caíu? Será que caíu? Será que não se manteve activo? 
Será que os magos afastados pelo Zoroastrismo Aqueménida não procuraram restabelecer o seu poder, nem que tivesse sido para isso necessário apoiar um Alexandre estrangeiro, que foi efémero no seu império... Podemos compreender as restrições romanas nas conquistas, mas dificilmente é compreensível a sua estagnação técnica e de exploração marítima... quanto mais não fosse, progredindo pela costa africana, como teria sido desejo de Alexandre. E essas mesmas restrições vão-se manter de umas monarquias para as suas sucessoras.

(6) A sexta monarquia parece ser uma passagem formal sem sobressaltos, feita pelo próprio Constantino. Há uma mudança de capital para Bizâncio, e uma mudança de religião... só isso são motivos para considerar uma diferença. Até porque a profunda divisão que se irá seguir, entre Império Romano Ocidental e Oriental, justifica isso mesmo.
Constantino - estátua em York, onde foi aclamado imperador.

Figueiredo acaba por considerar que a linha sucessória da Monarquia será continuada por Bizâncio, e só regressará ao lado Ocidental com Carlos Magno.

(7) A importância que é dada a Carlos Magno tem justamente a ver com essa recuperação do ceptro imperial para o lado ocidental, passando para o Sacro-Império Germânico - até à queda dos Habsburgos... formalmente representada na derrota austríaca contra Napoleão em Austerlitz.
Carlos Magno

Aliás, a relutância ibérica em abdicar do calendário hispânico, que começava em Augusto, estará ligada a essa reforma educacional medieval levada a cabo por Carlos Magno. Perante a derrota de Carlos Magno em Roncesvalles, os hispânicos não reconheciam por completo esse carácter imperial germânico, chancelado por interposto papal e cúria romana. Continuavam a colocar a sua monarquia de referência como sendo a de César e Augusto... vemos aqui como a questão religiosa não era tão importante quanto a política. O calendário com o Ano Domini, nascimento de Cristo, podia esperar pelos desenvolvimentos políticos. Assim, não é de estranhar os sucessivos contenciosos com o papado ao longo da 1ª Dinastia Portuguesa.
Poderiam navegar fora da chancela imperial, mas isso seriam actos não reconhecidos... até que com D. João I a situação muda. O calendário AD é finalmente aceite e o Infante D. Pedro vai-se colocar ao serviço do Imperador Segismundo, e segue-se a autorização de "des-cobrir". Os reinos europeus parecem independentes, mas estão interligados e condicionados pela chancela imperial que é efectivada pela cúria romana e bulas papais.

(8) O poder do Sacro-Império sofre um grande revés com a derrota dos Habsburgos espanhóis na Guerra dos Trinta Anos, entrando em declínio acentuado, concentrando-se especialmente em assegurar o poder do Império Austro-Húngaro. Perante esse desfecho, segue-se um período de nações, de absolutismo local, sem a restrição do poder imperial, e ficam por definir os territórios ainda "não descobertos"... Da Guerra dos Trinta Anos até à Guerra dos Sete Anos, esses "novos" territórios ficam em suspenso, e é após o desfecho vitorioso inglês, em 1763, que se seguem, passados poucos anos, as explorações de Cook.

A queda formal do Sacro-Império na derrota de Austerlitz, coloca um Napoleão na posição de reclamar o ceptro Imperial, e é mais curioso pois é ele próprio que decide colocar a coroa na sua cabeça, e depois na cabeça de Josefina... não haveria ninguém com mais poder do que o próprio!
Aparentemente seria assim, mas a partir daí acabaram-se as vitórias napoleónicas... e começa o acentuado declínio que o levará a Elba e depois a Santa Helena. Apesar dessas derrotas, a França emerge facilmente, sem os constrangimentos financeiros que vão atormentar os aliados ibéricos no Séc. XIX, destinados a pagar a factura das guerras. Isso tem um motivo estratégico... de qualquer forma, o Sacro-Império acabava de tombar graças à França e a Napoleão. O último episódio da transferência de poder, e fim completo do Império Austro-Húngaro, irá dar-se com a Primeira Guerra. E é claro que podemos ver a Segunda Guerra como uma tentativa gorada de recuperar o ceptro imperial para o lado germânico, entre múltiplos outros factores concorrentes e divergentes...
Porém, como dissemos, isto apenas revela uma componente da movimentações, pelo lado visível das monarquias dominantes, pelo que não podemos ignorar as componentes menos visíveis...

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publicado às 23:19

Longitude
Acerca da longitude já tínhamos aqui citado António Carvalho da Costa que, em 1682, e com breves palavras, mostrava como era possível saber a correcta longitude de lugares através da observação de eclipses. 
Sendo a latitude um problema mais fácil, ficava aí claro que eram conhecidos métodos eficazes para determinar a posição recorrendo apenas a observações astronómicas. O interesse pelos eclipses lunares seria especialmente um interesse geográfico, com vista a uma correcta cartografia. Assim, a tabela de eclipses de 1534, de Jerónimo Chaves, indiciaria isso mesmo.

Encontrámos agora outro texto, de Manuel de Figueiredo, de 1603, que coloca as coisas de forma mais clara, confirmando as nossas suspeitas de que essa técnica seria bem mais antiga. 
O texto de Figueiredo é mencionado na literatura (veja-se por exemplo aqui) especialmente porque detalha a construção da balestilha, instrumento prático para a determinação de ângulos, e apropriado para a latitude. 
Aqui interessa-nos a questão da longitude, mais complicada.
"Como se acharam as longitudes das terras.
- é este o título do Capítulo XIII da "Chronographia e Repertório dos Tempos", publicada em 1603 por Manuel de Figueiredo. Começa dizendo:
Grande foi o trabalho que os geógrafos tiveram em achar as longitudes das terras, as quais observaram pelos eclipses da Lua e do Sol, & não haviam de ter tão pouco em a todas elas buscarem a longitude, porque nem todos os meses há eclipses para as poderem mostrar (...)
Não especifica quem foram os geógrafos, nem quando... apenas explica como se processou: 
Punham-se dois geógrafos em duas terras (...) esperavam o dia e hora a que havia de acontecer (...) observavam a que hora começava & cotejada uma observação com a outra, a diferença que entre elas havia essa era a longitude(...).
... algo que já tínhamos suspeitado como sendo o método usando "enviados do reino".
Duas páginas à frente faz referência às vantagens da "pedra de sevar" (magneto) que teriam marcado a diferença face aos "antigos"... e somos levados a concluir que implicitamente considerava que o processo de eclipses para a longitude era já conhecido desses "antigos". Figueiredo sugere que teria sido o magneto a marcar a diferença, pois esses antigos se restringiam ao hemisfério norte com medo de perder a Estrela Polar... que é outra maneira de dizer que tinham medo de "perder o norte", de ficarem desnorteados!


Merica
Talvez mais interessante é o detalhe de Figueiredo designar a América como "A Merica". Isso poderia passar por erro tipográfico, mas é demasiado propositado para ser qualquer erro acidental:


Menção a "a Merica" e "America", por Manuel Figueiredo

Se já havia algumas suspeitas do nome América não estar necessariamente ligado a Amerigo Vespúcio, creio que esta obra de Figueiredo vai exactamente nesse sentido... 
A Merica e não América

Fomos encontrar uma canção dos emigrantes italianos que povoaram o Rio Grande do Sul:
Dalla Italia noi siamo partiti; Siamo partiti col nostro onore;  
Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arriva'. 
Merica, Merica, Merica, cossa saràlo 'sta Merica? 
Merica, Merica, Merica, un bel mazzolino di fior. 
Trata-se do dialecto do Veneto (Veneza), que tira o A a America, e aparece como uma clara desfaçatez veneziana ao compatriota, mas rival florentino, Amerigo...

