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Tinha arrumado o tópico "Arquitecturas", mas na sequência das pertinentes questões levantadas no comentário do Sid, acrescento mais algumas considerações.

Gillray: Britannia entre a Rocha Democrática e o Remoínho do Poder Absoluto.

O raciocínio humano entricheira-se entre Scila e Caribdis... de um lado forma conceitos que emergem da previsibilidade, por outro lado tende a submergir o que é previsível.
Num universo caótico não seria possível formar conceitos, edificar noções estáveis, e num universo demasiado previsível os conceitos mais complexos seriam desnecessários, a ponto de nem serem cogitados. Este ajustamento é mais do que uma simples "coincidência"...
Para dar um exemplo simples, basta pensar na condução... se a resposta do veículo fosse imprevisível face aos movimentos do volante, ninguém saberia conduzir (nem haveria nada para "saber"...), e por outro lado, após sabermos conduzir, o processo torna-se tão automático que fica submerso, relegado em gestos instintivos - o assunto já não merece reflexão.

Em sociedades de fácil sobrevivência, ao género de "paraísos tropicais", onde a fruta está à distância do braço, o engenho humano fica como acessório de vivência. Mas essa vivência pode transformar-se em problema de sobrevivência pelo engenho complexificador de relações sociais. Quando o mundo ficou sob domínio humano, os humanos passaram a temer o seu maior predador - os "outros".
Os "nossos" maiores inimigos são sempre os "outros"... nos "nossos" confiamos, dos "outros" desconfiamos. É claro que o engenho social conseguiu complexificar ainda mais, e a noção de "traição" deixa o indivíduo essencialmente isolado, face à imprevisibilidade de "todos os outros".
Pode caricaturar-se a situação: - na "lotaria dos animais" o Homem ganhou o paraíso, sem ler o aviso - "a incapacidade de partilha transforma paraísos em infernos".

Creio que já não há ministérios "da guerra", só "da defesa"... legitimando-se agora as guerras como "formas preventivas de defesa". E sempre assim foi... mesmo os mais empenhados conquistadores, em última análise procuravam eliminar ou neutralizar "inimigos", fosse por motivos externos ou internos. O medo dos "outros" é também "o medo dos outros", e auto-alimenta-se.

A "ascendência primata" do Homem parece ter relegado o Homem a um papel menos especial na "criação", libertando-se da visão antropocêntrica religiosa. Porém, não é apenas isso... ao contrário do que parece, legitima uma visão bem mais elitista. Afinal, se a diferença entre um homem e um outro primata for apenas resultado de uma evolução animal, também se pode pretender que a Eugenia possa levar a uma variação de raça, e até de espécie, ao ponto de se gerarem "super-homens". A visão do homem-macaco serve muito mais para justificar o tratamento animal que é dado a certos homens, do que para dar um tratamento humano aos animais... 
Há quem tenha cultivado a pureza na descendência, e não foram apenas os aristocratas de ascendência bárbara-goda, nem os nazis pela ideia de "raça ariana". Aproveito para agradecer aqui a oferta de um livro sobre "jewish eugenics", que me chegou há uns tempos pelo correio, sem que eu tenha percebido como obtiveram o meu endereço, ou qual foi o interesse em que o recebesse.

A falta de verdade, a necessidade de ludibriar, de esconder segredos, tudo isso resulta de uma falta de confiança, de fé nos "outros". Todas as quebras legitimarão ainda maiores desconfianças, e o cumprimento exemplar nunca afastará essa noção, escondida nos mais íntimos medos. Um sintoma típico da necessidade de confiança, sentida por algumas pessoas, acaba por se manifestar em animais de estimação, companheiros de onde não esperam especiais surpresas.
A confiança, a fé, sendo afastada dos outros, seus semelhantes, foi também relegada para um conceito externo, divino. As provações, os infortúnios, seriam compensados numa balança de justiça, repositora da verdade, para além da morte. Com alguma tentativa científica de desmistificação religiosa, e com uma expansão do pragmatismo moderno, a confiança humana passou depois a ter à "cabeça" - o capital. As instituições, os estados, vão perdendo a confiança depositada pelos cidadãos, e progressivamente aceita-se a "pena capital", como último depósito de garantias humanas.

Ao indivíduo que incorporou respostas a alguns porquês na sua infância, a ciência actual surge como estéril a esse tipo de perguntas. Formada pelo pragmatismo experimental, a ciência é essencialmente descritiva, e a sua máxima justificativa é a constatação ou "o acaso". À queda da pedra, acrescenta uma relação de aceleração, uma noção de gravidade, mas está longe de justificar, ou sequer de perguntar, por que razão tal força existe. Existe "porque sim", responde-se, como responde qualquer criança incomodada com uma pergunta. E nem é preciso ir à Física, cheia de "buracos negros", mesmo a Matemática pode estudar os números primos, estabelecer teoremas, mas não explica a razão da imprevisibilidade dessa sequência gerada afinal pela simples aritmética da multiplicação. Aliás, ainda é um problema em aberto saber se há uma infinidade de "primos gémeos"... o problema pode ser colocado a uma criança, mas a sua prova resiste há séculos, ou talvez há milénios, já que Euclides apresentou a prova da infinidade dos primos (simples) há mais de 2200 anos, e esses assuntos tinham a atenção dos gregos.

