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Museu Nacional, Rio de Janeiro, quando o visitei.
Incêndio de 2 de Setembro de 2018 - Museu Nacional, Rio de Janeiro

Fui várias vezes ao Rio de Janeiro, e tive ocasião de visitar o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. As imagens registadas ontem, de uma beleza dantesca, deixam a sensação de que podemos sempre esperar pela repetição dos erros do passado. Ficamos com aquela sensação de déjà vu, e se os responsáveis brasileiros tentarem garantir de que "não poderá voltar acontecer", faz-nos lembrar as promessas após 17 de Junho de 2017, aquando do incêndio de Pedrógão Grande, e depois assistir a um desfecho similar passados poucos meses, em 15 de Outubro .

Nem é preciso ir muito longe nesse passado. Este ano comemoraram-se 40 anos do grande incêndio que destruiu a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde se perdeu grande parte do espólio científico existente dos séculos anteriores.
Até do ponto de vista português, este incêndio do Rio de Janeiro, associado já à destruição de 20 milhões de itens, será mais lesivo documentalmente para a nossa história comum.

18 de Março de 1978 - Incêndio da Faculdade de Ciências - Rua da Escola Politécnica, Lisboa.

Nem interessa muito se os documentos eram ou não exemplares únicos, o que passa acontecer, tal como aconteceu após a destruição do Neues Museum de Berlim, na 2ª Guerra Mundial, ou ainda antes, no Terramoto de 1755, é que passa a haver uma desculpa para que a história seja engolida numa golfada de fogo. Ou seja, passa a ser voz corrente que a documentação X foi consumida no incêndio Y, e isso faz com que se deixe de procurar e apareça um conveniente beco sem saída.

No caso do incêndio da Faculdade de Ciências, a introdução de construções provisórias de madeira no pátio central foi um rastilho à espera da chama, e nem mesmo a pronta acção do presidente Ramalho Eanes, que terá assumido a direcção in loco de combate ao incêndio, valeu de muito.
Também não valeu de nada ao Comandante Zebra, líder do CODECO (Comandos Operacionais de Defesa da Civilização Ocidental), um pretenso grupo bombista de extrema-direita, ter reivindicado a autoria do incêndio - as causas continuam, e continuarão "por apurar" - no sentido de apurar o gosto. 
Nesse aspecto, também Farinha Simões andou a tentar reclamar a autoria do atendado de Camarate, que vitimou Sá Carneiro, mas sem qualquer sucesso.

Há mistérios que, mesmo não sendo, interessa que sejam.

Ora, para o visitante do Museu Nacional do Rio de Janeiro, não se viam propriamente nenhumas condições periclitantes que antevissem que um incêndio parcial tivesse grande possibilidade de se transformar num incêndio global, capaz de destruir praticamente todo o museu em poucas horas.
A construção era sólida, não era de madeira, os espaços eram largos e folgados, e não havia propriamente ali nenhum rastilho visível. Aliás, podemos ver, na imagem seguinte, que os tectos estavam cuidados, e exibiam os vestígios da coroa portuguesa de D. João VI.

Tal como aconteceu nos zoos, em muitos museus nacionais passaram a ver-se exemplares com proveniência diversa, do mundo inteiro, reflectindo um património comum. Ou seja, neste museu do Rio de Janeiro encontrávamos vasos gregos, romanos, ou painéis com hieróglifos egípcios.


Muito louvável do ponto de vista educativo, mas também oficialmente muito conveniente.
Tal como encontrámos uma coluna romana na cidade brasileira de Natal, que não foi mais que um presente de Mussolini, também as ânforas descobertas na Baía de Guanabara poderiam ter ido parar ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, oferecidas por um qualquer país mediterrânico.
Ter-se-iam perdido no incêndio, pois... mas também se perderam, muito antes disso!

