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Neste "peça a peça" vou colocando algumas das coisas que fui vendo ao longo destes três anos, mas que aqui não escrevi, porque acabavam por ser "mais do mesmo". Mais provas, e alguma documentação, que ia sempre ao encontro da tese principal - a História ensinada é uma estória onde se esconde outra história...
Como me vou relembrando de algumas coisas, e encontrando outras novas, acaba por me parecer útil reunir os diversos elementos, que acabam por acrescentar alguns detalhes. O material é tanto que dará para encher muitos textos, mas são essencialmente muitos indícios do mesmo, e não propriamente grandes novidades.
É claro que é fácil rebater um documento isoladamente, enquanto que contra uma extensa lista de documentos e evidências, a Academia usa os expedientes habituais:
- ignora até poder, pode também falar em "algo absurdo" ou em "algo interessante" (é indiferente), mas requer mais explicações (infindáveis, ao bom estilo kafkiano), e quando, esgotando a paciência de todos, finalmente aceita... nada faz, e continua a ignorar como antes, até que venha a nova geração, e tudo se repete. Andamos nisto há séculos... podemos dizer milénios. 
Temos aqui exemplos ilustrativos.

O assunto é sobre a descoberta do Brasil, e menciono três textos.
- Uma bem conhecida carta de Mestre João Faras, um espanhol da migração judaica, ao serviço do Rei de Portugal, D. Manuel, na esquadra que colocou o carimbo de descobrimento no Brasil.
- O livro de Faustino da Fonseca, "Descobrimento do Brazil" e um texto com o mesmo nome, de Garcia Redondo, académico brasileiro, que cita e elogia Faustino. Ambos os textos são do início do Séc. XX, passaram-se 100 anos, e praticamente estão esquecidos. O texto de Garcia Redondo é mais curto, e encontra-se mais facilmente... já o de Faustino não se encontra às primeiras tentativas.

Mestre João
Sobre a carta de Mestre João, descoberta por Vernhagen no Séc. XIX, não há muito a dizer, bastaria um "sem comentários" e ler bem o que ele escreveu. Há uma página razoavelmente completa na Wikipedia, há a documentação na Torre do Tombo, e a transcrição associada:

Excerto da carta de Mestre João (Faras), onde desenha 
o Cruzeiro do Sul para orientação do pólo antártico.

O que tem a descrição de especial? Não é apresentar o Cruzeiro do Sul, pois desde as viagens aceites de Diogo Cão em 1482 seria impossível não o ver...
A maior particularidade é esta citação:
Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina.
Portanto, Mestre João, que acaba de chegar ao Brasil com Pedro Álvares Cabral, diz que aquela terra estava num mapa de Bisagudo. 
Resumindo: por acaso acabavam de descobrir o Brasil, mas tinham deixado em Portugal um mapa que já tinha desenhada aquela costa. 
Há gente que engole isto, e de facto só tem um problema de interpretação dado o significado da palavra "des-cobrir" - Cabral conseguiu "descobrir" por sorte, já o mapa de Bisagudo, esse ficou "encoberto" por azar.
Há um detalhe que ninguém parece mencionar, mas que para mim é muito importante... a Mina.
Aquilo que se torna claro é que a Mina era na América, ou antes - havia um Castelo da Mina junto aos incas, e um Forte da Mina no Benim - algo que escrevi há três anos, quando reparei no paralelismo das descrições entre as costas africana e americana.

Faustino da Fonseca e Garcia Redondo
Este episódio do mapa de Bisagudo é notado no livro 
Descoberta do Brazil, de Faustino da Fonseca.
Aliás, terá sido notado a partir do momento em que Francisco Varnhagen vai desencobrir as cartas, e há muito tínhamos referido Cândido Costa, que compilara informação no mesmo sentido. Na transição de 1900 sucedem-se os achados contraditórios, e pela não divulgação, são vários a chegar às mesmas conclusões. Uns terão ficado inconformados, outros terão-se conformado a alguma irmandade que cuida destes desvios.
Faustino da Fonseca, tentará publicar a sua compilação de factos por ocasião do 4º centenário da descoberta do Brasil, em 1900. Como ele diz, foi a popularidade do seu texto que evitou que ele ficasse completamente encoberto, e acabou por ser editado, para ser hoje convenientemente esquecido.
De acordo com a wikipedia, seria afiliado maçon, foi senador e director da Biblioteca Nacional, depois da implantação da República. Não terá sido o primeiro, nem o último director, que demonstrara antes as inconsistências na descoberta do Brasil.

Há muita informação importante no trabalho de Faustino da Fonseca, e são tantos os elementos que ele reúne que acaba por ser difícil retirar alguns do contexto.
Garcia Redondo, em palestra na Academia Brasileira, rendido à demonstração de Faustino, sintetiza assim as conclusões ("O Descobrimento do Brazil", Garcia Redondo, página 34):
  • 1436—Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
  • 1447—Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros desembarcam.
  • 1448—Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.
  • 1452—Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e chegam á latitude da terra do Lavrador.
  • 1472—Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
  • 1473-1484—Affonso Sanches descobre as Antilhas.
  • 1487—Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
  • 1492—Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
Para quem começa a ler a documentação, como diz Garcia Redondo, o que é quase impossível é mostrar que foi Colombo o primeiro a realizar tal viagem...
O mais notável será a leitura do próprio Colombo, que vai à "Terra Firme" (Colômbia, Venezuela), para confirmar da existência das terras que el-Rei Dom João II lhe assegurava existirem, ou seja, de toda a América do Sul, em particular do Brasil, demarcado pelo afastamento do meridiano de Tordesilhas.
Conforme diz Faustino da Fonseca, não era Colombo que inovava pela ideia de circum-navegação, essa ideia era vendida a D. João II, e depois a Colombo, por Toscanelli e pela academia externa, que ignorava a extensão prática da América, bloqueadora da passagem.
Reconstrução da visão de Toscanelli (1474)
(esta ideia de Circumnavegação será adoptada depois por Colombo)

Os portugueses é que se afastavam da escolástica, e afirmavam a experiência, "a madre de todas as cousas", conforme dizia Duarte Pacheco Pereira. O relato da extensão americana, que Pacheco descreve ao delimitar correctamente pela parte portuguesa do continente americano, surpreende Humboldt, já que à época as navegações espanholas nenhuma informação traziam da ligação contínua entre a América do Norte e do Sul.