Acontece que, também por experiência, as coisas têm habitualmente algum nexo de causa, que nos permite uma compreensão do mundo que nos rodeia. É claro que este tipo de arquitectura faz suspeitar de um "desenho inteligente", a compasso da noção de um arquitecto divino. Ora, isso não acrescenta informação, apenas transfere o problema, porque essa mesma noção levanta outros problemas lógicos. Há uma outra resposta, que é parecida com o "porque sim", mas tem implícita uma informação muito maior - "é assim, porque não poderia ser doutra forma". E para se perceber um pouco dessa informação subjacente, volto à imagem de Scila e Caribdis... se não houvesse nenhum nexo, nada seria inteligível, e se o nexo fosse facilmente prescrutável, não seria necessária nenhuma inteligência complexa, porque a complexidade nem sequer existiria. Isto é mais ou menos óbvio, muita gente intui este "ter que ser assim", e ainda que seja entendido não é assumido, nem é reconfortante.
Há uma pretensão subjacente de compreensão absoluta, esquecendo a questão do aprofundamento no remoinho de Caribdis - caso tudo fosse explicado, entendido e corrigido, o que nos motivaria para o dia seguinte?

Também por constatação - algo muito científico - verificamos que as coisas ocorreram de uma maneira e não de outra. Isso levou à noção de determinismo, associada indelevelmente à noção de "destino". Talvez por receio de conotação religiosa, e para evitar a desresponsabilização humana, essa noção caiu em desuso no início do Séc. XX. A modelação humana iria ganhar supremacia face ao desenrolar do universo... ridículo, mas tido como "científico". As coisas eram colocadas desta forma: "a moeda tanto pode cair em cara ou coroa", uma constatação de modelação da possibilidade que escondia a impossibilidade de se saber se iria ser uma coisa ou outra. Não é errado pensar em probabilidades, mas é de um absurdo e arrogância considerar que a nossa incompreensão é que modela o universo. E, no entanto, hoje quase ninguém se atreve a dizer o contrário. Porque dizer o contrário é também assumir a impossibilidade do livre-arbítrio, e há que responsabilizar escolhas...
A noção de decisão surge da modelação interna que fazemos do que nos rodeia. O nosso modelo é obviamente impreciso, e por isso não conseguimos antecipar o resultado. Aliás se isso fosse possível, significaria que nos identificaríamos com o universo, e não haveria surpresas, nem tão pouco razão de ser. Ora, como a nossa modelação é imprecisa, pensamos em cenários, em diferentes possibilidades, e daí surge o conceito de que temos escolhas, e de que uma acção diferente levaria a outro resultado. Temos as mãos atadas ao volante, e seguimos o destino nos carris, sem distinguir se é o volante que vira por acção das nossas mãos, ou se são as nossas mãos que viram por acção do volante que segue os carris... e pensamos que poderíamos ter virado atrás noutra direcção, ou que teremos poder de decisão na próxima curva. Aí não seremos enganados, já vemos os carris, e viramos noutra direcção... seguindo os carris, porque os que víamos eram afinal parte do cenário onde contemplamos as diversas possibilidades.

O aumento da nossa compreensão não reduz necessariamente a nossa incompreensão, porque novos problemas se colocam. A melhor compreensão permite apenas que estejamos "mais sintonizados" com o que nos rodeia. A fabricação de logros, enganos, armadilhas, não é nenhuma evolução especial, e pode ser encontrada como forma de sobrevivência ou defesa em muitos animais, não é propriamente uma invenção da inteligência humana... e se há novidade é em ser usado contra a própria espécie. Aliás, se há espécie empenhada em eliminar os seus próprios elementos, é a humana...
O jogo entre a percepção interna e a realidade externa foi estabelecido há muito na "natureza", e tem um sucesso limitado. Em última análise, serve para caçar alguns, durante algum tempo, até que se torne quase irrelevante pela sua previsibilidade, dada a melhoria de percepção dos sobreviventes, ou pela competição interna que anula os predadores.
No jogo entre a fabricação de realidades e a percepção desse fabrico, uns procuram distorcer a percepção, e os outros apuram a compreensão e identificação das distorções. Uns afastam-se da realidade procurando criar um mundo à sua medida, os outros vão, por força das circunstâncias, apurar a sua percepção para a distinção entre realidade e fabricações.

No limite, uns pretendem uma manipulação artística do universo, transformando-o num teatro dos seus modelos, e para isso vão parasitando tudo, inclusivé as descobertas alheias, dos que abnegadamente vão aumentando a percepção científica. A essoutros, resta a convicção profunda, ou fé, de que o universo não se poderá reduzir a uma manipulação teatral. Uns acreditam que o fabrico de uns tantos artífices terá engenho suficiente para submeter tudo e todos, outros acharão que essa pretensão megalómana é "ligeiramente" excessiva... dado o universo em questão. 

Porém, convirá perceber que se devemos diminuir o drama das hostilidades, algumas dificuldades, adversidades, não podem deixar de existir, sob pena de estagnação... afinal, "viver feliz para sempre" é apenas uma frase aplicável a vegetais, desprovidos de sistema nervoso.

The Cure - "Where the birds always sing" (*) 

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publicado às 19:01


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