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A nau São Paulo

24.09.18
A nau São Paulo teve um fim que está descrito no 1º volume da História Trágico-Marítima - encalhou junto a Sumatra. Neste caso temos um retrato bastante bom do que se terá passado em 1560-61.

Esta nau fazia parte da armada do capitão Jorge de Sousa, reunida a 25 de Abril de 1560, para a carreira da Índia, e que tinha a seguinte composição:

  • nau Castelo, comandada pelo capitão, dom Jorge de Sousa;
  • nau Rainha, comandada por Jorge de Macedo;
  • nau S. Vicente, comandada por Vasco Lourenço de Barbuda;
  • nau S. Paulo, comandada por Rui de Melo da Câmara;
  • galeão Drago, comandado por Lourenço de Carvalho;
  • galeão Cedro, comandado por Francisco Figueira de Azevedo.

Esta enumeração é feita na sequência de uma troca de comentários com David Jorge e João Ribeiro, tendo ficado algo surpreendido de não encontrar online um simples registo burocrático dos navios e capitães que fizeram a Carreira da Índia. O historiador Luís de Albuquerque fez ainda em 1985 uma edição com os dados constantes na "Relação das Naus e Armadas da Índia", um manuscrito que está na British Library (Códice Add. 20902). Curiosamente numa relação deste livro, as naus que fizeram a viagem da Índia foram São Rafael (Vasco da Gama), São Gabriel (Paulo da Gama), São Miguel (Nicolau Coelho) e outra, de Gonçalo Nunes não estava nomeada, sendo o nome restante a "Bérrio". A troca do nome das naus pelos comandantes, pelo infortúnio da S. Rafael, ou o uso dos 3 arcanjos principais pode ser uma razão desta alteração na relação.
As ilustrações seguintes são retiradas do livro de Lisuarte de Abreu (com agradecimento a David Jorge).
A nau S. Paulo comandada por Rui de Melo da Câmara

Rui de Melo da Câmara tinha regressado da Índia na mesma nau S. Paulo em 1559, e partia de novo para a Índia. O relato constante na  História Trágico-Marítima (páginas 351-479) será de um passageiro, Henrique Dias, criado do Prior do Crato, e é bastante pormenorizado. Não sei se seria "companheiro", no sentido de pertencer a alguma companhia (havia dois padres da Companhia de Jesus), mas todo o seu queixume, ao longo do texto, parece sinal de se revelar um "grande chato".

Ao fim de menos de uma semana avistavam as Canárias. O piloto António Dias seria novo na Carreira da Índia, e acabaram por se perder dos outros navios.
No entanto, o avanço inicial que levaram acabaram por o perder numa procura de ventos e tentativas de evitar os baixos de Santa Ana.
Acabaram por chegar ao Brasil a 27 de Agosto, onde ficaram 44 dias a "invernar", para regressarem ao caminho da Índia, procurando manter a orientação do paralelo 37ºS, onde estavam as ilhas Tristão da Cunha (no texto é dito estarem a 36ºS), e assim evitarem o paralelo 35ºS do Cabo da Boa Esperança. A ideia do piloto seria acertar com a longitude do Ceilão, ou do Cabo Camorim, vogando a Leste nos 37ºS e depois subir na direcção Sul-Norte. Falharam o plano, a derrota foi diferente da rota, e acabaram em Sumatra.
Rota pretendida por António Dias, piloto da nau São Paulo (a negro), 
e a sua derrota (a vermelho), ou seja a rota alterada, que os lançou em Sumatra.

É essa desventura que nos interessa, porque essa ideia de cruzar o Índico, evitando a costa, seria usada depois pelos holandeses, como novidade sua, chamada Rota de Brouwer, onde navegavam directamente para Sumatra, ou acabavam por naufragar imprudentemente na Austrália, como aconteceu com o navio Batavia, encalhado nos Abrolhos australianos.

Manoel Pimentel, cosmógrafo-mor de D. João V, na sua "Arte de navegar" explica como fazer a viagem de África para Timor dessa forma, avisando que as correntes eram complicadas, e se não houvesse cuidado poderiam sucumbir aos baixos Trial (que vitimaram o navio Trial).
Outro ponto de referência nessa navegação eram justamente as ilhas Amsterdam e São Paulo.
Ora, procurando a ilha São Paulo, na página inglesa da wikipedia, refere-se a sua descoberta pela nau São Paulo (e com alguma pesquisa no histórico, entendi que a referência seria um livro de Fina d'Armada, historiadora entretanto falecida em 2014).