Haverá outro sentido para a simples palavra Merica?
O google e a wikipedia têm destas coisas, e fomos parar imediatamente a 
- merica: palavra indonésia com raiz no sânscrito que significa a especiaria pimenta.

Afinal, como chamam os ingleses a um tipo de pimenta? 
- Chili pepper... chegando mesmo a escrever Chile pepper.
A pimenta ou malagueta sempre esteve associada à comida mexicana, azteca e também inca. É claro que também é parte da cozinha indiana, e isso pode reportar perfeitamente uma rota de especiarias que se prestava a unir as índias orientais e ocidentais sob a conveniente confusão!

Ou seja... quando os nossos descobrimentos seguiam na rota da Pimenta, é mais natural que estivessem a seguir a rota da Merica. Como dizia Figueiredo: "a cobiça de reinar abriu o caminho para descobrir tantas riquezas quantas neste novo mundo há"...


Se o nome é anterior a Américo Vespúcio, esta semelhança entre "a Merica" e "Americo" pode ser um caso que já abordei num comentário que aqui fiz - a importância de se chamar Ernesto, neste caso Américo!

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publicado às 05:56

Longitude
Acerca da longitude já tínhamos aqui citado António Carvalho da Costa que, em 1682, e com breves palavras, mostrava como era possível saber a correcta longitude de lugares através da observação de eclipses. 
Sendo a latitude um problema mais fácil, ficava aí claro que eram conhecidos métodos eficazes para determinar a posição recorrendo apenas a observações astronómicas. O interesse pelos eclipses lunares seria especialmente um interesse geográfico, com vista a uma correcta cartografia. Assim, a tabela de eclipses de 1534, de Jerónimo Chaves, indiciaria isso mesmo.

Encontrámos agora outro texto, de Manuel de Figueiredo, de 1603, que coloca as coisas de forma mais clara, confirmando as nossas suspeitas de que essa técnica seria bem mais antiga. 
O texto de Figueiredo é mencionado na literatura (veja-se por exemplo aqui) especialmente porque detalha a construção da balestilha, instrumento prático para a determinação de ângulos, e apropriado para a latitude. 
Aqui interessa-nos a questão da longitude, mais complicada.
"Como se acharam as longitudes das terras.
- é este o título do Capítulo XIII da "Chronographia e Repertório dos Tempos", publicada em 1603 por Manuel de Figueiredo. Começa dizendo:
Grande foi o trabalho que os geógrafos tiveram em achar as longitudes das terras, as quais observaram pelos eclipses da Lua e do Sol, & não haviam de ter tão pouco em a todas elas buscarem a longitude, porque nem todos os meses há eclipses para as poderem mostrar (...)
Não especifica quem foram os geógrafos, nem quando... apenas explica como se processou: 
Punham-se dois geógrafos em duas terras (...) esperavam o dia e hora a que havia de acontecer (...) observavam a que hora começava & cotejada uma observação com a outra, a diferença que entre elas havia essa era a longitude(...).
... algo que já tínhamos suspeitado como sendo o método usando "enviados do reino".
Duas páginas à frente faz referência às vantagens da "pedra de sevar" (magneto) que teriam marcado a diferença face aos "antigos"... e somos levados a concluir que implicitamente considerava que o processo de eclipses para a longitude era já conhecido desses "antigos". Figueiredo sugere que teria sido o magneto a marcar a diferença, pois esses antigos se restringiam ao hemisfério norte com medo de perder a Estrela Polar... que é outra maneira de dizer que tinham medo de "perder o norte", de ficarem desnorteados!


Merica
Talvez mais interessante é o detalhe de Figueiredo designar a América como "A Merica". Isso poderia passar por erro tipográfico, mas é demasiado propositado para ser qualquer erro acidental:


Menção a "a Merica" e "America", por Manuel Figueiredo

Se já havia algumas suspeitas do nome América não estar necessariamente ligado a Amerigo Vespúcio, creio que esta obra de Figueiredo vai exactamente nesse sentido... 
A Merica e não América

Fomos encontrar uma canção dos emigrantes italianos que povoaram o Rio Grande do Sul:
Dalla Italia noi siamo partiti; Siamo partiti col nostro onore;  
Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arriva'. 
Merica, Merica, Merica, cossa saràlo 'sta Merica? 
Merica, Merica, Merica, un bel mazzolino di fior. 
Trata-se do dialecto do Veneto (Veneza), que tira o A a America, e aparece como uma clara desfaçatez veneziana ao compatriota, mas rival florentino, Amerigo...

Haverá outro sentido para a simples palavra Merica?
O google e a wikipedia têm destas coisas, e fomos parar imediatamente a 
- merica: palavra indonésia com raiz no sânscrito que significa a especiaria pimenta.

Afinal, como chamam os ingleses a um tipo de pimenta? 
- Chili pepper... chegando mesmo a escrever Chile pepper.
A pimenta ou malagueta sempre esteve associada à comida mexicana, azteca e também inca. É claro que também é parte da cozinha indiana, e isso pode reportar perfeitamente uma rota de especiarias que se prestava a unir as índias orientais e ocidentais sob a conveniente confusão!

Ou seja... quando os nossos descobrimentos seguiam na rota da Pimenta, é mais natural que estivessem a seguir a rota da Merica. Como dizia Figueiredo: "a cobiça de reinar abriu o caminho para descobrir tantas riquezas quantas neste novo mundo há"...


Se o nome é anterior a Américo Vespúcio, esta semelhança entre "a Merica" e "Americo" pode ser um caso que já abordei num comentário que aqui fiz - a importância de se chamar Ernesto, neste caso Américo!

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publicado às 05:56

Longitude
Acerca da longitude já tínhamos aqui citado António Carvalho da Costa que, em 1682, e com breves palavras, mostrava como era possível saber a correcta longitude de lugares através da observação de eclipses. 
Sendo a latitude um problema mais fácil, ficava aí claro que eram conhecidos métodos eficazes para determinar a posição recorrendo apenas a observações astronómicas. O interesse pelos eclipses lunares seria especialmente um interesse geográfico, com vista a uma correcta cartografia. Assim, a tabela de eclipses de 1534, de Jerónimo Chaves, indiciaria isso mesmo.

