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Escreveu José Manuel Oliveira num comentário recente:
Era para escrever este comentário no post Afonso Henriques e Ourique pois sinceramente não compreendo como ainda duvidam da capacidade de navegar em mar alto na antiguidade... os romanos deixaram escrito que os suevos tinham um mar com o seu nome, neste texto integral sobre Tauria ficasse sem dúvidas que Afonso Henriques tinha à disposição meios para ir do norte à zona de Lisboa por mar antes da tomada da cidade, sempre vierem por mar mercadores da Escandinávia ao Porto seguiam para a Tauria e de Lisboa entravam no Mediterrâneo!
Curiosidades e esquecimentos dos Ataídes e do museu do Louvre em Paris:
«Recebeu nessa altura, o seu magnífico pelourinho de estilo Manuelino, que mais tarde foi mutilado por ordem do Marquês de Pombal, por nele conter o brazão de armas dos condes de Atouguia "Os Ataídes"»
«Com grandes forças napoleónicas aquarteladas na praça militar de Peniche, a vizinha Atouguia é bastante mal tratada pelo abuso da soldadesca sem escrúpulo e desvairada, que muitos danos lhe fizeram. Foi assim, que nos roubaram o altar-mór da igreja de Nossa Senhora e também o seu belo sacrário, que hoje se encontram expostos no museu do Louvre em Paris.»
Autoguia da Baleia (Freguesia) www.atouguiadabaleia.net 

Desconhecia a designação de Tauria para Atouguia da Baleia, mas o link que remete à página da freguesia, mostra bem como é possível, com alguma vontade e empenho local, de fazer um bom serviço histórico, e recuperar a memória de um imenso património que veio sendo perdido, por diversas razões, umas piores que outras.
Mais em baixo, falarei sobre a outra Tauria...

Um outro exemplo que devo assinalar é o site ligado a Alfeizerão: alfeizerense.blogspot.pt, dando como exemplo, um estudo exaustivo sobre a configuração da baía de S. Martinho e Salir do Porto:
http://alfeizerense.blogspot.pt/2015/10/uma-perspetiva-cartografica-da-lagoa-de.html

A esse propósito, José Lopes, que mantém esse blog, enviou-me o endereço de um conjunto de descrições da costa portuguesa, constante na Torre do Tombo
(clicar p/aumentar as figuras seguintes)

Alvor
 LagosPortimão 


 C. S. Vicente



 Sagres


 
Ilha do Pessegueiro e Vila Nova de Milfontes - rio Mira

  Setúbal e Sines

 BelémCascais


Lisboa 

 Monte Brazil (Açores)

 Nazaré 

 Ilha S. Helena e Argel

(ilustrações de Luís de Figueiredo - Torre do Tombo)

Estas ilustrações não são todas, há outras que denotam bem o cuidado em assinalar a profundidade das águas junto à costa lisboeta. A inclusão da planta de Argel mostra como o reino de Espanha não tinha desistido de tentar capturar a cidade, em período filipino (tendo falhado com Carlos V). Quanto à ilha de Santa Helena, seria portuguesa, ainda que fosse pouco frequentada, o que levou a uma anexação holandesa, e posteriormente britânica.

Quanto às outras ilustrações, cada uma tem interesse próprio. No caso do Alvor, podemos ver como seria a vila, não muito diferente um século depois da morte de D. João II. No caso de Sagres, podemos ver que se resumia, tal como hoje, a uma fortificação que cortava a península da rocha. Vila Nova de Milfontes mostra que o rio Mira é bastante navegável até ao interior, etc...

Tauria na Crimeia
A curiosidade adicional sobre o nome de Tauria, é que esse nome era usado pelos gregos para denominar a região da Crimeia, que tinham o hábito de sacrificar náufragos gregos... segundo as descrições mais ilustrativas, decapitando-os, atirando o corpo ao mar, e espetando a cabeça num pau que colocavam como "forma de vigilância" para suas casas.

Se os gregos tinham esta opinião bárbara dos russos, e constavam serem mesmos ruivos, estes habitantes da Crimeia, ou da Cítia, não deixaram de dar um desfecho mais feliz ao episódio do sacrifício de Ifigénia.
A conhecida história de Ifigénia, filha de Agamémnon, conforme contada por Homero, é uma total contradição de propósitos! No contexto da Guerra de Tróia, a armada grega vê-se bloqueada na sua partida para resgatar Helena... e assim, Agamémnon para obter ventos favoráveis no sentido de resgatar a cunhada, Helena, decide sacrificar a filha, Ifigénia!  
A lógica de tal acção ultrapassa mesmo a lógica da mitologia, mas também depois Agamémnon será traído e morto pela mulher, Clitmnestra, que por sua vez será morta pelos filhos Orestes e Electra... 

