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Regressei ao Livro de Marinharia, a propósito da Nau São Paulo, já que me pareceu estranho a ilha não constar de um dos mapas de João de Lisboa (seja lá ele quem fosse... eu entendo-o como quem escreveu o Livro de Marinharia, com os seus mapas, antes de outros acrescentos). 

O mapa que interessa está na Torre do Tombo é este (e faz sentido que não esteja aqui, porque a latitude mais baixa deste mapa é 32ºS, bem longe dos 38ºS da ilha São Paulo):
(referência PT-TT-CRT-166_m0091.TIF)

Henrique Dias na descrição que dá da descoberta da ilha de São Paulo, constante na História Tragico-Marítima, acrescenta como pontos de referência dois outros nomes de ilhas - "Romeiros" e "Sete Irmãs", que actualmente não constam dos mapas, nem se sabe se existiram ou não - mas estas ilhas já estão aqui nomeadas.

Mais que isso, Henrique Dias descreve o embróglio na nomeação da ilha, a que o piloto, António Dias, quis dar o seu nome. Ora, isto mostra que ilhas "sem nome" não seriam uma coisa normal...

O mapa começa pela Ilha de João de Lisboa (será estranho aparecer a ilha com o nome do próprio), que foi muito procurada, sem nunca ser encontrada... tal como a nova Ilha de São Brandão, que tem uma identificação actual, mas que não corresponderá ao sítio nomeado.

Com efeito o nome "São Brandão" fez parte das "ilhas imaginárias" nos mapas do Atlântico, e já é suficientemente estranho voltar a vê-la aqui. Ou seja, é directa a suspeita de que se tratava de uma marcação no mapa, e não de uma ilha. 

O que se estava a esconder no Índico?
Se no Atlântico se escondia a América, no Índico escondia-se a Austrália...
Por isso, o aparecimento deste nome "São Brandão" deve ser encarado com a mesma suspeita que havia no caso atlântico... 
Concretamente, neste mapa é natural que surjam pistas para a costa oeste australiana, disfarçada na costa leste africana, mais concretamente na Ilha de Madagáscar (que logo no mapa de Cantino é chamada assim, mas depois foi também chamada Ilha de S. Lourenço).

Temos como auxiliar o livro "Arte de Navegar" de Manoel Pimentel, que dá latitudes e longitudes muito concretas para algumas destas ilhas. Como ele estabelece uma diferença de longitude de 19.5º para as ilhas de Amsterdão e de São Paulo, suponho que usaria a ilha do Ferro, nas Canárias, como referência (que tem 18º de diferença face ao actual). Esta era uma referência habitual, e erros de 1 ou 2 graus na longitude eram perfeitamente admissíveis a larga distância.

Irei colocar o nome da ilha como o entendo, com a sua cor, e depois entre parêntesis o nome que é possível ler no mapa, com a cor em que está escrito. 

___________________
Paralelo 28º-26ºS

- Ilha de João de Lisboa (I.de joão delixboa) - ilha fantasma ou notação cartográfica?
... Manoel Pimentel dá 26º45'S e 76º10' (ou seja, ~55º40'E), mas não consta aí nenhuma ilha! Seria uma ilha a sul da ilha da Reunião (a que dá a mesma longitude), mas o mais próximo seriam as ilhas Crozet (já bem mais a sul, a 46ºS, 51ºE) 

- Ilha dos Romeiros dos Castelhanos (I.dosromeiros doscastelhanos), ilha a vermelho - outra ilha fantasma, mas a que é feita referência por Henrique Dias (Pimentel não a refere).

___________________
Paralelo 22º-18ºS

- Santa Apolónia (samtapolónia) - antigo nome da Ilha da Reunião (sob França).
... Pimentel chama-lhe Mascarenhas, ou Borbon, dando 21ºS, 76º (o que bate certo com 55º30'E).

- do Mascarenhas (domascarenhas) - antigo nome da Ilha Maurícia (Maurícias).
... Pimentel também lhe chama Cirne (nome de nau) dando 20º22´S, 78º10' (também bate certo).
Refere-se habitualmente a Pedro Mascarenhas.

do Cirne (docirni) - baixos.

- Ilha de Diogo Rodrigues (I.dedioguoro~is) - Ilha Rodrigues (Maurícias).
... Pimentel dá o mesmo nome, e coordenadas 19º45'S, 83º (o que bate certo). Convém notar que João de Lisboa escreve Ro~is, abreviatura de Rodrigues, mas que pode ter levado depois outros a entender como Róis, ou Ruiz, noutras paragens.
Refere-se o navegador Diogo Rodrigues.

___________________
Paralelo 17º-16ºS


- a Nazaré (anazare) - Nazareth Bank - é um nome actual dos baixos.
... Pimentel diz que a ponta sul estaria a 16º45'S, 81º20' (ou seja, ~61ºE). Estes baixos têm um atol a 16º30'S, 59º40'E, a que é dado o nome São Brandão ou Cargados Carajos.

- do Gratiao (dogratiao) ? - talvez os baixos Garajaus, referidos por Pimentel.


