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Na História Universal dos Terramotos de Joaquim José Moreira de Mendonça... obra de 1758, cujo título completo é:

História Universal dos Terramotos que tem havido no mundo, de que há notícia, desde a sua Criação até ao Século Presente: com uma narração individual do Terramoto do 1º de Novembro de 1755, e notícia verdadeira dos seus efeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes de Europa, África, e América, aonde se estendeu: e uma dissertação física sobre as causas gerais dos terramotos, seus efeitos, diferenças e prognósticos, e as particularidades do último.

Mendonça, para além de descrever parte do que se tinha passado em 1755, vai buscar uma extensa lista de ocorrências. Se não estava já compilado, o trabalho seria enorme, mesmo para os 2 ou 3 anos que demorou a escrever a obra, após o sismo de 1755.

Ora, já falámos abundantemente do golpe maçónico, engendrado pelo Marquês de Pombal, na ocasião do sismo, dos fogos que consumiam a cidade, perante uma inoperância total, e presumida propositada, bem como das notícias de um maremoto, que verdadeiramente teria ocorrido no grande sismo de 1531, altura em que se construiu o Bairro Alto. O mesmo sismo de de 26 de Janeiro de 1531 que terá servido descrições falseadas de 1755, ao ponto de se ter ocultado da memória o registo de 1531 até reaparecer em documentação trazida a lume na revolução republicana. Trazida a lume... é a expressão quase certa, porque da mesma forma que foi trazida, voltou a ser "queimada", e ainda hoje o sismo de 1531 é ensombrado pelas descrições convenientes transportadas para o de 1755. 
Porque, só tolos, académicos crédulos, ou coniventes, podem recusar que o Bairro Alto tinha já o famoso planeamento em quadrícula, e que o natural em caso de maremoto seria a população habitar um "bairro alto", e não insistir em habitar a "baixa pombalina".   

A propósito dos sismos em Itália, que depois de Áquila voltaram a ocorrer em Amatrice, e agora de novo, Olinda sinalizou-nos então por email, a notícia de um sismo em 382 d.C. que teria submergido algumas ilhas ao largo do Cabo de S. Vicente.

Mendonça refere esse sismo da seguinte forma (página 26):
382 d.C.  Neste ano houve um Terramoto por quase toda a orbe, no qual padeceram muito as terras marítimas de Portugal,. Subverteram-se ilhas, de que ainda ao presente aparecem algumas eminências defronte do Cabo de S. Vicente. Laymundo (Livro 6), segundo Bernardo de Brito, se conforma muito com o que refere Eutropio. Talvez, que fosse nesta ocasião que desapareceu a Ilha Eritreia que esteve na Costa da Lusitânia, segundo Pompónio Mela (Livro 3) e outros.
... e no blogue Montalvo e as Ciências do Nosso Tempo, podemos ler um extracto de um livro de Luis Mendes Victor, sob o título "Sismologia e a dinâmica planetária", que acrescenta:
A existência de ilhas ao largo de S. Vicente é assinalada por Estrabão nos seguintes termos: o litoral adjacente ao promontório sagrado (Cabo de S. Vicente) forma o começo do lado ocidental da Ibéria até à boca do Tejo e o começo do lado meridional até à foz de outro rio chamado Anas (Guadiana)... Este cabo (promontório Sagrado) marca o extremo ocidente não só da Europa, mas de toda a terra habitada... Artimidoro, que diz ter estado naquele sítio, compara-o na forma de um navio; segundo ele, o que ainda mais faz lembrar um navio é a proximidade das três ilhotas de tal modo colocadas, que uma figura o esporão, e as outras duas com o duplo porto assaz considerável que formam, figuram epótides do navio. São estas as ilhas que, segundo Eutrópio, desapareceram em consequência do sismo e maremoto. No que se refere à ilha Eritreia que frei Bernardo Brito conjectura que tenha desaparecido por ocasião deste terramoto, não pode ser localizada com precisão, pois parece ter havido mais do que uma com o mesmo nome. (Moreira, 1991)
Como referi então, a coisa que mais se aproxima com possíveis ilhas próximo do Cabo de S. Vicente será o Banco de Gorringe (mapa de detalhe)... sendo que há outros bancos que meteram água em negócios submersos, dada tendência a afundar as poupanças dos contribuintes.  
Banco de Gorringe, imagem com uma raia eléctrica.
Como curiosidade adicional, Mendonça refere igualmente um grande sismo em 33 d.C, dizendo o seguinte:
33 d.C. O Terramoto sucedido na morte de Cristo, foi o maior, que tem experimentado o Mundo. Foi sentido em todo o Globo terráqueo. Ainda que Orósio, seguindo Plínio (Livro 2, cap. 84) pretende que fosse neste a destruição referida das cidades de Ásia, Tácito e Dion põem aquela fatalidade no consulado de Celio Rufo, e Pompónio Flaco, que foi no ano 20 d.C., segundo Eusébio no seu Chronicon. Neste violentíssimo terramoto, diz Santo Agostinho, que foram subvertidas onze cidades na Trácia. Também dizem que se abriram o monte Alvernia na Toscana, e o promontório de Gaeta em Nápoles. É muito provável que no mesmo terramoto se precipitou no mar uma parte da cidade de Tyndarida. Desta fatalidade escreve Plínio, atribuindo-a só às águas, que tinham cavado o monte em que estava fundada. Laymundo diz que foi muito formidável em Portugal, porque se mostravam rochas abertas desde aquele tempo. 
Como não me ocupei dos diversos relatos, e apenas fiz referência a alguns terramotos listados após a fundação da nacionalidade, junto agora os outros terramotos listados por Mendonça, e que afectaram território nacional.