Encontrámos agora outro texto, de Manuel de Figueiredo, de 1603, que coloca as coisas de forma mais clara, confirmando as nossas suspeitas de que essa técnica seria bem mais antiga. 
O texto de Figueiredo é mencionado na literatura (veja-se por exemplo aqui) especialmente porque detalha a construção da balestilha, instrumento prático para a determinação de ângulos, e apropriado para a latitude. 
Aqui interessa-nos a questão da longitude, mais complicada.
"Como se acharam as longitudes das terras.
- é este o título do Capítulo XIII da "Chronographia e Repertório dos Tempos", publicada em 1603 por Manuel de Figueiredo. Começa dizendo:
Grande foi o trabalho que os geógrafos tiveram em achar as longitudes das terras, as quais observaram pelos eclipses da Lua e do Sol, & não haviam de ter tão pouco em a todas elas buscarem a longitude, porque nem todos os meses há eclipses para as poderem mostrar (...)
Não especifica quem foram os geógrafos, nem quando... apenas explica como se processou: 
Punham-se dois geógrafos em duas terras (...) esperavam o dia e hora a que havia de acontecer (...) observavam a que hora começava & cotejada uma observação com a outra, a diferença que entre elas havia essa era a longitude(...).
... algo que já tínhamos suspeitado como sendo o método usando "enviados do reino".
Duas páginas à frente faz referência às vantagens da "pedra de sevar" (magneto) que teriam marcado a diferença face aos "antigos"... e somos levados a concluir que implicitamente considerava que o processo de eclipses para a longitude era já conhecido desses "antigos". Figueiredo sugere que teria sido o magneto a marcar a diferença, pois esses antigos se restringiam ao hemisfério norte com medo de perder a Estrela Polar... que é outra maneira de dizer que tinham medo de "perder o norte", de ficarem desnorteados!


Merica
Talvez mais interessante é o detalhe de Figueiredo designar a América como "A Merica". Isso poderia passar por erro tipográfico, mas é demasiado propositado para ser qualquer erro acidental:


Menção a "a Merica" e "America", por Manuel Figueiredo

Se já havia algumas suspeitas do nome América não estar necessariamente ligado a Amerigo Vespúcio, creio que esta obra de Figueiredo vai exactamente nesse sentido... 
A Merica e não América

Fomos encontrar uma canção dos emigrantes italianos que povoaram o Rio Grande do Sul:
Dalla Italia noi siamo partiti; Siamo partiti col nostro onore;  
Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arriva'. 
Merica, Merica, Merica, cossa saràlo 'sta Merica? 
Merica, Merica, Merica, un bel mazzolino di fior. 
Trata-se do dialecto do Veneto (Veneza), que tira o A a America, e aparece como uma clara desfaçatez veneziana ao compatriota, mas rival florentino, Amerigo...

Haverá outro sentido para a simples palavra Merica?
O google e a wikipedia têm destas coisas, e fomos parar imediatamente a 
- merica: palavra indonésia com raiz no sânscrito que significa a especiaria pimenta.

Afinal, como chamam os ingleses a um tipo de pimenta? 
- Chili pepper... chegando mesmo a escrever Chile pepper.
A pimenta ou malagueta sempre esteve associada à comida mexicana, azteca e também inca. É claro que também é parte da cozinha indiana, e isso pode reportar perfeitamente uma rota de especiarias que se prestava a unir as índias orientais e ocidentais sob a conveniente confusão!

Ou seja... quando os nossos descobrimentos seguiam na rota da Pimenta, é mais natural que estivessem a seguir a rota da Merica. Como dizia Figueiredo: "a cobiça de reinar abriu o caminho para descobrir tantas riquezas quantas neste novo mundo há"...


Se o nome é anterior a Américo Vespúcio, esta semelhança entre "a Merica" e "Americo" pode ser um caso que já abordei num comentário que aqui fiz - a importância de se chamar Ernesto, neste caso Américo!

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publicado às 21:56

Nesta sequência de "portas", e tal como Olinda, também nos lembrámos das Portas do Ródão... e que estariam na zona atribuída aos Carpetanos, povo ibérico.
Aqui falha-nos o último volume de Pinho Leal que poderá ter algum comentário a propósito de Vila Velha de Rodão. Encontrámos menção a Vila Velha de Ródão na Corografia (1708) de António Carvalho da Costa, mas não especifica o que significará "velho" neste caso, poderá remeter-se à formação da nacionalidade, ou anterior. Nos territórios adjacentes, mas em ponto bastante mais elevado, encontra-se o Castelo de Wamba (ou Vamba).
Um bom texto relativamente a reabilitação arqueológica desse Castelo e da Capela próxima, pode ser encontrado na Associação de Estudos do Alto Tejo.

Focando-nos mais na Portas do Ródão, começamos por uma gravura antiga, de 1823 (por William Westall)
Passage of the Tagus at Villa-Velha  (Westall, 1823)

Quer-nos parecer que a paisagem mudou consideravelmente, já que as escarpas parecem na gravura muito mais acentuadas, se atendermos a imagens mais recentes da mesma vista de jusante (poente):

Podemos falar em exagero do artista... porém não parece ser o caso de Westall, e temos alguma confirmação da diferença pela imagem vista do lado nascente (C. Turner, 1811):
Pass of the Tagus at Villa Velha into Alemtejo (C. Turner, 1811)

Parece ter havido entretanto uma erosão acentuada, já que as imagens do Séc. XIX dão uma ideia de cortes limpos, quebrando a rocha a pique, algo que se terá atenuado significativamente nestes séculos seguintes. Por outro lado, nota-se na imagem de Turner que o rio seria razoavelmente baixo, não se notando o forte caudal. Sobre esse assunto, fomos encontrar uma outra referência:
A pouca distância do porto de Villa-Velha, corre o Tejo por entre dois altos montes de finíssimo mármore, formando uma espécie de garganta, a que chamam as portas do Rodão. Pelas influências do, Marquez de Pombal se fez o mesmo, rio navegavel até ao porto de Villa Velha, que fica dentro desta garganta. Junto do porto havia huma Fazenda e Casas, em cuja porta se viam as armas, do Marquez, que são huma Estrella entre uma, quaderna, de crescentes.   (Poesias de Cruz e Silva, 1805)
Ou seja, concluímos que os cortes abruptos, vistos nas gravuras do início do Séc. XIX, eram provável resultado da "fresca intervenção" do Marquês de Pombal, no sentido de tornar o rio mais navegável.
Tal como acontecia com o Rio Douro, que tinha uma forte cascata perto de S. João da Pesqueira, chamado o "Cachão do Douro", é possível que algo semelhante se passasse nas Portas do Rodão.
Acrescentamos este texto de J. J. Forrester (1854):
The Tagus (that beautiful river which our forefathers used to ascend without difficulty as far as Toledo [cf. Faria e Sousa]) has been fearfully neglected. During the winter season, in some situations, the current is five feet per second; and at the place called Vallada, where the river is 1330 feet wide, the volume of water that descends in that time is not less than 100,000 cubick feet. At the Portas do Rodão, 150 feet wide, the current is twelve feet per second; so that a volume of 7776 millions of cubick feet of water passes through this gorge in one day.
The Portas do Rodão, on the Tagus, are similar to the Cachão on the river Douro, that is to say, during the wet season, the passage being narrow, the river above naturally overflows its banks, and lays the country under water. Now one of two things,— either widen the passage to give egress to the waters, or store them up for irrigation purposes, preserves for fish, &c. The idea is not originally ours. It is the conviction of the much-injured and persecuted Portuguese author, Bento De Moura (born 1702), who proposed to construct a dam and form an enormous deposit of water, 20 leagues square, during the winter, so as to leave its rich deposits and manure on the land, and prepare it for cultivation in the summer. "Rivers," says Senhor de Moura, "bring down earth in proportion of 15 to 1 of sand. From 5 to 25 years, 1000 moios of earth would be deposited, and would produce 10,000 moios of grain, or in a few years the deposits would yield ten times their weight in grain."
Ou seja, no sentido inverso ao do Marquês, Bento de Moura tinha proposto construir uma barragem.
Isto é interessante, pois podemos ter uma ideia da consequência dessa barragem:
Por uma simples inspecção de altitude a 200 metros (as montanhas laterais ultrapassam os 300 m), o terreno formaria uma bacia natural que se estenderia até Idanha-a-Nova, criando um lago artificial... seria esta a ideia de Bento de Moura. Assim, se havia alguma represa natural de água, parece certo que o Marquês acabou com ela... e com um nível baixo, a navegabilidade ficou também comprometida, excepto para pequenas embarcações, conforme se pode ver nas gravuras.