A Méjica
Garcia Redondo vai ainda juntar uma nota sobre Vespúcio, e como a América resultaria de uma manobra francesa para lembrar o seu cartógrafo Rigmann... mas nacionalidades são ali uma capa que esconde outra estrutura, em que os francos são armados em galos. Redondo refere ainda a possibilidade do nome advir de uma designação dos Índios da Nicarágua para "Terras Altas".
Já aqui abordei o tema, e não me oferecem dúvidas que o termo Américo nada tem a ver com Alberico Vespúcio, que depois passou a ser conhecido como Américo...
Notei depois outro detalhe, que aproveito para escrever agora. 
Figueiredo fazia a separação - falava "da Mérica" e nem sempre da América
Ora, entre Mérico e México, temos apenas um ligeiro desvio de "r" para "x", acresce que os espanhóis ainda escrevem alternativamente "Méjico" enfatizando o som "r" no nome.
Por outro lado, Mexica era o nome dado ao povo Azteca, e pronunciava-se Méhícá, onde o "h" pode ser substituído sem grande distorção pelo "rr" do "j" espanhol.
Ou seja, se perguntassem a um português, diria A Mérrica, um espanhol A Méjica.
As suas malaguetas, paprikas ou amrikas, seriam afinal a pimenta, cujo o prato principal seria o ouro, disfarçadamente misturado no paralelo africano da Costa da Malagueta.
Se a Mexica caíu com Cortés, o nome já em uso acabou por brindar um Alberico renomeado Américo, mantendo-se alguma fonética original.

O atlas Miller 
Já vimos como Faustino da Fonseca (1900), Garcia Redondo (1911), ambos membros da Academia das Ciências de cada país, tomaram conhecimento do assunto, moveram-se para publicar as redescobertas, pelos cargos influentes conseguiriam alguma tomada de posição institucional. Porém, isto foi antes da Primeira Guerra Mundial, depois o assunto parece ter ficado algo esquecido, ou talvez não, e houve uma Segunda Guerra Mundial, e depois um grande silêncio.
Só que este problema acaba por aparecer ciclicamente, porque as coisas não batem certo, e alguém descobre, ou porque as coisas passam de uns a outros, quanto mais não seja em conversa casual.
Chegou-me a notícia (via KT-USA) de uma tese de doutoramento polémica sobre o Atlas Miller, de Alfredo Pinheiro Marques, na Universidade de Coimbra (e que parece ser levado o autor a mover processo judicial). Incluía-se um título significativo:

  • MARQUES, Alfredo Pinheiro
    Para o Silêncio da História: Carta ao Primeiro-Ministro do Meu País, sobre a Censura e a Mentira na História de Portugal
    [For the Silence of History: a Letter to the Prime Minister of My Country, on the Censorship and Lies in the History of Portugal], Coimbra - Figueira da Foz: Edição do Autor, 1999; 235 pp., c/il.; Dep. Legal (Portugal) 139040/99, ISBN 972-97193-2-2. The book about the censorship in Portuguese historiography and commemorations, and the international scandal of the 17th International Conference on the History of Cartography, Lisbon 1997.
Apesar de ter a curiosidade inerente em ver o que é dito sobre o Atlas Miller (de que já aqui falei), o título da "Carta ao PM" é suficientemente esclarecedor. Passados 100 anos, não foi Faustino da Fonseca a ter problemas ("O escândalo dos dramas do concurso do Centenário da Índia". Lisboa, Editora Agência Universal Publ., 1898), mas aparece sempre alguém... neste caso o director do Centro de Estudos do Mar. Se Luís de Albuquerque resistiu à tentação, parece que a nova geração nem tanto...
Não tenho grandes dúvidas que há segredos na representação das cartas portuguesas, e o mais simples - que consiste em virar o portulano de Pedro Reinel, será um deles. É bem possível que Alfredo Marques tenha identificado outros e se tenha deparado com o processo kafkiano inerente (felizmente que não é dirigido contra ele). Porém, parece-me que o segredo que escapou a Alfredo Marques é que se tratam mesmo de segredos... ainda hoje.

Essa reacção da parte culta, do culto, vi em inacção e acção há três anos... nos últimos quinze dias de Dezembro de 2009, e não me surpreendeu. Já as manifestações mais ocultas, essas vieram nos quinze dias seguintes, e deram-me uma dimensão suplementar do problema... essas diabruras é bom que fiquem de onde nunca deveriam ter saído.

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publicado às 07:59


17 comentários

De Clemente Baeta a 27.12.2012 às 16:20

Alvor-Silves

Não sei se tem conhecimento mas essa tese de doutoramento de Alfredo Marques está disponível para download gratuito em:
http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/histport/msg05595.html

Cumprimentos

Clemente Baeta

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