Começa o relato de um sismo que teria dado origem ao mito grego do Dilúvio de Ogiges, e do Deucalião, e que teria ocorrido em 1815 a.C. Sobre Espanha começa por dar conta da grande seca, ocorrida cerca de 1030 a.C, e que poderia ter durado 26 anos, afectando menos a zona da Galiza, Astúrias e Cantábria. Adiciona que em 880 a.C. teria ocorrido um grande incêndio dos Pirinéus, tendo chegado ao ponto de fundir metais. Mas o primeiro registo que dá em Espanha é de um terramoto ocorrido cerca de 500 a.C. que abrira rochas e descobrira metais, e antes disso tem o cuidado de dizer (pág. 8):
Das Berlengas, ilhas e rochedos, fronteiros à Costa de Portugal, há tradição que foram Terra Firme deste Reino. Algum dos antigos Terramotos fez baixar a terra na parte, que cobriu o mar, como sucedeu noutras regiões do mundo. É muito provável que estas Ilhas e as chamadas Strinia, e Ophiusa, que ainda existiam defronte do Cabo de Espichel, quando Hamilcon veio a Espanha, e depois se submergiram, foram as famosas Ilhas Fortunadaas, e a dos Deuses, que celebraram tanto os Antigos, entre as quais foi muito conhecida a Erithia, Ao erudito Marinho pareceu, que todas estas ilhas foram antes Costas de Portugal, e que separadas por algum terramoto foram depois de muito séculos de existência, ilhas submergidas por outro. O que parece sem dúvida é que o Continente de Portugal era muito extenso para a parte do Ocidente. O promontório chamado dos geógrafos antigos de Magnum é hoje pouco metido ao mar, para merecer por antonomasia, o nome de grande. Devemos supor com Marinho que o mar roubou dele muita terra. 
Se as ilhas Strinia e Ofiúsa eram vistas ao tempo de Hamilcon, será talvez nos registos dos terramotos de 245 a.C. e de 216 a.C., que afligiram a Espanha, ou ainda no grande terramoto em 60 a.C, que se poderá ter alterado a situação, dizendo a este propósito "o mar excedendo os seus ordinários limites cobriu muitas terras (...) a gente se retirou a habitar campos e montanhas". Não era ainda tempo do Marquês que conseguia convencer o pessoal a habitar a Baixa, apesar do grande maremoto...
Ainda que tenhamos que dar o devido desconto a estes relatos mais antigos, normalmente há aqui muita névoa da época, que teria também uma alguma sinalização de faroleiro.
Numa parte parece claro que Mendonça estava certo - "sem dúvida é que o Continente de Portugal era muito extenso para a parte do Ocidente", e diríamos mais, entre 30 a 60 Km ou mais para ocidente.