As gravuras não mencionam o nome Ródão... o acrescento de Ródão a Vila Velha pareceu-nos ser posterior às invasões francesas, mas o registo de 1708 não deixa dúvidas sobre a origem anterior do nome. Não queremos deixar de notar uma associação fonética de Ródão a Ródano, e alguma semelhança na paisagem das Gargantas do Ródano (Rhône)... 
Gargantas do Ródano (imagem)

Castelo de Wamba
O rei visigodo Wamba (672-680) ficou ligado a uma antiga fortaleza, no monte norte das Portas do Ródão, da qual ainda se mantém uma torre quadrada interessante:
Torre de Wamba (Portas do Rodão)

A associação a Wamba é discutida, mas atendendo a que os visigodos tiveram o cuidado de renomear Idanha como Egitania, reconstruí-la depois da destruição sueva... e outros detalhes (Pinho Leal diz que Wamba seria natural da zona), mostrará o interesse que os visigodos tiveram pela região.

Com as Portas do Ródão fechadas ao Tejo, este formaria um lago interior que se estenderia até à zona de Idanha-a-Nova, e anteriormente talvez mesmo próximo de Idanha-a-Velha. Estas vilas que aparecem hoje como isoladas nos limites montanhosos da Serra da Estrela, poderiam ter tido um lago natural resultante da acumulação de águas do Tejo. Uma primeira cedência da rocha teria causado a deslocalização de Idanha-a-Velha para Idanha-a-Nova, mas a ideia de navegabilidade do Marquês teria terminado com qualquer ideia de recuperar o lago interno, conforme parecia pretender Bento de Moura.

Pinho Leal diz que "alguns" davam também o nome de Hircania a Idanha-a-Velha (que diz ser uma das primeiras vilas lusitanas, fundada c. 500 a.C.)... lembrando-nos que o mar Hircanio era exactamente a designação do Cáspio, não deixamos de ver aqui uma alusão a um mar interno. Egitania foi um bispado importante na época visigoda, e a cidade terá mudado de nome para Eydaia na época árabe, de onde viria o nome Idanha. A nova Idanha parece ser só mencionada já com D. Sancho I.

Serras
Sendo uma zona de grifos, e outras aves de rapina ou não, em belos parques naturais, não deixamos de mencionar outras "portas" semelhantes, na vizinha Extremadura espanhola.
--- O Parque Natural de Monfrague
Salto do Gitano - o Tejo no Parque Natural de Monfrague
--- Canchos de Ramiro


Canchos de Ramiro e ponte sobre o Alagon 
(afluente do Tejo) [imagens]

Ou seja, as portas do Ródão não são muito diferentes da paisagem que o Tejo e afluentes fazem ao "furar" as serras da Extremadura ou Alentejo.
E aqui convém mencionar a noção de "Serra"... porque é nestas formações que ela ganha sentido.
Estas formações características da Estremadura espanhola e portuguesa, ou do Alentejo, surgem como linhas montanhosas bem definidas como se pode ver no mapa (em cima, também na zona de Castelo de Vide/Marvão). São praticamente linhas montanhosas singulares cujos "dentes" são os picos oscilantes... e por isso têm verdadeira analogia com a noção de "serra", da lâmina de corte. A generalização desta palavra a qualquer conjunto montanhoso fez perder a particularidade destas formações quase laminares. Não havendo distinção particular entre o nome desta estrutura "de serra" e os conjuntos montanhosos, poupa-se qualquer justificação particular para a singularidade que estas montanhas exibem enquanto serras - linhas bem definidas de montanhas que aparecem como autênticos muros na paisagem.


Nota: (17/07/2011)
Texto consideravelmente reeditado e corrigido no dia seguinte, por nos ter escapado a menção a Vila Velha do Ródão na Corografia de António Carvalho da Costa, de 1708:
A Villa Velha de Ródão fica cinco léguas de Castelo-Branco para o Sul, & está fundada num tezo, que banha o rio Tejo: tem 160 vizinhos com uma Igreja Parroquial, Vigararia da Ordem de Christo, & Commenda, de que é Comendador o Conde de Atouguia; tem mais Casa da Misericordia, & uma Ermida de N. Senhora do Castelo, imagem milagrosa, aonde concorre em romaria muita gente do Alentejo, & de outras partes. O seu termo é fertil de pão, azeite, linho, & tem muita caça, & colmes, com algum vinho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:42

Nesta sequência de "portas", e tal como Olinda, também nos lembrámos das Portas do Ródão... e que estariam na zona atribuída aos Carpetanos, povo ibérico.
Aqui falha-nos o último volume de Pinho Leal que poderá ter algum comentário a propósito de Vila Velha de Rodão. Encontrámos menção a Vila Velha de Ródão na Corografia (1708) de António Carvalho da Costa, mas não especifica o que significará "velho" neste caso, poderá remeter-se à formação da nacionalidade, ou anterior. Nos territórios adjacentes, mas em ponto bastante mais elevado, encontra-se o Castelo de Wamba (ou Vamba).
Um bom texto relativamente a reabilitação arqueológica desse Castelo e da Capela próxima, pode ser encontrado na Associação de Estudos do Alto Tejo.

Focando-nos mais na Portas do Ródão, começamos por uma gravura antiga, de 1823 (por William Westall)
Passage of the Tagus at Villa-Velha  (Westall, 1823)

Quer-nos parecer que a paisagem mudou consideravelmente, já que as escarpas parecem na gravura muito mais acentuadas, se atendermos a imagens mais recentes da mesma vista de jusante (poente):

Podemos falar em exagero do artista... porém não parece ser o caso de Westall, e temos alguma confirmação da diferença pela imagem vista do lado nascente (C. Turner, 1811):
Pass of the Tagus at Villa Velha into Alemtejo (C. Turner, 1811)