Já mais difícil de contextualizar parecem-me ser diversos vestígios da zona amazónica, de Santarém e Marajó, como por exemplo esta "urna funerária" da ilha de Marajó (antes chamada "grande ilha de Joannes"):
Escapam-me aqui os detalhes sobre a sofisticação das civilizações pré-columbianas brasileiras, nomeadamente da Cultura Marajoara, interessa que estes terão sido alguns dos exemplares únicos que podem ser dados como destruídos pelo incêndio. 
É claro que seria demasiado "trote" se dessem também como desaparecido o Meteorito do Bendegó, meteoritos que sobrevivem a temperaturas escaldantes na entrada na atmosfera. Vejamos se irão também dar como consumida pelo incêndio uma das ânforas de bronze (dita de Pompéia), que a imperatriz Teresa Cristina levou de Itália, como prenda de enxoval.
Ânfora de bronze, que resistirá a um 
incêndio, mas não a distracções...

Tendo falado há umas semanas no Manuscrito do Rio de Janeiro, a propósito dos Painéis de S. Vicente, é claro que o substancialmente perdido será toda a documentação "guardada" na biblioteca, e que deveria conter exemplares e manuscritos únicos. Espera-se, é claro, que o espólio tenha sido pelo menos devidamente filmado e fotografado, e (surpresa...) que essas gravações não se tenham também perdido no incêndio (... é típico que quando as coisas são tão secretas, mas tão secretas, então nem saem do sítio onde estão).

Ficam-me umas dezenas de fotografias que tirei, do exposto ao público, e das quais aqui apenas tinha usado uma foto, de uma suposta cabeça reduzida, também chamada tsantsa. Não é que não houvesse mais a ser dito, mas aquilo que escrevi agora, e que poderia ter sido escrito há vários anos, não considerei que fosse mais significativo do que especulativo.

Resta dizer que me lembro do enquadramento quando fiz essa visita ao museu. Portugal estava mergulhado na "crise socrática", estando em acção a Troika. Pelo lado do Brasil, antevia-se a realização do Mundial 2014, e os Jogos Olímpicos, Rio 2016. Dois eventos de projecção mundial que mostravam o Brasil como um dos promissores BRIC, em grande crescimento económico, para além do sucesso nas políticas sociais. Com a especulação imobiliária a crescer de forma assustadora, lembro-me de lhes ter dado como sugestão de leitura "A Century of War", de W. Engdahl, que basicamente explica uma das "receitas de sucesso" dos "mercados financeiros".
Como habitual, quase todos anteviam a crise que iria suceder no Brasil, mas também eram impotentes para o poder parar... e creio que isso incluía os políticos do Planalto, em Brasília.
Fosse como fosse, todos fizeram o que era previsto que fizessem, e a menos de detalhes, correu em conformidade, ou seja, um choro depois do sorriso inicial.
A destruição do Museu Nacional é apenas mais uma lágrima no drama de insegurança que afecta a sociedade brasileira, em particular, a carioca, vitimando milhares de pessoas, e sem solução à vista.

04.09.2018

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publicado às 07:55


6 comentários

De Amélia Saavedra a 05.09.2018 às 13:29

E é assim, de incúria em incúria (para não dizer pior) que se vai reescrevendo a história... conforme as conveniências oficiais e oficiosas...enfim, uma tristeza...

De da Maia a 05.09.2018 às 14:19

Cara Amélia,
a Globo dá praticamente tudo como "perdido" excepto:
- os meteoritos,
- parte da colecção de zoologia,
- o herbário (!),
- biblioteca central (!)

http://g1.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/videos/v/levantamento-preliminar-mostra-o-que-foi-destruido-no-incendio-do-museu-nacional/6993153/

Acontece que, a menos de fontes combustíveis "estranhas", o típico incêndio em casas, independente da dimensão, é essencialmente alimentado pela madeira e arde a temperaturas perto dos 600ºC, o que é ainda típico dos incêndios florestais.

Mesmo que a temperatura seja superior, alimentada por plásticos, ou similar, não passará dos 1000ºC.