A razão não terão sido os terramotos, como abundantemente Mendonça refere, mas hoje já se começa a aceitar, pelas "conversas do clima", que durante a Idade do Gelo, a extensão territorial era muito maior, em particular fazendo entrar a Costa ocidental europeia no Oceano Atântico.

Foi ficando sempre na população alguns mitos de ilhas perdidas no tempo, submergidas por fenómenos naturais, desde a submersa Atlântida até à perdida Avalon, ou ainda as Hespéridas, dos pomos de ouro, confundidas talvez com as Caraíbas.
Curiosamente em português, usa-se a expressão "abalar" com o significado duplo de estremecer, ou de partir.
Como ainda não mencionei muito Avalon, cito a wikipedia sobre a etimologia do nome:
All are etymologically related to the Gaulish root *aballo- (as found in the place name Aballo/Aballone, now Avallon in Burgundy or in the Italian surname Avallone) and are derived from a Common Celtic *abal- "apple", which is related at the Proto-Indo-European level to English apple ...
Portanto, poderá haver uma raiz do nome Avalon que se relaciona com "maçãs", o que tendo em atenção que as ocidentais Hespérides tinham o moto das "maçãs de ouro", também entendidas como "laranjas", não deixa de ser curioso.
Seja por causa de um "abalo" sísmico que motivou um "abalar" para outras paragens, seja porque as maçãs caíam por abalar ou abanar a árvore, há uma diferença significativa entre maçãs que abalam, e pêros ou pêras que esperam... porque pêras, adequam-se mais às Hesperas, às Esperas, moto de D. Manuel, que juntou à Esfera, enquanto SPERA, na esfera armilar. E a seu tempo acabou a Spera e foi feita a Sphera na circum-navegação por Magalhães. As Hespérides puderam então ser associadas às ilhas ocidentais paradisíacas das Caraíbas, e tudo parecia correr bem, se não houvessem sempre novas Hesperas e Esperas a cumprir. As maçãs ligam ainda ao deus celta Abellio, identificado ao grego Apolo, afinal o deus solar, quando os pomos eram de ouro. Apolo que se ligava ao culto da Pítia, pela morte da famosa serpente. Fica assim o encobrimento, o cobre da cobra, dos cobres que cobram, e o abalo das maçãs.

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publicado às 05:58


7 comentários

De João Ribeiro a 30.01.2017 às 13:36

Damião de Góis em Crónica de D. Manuel I, cap. LXXXII sobre o ano de 1504, Portugal.

"Houve nestes Reinos, grandes e espantosos terramotos devido aos quais caíram muitos edifícios, de maneira que os homens tomaram o partido de habitar nos campos, fora de suas casas e longe das montanhas, com medo de que umas e outras caíssem sobre eles."

Nunca tinha ouvido falar deste terramoto.

Cumps.

De da Maia a 30.01.2017 às 16:50

Pois... isso é especialmente estranho, porque na compilação de Pinho Leal:

http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/10/abalos-de-sebastiao-marques.html

parece-me que não constava esse de 1504.
O Moreira de Mendonça que é mais exaustivo (focava apenas nos terramotos), fala dele dizendo (pág. 49/50):

Item 255. (1504) Outros Autores põem este grande Terremoto, nesse ano [1500] em o mesmo dia 5 de Abril.
Em Sevilha depois de ásperos temporais amanheceu esse dia fresco , e pelas nove horas da manhã se levantou uma grande tempestade, com ventos, chuvas, trovões, raios, e tremor de terra, que parecia querer acabar com a Cidade. Arruinou-se a
Catedral, e as Igrejas de S. Francisco, e S. Paulo, e caíram grande numero de casas, com morte de muitas pessoas. Foi geral em toda Hespanha.
Carmona, e outras Cidades, e Vilas ficaram muito arruinadas. Seguiram-se em Novembro, e Dezembro grandes inundações. Os dois anos seguintes foram muito secos, o que tudo causou esterilidades, e peste.
[Zurita]

Item 256. Nesse mesmo tempo, reinando em Portugal o Felicíssimo Rey D. Manuel, foram neste Reino tão violentos os Terremotos, que subverteram
povoações inteiras, e fizeram andar a gente fugitiva pelos montes.
[Faria]