Parece ter havido entretanto uma erosão acentuada, já que as imagens do Séc. XIX dão uma ideia de cortes limpos, quebrando a rocha a pique, algo que se terá atenuado significativamente nestes séculos seguintes. Por outro lado, nota-se na imagem de Turner que o rio seria razoavelmente baixo, não se notando o forte caudal. Sobre esse assunto, fomos encontrar uma outra referência:
A pouca distância do porto de Villa-Velha, corre o Tejo por entre dois altos montes de finíssimo mármore, formando uma espécie de garganta, a que chamam as portas do Rodão. Pelas influências do, Marquez de Pombal se fez o mesmo, rio navegavel até ao porto de Villa Velha, que fica dentro desta garganta. Junto do porto havia huma Fazenda e Casas, em cuja porta se viam as armas, do Marquez, que são huma Estrella entre uma, quaderna, de crescentes.   (Poesias de Cruz e Silva, 1805)
Ou seja, concluímos que os cortes abruptos, vistos nas gravuras do início do Séc. XIX, eram provável resultado da "fresca intervenção" do Marquês de Pombal, no sentido de tornar o rio mais navegável.
Tal como acontecia com o Rio Douro, que tinha uma forte cascata perto de S. João da Pesqueira, chamado o "Cachão do Douro", é possível que algo semelhante se passasse nas Portas do Rodão.
Acrescentamos este texto de J. J. Forrester (1854):
The Tagus (that beautiful river which our forefathers used to ascend without difficulty as far as Toledo [cf. Faria e Sousa]) has been fearfully neglected. During the winter season, in some situations, the current is five feet per second; and at the place called Vallada, where the river is 1330 feet wide, the volume of water that descends in that time is not less than 100,000 cubick feet. At the Portas do Rodão, 150 feet wide, the current is twelve feet per second; so that a volume of 7776 millions of cubick feet of water passes through this gorge in one day.
The Portas do Rodão, on the Tagus, are similar to the Cachão on the river Douro, that is to say, during the wet season, the passage being narrow, the river above naturally overflows its banks, and lays the country under water. Now one of two things,— either widen the passage to give egress to the waters, or store them up for irrigation purposes, preserves for fish, &c. The idea is not originally ours. It is the conviction of the much-injured and persecuted Portuguese author, Bento De Moura (born 1702), who proposed to construct a dam and form an enormous deposit of water, 20 leagues square, during the winter, so as to leave its rich deposits and manure on the land, and prepare it for cultivation in the summer. "Rivers," says Senhor de Moura, "bring down earth in proportion of 15 to 1 of sand. From 5 to 25 years, 1000 moios of earth would be deposited, and would produce 10,000 moios of grain, or in a few years the deposits would yield ten times their weight in grain."
Ou seja, no sentido inverso ao do Marquês, Bento de Moura tinha proposto construir uma barragem.
Isto é interessante, pois podemos ter uma ideia da consequência dessa barragem:
Por uma simples inspecção de altitude a 200 metros (as montanhas laterais ultrapassam os 300 m), o terreno formaria uma bacia natural que se estenderia até Idanha-a-Nova, criando um lago artificial... seria esta a ideia de Bento de Moura. Assim, se havia alguma represa natural de água, parece certo que o Marquês acabou com ela... e com um nível baixo, a navegabilidade ficou também comprometida, excepto para pequenas embarcações, conforme se pode ver nas gravuras.

As gravuras não mencionam o nome Ródão... o acrescento de Ródão a Vila Velha pareceu-nos ser posterior às invasões francesas, mas o registo de 1708 não deixa dúvidas sobre a origem anterior do nome. Não queremos deixar de notar uma associação fonética de Ródão a Ródano, e alguma semelhança na paisagem das Gargantas do Ródano (Rhône)... 
Gargantas do Ródano (imagem)

Castelo de Wamba
O rei visigodo Wamba (672-680) ficou ligado a uma antiga fortaleza, no monte norte das Portas do Ródão, da qual ainda se mantém uma torre quadrada interessante:
Torre de Wamba (Portas do Rodão)

A associação a Wamba é discutida, mas atendendo a que os visigodos tiveram o cuidado de renomear Idanha como Egitania, reconstruí-la depois da destruição sueva... e outros detalhes (Pinho Leal diz que Wamba seria natural da zona), mostrará o interesse que os visigodos tiveram pela região.

Com as Portas do Ródão fechadas ao Tejo, este formaria um lago interior que se estenderia até à zona de Idanha-a-Nova, e anteriormente talvez mesmo próximo de Idanha-a-Velha. Estas vilas que aparecem hoje como isoladas nos limites montanhosos da Serra da Estrela, poderiam ter tido um lago natural resultante da acumulação de águas do Tejo. Uma primeira cedência da rocha teria causado a deslocalização de Idanha-a-Velha para Idanha-a-Nova, mas a ideia de navegabilidade do Marquês teria terminado com qualquer ideia de recuperar o lago interno, conforme parecia pretender Bento de Moura.

Pinho Leal diz que "alguns" davam também o nome de Hircania a Idanha-a-Velha (que diz ser uma das primeiras vilas lusitanas, fundada c. 500 a.C.)... lembrando-nos que o mar Hircanio era exactamente a designação do Cáspio, não deixamos de ver aqui uma alusão a um mar interno. Egitania foi um bispado importante na época visigoda, e a cidade terá mudado de nome para Eydaia na época árabe, de onde viria o nome Idanha. A nova Idanha parece ser só mencionada já com D. Sancho I.

Serras
Sendo uma zona de grifos, e outras aves de rapina ou não, em belos parques naturais, não deixamos de mencionar outras "portas" semelhantes, na vizinha Extremadura espanhola.
--- O Parque Natural de Monfrague
Salto do Gitano - o Tejo no Parque Natural de Monfrague
--- Canchos de Ramiro

 
Canchos de Ramiro e ponte sobre o Alagon 
(afluente do Tejo) [imagens]

Ou seja, as portas do Ródão não são muito diferentes da paisagem que o Tejo e afluentes fazem ao "furar" as serras da Extremadura ou Alentejo.
E aqui convém mencionar a noção de "Serra"... porque é nestas formações que ela ganha sentido.
Estas formações características da Estremadura espanhola e portuguesa, ou do Alentejo, surgem como linhas montanhosas bem definidas como se pode ver no mapa (em cima, também na zona de Castelo de Vide/Marvão). São praticamente linhas montanhosas singulares cujos "dentes" são os picos oscilantes... e por isso têm verdadeira analogia com a noção de "serra", da lâmina de corte. A generalização desta palavra a qualquer conjunto montanhoso fez perder a particularidade destas formações quase laminares. Não havendo distinção particular entre o nome desta estrutura "de serra" e os conjuntos montanhosos, poupa-se qualquer justificação particular para a singularidade que estas montanhas exibem enquanto serras - linhas bem definidas de montanhas que aparecem como autênticos muros na paisagem.


Nota: (17/07/2011)
Texto consideravelmente reeditado e corrigido no dia seguinte, por nos ter escapado a menção a Vila Velha do Ródão na Corografia de António Carvalho da Costa, de 1708:
A Villa Velha de Ródão fica cinco léguas de Castelo-Branco para o Sul, & está fundada num tezo, que banha o rio Tejo: tem 160 vizinhos com uma Igreja Parroquial, Vigararia da Ordem de Christo, & Commenda, de que é Comendador o Conde de Atouguia; tem mais Casa da Misericordia, & uma Ermida de N. Senhora do Castelo, imagem milagrosa, aonde concorre em romaria muita gente do Alentejo, & de outras partes. O seu termo é fertil de pão, azeite, linho, & tem muita caça, & colmes, com algum vinho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:42

Nesta sequência de "portas", e tal como Olinda, também nos lembrámos das Portas do Ródão... e que estariam na zona atribuída aos Carpetanos, povo ibérico.
Aqui falha-nos o último volume de Pinho Leal que poderá ter algum comentário a propósito de Vila Velha de Rodão. Encontrámos menção a Vila Velha de Ródão na Corografia (1708) de António Carvalho da Costa, mas não especifica o que significará "velho" neste caso, poderá remeter-se à formação da nacionalidade, ou anterior. Nos territórios adjacentes, mas em ponto bastante mais elevado, encontra-se o Castelo de Wamba (ou Vamba).
Um bom texto relativamente a reabilitação arqueológica desse Castelo e da Capela próxima, pode ser encontrado na Associação de Estudos do Alto Tejo.

