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Austrália do Espírito Santo é como Pedro Fernandes de Queiroz terá baptizado o continente austral


numa viagem quase esquecida, em 1606, mas que o Padre José Agostinho de Macedo faz questão de lembrar noutra parte do poema "Newton":
O trabalho mortal, o amor da gloria.
Ó nome Lusitano, ó Patria minha,
Eu culpo o teu silencio, a huma virtude,
Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia.
Descreve Newton c'o compasso d'ouro
O globo que Varennio exposto havia;
Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville,
Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyrão.
Do Continente austral foge o fantasma,
Que avarento Hollandez (nem hoje avaro;
Nem já por crimes se conhece a Hollanda)
Julgou grande porção do globo, e sua.
Assombrado do gelo atraz voltárão,
Mas nunca hum passo além co' lenho óvante
Da Terra forão que tocára hum Luso;
Magnanimo Queiroz, déste-lhe hum nome
Para ti foi brazão, e he meta aos outros
Do nebuloso Sul prescrutadores:
E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo,
Se ao pensativo Bátavo pertence,
E ao pertinaz navegador Britanno,
No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte,
Mais além de Queiroz nenhum se avança.
Foi entre tantos Magalhães primeiro,
Todos de hum centro os raios se derramão,
Que vem tocar d'hum circulo os extremos,
Há uma referência a vários nomes... e essencialmente o Padre Macedo transmite uma versão muito clara das condicionantes sobre as descobertas no período entre Fernão de Magalhães e James Cook.
Macedo começa por queixar-se do silêncio, inércia portuguesa, para reivindicar a presença no continente Australiano. Mas não se fica por aí, traça um rasto...

O rasto começa no trabalho do jovem holandês Bernhardus Varenius, "Geographia Generalis", republicado pelo jovem Newton... um escreve-o e morre aos 28 anos, e com a mesma idade, o outro vai recuperá-lo. Não consegui obter nenhum "globo exposto", nem um único mapa dessa geografia... é certo que o trabalho ficou conhecido por ser teórico, mas uma geografia sem um único mapa, parecia-me ser apenas sina de portugueses e espanhóis após o Séc. XVI.

Cook é sobejamente conhecido, e já falámos sobre o Cozinheiro e Sanduíche
John Byron será aqui o avô do famoso poeta. Esse Byron acompanhou George Anson numa viagem de circum-navegação. Ambos ficaram conhecidos por contribuírem para a derrota franco-espanhola na Guerra dos Sete-Anos.
A partir daí ficou Pacífico que o Oceano seria inglês, com a anuência e silêncio do aliado, Portugal.
Se o francês Bougainville tinha bem preparada a viagem Pacífica pelos mares do Sul, pela derrota sofrida Luís XV não a pode creditar. Bougainville contentou-se com o nome associado às belas buganvílias, flores que antes de serem "descobertas" por si, era suposto abundarem em toda a América do Sul, com vários nomes, entre os quais "três-marias"...
Os franceses ficavam com as buganvílias, e os holandeses com as túlipas...

A Holanda, já tinha tido o seu quinhão de guerras navais com os ingleses, e a sua rota seria uma derrota. Uma derrota é nauticamente uma mudança do curso previsto na rota. Conforme referimos em Túlipas e Futuros, a invasão inglesa protagonizada por Guilherme de Oranje foi uma vitória holandesa que cedeu o doce da Laranja e acomodou o ácido, ao jeito do que aconteceria com o aliado português.

Do continente austral foge o fantasma
Era disso que se tratava... de uma fantasia política que impedia a sua descoberta.
Por isso, diz Macedo... do avarento Holandês já nem se conheciam "os crimes" no início do Séc. XIX.
A sede do comércio, dos avarentos, tinha passado para a City Londrina.
Porém, Macedo lembra... lembra da vontade de dominar os mares, julgando sua grande porção do globo... afinal pecadilho semelhante ao dos portugueses. Podemos relembrar aqui os privilégios que a Companhia das Índias Holandesa arrogava ter
Antes de falar de Pedro Fernandes de Queiroz, o Padre Macedo faz questão de salientar
"nunca um passo foram avante com os barcos, do que onde tinham tocado os Lusos"
tal como dissera Pedro Nunes, os lenhos das naus portuguesas tinham ido a todo o ilhéu, todo o baixio.