- São Brandão (sam bramdão) - ilha fantasma a que Pimentel dá o nome de Ilha Brandoa, colocando-a a 17ºS, 87º20, posição em que se vê apenas mar...

___________________
Paralelo 15º-11ºS
  

Estas ilhas correspondem ao arquipélago das Comores, mas dificilmente têm correspondência com as Comores individuais. Pela posição relativamente à costa, as 3 primeiras serão fictícias, mas pelas dimensões talvez faça mais sentido considerar como fictícias as 3 últimas. Pimentel usa os nomes Mayoto ou Maoto (Mayotte sob França), Anjoane (Anjouan), Molale (Mohéli), Comoro ou Angazija (Grande Comore).

- Jamais Louvam (Jamaislouão) - ilha inexistente ou Ilha Maoto.
- Santo Espírito (samtesprito) - ilha inexistente ou Ilha Anjoane.
- do Comaio (docomaio) - ilha inexistente ou Ilha Molale.
- a Leoa (alioa) - Grande Comore ou Ilha Maoto.
- do Comoro (docomoro) - ilha inexistente ou Ilha Anjoane
- do Comaro (docomaro) - ilha inexistente ou Ilha Molale
- do Comaio (docomayo) - ilha inexistente ou Grande Comore
- Baixos de Dom João de Castro (domjoãodecrasto) - existem com o nome inalterado.

A menção aos Baixos de Dom João de Castro pode ser visto com um dos problemas de datação do Livro de Marinharia, só podendo ser inclusão posterior, pois João de Lisboa morre vinte anos antes de João de Castro ser governador ou mesmo ir à Índia. Nesse caso há quem tenha datado os mapas como 1550-60. É mais ou menos como encontrar uma pastilha elástica colada nos Jerónimos e passar a dar cinquenta e não quinhentos anos à construção...

___________________
Paralelo 10º-8ºS 

Inclui aqui uma parte do arquipélago das Seicheles, nomeadamente o grupo Aldabra (... ou aldraba?), o atol de Cosmoledo e depois o grupo Farquhar

- Ilha do Arco (I. doarco)  - desconhecida... talvez a ilha Aldabra.
... Pimentel nomeia Ilha do Aro com as coordenadas (9º40'S, 68º30' ~ 48ºE) do atol de Cosmoledo!

- (ilha a azul, sem nome) - desconhecida (Glorioso ou Assunção?)

- Ilha do Natal (I.donatall) - desconhecida.
... Pimentel dá as coordenadas (8º00'S, ~ 49ºE) que corresponde a "água".
... Do lado australiano 2º abaixo - há a Christmas Island a 10º20'S, mas a 105º30'E.

- de Cós Moledo (decos moledo) - existe um atol de Cosmoledo nas coordenadas que Pimentel dá para a ilha do Aro.

- (ilhas não nomeadas)

- As Doze Ilhas (asdozeilhas) - talvez correspondam às ilhas do grupo Farquhar.

- Água Légua (agualegua) - Ilha a Galega ou Agalega
... Pimentel chama-a Ilha Galega, em 9º30'S,79º25 ~ 59ºE, 
... enquanto que Agalega actual está a 10º20'S, 56º30'E

- Baixos de São Miguel (desão miguell) - são indicados por Pimentel em 8º10'S, ~66ºE.

- Ilha que achou Roque Pires (I. queachou roquepi~z) - ilha fantasma ou inexistente
... Pimentel dá 10º00'S ~69ºE, o que dá água...
... Do lado australiano 2º abaixo - temos as Cocos Islands a 12º07'S, 97ºE.

- Ilha de Diogo Garcia (I.dedioguo graçia) - Ilha Diego Garcia.
... Pimentel dá 7º15'S ~73ºE, batendo certo com o actual 7º20', 72º30'E
___________________
Paralelo 7º-2ºS 

- Baixos do Patrão (baixosdo patrão) - Pimentel dá 4º50'S, ~52ºE.
- Pracel de João Moniz (pracelldejoãom~iz) - Pimentel não refere isto.

- Ilhas do Almirante (Ilhasdoallmirãte) - existem com o nome Ilhas Amirantes, em 4º50', 53º40'E.

- (ilhas sem nome) - provavelmente ilhas das Seicheles.

- Ilha do Mascarenhas (I.domascarenhas) - talvez Mahé das Seicheles a 4º30'S, 55º30'E.

- São Francisco (samfi,co) - as ilhas Alphonse, que têm o atol de S. Francisco.

- do Corpo Santo (docorposamto) - talvez o atol Coetivy das Seicheles.

- (ilha a vermelho) - provavelmente outra ilha das Seicheles.

- Abreolho (abreolho) - poderia ser uma das Seicheles, mas...
... Do lado australiano 2º abaixo da latitude da ilha de João de Lisboa, também existem os Abrolhos Hautman.

- os Sete Irmãos (osSeteIrmaõs) que aparece repetida... é também chamada "Sete Irmãs".
os Sete Irmãos (osSeteIrmãos)
... Pimentel dá às Sete Irmãs as coordenadas 4ºS, ~67ºE que correspondem a água...

- Ilha que achou Roque Pires (I.queachouroquep~iz) outra ilha reportada a Roque Pires - nome de navegador muito pouco conhecido.