Numa reviravolta ao problema moral do sacrifício de Ifigénia, aparece a versão de que Ifigénia teria sido poupada ao sacrifício por Artemisa, e seria sacerdotisa na Tauria (Crimeia). Afinal um cervo teria sido colocado no seu lugar. Assim é escrita a tragédia de Eurípedes - "Ifigénia em Tauris". Talvez não tivesse sido um cervo, e tivesse sido mais uma serva... para evitar a morte da filha do rei. Afinal o que interessava no sacrifício era mostrar a determinação do pai Agamémnon, em prosseguir a campanha, não olhando a princípios e meios, para chegar ao fim de Tróia.
O sacrifício de Ifigénia (imagem em Pompeia - maicar.com)
A questão é que, também num texto anterior, abordámos aqui a questão dos cervos na Crimeia.
Mais concretamente, no contexto do "fogo de Santelmo", entendemos desta forma uma representação rupestre existente na Crimeia:



Ou seja, entendemos que a pintura representava três momentos, no contexto de uma caçada. Primeiro, os chifres do cervo iluminavam-se («St. Elmo's fire can also appear on leaves, grass, and even at the tips of cattle horns»), associava-se um fenómeno de esfera luminosa («Often accompanying the glow is a distinct hissing or buzzing sound. It is sometimes confused with ball lightning.») que vitimava alguns dos caçadores, e a manifestação sobrenatural levava à veneração do cervo.

Na altura, dissemos que tal manifestação poderia ainda ter levado às comemorações populares do touro embolado, onde são colocados os chifres do touro em chamas. 
Agora, só isso parece ser consistente com o nome Tauria ou Tauris, já que a Crimeia não parece ter sido uma região muito pródiga em touros. Aliás convém notar que todo o conjunto montanhoso que ia do Cáucaso aos Himalaias chegou a ser denominado como montanhas do Tauro.

Bom, não deixa de ser curioso que para além de termos a nossa Tróia, tenhamos também a nossa Tauria, na Atouguia, ambas ligadas à tão distante Guerra de Tróia... acrescendo a isso toda a mitologia repetida sobre a fundação lisboeta por Ulisses, e à sua paixão por Calipso, quando o nome romano do rio Sado era Calippo.


Aditamento (11/02/2016) :
Por razão da observação feita pelo João Ribeiro, relativo ao Touril de Atouguia, parece-me bastante interessante mostrar o brazão da freguesia de Atouguia da Baleia, e comparar com a imagem do touro embolado, que já tinha colocado no texto sobre a Crimeia:


Brazão da freguesia de Atougia da Baleia e imagem de touro embolado em Espanha (wikipedia)

Certamente que haverá alguma justificação para os castelos ou torres nos cornos do touro, mas atendendo ao que vínhamos a descrever, a imagem do touro embolado (à direita, o touro com os cornos em chamas), veio aqui assentar, que nem uma luva! Há "coincidências" que nem de propósito seriam mais ilustrativas...

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publicado às 06:00


1 comentário

De da Maia a 01.07.2019 às 10:10

Caro João,
se considerarmos essa bizarra ligação entre Lourinhã e Taurinianu, passando a Laurinianu, pois tem razão e faria igualmente sentido pensar-se daí para Tauria e daí para Atouguia. Teria a vantagem de ser uma ligação próxima entre as duas localidades próximas.

Simplesmente, digo-lhe francamente, isso da Lourinhã parece-me ser daqueles desvios que permitem tudo e mais alguma coisa. Não precisaríamos de recorrer aos hititas para, pelo meio dos romanos, ir buscar a palavra "Tauria" que claramente se liga ao touro. Desde as pinturas rupestres de 20 mil a.C. que se percebe que o pessoal da Ibéria estava obcecado pelos touros, e avaliando que ainda hoje continua, não há razão para pensar que esse fascínio se teria perdido.

Aliás, Taurinianus é ainda um nome romano, e parece-me natural que se ligasse directamente ao touro, sem precisar de ir buscar deuses hititas - até porque os hititas estiveram praticamente desaparecidos da história, durante milénios, até terem sido desenterrados no final do Séc. XIX.

Obrigado, e um abraço.

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