 
A ilha de São Paulo (actualmente sob domínio francês) foi descoberta pela nau São Paulo em 15 de Dezembro de 1560.

Com efeito, temos o relato de Henrique Dias que é bastante exaustivo e elucidativo:
Um Domingo, quinze de Dezembro, havendo um mês, que virámos a terra do Cabo de Boa Esperança, no quarto da Alva, em querendo romper a manhã, que saiu aliás formosa e clara, vimos huma ilha três ou quatro léguas de nós por nossa proa; e saindo o Sol com seus dourados e resplandecentes raios, muito para alegrar todo o coração humano, e coisa mortal, a fomos descobrindo; seria ao parecer e juizo de todos de cinco ou seis léguas; foi por certo coisa muito para ver, e dar contentamento aos olhos, ver a Nau em popa com todas as velas, vento fresco, quanto ella podia sofrer, sobre a Ilha, coisa muito para pintar, como alguns fizeram; o dia claro, sereno, e mui quieto, toda a gente a bordo, dando todos muitas graças a Deus com muitas lágrimas; a Missa, e Pregação, que o Padre fez sobre isso, por descobrirmos terra nova, e Ilha nunca vista de outros olhos mortais, senão dos nossos, em mares tão remotos, e nunca navegados de nenhuma gente do mundo, metida tanto na grandeza do mar, e centro dele, que a mais vizinha terra firme, que tinhamos, era o Cabo do Comorim, de que estavamos Nordeste-Sudoeste mil e tantas léguas dele ao mar, tendo já diminuído boa parte do caminho, por que antes vinhamos. 
Foi esta a mais formosa terra, e uma das bem postas Ilhas, que no mar se podem ver, mui alta, e bem assentada da banda do Sueste; vindo fazendo um valle abaixo e sombrio da banda do Nordeste, que parecia cheio de arvoredo, e ter nela parte bom surgidouro; no mais alto dela redonda e chã: por cima da banda do Sueste tinha um pico ou muro redondo muito formoso, e bem posto e talhado, que parecia um castelo feito à mão: está Norte e Sul com a Ilha dos Romeiros, e com a das Sete Irmãs, e Nornordeste e Susudoeste com toda a outra terra firme. Ficámos a barlavento da Ilha, e assim fomos correndo em redor; é toda limpa, sem nenhuma restinga, nem baixo; somente um ilhéu, que tem pegado com terra da banda do Sudeste; ao redor dela achámos muitos Lobos marinhos; e depois que a passámos, muitas camadas de umas ervas muito grandes, como as de Cama de Bretão, e de uma folha muito mais larga, que de uma mão travessa, e assim outras ervas, que traziam em si pegadas umas frutas redondas brancas, do tamanho de ameixas. 
Estava esta Ilha em trinta e sete graus, e três quartos da banda do Sul; em esta altura foi posta, e arrumada em todas as cartas, e quarteirões, que na Nau iam. Sobre o pôr do nome houve muitos debates e diferenças, por quererem os Soldados, que se denominasse deles a Ilha dos Soldados, por um a ver primeiro que todos no quarto da Alva; e o Capitão querer que tivesse seu nome, dizendo ser assim costume às Ilhas novamente debaixo de suas Capitanias descobertas tomarem seus apelidos dos Capitães; o que o Piloto desejoso de glória e louvor não consentiu, nem teve conta com nada, senão depois de arrumada nas cartas em sua altura, lhe pôs seu nome, chamando-lhe a Ilha de António Dias; dizendo-lhe alguns, que bem entendiam, que aos baixos somente se davam, e tinham os nomes dos Pilotos; mas ele determinou brevemente esta questão de maneira, que com o mesmo vento, e governando ao rumo costumado deixámos à ré a Ilha, e a perdemos de vista antes do meio dia. 
A descrição e a localização coincidem o suficiente - Henrique Dias dá 37º45'S, mas a ilha está a 38º43'S, simplesmente também já havia um grau de erro na latitude de Tristão da Cunha, e devemos ter em atenção que estas medições de latitude no mar estavam longe de ser muito exactas.

Haveriam mais algumas coisas a dizer sobre este texto, mas talvez o mais notável é a posição de ascenção do piloto face ao capitão, insistindo em nomear a ilha com o seu próprio nome, António Dias. Ou talvez não fosse este o António Dias que deveria figurar como descobridor da ilha, mas interessaria manter o nome. O nome que acabou por permanecer foi o da Nau, provavelmente porque alguns mapas passaram a referir esta ilha, sem saber dos detalhes contados pelo passageiro.