Para Queiroz, o Padre Macedo não reclama a descoberta, reclama o nome a "Austrália do Espírito Santo", nome que constaria do diário de Cook, e que acabou por se sobrepor enquanto Austrália à designação inconveniente de Nova Holanda... que lembraria os holandeses. A viagem de Queiroz à Austrália Oriental é de 1606, e no mesmo ano é reclamado que Janszoon teria avistado a parte Ocidental. Mais uma vez, uma quase simultaneidade, passando quase um século que os portugueses aportavam a Timor, ali ao lado. Poderíamos lembrar ainda a viagem de Heredia em 1601, mas Macedo é mais claro:
"mais além de Queiroz nenhum se avança, foi entre tantos Magalhães o primeiro"
 ... ou seja, Macedo dá a entender que Magalhães teria sido o primeiro a aportar à Austrália.
É algo natural, porque em muitos mapas, a parte austral é denominada "Terra Magallanica"... e por isso, mais do que o crédito da viagem de circum-navegação pelo Estreito (que o próprio denunciara, ao falar no mapa de Behaim), seria natural que essa viagem se destinasse também a reclamar a Austrália para Espanha. 

Ao pensativo Batavo pertence...
A Austrália seria a gota de água que transbordaria o Oceano político europeu.
Quando Magalhães começava a preparar a sua viagem, em 1517, Martinho Lutero confronta a Igreja com as suas teses que questionam o Poder Papal. Quando Elcano regressa em 1522, já Lutero tinha afixado as suas teses e passado pela Dieta de Worms (ligada à saga dos Nibelungos)... estando proscrito por Carlos V. 
Só que o imperador, após séculos de tradição germânica, estava agora em solo espanhol!
A questão explorada pela simples avareza não oferecia grande dúvida.
- De um lado, o Tratado de Tordesilhas que dividia o mundo em dois, reconhecido pelo Papa, e com o Imperador Carlos V interessado numa das partes desse mundo.
- Do outro lado, a restantes nações europeias fora da partilha, e um Martinho Lutero que, tal como dezenas de outros, criticava o poder papal, o seu despotismo... Continuava a fazê-lo. Nada de letal, próprio dos tempos, lhe acontecia, porque o momento era o momento político de colocar um travão sobre o poder e arbitragem papal. 
A restante Europa não iria cruzar os braços. Em 1532, o inglês Henrique VIII encontra-se com o francês Francisco I... o assunto parece ser o casamento com Ana Bolena, mas será efectivamente a separação da Igreja Anglicana, que ocorre no ano seguinte.
Quando o poder papal reage, iniciando a Contra-Reforma, em 1545, já estava aberta a ferida que se iria prolongar até hoje, na divisão entre catolicismo e protestantismo.

Ainda estamos longe de chegar ao "pensativo Batavo"...
Há várias camadas que se confundem naquela transição do Séc. XVI. Ninguém quereria travar o Renascimento, mas certamente que se temia uma evolução das relações sem arbitragem papal, ao mesmo tempo que os estados protestantes se queriam libertar daquele jugo romano que os desfavorecera.
Religiosamente, havia agora uma disputa aberta. Politicamente, o tratado de Tordesilhas abrira outra.
Estas já eram suficientes para complicar as coisas. 
Porém, em cima destas, estavam os problemas "secretos". 
Havia novos territórios, novas revelações, que praticamente estavam excluídas de serem mencionadas.
Falar-se-ia de Índias Ocidentais e Orientais, mas pouco mais que isso. Mesmo uma boa parte da nobreza não teria acesso a uma visão geral do problema, o que aumentaria a confusão!

Retirando a autoridade papal, que outra forma de arbitragem haveria entre as nações, que não ameaçasse toda a estrutura do poder europeu, assente na separação entre nobreza e burguesia. Como se isso não bastasse, o protestantismo envolvia a crença popular, e o povo não deixava de fazer parte da equação.
A isso acrescia um Império Otomano que se expandia pelo Mediterrâneo, e é claro... havia os judeus.
A solução pelo lado católico foi clássica... reprimiu tudo o que podia. Pelo lado protestante, que estava em perda, interessava uma motivação aglutinadora, e foi necessariamente mais tolerante. 
Note-se que o próprio Lutero tinha escritos anti-semitas, e por isso logo se formaram variantes religiosas, cujo objecto podia ser teológico, incluíam calvinistas, metodistas, e outras variantes... mas o importante é que os Estados deixavam de ser definidos pela religião. Porém, interessava manter uma aglutinação do Estado sobre algum ponto comum, que não fosse o velho conceito medieval de Rei.  

É neste contexto que aparece a República de maior sucesso (após Roma)... a República Holandesa. Se Veneza era já um bom exemplo de reedição do ideal de república, a Holanda foi muito mais longe.
Com D. Sebastião, Portugal extingue o último sopro em 1578, em 1579 dá-se a União de Utrecht que formaliza a República Holandesa, pronta a acolher todos os refugiados judeus... muitos dos quais já tinham partido da Península Ibérica. A Holanda torna-se rapidamente numa terra de acolhimento para milhares de refugiados, que impulsionam aquele pequeno território para uma rápida ascensão.