Focando-nos mais na Portas do Ródão, começamos por uma gravura antiga, de 1823 (por William Westall)
Passage of the Tagus at Villa-Velha  (Westall, 1823)

Quer-nos parecer que a paisagem mudou consideravelmente, já que as escarpas parecem na gravura muito mais acentuadas, se atendermos a imagens mais recentes da mesma vista de jusante (poente):

Podemos falar em exagero do artista... porém não parece ser o caso de Westall, e temos alguma confirmação da diferença pela imagem vista do lado nascente (C. Turner, 1811):
Pass of the Tagus at Villa Velha into Alemtejo (C. Turner, 1811)

Parece ter havido entretanto uma erosão acentuada, já que as imagens do Séc. XIX dão uma ideia de cortes limpos, quebrando a rocha a pique, algo que se terá atenuado significativamente nestes séculos seguintes. Por outro lado, nota-se na imagem de Turner que o rio seria razoavelmente baixo, não se notando o forte caudal. Sobre esse assunto, fomos encontrar uma outra referência:
A pouca distância do porto de Villa-Velha, corre o Tejo por entre dois altos montes de finíssimo mármore, formando uma espécie de garganta, a que chamam as portas do Rodão. Pelas influências do, Marquez de Pombal se fez o mesmo, rio navegavel até ao porto de Villa Velha, que fica dentro desta garganta. Junto do porto havia huma Fazenda e Casas, em cuja porta se viam as armas, do Marquez, que são huma Estrella entre uma, quaderna, de crescentes.   (Poesias de Cruz e Silva, 1805)
Ou seja, concluímos que os cortes abruptos, vistos nas gravuras do início do Séc. XIX, eram provável resultado da "fresca intervenção" do Marquês de Pombal, no sentido de tornar o rio mais navegável.
Tal como acontecia com o Rio Douro, que tinha uma forte cascata perto de S. João da Pesqueira, chamado o "Cachão do Douro", é possível que algo semelhante se passasse nas Portas do Rodão.
Acrescentamos este texto de J. J. Forrester (1854):
The Tagus (that beautiful river which our forefathers used to ascend without difficulty as far as Toledo [cf. Faria e Sousa]) has been fearfully neglected. During the winter season, in some situations, the current is five feet per second; and at the place called Vallada, where the river is 1330 feet wide, the volume of water that descends in that time is not less than 100,000 cubick feet. At the Portas do Rodão, 150 feet wide, the current is twelve feet per second; so that a volume of 7776 millions of cubick feet of water passes through this gorge in one day.
The Portas do Rodão, on the Tagus, are similar to the Cachão on the river Douro, that is to say, during the wet season, the passage being narrow, the river above naturally overflows its banks, and lays the country under water. Now one of two things,— either widen the passage to give egress to the waters, or store them up for irrigation purposes, preserves for fish, &c. The idea is not originally ours. It is the conviction of the much-injured and persecuted Portuguese author, Bento De Moura (born 1702), who proposed to construct a dam and form an enormous deposit of water, 20 leagues square, during the winter, so as to leave its rich deposits and manure on the land, and prepare it for cultivation in the summer. "Rivers," says Senhor de Moura, "bring down earth in proportion of 15 to 1 of sand. From 5 to 25 years, 1000 moios of earth would be deposited, and would produce 10,000 moios of grain, or in a few years the deposits would yield ten times their weight in grain."
Ou seja, no sentido inverso ao do Marquês, Bento de Moura tinha proposto construir uma barragem.
Isto é interessante, pois podemos ter uma ideia da consequência dessa barragem:
Por uma simples inspecção de altitude a 200 metros (as montanhas laterais ultrapassam os 300 m), o terreno formaria uma bacia natural que se estenderia até Idanha-a-Nova, criando um lago artificial... seria esta a ideia de Bento de Moura. Assim, se havia alguma represa natural de água, parece certo que o Marquês acabou com ela... e com um nível baixo, a navegabilidade ficou também comprometida, excepto para pequenas embarcações, conforme se pode ver nas gravuras.

As gravuras não mencionam o nome Ródão... o acrescento de Ródão a Vila Velha pareceu-nos ser posterior às invasões francesas, mas o registo de 1708 não deixa dúvidas sobre a origem anterior do nome. Não queremos deixar de notar uma associação fonética de Ródão a Ródano, e alguma semelhança na paisagem das Gargantas do Ródano (Rhône)... 
Gargantas do Ródano (imagem)

Castelo de Wamba
O rei visigodo Wamba (672-680) ficou ligado a uma antiga fortaleza, no monte norte das Portas do Ródão, da qual ainda se mantém uma torre quadrada interessante:
Torre de Wamba (Portas do Rodão)

A associação a Wamba é discutida, mas atendendo a que os visigodos tiveram o cuidado de renomear Idanha como Egitania, reconstruí-la depois da destruição sueva... e outros detalhes (Pinho Leal diz que Wamba seria natural da zona), mostrará o interesse que os visigodos tiveram pela região.

Com as Portas do Ródão fechadas ao Tejo, este formaria um lago interior que se estenderia até à zona de Idanha-a-Nova, e anteriormente talvez mesmo próximo de Idanha-a-Velha. Estas vilas que aparecem hoje como isoladas nos limites montanhosos da Serra da Estrela, poderiam ter tido um lago natural resultante da acumulação de águas do Tejo. Uma primeira cedência da rocha teria causado a deslocalização de Idanha-a-Velha para Idanha-a-Nova, mas a ideia de navegabilidade do Marquês teria terminado com qualquer ideia de recuperar o lago interno, conforme parecia pretender Bento de Moura.

Pinho Leal diz que "alguns" davam também o nome de Hircania a Idanha-a-Velha (que diz ser uma das primeiras vilas lusitanas, fundada c. 500 a.C.)... lembrando-nos que o mar Hircanio era exactamente a designação do Cáspio, não deixamos de ver aqui uma alusão a um mar interno. Egitania foi um bispado importante na época visigoda, e a cidade terá mudado de nome para Eydaia na época árabe, de onde viria o nome Idanha. A nova Idanha parece ser só mencionada já com D. Sancho I.

Serras
Sendo uma zona de grifos, e outras aves de rapina ou não, em belos parques naturais, não deixamos de mencionar outras "portas" semelhantes, na vizinha Extremadura espanhola.
--- O Parque Natural de Monfrague
Salto do Gitano - o Tejo no Parque Natural de Monfrague
--- Canchos de Ramiro

 
Canchos de Ramiro e ponte sobre o Alagon 
(afluente do Tejo) [imagens]

Ou seja, as portas do Ródão não são muito diferentes da paisagem que o Tejo e afluentes fazem ao "furar" as serras da Extremadura ou Alentejo.
E aqui convém mencionar a noção de "Serra"... porque é nestas formações que ela ganha sentido.
Estas formações características da Estremadura espanhola e portuguesa, ou do Alentejo, surgem como linhas montanhosas bem definidas como se pode ver no mapa (em cima, também na zona de Castelo de Vide/Marvão). São praticamente linhas montanhosas singulares cujos "dentes" são os picos oscilantes... e por isso têm verdadeira analogia com a noção de "serra", da lâmina de corte. A generalização desta palavra a qualquer conjunto montanhoso fez perder a particularidade destas formações quase laminares. Não havendo distinção particular entre o nome desta estrutura "de serra" e os conjuntos montanhosos, poupa-se qualquer justificação particular para a singularidade que estas montanhas exibem enquanto serras - linhas bem definidas de montanhas que aparecem como autênticos muros na paisagem.