- Baixos de Pêro dos Banhos (baixos de pº dos banhos) é o nome do atol Peros Banhos.
... Pimentel dá as coordenadas 7ºS, ~72ºE no Território Britânico do Índico.
... Pimentel fala ainda do Baixo das Chagas, e existe o Arquipélago Chagos.

- do Mascarenhas (domascarenhas) outras ilhas reportada a Mascarenhas, já no Território Britânico do Índico, e que correspondem aos diversos grupos do arquipélago Chagos.


Madagáscar surge em oposição à costa oeste da Austrália, um pouco mais acima em latitude.

Interessa aqui tentar perceber quais as localizações exactas ou fictícias, algumas das quais, mesmo incertas, foram acompanhando os roteiros até ao Séc. XIX.
Não sendo possível retirar nenhuma grande conclusão, deixamos aqui mais uma compilação de dados, do que alguma conjectura.
A circunstância de os nomes Natal (Christmas) e Abrolhos (Hautman) corresponderem a nomes de ilhas australianas é muito pouco, para se poder conjecturar uma relação significativa, ou se quisermos um paralelismo África - Austrália.... mas estão lá as ilhas fantasma, e pistas como "São Brandão" que indiciam que o mesmo tipo de fenómeno de ocultação estaria em curso.
_________
04.10.2018

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publicado às 04:00


6 comentários

De José Manuel a 03.10.2018 às 17:15

a civilização grega, antes da era de Sócrates, beneficiou do roubo que fez a outra, a maioria dos grandes filósofos, poetas, físicos, matemáticos, astrónomos etc. não eram gregos mas sim Luwians duma época proscrita, a idade do bronze, onde existiu uma Wilusa:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1962202340512200&set=p.1962202340512200&type=3&theater

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1962196933846074&set=p.1962196933846074&type=3&theater

Ver em The Luwians: A Lost Civilization Comes Back to Life, At the initiative of Nobel laureate Prof. Manfred Eigen, for more than 50 years outstanding scientists from around the world get together to exchange ideas during a winter seminar in the Swiss mountain village of Klosters. Over the years 46 Nobel laureates have lectured at the Winterseminar. This video shows the keynote by the President of Luwian Studies, Dr. Eberhard Zangger, at the 50th Winterseminar on 18 January 2015. It was the 8th time that Dr. Zangger was invited to lecture at the Winterseminar

https://www.youtube.com/watch?v=1DNyA90f_aw

Cumprimentos de Genebra
José Manuel

De da Maia a 04.10.2018 às 09:02

Pois, há alguns exemplos civilizacionais que não encaixam, como o caso de Gobekli Tepe, que o José Manuel costuma referir, e que é bastante anterior a esses Luwians e tudo o mais.

Convém não esquecer o dilúvio do fim da Idade do Gelo, para entender que houve um mundo pré-histórico que ficou submerso nas águas, mas que terá sobrevivido na memória dos sobreviventes.

Não me parece que os Luwians sejam muito diferentes dos exemplos que encontramos noutras partes, nomeadamente aqui, com a civilização Campaniforme.

Os gregos foram reconhecidamente influenciados directamente pelos Fenícios e Egípcios. Só que o tempo que os Egípcios despontaram é exactamente o 3º milénio a.C., o mesmo tempo que é apontado para o Calcolítico lusitano, e para esses Luwians.
O problema é o que se passou entre 9000 a.C. e 3000 a.C., esse período de 6 mil anos é que está ainda muito nebuloso.
Eu diria que pode acontecer que não tenham sido 6 mil anos, tenha sido muitíssimo menos tempo, e haja um erro aí nos métodos de datação.

Abraço.

De João Ribeiro a 08.10.2018 às 22:22

Em "The Luwians" se o "W" soasse como "v" então "The Luwians" seria algo como "Diluvians" ou aportuguesando a coisa, os "Dilúvianos", como em "aqueles que sofreram dilúvio". Achei piada à semelhança fonética. Vou ver o vídeo.

Cumpts,

JR

De da Maia a 09.10.2018 às 09:49

Pois, isso é um pouco como entender a troiana "Wilusa" como "vi lusa"...

Convém ainda notar que em españolito dizem "lluvia" como "chuva".

Ou seja, "de lluvia" reportaria mais por esse lado um "diluvio" de chuva.
Tal como "chuva" é remetido ao latim "pluvia"...
Estas palavras também se relacionam com "lavar"...

Mandei umas bocas sobre "de luva" e "de lava" aqui:
https://alvor-silves.blogspot.com/2014/01/estoria-alternativa-2.html

... mas pouca coisa, porque não há propriamente várias conexões concordantes.

São registos soltos, mas faz bem em sinalizá-los.

Abç

De Amélia Saavedra a 11.10.2018 às 14:43

Ora boas... apenas a título informativo, deixo link de uma Livraria com uma lista deveras interessante de livros sobre a época dos Descobrimentos (e não só)...
http://www.livrariaesquina.com/catalogo.html

De Alvor-Silves a 12.10.2018 às 02:45

Obrigado pela sugestão!

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