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Para o grandioso processo, da evolução humana, existe em Espanha, perto de Burgos, um local - Atapuerca - que poderá ser considerado como uma Acta de evolução humana, concatenando ossadas, quase continuamente, desde remotos tempos - anteriores a Neandertais, datados de ~ um milhão de anos, até à época medieval. 
Sierra de Atapuerca - escavações arqueológicas, onde foram encontradas as mais antigas ossadas europeias.
Foi neste local que se definiu uma nova espécie humana, denominado Homo Antecessor, considerado como ancestral do Homem de Neandertal, ou do Homo Heidelbergensis (até então considerado o mais antigo na Europa).

O aspecto menos limpo dos achados relativos a estes hominídeos primitivos, é que terão sido encontradas provas concludentes de que praticavam canibalismo, especialmente de crianças e jovens, e não seria algo relacionado com nenhuma "justificação" ou "necessidade"... simplesmente fazia parte da sua dieta alimentar:
First Europeans were cannibals with taste for children (Telegraph, 24-06-2009)
Esta prática foi encontrada em mais do que um nível de ossadas, revelando que foi uma prática que perdurou durante esses tempos antigos.

Outros registos de canibalismo têm sido encontrados, relativamente a Neandertais, que mostram que houve famílias sujeitas a uma prática canibal. Algo que é habitualmente pouco mencionado, e que como é óbvio, também foi (e ainda é...) praticada pelo Homo Sapiens.
Neanderthals darkest secret - El Sidrón
(produção: Terra Mater Factual Studios)

Casos de canibalismo ocorrem entre primatas, nomeadamente orangotangos, bonobos, ou chimpanzés, eventualmente por disposição do corpo por morte, mas no caso de chimpanzés, é de notar que a maior parte da dieta alimentar consiste em macacos mais pequenos.
Portanto, não será de estranhar por completo, que primitivos hominídeos usassem a prática canibal.
Já mencionei isso, num outro postal "O Tonante (2)" (... dieta paleolítica), e não vejo como se possa excluir que a prática de domesticação animal, que depois se seguiu, não pudesse ter começado antes por uma "domesticação" interna à espécie, para fins alimentares.

Uma outra questão pré-histórica associada, será a de saber se, durante a Idade do Gelo, existiu alguma forma de escravatura instituída. Podendo ainda considerar-se que uma separação de descendência, entre escravos e não-escravos, poderia ainda ter levado à formação de subespécies ou raças aparentemente diferentes.
Os primeiros registos históricos conhecidos - por exemplo, sumérios, são registos que envolvem desde logo uma contabilização de escravos, pelo que a escravatura é muito anterior. Sendo admissível pensar que poderia ter sido uma sociedade agrícola, neolítica, a necessitar de produção baseada em escravos, o registo poderá ser bem mais antigo, e mergulhar em tradições do paleolítico.

No entanto, há aqui uma curiosidade factual.
Havendo vontade expressa de uma certa elite se destacar, cuidando que apenas fosse conservada na elite uma raça pura, ou apurada, caso fosse possível, em sinal contrário, às raças escravizadas, poderem continuar a cruzar-se entre si, então o resultado ao fim de algum tempo seria previsível.
Ou seja, a raça apurada tenderia a tornar-se infértil, e mais sujeita ao desaparecimento, do que as raças que continuavam a permitir cruzamentos indiscriminados.
Aliás, no momento em que essa raça purificada se viesse a extinguir, só restariam elementos das restantes raças, que permitiam uma maior diversidade de cruzamentos. Por exemplo, durante a Idade Média, quando as famílias reais tenderam a ser bastante elitistas nos cruzamentos, os problemas genéticos começaram a aparecer no sangue real, mostrando como a natureza não autorizava ser ultrapassada na selecção natural, por uma selecção humana, artificial.