Nota: (17/07/2011)
Texto consideravelmente reeditado e corrigido no dia seguinte, por nos ter escapado a menção a Vila Velha do Ródão na Corografia de António Carvalho da Costa, de 1708:
A Villa Velha de Ródão fica cinco léguas de Castelo-Branco para o Sul, & está fundada num tezo, que banha o rio Tejo: tem 160 vizinhos com uma Igreja Parroquial, Vigararia da Ordem de Christo, & Commenda, de que é Comendador o Conde de Atouguia; tem mais Casa da Misericordia, & uma Ermida de N. Senhora do Castelo, imagem milagrosa, aonde concorre em romaria muita gente do Alentejo, & de outras partes. O seu termo é fertil de pão, azeite, linho, & tem muita caça, & colmes, com algum vinho.

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publicado às 23:42

Sair da Foz

12.07.11
Umas ruínas, das mais interessantes que se encontram em Portugal, são as da chamada "alfândega" de Salir do Porto:
Estando razoavelmente abrigadas do mar e da rebentação, a degradação das ruínas tem-se mantido branda ao longo das últimas décadas, e será talvez caso único de edifícios muito antigos, que ainda se encontram junto à orla costeira. A entrada da barra de Salir e S. Martinho do Porto serviria uma extensa baía que se estenderia até Alfeizerão, que era o Porto marítimo, muito importante até ao Séc. XVII, conforme já aqui assinalámos, havendo diversa documentação.

Diz Pinho Leal que o nome Salir do Porto será etimologicamente "Sair do Porto", pois o verbo "sair" dizia-se "salir", tal como ainda acontece em espanhol. Curiosamente, diz ainda que "salir" tinha outro significado antigo, o de "falecer"... e ao contrário do que chegámos a pensar, "salir" nada parece ter a ver com "salinas".

Originalmente a povoação chamar-se-ia "Salir da Foz", talvez invocando a foz do rio Tornada, ainda que hoje este se trate basicamente de um ribeiro. Pinho Leal não deixa de referir que se trata de uma povoação muito antiga:
Esta povoação é antiquissima, e ficava a pouca distância da famosa cidade da antiga Lusitania chamada Eburobriga.
Na sequência de registo já aqui colocado sobre a zona contígua da Pederneira, e pedras da Serra da Pescaria, importa observar as ruínas do edifício da "alfândega":
Parece-nos claro que podemos identificar diferentes tipos de construção sobre a mesma estrutura.
A parte do topo, mais recente, identificada por (1), é a que se encontra predominantemente em todo a estrutura dos edifícios adjacentes. Trata-se de um muro conglomerado de pequenas pedras irregulares, o que contrasta significativamente com a base que tem ficado visível. A parte seguinte mostra uma base de pedras bastante maiores, umas que estariam predominantemente à superfície (2), e outras que devem ter estado quase sempre imersas (3) e (4). A estrutura, especialmente da junção das pedras (4) denota uma construção regular antiga diferente da colocada depois em (3) e (2), provavelmente numa época romana, e especialmente da estrutura superior, provavelmente medieval. É possível que a estrutura (4) remonte a tempos anteriores aos romanos, dando razão à menção "antiquíssima" dada por Pinho Leal.

Estas ruínas do edifício da "alfândega" estão numa zona exígua, em que ainda hoje há pouco (ou quase nenhum) espaço entre o íngreme monte e a água. A povoação de Salir do Porto está situada bem mais longe, fora da zona da praia, talvez num nível que antigamente fosse apropriado ao nível marítimo. Estes edifícios surgem assim fora do conjunto da vila, e ainda que a finalidade fosse a alfândega ou outra (fala-se também na reparação de navios ao tempo de D. Dinis, ou da construção(!) da nau São Gabriel...), há ainda hoje um motivo de atracção, que leva aquele ponto muita gente das redondezas. Trata-se da chamada "Pocinha" de Salir, que é uma fonte de água doce que brota no meio das rochas marítimas. Tem apenas um cano largo, de aspecto muito antigo, por onde a água jorra abundantemente há séculos... e poderá ter servido como fonte de abastecimento de água natural, antes da saída dos navios para alto mar. Hoje há ainda alguma romaria local a essa fonte de água, baseada numa tradição popular de propriedades medicinais...

No topo desse monte, promontório sul da barra, do lado de Salir do Porto, encontra-se ainda uma capela em ruínas, denominada Capela de Sant'Ana, sobre a qual não consegui encontrar muitos pormenores - aparenta ter estado já abandonada na época do censo do Marquês de Pombal.
A sua construção parece basear-se no mesmo conglomerado que vemos na "alfândega", provavelmente de época medieval, mas o arco "romano" que ainda define a porta de entrada parece estar lá há bastante mais tempo. Se é possível associá-lo a uma primitiva construção medieval, também não será inverosímel que houvesse uma estrutura bem mais antiga, de onde se aproveitaram as colunas quadradas e o arco circular, que aparentam destoar da restante construção.
Capela de Sant'Ana (Salir do Porto).

Dentro dos limites da vila, encontra-se ainda um castro sinalizado, que chegou a merecer alguma atenção arqueológica. Estas outras estruturas mais visíveis não estão sinalizadas, ficaram quase propositadamente ao abandono dos tempos e dos elementos, sem que ainda hoje pareça haver nenhuma intenção de as conservar, são aquelas que nos prendem mais a atenção, pois parecem ser registos inconvenientes, convenientemente ignorados... 

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publicado às 07:56

Sair da Foz

12.07.11
Umas ruínas, das mais interessantes que se encontram em Portugal, são as da chamada "alfândega" de Salir do Porto:
Estando razoavelmente abrigadas do mar e da rebentação, a degradação das ruínas tem-se mantido branda ao longo das últimas décadas, e será talvez caso único de edifícios muito antigos, que ainda se encontram junto à orla costeira. A entrada da barra de Salir e S. Martinho do Porto serviria uma extensa baía que se estenderia até Alfeizerão, que era o Porto marítimo, muito importante até ao Séc. XVII, conforme já aqui assinalámos, havendo diversa documentação.

Diz Pinho Leal que o nome Salir do Porto será etimologicamente "Sair do Porto", pois o verbo "sair" dizia-se "salir", tal como ainda acontece em espanhol. Curiosamente, diz ainda que "salir" tinha outro significado antigo, o de "falecer"... e ao contrário do que chegámos a pensar, "salir" nada parece ter a ver com "salinas".

Originalmente a povoação chamar-se-ia "Salir da Foz", talvez invocando a foz do rio Tornada, ainda que hoje este se trate basicamente de um ribeiro. Pinho Leal não deixa de referir que se trata de uma povoação muito antiga:
Esta povoação é antiquissima, e ficava a pouca distância da famosa cidade da antiga Lusitania chamada Eburobriga.
Na sequência de registo já aqui colocado sobre a zona contígua da Pederneira, e pedras da Serra da Pescaria, importa observar as ruínas do edifício da "alfândega":
Parece-nos claro que podemos identificar diferentes tipos de construção sobre a mesma estrutura.
A parte do topo, mais recente, identificada por (1), é a que se encontra predominantemente em todo a estrutura dos edifícios adjacentes. Trata-se de um muro conglomerado de pequenas pedras irregulares, o que contrasta significativamente com a base que tem ficado visível. A parte seguinte mostra uma base de pedras bastante maiores, umas que estariam predominantemente à superfície (2), e outras que devem ter estado quase sempre imersas (3) e (4). A estrutura, especialmente da junção das pedras (4) denota uma construção regular antiga diferente da colocada depois em (3) e (2), provavelmente numa época romana, e especialmente da estrutura superior, provavelmente medieval. É possível que a estrutura (4) remonte a tempos anteriores aos romanos, dando razão à menção "antiquíssima" dada por Pinho Leal.