Nota-se ainda que o piloto insistiu no rumo que levaria à descoberta da ilha, provavelmente porque teria outro conhecimento dela. No entanto, estavam errados face à posição da ilha, que está no mesmo meridiano do Cabo Comorim, e por isso deveriam tomar então o rumo Sul-Norte e não o rumo Sudoeste-Nordeste, que veio a levá-los até Sumatra.

Poupando a leitura da má sorte, do naufrágio e dos sobreviventes, está também ilustrado o desfecho da Nau São Paulo no livro de Lisuarte de Abreu - "a nau São Paulo perdeu-se na ilha de Sumatra (Çamatra)", já em 1561.
A nau S. Paulo naufraga junto a Sumatra, "ficando muitos sobreviventes com fados diferentes".

_________
25/09/2018

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publicado às 03:43


6 comentários

De Anónimo a 26.01.2020 às 02:20

o astrolábio mais antigo e mais completo alguma vez encontrado no mundo inteiro
Da nau Bom Jesus, naufragada em 1533
https://scontent-frt3-1.xx.fbcdn.net/v/t1.0-9/83551596_2801917713207321_6031803717760581632_o.jpg?_nc_cat=104&_nc_ohc=-0jnjxOx0MgAX8H6Ai1&_nc_ht=scontent-frt3-1.xx&oh=acb08f759219088eec792299c8a6143a&oe=5ED43ABA

https://scontent-frx5-1.xx.fbcdn.net/v/t1.0-9/83645083_2801951313203961_7464818615473143808_o.jpg?_nc_cat=100&_nc_ohc=KZKB9n2f1-EAX8YGCZA&_nc_ht=scontent-frx5-1.xx&oh=96850e4c89b478edb1fe2ad3c8f1ada0&oe=5ECF53E5

Portugal tem um tesouro perdido na Namíbia
https://www.rtp.pt/noticias/pais/portugal-tem-um-tesouro-perdido-na-namibia_v946240

para divulgarem sff
cumprimentos
José Manuel

De Alvor-Silves a 29.01.2020 às 05:13

https://alvor-silves.blogspot.com/2020/01/dos-comentarios-59-tradicao-e-traducao.html

De João Ribeiro a 29.01.2020 às 11:45

Que triste figura que essa senhora que "nos representa" fez. Reflexo deste governo socialista/comunista que se estão a marimbar para o país que representam desde que os seus bolsos continuem a encher. Que revolta, que repugnância e asco por esta maltinha horrível.

De Anónimo a 29.01.2020 às 13:25

é de alguém aqui redigir petição à Assembleia da República, eu posso dar a cara com nome morada n° de BI, mas para ter sucesso, a petição, tem de ser feita em termos jurídicos irrefutáveis, apoiando-se também no caso Espanhol, a época multiculturalista global que é representada na AR não será favorável a que abdiquem da declaração de principio da primazia do local de bandeira dos achados, ou lá o raio que seja, e está errado, pois os museus Portugueses têm pouca coisa da época dos descobrimentos.

Até aqui se vê a que a farsa continua, pois as 2.333 moedas de ouro e prata não chegaram a ser vistas para catalogo!?
9 janeiro 2020, Academia da Marinha
https://academia.marinha.pt/pt/multimedia/sessoesculturais/Paginas/Feliz-Natal-e-.aspx

Cumprimentos
José Manuel

De João Ribeiro a 30.01.2020 às 11:57

Caro José Manuel,

Falta-me o conhecimento dos "termos jurídicos irrefutáveis". Posso é levar a questão à AR através do site da mesma e que dá a todos os partidos e cargos do governo conhecimento da mesma. Já o fiz por variadas vezes e em todas o resultado foi zero mas ficaram pelo menos a saber que há por aí pessoas que se interessam.

Cumpts,

JR

De Alvor-Silves a 31.01.2020 às 04:19

Pois, do que tenho visto, há imensas "petições online", muitas delas reunem o número de assinaturas para serem levadas à AR, mas não havendo um partido que as acarinhe, através de interesse no assunto, por algum motivo... exceptuando nesse caso, todas as outras iniciativas resultam em coisa nenhuma.
É pena, mas o sistema funciona muito com esta ilusão de que podemos protestar, mostrando alguns exemplos que resultaram... mas só porque havia partidos políticos com essa agenda.
Neste caso, creio que só talvez os partidos da direita (e não sei se inclua o PSD) poderiam manifestar alguma simpatia pela causa.
De qualquer forma, estou totalmente solidário com a petição.
Abraços.

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