Consta da Wikipedia espanhola (onde terá tido o maior impacto):
https://es.wikipedia.org/wiki/Terremoto_de_Carmona_(1504)

------------
Curiosamente esse terramoto consta ainda de uma lista recente
PREVENÇÃO E PROTECÇÃO DAS CONSTRUÇÕES CONTRA RISCOS SÍSMICOS
(FLAD, pág. 27)

Síntese dos sismos que mais afectaram o Continente
[dados de Martins e Mendes Victor, 1990]

Ano Mês Dia Lat. Long. Magnitude
------------------------------
0309 02 22 37.00 -11.00 7.00
0382 01 01 36.88 -10.00 7.50
1356 08 24 36.00 -10.70 7.50
1504 04 05 38.70 -05.00 7.00
1719 03 06 37.10 -07.00 7.00
1722 12 27 37.17 -07.58 7.80
1755 11 01 36.88 -10.00 8.50
1856 01 12 37.10 -08.00 6.00
1858 11 11 38.20 -09.00 7.20
1896 10 30 37.50 -08.20 5.00
1903 08 09 38.40 -09.00 5.50
1909 04 23 37.10 -08.90 3.00
1921 10 23 37.30 -09.20 4.30
1969 02 28 36.20 -10.60 7.50

... onde "estranhamente" se ignora o sismo de 1531, que segundo Moreira de Mendonça "... me parece que foi maior que o de 1755" (nota 271, pág. 55).

Como esse sismo de 1504 terá afectado especialmente a região de Sevilha, pode entender-se como normal que não conste de alguns registos portugueses, e até talvez se confunda com o de 1531, ainda que Moreira de Mendonça pareça sugerir mais a confusão desse de 1504 com outro de 1500.

Abç

De da Maia a 30.01.2017 às 17:03

O livro da FLAD (que citei) encontra-se aqui:
http://www.flad.pt/wp-content/uploads/2014/05/livro27.pdf

e curiosamente a tabela que ignora o sismo de 1531 é a de um livro, aqui posto como artigo, citado no texto deste post:

A SISMOLOGIA E A DINÂMICA PLANETÁRIA, de Luís Mendes Victor (pág. 25)

De João Ribeiro a 30.01.2017 às 22:05

Ah! Acho que já percebi o problema. Esta é uma transcrição para português corrente por Frederico Alves de 1977. É um livro da colecção dos Grandes Clássicos da Literatura Mundial. Penso que o terramoto será realmente o que abalou Espanha. O Sr. Frederico Alves entendeu que o terramoto teria sido "nestes reinos" como em Portugal e mete para ajuda do leitor Portugal dentro de parênteses mas terá entendido mal. Isto até é fácil de decifrar porque a noticia do terramoto vem na sequência da noticia da morte de Isabel a Católica, rainha de Castela. Eu na minha ingenuidade fui pela dica de Frederico Alves.

Obrigado,

Ab

De Alvor-Silves a 31.01.2017 às 02:27

Ok, não li esse livro, mas o seu esclarecimento parece-me fazer bastante sentido.
No entanto, como verá, esse terramoto é inserido na listagem de 1990, enquanto que o de 1531 continua "estranhamente" desaparecido.

Abç

De João Ribeiro a 31.01.2017 às 17:10

Sim, reparei que não aparecia o de 1531 mas não faço a mínima do porquê. Talvez lá mais para a frente esta crónica que estou a ler faça alguma alusão ao assunto.

Ab

De Alvor-Silves a 01.02.2017 às 04:58

Pela parte do Pinho Leal e Moreira de Mendonça, entende-se. Pinho Leal não fala desse, porque apanhei a lista dos terramotos, no item de Lisboa. Moreira de Mendonça fala dele, porque está a descrever os terramotos registados em todo o mundo conhecido.
Agora se formos para a lista de 1990, de Mendes Victor, então não se percebe... até porque ele usa Moreira de Mendonça como fonte para outros terramotos, concluindo-se apenas que a exclusão de 1531 ou foi um erro grave, ou foi uma omissão deliberada.

Abç

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