Estas ruínas do edifício da "alfândega" estão numa zona exígua, em que ainda hoje há pouco (ou quase nenhum) espaço entre o íngreme monte e a água. A povoação de Salir do Porto está situada bem mais longe, fora da zona da praia, talvez num nível que antigamente fosse apropriado ao nível marítimo. Estes edifícios surgem assim fora do conjunto da vila, e ainda que a finalidade fosse a alfândega ou outra (fala-se também na reparação de navios ao tempo de D. Dinis, ou da construção(!) da nau São Gabriel...), há ainda hoje um motivo de atracção, que leva aquele ponto muita gente das redondezas. Trata-se da chamada "Pocinha" de Salir, que é uma fonte de água doce que brota no meio das rochas marítimas. Tem apenas um cano largo, de aspecto muito antigo, por onde a água jorra abundantemente há séculos... e poderá ter servido como fonte de abastecimento de água natural, antes da saída dos navios para alto mar. Hoje há ainda alguma romaria local a essa fonte de água, baseada numa tradição popular de propriedades medicinais...

No topo desse monte, promontório sul da barra, do lado de Salir do Porto, encontra-se ainda uma capela em ruínas, denominada Capela de Sant'Ana, sobre a qual não consegui encontrar muitos pormenores - aparenta ter estado já abandonada na época do censo do Marquês de Pombal.
A sua construção parece basear-se no mesmo conglomerado que vemos na "alfândega", provavelmente de época medieval, mas o arco "romano" que ainda define a porta de entrada parece estar lá há bastante mais tempo. Se é possível associá-lo a uma primitiva construção medieval, também não será inverosímel que houvesse uma estrutura bem mais antiga, de onde se aproveitaram as colunas quadradas e o arco circular, que aparentam destoar da restante construção.
Capela de Sant'Ana (Salir do Porto).

Dentro dos limites da vila, encontra-se ainda um castro sinalizado, que chegou a merecer alguma atenção arqueológica. Estas outras estruturas mais visíveis não estão sinalizadas, ficaram quase propositadamente ao abandono dos tempos e dos elementos, sem que ainda hoje pareça haver nenhuma intenção de as conservar, são aquelas que nos prendem mais a atenção, pois parecem ser registos inconvenientes, convenientemente ignorados... 

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Sair da Foz

11.07.11
Umas ruínas, das mais interessantes que se encontram em Portugal, são as da chamada "alfândega" de Salir do Porto:
Estando razoavelmente abrigadas do mar e da rebentação, a degradação das ruínas tem-se mantido branda ao longo das últimas décadas, e será talvez caso único de edifícios muito antigos, que ainda se encontram junto à orla costeira. A entrada da barra de Salir e S. Martinho do Porto serviria uma extensa baía que se estenderia até Alfeizerão, que era o Porto marítimo, muito importante até ao Séc. XVII, conforme já aqui assinalámos, havendo diversa documentação.

Diz Pinho Leal que o nome Salir do Porto será etimologicamente "Sair do Porto", pois o verbo "sair" dizia-se "salir", tal como ainda acontece em espanhol. Curiosamente, diz ainda que "salir" tinha outro significado antigo, o de "falecer"... e ao contrário do que chegámos a pensar, "salir" nada parece ter a ver com "salinas".

Originalmente a povoação chamar-se-ia "Salir da Foz", talvez invocando a foz do rio Tornada, ainda que hoje este se trate basicamente de um ribeiro. Pinho Leal não deixa de referir que se trata de uma povoação muito antiga:
Esta povoação é antiquissima, e ficava a pouca distância da famosa cidade da antiga Lusitania chamada Eburobriga.
Na sequência de registo já aqui colocado sobre a zona contígua da Pederneira, e pedras da Serra da Pescaria, importa observar as ruínas do edifício da "alfândega":
Parece-nos claro que podemos identificar diferentes tipos de construção sobre a mesma estrutura.
A parte do topo, mais recente, identificada por (1), é a que se encontra predominantemente em todo a estrutura dos edifícios adjacentes. Trata-se de um muro conglomerado de pequenas pedras irregulares, o que contrasta significativamente com a base que tem ficado visível. A parte seguinte mostra uma base de pedras bastante maiores, umas que estariam predominantemente à superfície (2), e outras que devem ter estado quase sempre imersas (3) e (4). A estrutura, especialmente da junção das pedras (4) denota uma construção regular antiga diferente da colocada depois em (3) e (2), provavelmente numa época romana, e especialmente da estrutura superior, provavelmente medieval. É possível que a estrutura (4) remonte a tempos anteriores aos romanos, dando razão à menção "antiquíssima" dada por Pinho Leal.

Estas ruínas do edifício da "alfândega" estão numa zona exígua, em que ainda hoje há pouco (ou quase nenhum) espaço entre o íngreme monte e a água. A povoação de Salir do Porto está situada bem mais longe, fora da zona da praia, talvez num nível que antigamente fosse apropriado ao nível marítimo. Estes edifícios surgem assim fora do conjunto da vila, e ainda que a finalidade fosse a alfândega ou outra (fala-se também na reparação de navios ao tempo de D. Dinis, ou da construção(!) da nau São Gabriel...), há ainda hoje um motivo de atracção, que leva aquele ponto muita gente das redondezas. Trata-se da chamada "Pocinha" de Salir, que é uma fonte de água doce que brota no meio das rochas marítimas. Tem apenas um cano largo, de aspecto muito antigo, por onde a água jorra abundantemente há séculos... e poderá ter servido como fonte de abastecimento de água natural, antes da saída dos navios para alto mar. Hoje há ainda alguma romaria local a essa fonte de água, baseada numa tradição popular de propriedades medicinais...

No topo desse monte, promontório sul da barra, do lado de Salir do Porto, encontra-se ainda uma capela em ruínas, denominada Capela de Sant'Ana, sobre a qual não consegui encontrar muitos pormenores - aparenta ter estado já abandonada na época do censo do Marquês de Pombal.
A sua construção parece basear-se no mesmo conglomerado que vemos na "alfândega", provavelmente de época medieval, mas o arco "romano" que ainda define a porta de entrada parece estar lá há bastante mais tempo. Se é possível associá-lo a uma primitiva construção medieval, também não será inverosímel que houvesse uma estrutura bem mais antiga, de onde se aproveitaram as colunas quadradas e o arco circular, que aparentam destoar da restante construção.
Capela de Sant'Ana (Salir do Porto).

Dentro dos limites da vila, encontra-se ainda um castro sinalizado, que chegou a merecer alguma atenção arqueológica. Estas outras estruturas mais visíveis não estão sinalizadas, ficaram quase propositadamente ao abandono dos tempos e dos elementos, sem que ainda hoje pareça haver nenhuma intenção de as conservar, são aquelas que nos prendem mais a atenção, pois parecem ser registos inconvenientes, convenientemente ignorados... 

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