Em conclusão, podemos considerar suspeita natural que aquilo que levou o Homo Sapiens a impor-se perante as diferentes subespécies de hominídeos terá sido uma capacidade reprodutiva muito alargada, entre subespécies muito diferentes, que terá determinado depois uma certa normalização.
E se no caso de muitos animais, uma antiga pequena mudança de aspecto terá determinado espécies completamente diferentes, isso não terá ocorrido da mesma forma no caso humano.

O que restou de tradições canibalistas, com origem pré-histórica, foi ficando reduzido a pequenas tribos isoladas, e cada vez mais isoladas, ao ponto de serem ignoradas. Não é até de excluir que algumas exigências alimentares religiosas - proibição de alimentação com carne de porco, pudessem ter origem num repúdio longínquo de qualquer cheiro que pudesse lembrar práticas de antropofagia.
Atapuerca poderá ter assim enterrado, um dos últimos processos menos limpos da evolução humana, quando a dieta alimentar não estava minimamente ligada a nenhuma dieta moral.

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publicado às 19:16


3 comentários

De Anónimo a 01.12.2016 às 02:42

Essa do canibalismo dos neandertais já foi rebatida com outros estudos que provam que a carne do crânio era raspada com intuitos de conservação das ossadas para rituais fúnebres, o tártaro dos dentes prova que eram vegetarianos e consumiam vegetais da agricultura, pode ter havido canibalismo na era glacial.

http://www.bbc.com/portuguese/ciencia/030326_ferramentamtc.shtml

https://www.publico.pt/2013/12/17/ciencia/noticia/os-neandertais-enterravam-intencionalmente-os-seus-mortos-afirmam-cientistas-1616500

https://www.sciencedaily.com/releases/2010/12/101230113723.htm

Outro mistério é o de utilizarem os espanhóis tantos ossos na construção das muralhas dos castelos.

Cpts,
José Manuel

De Alvor-Silves a 02.12.2016 às 04:18

Caro José Manuel, a conclusão sobre os vestígios do Homo Heidelbergensis serem de canibalismo é posterior ao artigo que indica, que é de 2003. Não sei se houve conclusões ainda posteriores, mas também é verdade que nestas coisas nem sempre há unanimidade de opiniões.
Quanto aos neandertais, é um pouco diferente. Não me parece que estejam a excluir o consumo de carne, simplesmente excluem que o consumo fosse apenas de carne, e tal como a existência hoje de Sapiens que são tribos canibais, não implica que ainda todos os Sapiens sejam canibais.

Sobre o assunto de se encontrarem muitos ossos nas muralhas de castelos, não sei, tem referências sobre o assunto?
Obrigado!

De da Maia a 02.12.2016 às 10:04

Neandertais como ferozes super-predadores, que teriam levado os humanos até à quase-extinção, é uma apresentação completamente diferente do assunto, feita por D. Vendramini, aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=mZbmywzGAVs
«Neanderthal: profile of a super predator»

É uma perspectiva bastante diferente, de como têm sido retratados os Neandertais nos últimos anos. Em vez de os retratar como humanos adaptados às ossadas, Danny Vendramini propõe basicamente um retrato de gorilas adaptado às ossadas... e o resultado seria bastante diferente, mesmo que achemos que ele está a exagerar, talvez com a finalidade de promover o seu livro.

No entanto, parece-me que ele pode ter alguma razão, já que não seria muito natural um hominídeo adaptado a viver no frio tivesse perdido os seus pêlos. Por outro lado parece consistente que um maior cérebro na parte anterior, ligada à visão, tenha ainda maiores globos oculares.

No entanto, não sei se há qualquer evidência de confrontos entre uns e outros. Estes registos de canibalismo (entretanto o vídeo foi retirado) não diziam respeito a Sapiens, mas sim a outros Neandertais.

O problema com a divulgação científica, e até com a ciência, é que para "facilitar" adopta o melhor modelo, não separando o que é simples conjectura, do que é conhecimento mais fundado. Assim, creio que nem há evidências de que os Neandertais tenham usado roupas, tirando estudos que associam o frio à necessidade de roupa.

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