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É bem conhecido, e até reconhecido, que antes da descoberta oficial da Madeira, Canárias e Açores, existiram mapas anteriores, portulanos, onde estas ilhas estavam bem identificadas. Alguns desses mapas eram italianos, outros da escola catalã das Baleares, etc.

Surge a este propósito um email de David Jorge acerca de um mapa de Andrea Bianco de 1448, que foi interpretado como tendo uma referência ao Brasil, e que entretanto verificámos ter sido essa opinião sustentada também no Séc. XIX por H. Yule Oldham... mas sem grande sucesso.

David Jorge colocou a questão da seguinte forma:
Reportando-me a um "capitulo" interessante na história da descoberta do Brasil, a certa altura e sobre o que "descobrira", Mestre João Farás, piloto da Armada de Pedro Álvares Cabral escreve para D. Manuel I o seguinte: "Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapamundi que tem Pero Vaz Bisagudo, e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra, porém, aquele mapamundi não certifica esta terra ser habitada, ou não. É mapamundi antigo; e ali falará Vossa Alteza também a Mina"

Como é óbvio, a primeira vez que li este pedaço de texto, corri à bibliioteca a procurar um mapa que se assemelhasse à descrição neste pedaço de texto.

Existe uma ideia geral que esse mapa seria uma cópia  do mapamundi de Andrea Bianco (1448), onde aparece a "ixola otintiche a ponête 1500 mile".                              
Nota: Mapa mundi ANTIGO (com apenas 52 anos)??
O mapa mais conhecido de Andrea Bianco é de 1436, e David Jorge comparou a parte sudoeste desse mapa (aqui invertido):


com um a parte sudoeste de outro mapa, bem mais antigo, atribuído a S. Isidoro de Sevilha:

onde David Jorge leu "insola incognita * ay 13 * 1159 partes mundi", e associou à possível ilha, que está ausente do mapa anterior. Em suma, concluiu:
Tendo como ponto de partida um mapa Português juntamente com o da crónica de S. Isidoro (vale a pena ler no que esteve envolvido) como bases para este mapa, (pois retrata os descobrimentos ao longo da costa Africana e (eventualmente) a Mina), a existência desse texto, juntamente com a carta a D. Manuel I comprova que Portugal tinha de facto um conhecimento das terras na America do Sul anterior a pelo menos 1436.
Acontece que esta suspeita de David Jorge veio a estar confirmada por uma suspeita de H. Y. Oldham constante de um artigo de G.C. Hurlbut em 1895 no Journal of the American Geographical Society of New York, (Vol. 27, No. 4), pp. 396-410.

Coloco aqui o texto relevante para o assunto:
 

Como se poderá ler, esta conjectura de Oldham foi rebatida por um certo "Signor Errera", com os seguintes argumentos "notáveis":
- (i) os portugueses no Séc. XV não tinham nenhum conhecimento de terras no sudoeste;
- (ii) que a ilha misteriosa de Bianco não é encontrada em nenhum dos mapas portugueses;
- (iii) que os historiadores portugueses estão calados sobre o assunto;
- (iv) e que a descoberta acidental do Brasil por Pedro Álvares Cabral, foi uma surpresa para o governo e para a nação!
Esta parte do artigo de Hurlbut termina concluindo que "a opinião deve ser final, mas nenhum homem vive para ver o fim da sua teoria".

Pela parte que me toca, achei interessante o argumento (iii) - o silêncio dos historiadores portugueses, que já era bem notado em 1895, e que em nada mudou nos 120 anos seguintes. Certamente que o silêncio não se deve à falta de dados e argumentos, e também reduzi-lo a uma mera obediência aos mestres das escolas maçónicas, ou por obediência à igreja nacional, veríamos um muito pouco ganho para a troca.


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publicado às 05:38


3 comentários

De Anónimo a 31.01.2019 às 12:06

Caro Alvor,

Há dias estava eu a dar uma olhada no manuscrito do Beatus Apocaliptico de Lorvão, que se pode consultar no arquivo digital da torre do tompo com o seguinte link:

https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4381091

Quando me lembrei deste post, pois como lhe disse em tempos, não acredito em coincidências.
Assim segue algumas "curiosidades" que detectei e que me levaram a ligar este post com o Manuscrito.
1. Para além de estar ligado à Ordem de Cister, tal como outros manuscritos copiados dos apontamentos pelo Biato de Liébana sobre o apocalipse, como de San Andrés del Arroyo. Este, o Português, foi escrito em latim, teoriza-se por "Monjas" (o que por si já denota a importância da figura feminina no seio do conhecimento na época medieval) da ordem de Cister.
2. A autoria é atribuida, no site da torre do tombo, a EGEAS.
3. Está atribuida uma data de 1189 ao manuscrito.
4. O Apocalipse do Lorvão pertenceu ao mosteiro de São Mamede Lorvão, de onde foi trazido para a Torre do Tombo por Alexandre Herculano.
5. Tal como o manuscrito de San Andrés, este manuscrito tem um mapa mundi, semelhante ao de Stº Isidoro.
6. Tem "particularidade" de lhe faltar o verso da página 78, ou seja metade do mapa mundi.
7. A metade que lhe falta, é exatamente a metade OESTE, a do Atlantico, e respectivas "ilhas" que no manuscrito de San Andrés ladeiam a margem exterior do mapa.
8. O catálogo da Torre do Tombo (https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4381091) não menciona a falta dessa página.
9. Enquanto o mapa do Beatus de San Andrés contem um mapa iluminado muito figurativo, a metade do mapa no Beatus do Lorvão é mais simplista e aparentemente mais geograficamente correto.

Espéculação:

Ora se Pero Vaz Bisagudo tinha um mapamundi, "mapamundi antigo", teria de ser copiado de algo.
Não seria certamente o mapa de Andrea Bianco, aliás, o de Andrea Bianco também teria de se basear em algo. Como consequência surgem mais uma vez as explorações Portuguesas ao longo da costa fricana, como fontes para o Mapa de Bianco. A ligação entre Bianco e Bisagudo aparenta fazer sentido tendo em conta a viagem de 20 Caravelas que Bisagudo levou ao Reino do Benim com um forte "em peças" para montar (já escrevi noutro post aqui no seu blog, sobre a caravela que da Gama levou numa Nau e que montou na Ilha de Moçambique). Podemos suspeitar que Bisagudo contactou Bianco e lhe forneceu informações sobre a costa africana e as explorações para Bianco colocar no seu mapa?? Não me parece.
Especulo então que, à falta de outro mapa passível de ser uma fonte figdigna existente em Portugal à época, pela semelhança com os codexes (beatus), pela semelhança e próximidade de datação entre o mapamundi de Stº. Isidoro e o mapamundi no Beatus "Apocalipse" de Lorvão, a metade em falta teria uma grande probabilidade de ter sido o tal mapa que Bisagudo detinha com a localização do "Brasil".

Cumprimentos,
Djorge

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