Acontece que as pedras dos hieróglifos egípcios não podem ter sido destruídas pelo incêndio, nem as ânforas de bronze, nem muitas outras coisas... como ossadas petrificadas, etc.

Para quem gosta de especular, como é o meu caso, parece-me que estamos em presença de uma "feira de garagem"... e para bom entendedor, da situação económica do Brasil, meia palavra basta. Pode ter havido a tentação de dar a volta ao problema vendendo as "jóias da família", com um incêndio redentor.
Sem uma vigilância pública cuidada, poderá desaparecer muita coisa... mas isso não significa que tenha sido pelas mãos do incêndio.
Há outras chamas intensas...

Como o vulgar carteirista sabe, meia parte do roubo resulta da desatenção do proprietário.

Da última troca de emails com o João Ribeiro, parece que não foi preciso nenhum incêndio para que se tenha perdido o rasto aos coches de D. Afonso Henriques e D. Dinis, que estavam no antigo local do museu dos coches em 1842.
Basta que o proprietário - o povo português - não tenha sequer tido a noção de que tinha sido rapinado.

É uma tristeza... pois é!
Não apenas para o povão, também para a grande família de salteadores, que toma o alheio como seu.

Abraço.

De José Manuel a 06.09.2018 às 02:40

Olá boa noite,
Nasci na Travessa do Guarda Joias e estava lá quando do "incêndio no Palácio de Ajuda, que fez desaparecer a galeria de pintura fundada por Dom Luís I, e que continha quinhentas telas pintadas por nomes famosos da pintura portuguesa e muitos móveis do século XIX", alguns óleos foram encontrados mais tarde à venda no estrangeiro… https://arquivos.rtp.pt/conteudos/incendio-no-palacio-de-ajuda/

eu em 86/87 quando comandante da guarda à CHESMATI de Campolide, antiga Farmácia Militar (cal madeira e pedra…telhado podre!) com um anexo novo do Centro de Audiovisuais-Cinemateca, nas minhas 24 h de serviço calhou-me na rifa um incendio que destrui o edifício onde funcionava o departamento cinema do CAV, fiquei sempre a duvidar se o fogo não visaria o arquivo proscrito da guerra do ultramar, mutilações chacinas aos brancos pelos turras, ou pior? pois minguem tinha acesso a esse arquivo da Cinemateca do Exercito onde trabalhei, nada ardeu do arquivo, anexo em betão com gavetas de ferro, Sá Carneiro e Amaral tinham morrido à poucos meses, nesse dia do atentado de Camarate recolhi ao BC5 às 21h, ordens para sairmos para as ruas fazer face a uma guerra civil anunciada… que não aconteceu,

passado dois anos do incendio da CHESMATI, já desmobilizado, foi convocado à P.J. do Estado Maior, notei um desinteresse total da investigação a apurar causas, foi arquivado nem sei bem o que diz o relatório, só conheço o que participei, estranho fogo propagava-se através do interior das paredes das águas furtadas com a instalação elétrica desligada, suspeitei dum adido (retornado) alojado nas águas furtadas dessa Farmácia Militar, pois pedia indeminização por roupas de marca queimadas quando antes vestia miseravelmente, o que é comum a estes fogos é que não se apuram as causas nem os responsáveis e toda a gente beneficia do prejuízo, expeto o povinho que se está nas tintas, “deixa arder que o meu pai é bombeiro”…

Bom deste incendio eu ganhei dois Louvores e um Diploma do EME, não deixei roubar NADA! e bem queriam…

Cumprimentos
JM CH-GE

De Alvor-Silves a 06.09.2018 às 04:26

Excelente testemunho, in loco, caro José Manuel.
Isso é daquelas coisas que se não forem as próprias testemunhas a escrever as memórias e a colocar na internet, pois são coisas que ficariam perdidas para sempre. Pois, é como diz, o interesse não é nenhum, as coisas ficam sempre arquivadas, sem conclusões, e o arquivo ao fim de algum tempo também só espera por um incêndio, ou por um "abate" por razões de espaço (por incrível que pareça, isto também acontece, mesmo nos dias de hoje, sem haver o cuidado de guardar pelo menos cópia digital).

