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Bi-disco & Cong

04.01.16
Tinha pensado ainda colocar este postal antes do final do ano, mas nem sempre se arranja tempo entre bolos, filhós e espumante. Por via de um comentário que envolveu a palavra Congo, pareceu-me adequado recentrar a discussão.

Há uns objectos, chamados pedras de Dropa (Dropa Stones), que estão ligados a um certo folclore da teoria alienígena, e que não me interessam muito (quem quiser pode ler o link anterior que remete para a Wikipedia, ou ainda ver outros detalhes em crystalinks.com/dropa.html).

Estes objectos são obviamente desconsiderados por quem não acredita em visitantes alienígenas, e seguem-se controvérsias de falsificação, etc... 
Pior, têm também um efeito colateral, que é misturar no mesmo assunto, outros objectos, que são perfeitamente aceites, mas que assim têm tido muito menos atenção ou consideração, por poderem ser juntos no mesmo rol.

Tratam-se dos Discos bi (... parece que também se pode ler pi):
Discos Bi - de 3400 a.C. até à dinastia Han
(Ambas as imagens são da dinastia Han, cerca 200 a.C.)
Atendendo a que espessura destes discos de jade pode ser inferior a meio centimetro - na primeira imagem 0.4 cm, com diâmetro de 13 cm - estamos basicamente a falar do formato de CD ou DVD - que têm 12 cm de tamanho standard, e 0.12 cm de espessura (ou seja, o bi-disco tem a espessura de 3 CD's). 
Ok, não cabem num normal leitor de CD/DVD, mas enganam bem!


Estes objectos têm uma proveniência muito específica, de uma "pequena" região na China (... e que, por mero acaso, visitei no ano passado), próxima de Xangai. Estão associados à transição do período Neolítico na Cultura de Liangzhu, onde também se encontram outros objectos, igualmente curiosos, uns tubos de jade, denominados cong (também se poderá ler tsung).

 
Cong - tubos de jade

Os tubos cong nalguns casos poderiam dar para vários discos bi, sendo cortados longitudinalmente... mas normalmente há um envólucro quadrado que circunda o tubo.
A função dos cong parece ser ainda menos conhecida do que a dos discos bi, mas ambos foram associados a símbolos sociais, considerando-se que os discos bi de uma tribo eram entregues como acto de submissão, após derrota em guerra. Outras considerações vêem os cong como símbolos da terra (quadrado), enquanto os discos bi seriam apenas símbolos do céu (círculos).
Um vídeo é sugerido na Wikipedia, e merece de facto ser visto:
Cong & Bi - Liangzhu Culture (vídeo da Khan Academy)
  
Há várias questões levantadas sobre a execução destes objectos, que começam a aparecer datados de circa de 3000 a.C., numa altura onde não se encontram aí ferramentas metálicas capazes de trabalhar facilmente com a dureza do jade. 

Um ponto nesta questão é que as chamadas pedras de Dropa (que se misturam ainda com o mais surreal disco de Lolladoff - que tem figuras com ETs), apareceram nos anos 1950 e 60, tendo sido mesmo divulgadas em Moscovo, nessa altura, por um certo Vyacheslav Zaitsev (havendo entretanto um famoso costureiro, ou um voleibolista, exactamente com o mesmo nome - deve ser um nome do tipo "João Silva"). 
Esta data de aparecimento antecede a primeira patente do CD que é submetida em 1966 e aceite em 1970. Ou seja, quando em 1964-65 aparecem vários artigos em revistas OVNI sobre os discos Dropa, ainda não se pensava em CD's, que só iriam aparecer no mercado nos anos 1980. 
De qualquer forma, para afastar a ideia de que uma coisa pudesse ser associada à outra, nada melhor que uma história inventada para confundir. Da mesma forma que se quisermos descredibilizar um indivíduo, uma maneira é descredibilizar o grupo a que pertence (neste momento, quantos aceitariam emails de vantajosas propostas de negócio nigerianas?).

Convém assim estar mais atento a legados perfeitamente aceites, e não contestados na origem, do que ir atrás de focos de atenção, que puxam quase sempre para meia-dúzia dos mesmos exemplos, uns menos claros que outros. Simplesmente assim, aos legados oficiais não é dada a devida atenção, e estão de alguma forma arrumados numa arrecadação de um museu, ou num sítio da exposição sem grande foco para o turista.

Um dos grandes trunfos do ilusionista é manipular a atenção do espectador para outro foco!
Convém não esquecer que estamos, quase desde o princípio dos tempos, a lidar com Magos.

Afinal, se nos deparássemos com um bi-disco, agora de vidro, como este:
Bi-disco da dinastia Han (circa 200 a.C.)
no Metropolitan Museum of Art
... seria talvez mais fácil entendê-lo como um CD estragado duma edição pimba da Vidisco, do que como um Bi-disco como mais de 2 mil anos.

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publicado às 04:31


4 comentários

De Alvor-Silves a 05.01.2016 às 07:24

Caro Bartolomeu,
quando mencionei o Pi, era mesmo o número, porque é o que melhor caracteriza o círculo.
Escreve-se Cong e Bi, mas depois se ouvir a senhora no vídeo, verá que ela diz Tsung... e provavelmente diria também Pi (e não Bi). Porque se as letras chinesas são as mesmas, a língua era diferente e o mandarim apenas uma delas - e se calhar até mais recente.

Agora, qual a pertinência de falar no Pi, e agradeço o comentário também para explicar isso, que não ficou muito claro no texto... porque me esqueci.
É que a velha questão milenar da Quadratura do Círculo era o número Pi não ser uma fracção nem algébrico.
Assim, pode ser coincidência, muito provavelmente o é, mas é estranho ter nos tubos Cong um quadrado a envolver um círculo, porque isso pode ser visto como uma forma de ilustrar o problema da quadratura do círculo (veja o símbolo do programa da SIC, eh eh!).
Não são os tubos Cong que são chamados Pi, e portanto não é uma coincidência total, mas não deixa de ser curioso.

Tem ainda piada falar na PIDE, porque me soou muito mais quando estava a fazer no outro blog Odemaia a transcrição das Aves do Aristófanes, já que o nome Euelpide não deixa escapar o som. Por acaso, daquilo que consigo perceber, aquele nome usado pelo Aristófanes deve surgir de Eu-Elpis que é como Boa-Esperança, seria uma forma de dizer bem-esperançado na forma de um nome.

Não sei de que tenha sido o PCP a estar envolvido na morte de Humberto Delgado, mas sei que não foi do agrado do comité que ele tivesse concorrido, e o Estado Novo admitia o candidato comunista, não querendo aceitar a candidatura de Humberto Delgado - isso está documentado.

Quanto a Sampaio Bruno, não conheço a sua obra, e também não sou perito musical. Não vejo qual fosse o problema que ele quisesse resolver com uma escala de 40 tons (penso ser isso que Tessara-deca-tónica significa, ou será 14 tons?).
Poderia sugerir o tópico da Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Scale_(music)
... e as referências que aí se encontram, mas isso é um bocado estar-lhe a indicar o que provavelmente já viu, e portanto não serei certamente ajuda neste tópico.

É bom ter falado nisto, porque há ainda um tópico de "flautas paleolíticas" que já deveria ter trazido aqui, e ainda não tive oportunidade disso.

Obrigado, e um abraço.

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