Faltava o enquadramento global. 
É nesse contexto que aparece o "pensativo Batavo"... Hugo Grotius.
Grotius vai propor uma Lei Internacional diferente, que irá invalidar o poder natural do Papa.
Teria sido provavelmente esquecida, mas a vitória na Guerra dos Trinta Anos, e o Tratado de Vestfália, exigiam uma nova ordem. Essa ordem mundial seria definida pelo pensativo holandês, que diz Macedo - "teve a glória de buscar no Mundo um Mundo".
Se o Papa proclamava o poder pelo direito natural, Grotius afirmava a legalidade pelo poder efectivo, acordado entre Estados, em função do equilíbrio de forças. É assim um pretexto para atacar todas as possessões ibéricas, especialmente as portuguesas, pela Companhia das Índias Holandesas. Deixa de haver um direito natural associado a qualquer descoberta, ou a validação papal... os holandeses passam a atacar as possessões dos restantes, conforme os seus interesses. Só respeitariam os acordos de paz, que seriam depois firmados entre Estados. 
É nesse sentido que proliferam os Tratados de Paz, porque são a única lei respeitada, por via de conflito.

Ainda assim, é notável que os Holandeses são mais temerários em atacar as possessões alheias do que propriamente a desbravar novos territórios, mesmo aqueles que eles sabiam existir e não estavam declarados. Têm especial cuidado com a Austrália... onde só arriscam avançar pela parte ocidental. Na América entram em disputa com os ingleses na posse da costa leste, mas nada fazem na costa oeste!
Ignoram praticamente todas as ilhas do Pacífico, excepto a parte Indonésia.

Ou seja, parecia manter-se uma proibição, uma auto-exclusão mais forte do que a simples lei internacional que Grotius enunciara, e que entrara em vigor após Vestfália. Havia territórios ainda assombrados de onde não saíam os fantasmas, mesmo por via das relações internacionais. As Companhias das Índias pareciam sobrepor-se às relações estatais...
A globalização só acaba por ocorrer quando o poder migra para a City de Londres, especialmente quando é autorizada a descoberta de Cook, que é praticamente simultânea à Independência dos EUA.
A Holanda será quase esquecida, o poder financeiro já tinha definido um novo centro de acção...
Afinal, tão ou  mais importante que a relação entre os Estados, seria definir um sistema político que mantivesse um certo secretismo, ao mesmo tempo que aparentava ser democrático.
Entravam aí as teorias sociais... especialmente de Thomas Hobbes, que definiria o "Contrato Social", a que se seguiram Locke e Rousseau.
Teorias que pouco mais serviam do que para justificar o "status quo", arranjando um qualquer nexo causal que eliminasse responsabilidade de quem teria o poder. Como se qualquer jovem que nasce tivesse delegado, por sua vontade, algum poder no sistema que definiria a sua própria formação e o condicionaria na sua inserção social e cultural.
Tal como no caso de Grotius, estas teorias traziam um substrato ideológico, mas pouco mais eram do que uma mera descrição do observado e do trivial, não fornecendo nenhuma teoria que justificasse relações humanas ou lhes desse um verdadeiro nexo.

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publicado às 04:36


4 comentários

De Olinda P. Gil © a 08.05.2013 às 09:04

O mais engraçado é que em Portugal proliferam as Buganvilias e a maioria dos franceses nem sabe que planta é essa

De Alvor-Silves a 08.05.2013 às 15:16

Essa é curiosa, Olinda. Talvez eles nem queiram saber que a flor de Bouganville de toda a Oceania só lhes guardou uns ilhéus, que eles guardam afincadamente até hoje... ao mesmo tempo que se diziam, e dizem, anti-colonialistas.

De Anónimo a 09.05.2013 às 06:34

Talvez a Bouganvílea ou Trinitária, também faça parte da Memória do Passado Remoto, que foi imperioso apagar, e que os Portugueses tentaram recuperar por toda a Terra.
Por isso, nós temos Bouganvíleas de todas as cores, até brancas, por todo o país...
Já cá estão há muitos séculos! Mais do que a França tem, de ser país.

Maria da Fonte

De Alvor-Silves a 09.05.2013 às 16:12

Boa informação, Maria da Fonte. Não sabia dessa designação alternativa "Trinitária", que remete para a Trindade, e implicitamente para o Espírito Santo.
Isso relaciona directamente com o nome do texto - "Austrália do Espírito Santo"... afinal será que essas plantas não teriam aí a sua remota origem?

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