Esse arquivo da Cinemateca, bem como os da RTP, seriam de importância crucial estarem disponíveis ao público na internet... mas como é óbvio, o que interessa é proteger quem quer ser protegido (aliás cada vez mais se vê no Google - "dados não disponíveis devido à lei da UE sobre o direito ao esquecimento" - e o direito à memória? - pois esse parece não ter adeptos, é uma sociedade gosta de perder a memória).

Obrigado! Abraço.

De Amélia Saavedra a 06.09.2018 às 10:49

Li algumas notícias em jornais portugueses e alguns dos comentários e curiosamente, uns poucos, levantam igualmente suspeitas de como é possível perder-se objectos que à partida resistiriam a qualquer tipo de fogo.. enfim... nem toda a gente é assim tão estúpida e depois queixam-se dos adeptos das teorias da conspiração! Quanto ao testemunho do Sr. José Manuel... é como diz.. é uma pena não haver mais, mas cá está... outros interesses e conveniências falam mais alto... Tenho conhecido algumas pessoas que podiam esclarecer muita coisa da nossa história e não só, mas o problema são as consequências e certos interesses instalados... muito provavelmente antes de sequer pensarem em publicar, alguém já estaria a tentar convencê-los do contrário...

De da Maia a 06.09.2018 às 12:31

Pois, Amélia, neste caso, perante as imagens, pode ter havido a tentação de dramatizar ainda mais a perda, querendo apontar o dedo a Temer (e com razão...).
Só que com isso estiveram implicitamente a legitimar o desaparecimento de coisas que não podem ter desaparecido. Espero que tenham estado atentas à remoção dos escombros...

Li agora que arderam 7 museus no Brasil nos últimos 10 anos:
https://www.sabado.pt/mundo/america/detalhe/sete-museus-arderam-nos-ultimos-dez-anos-no-brasil

... um deles é exactamente a Cinemateca Brasileira, que já ardeu 4 vezes desde 1959, tendo-se perdido mais de 1000 rolos de filmes no último incêndio em 2016.
Neste último incêndio creio que havia cópias digitais de tudo... mas mesmo assim havia quem não tivesse certeza (parece que estamos há 30 anos atrás).

Curiosamente os incêndios em museus são demasiado frequentes.
O Canadá em 1998 reportava uma média de 30 incêndios por ano (só destruição parcial):
https://www.canada.ca/en/conservation-institute/services/conservation-preservation-publications/canadian-conservation-institute-notes/museum-fires-losses.html

... e dizia-se que nos EUA e UK eram o dobro!
A percentagem de fogo posto era de 2 em cada 3 incêndios, suspeitando-se que se tratavam de incêndios para encobrir roubos (vá lá que há quem perceba a ideia)!

Como não vejo mesmo o interesse de convidar os amigos para verem o novo quadro receptado após um roubo de museu (aliás quem serão os amigos que não se escandalizam por o quadro não estar num museu?), só entendo estes roubos por completa parolice, ou então por vontade de ocultação.

Tenho que fazer um post com o testemunho do José Manuel, porque houve ainda mais incêndios significativos "recentes" - o caso do Teatro D. Maria II e a Igreja de S. Domingos (onde também se perderam obras de arte).

Quanto às pessoas que poderiam ajudar a esclarecer e não o fazem... já estamos habituados. É um medo atávico que se parece propagar como um fogo. Duvido que recebam ameaças credíveis, mas não sei concretamente porque não o procuram denunciar.
Na maioria dos casos será pelas razões que se apontavam no relatório do Canadá - não acham importante, acham que é um caso isolado, não se querem dar ao trabalho, pensam na cunha para o neto, etc... há tantas razões minúsculas, que nem vale a pena enumerar!

Obrigado e um abraço.

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