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Urbano Monte é o nome de um cartógrafo italiano que deixou um atlas razoavelmente completo e intrigante. O assunto foi trazido há duas semanas, em emails de David Jorge, de que procuro fazer aqui um pequeno resumo.

Curiosamente, o assunto acaba por cair também em D. Sebastião, já que o cartógrafo italiano inclui dois mapas com a sua cara, em forma de continuação:


O que se pode ler abaixo da imagem de D. Sebastião é quase o mesmo, de uma página para a outra, mas há ligeiras diferenças entre os dois.

Podemos ler desta forma:
Il Re di Portogallo
seguita ancor nell'oceano Immenso
la fama di costui drizando il volo
et mentre a lui per honoranza il censo
pagaro i Dei del marinesco stolo
D'armati legni un longo bosco e denso
per lui molt'ani corse il salso suolo
che sia in cielo grato a Giesu Cristo
Dove vivendo procuro l'aquisto
... estrofes que se poderão ler mais ou menos assim:
O rei de portugal.
Seguida ainda no imenso Oceano, a fama dele encaminha o voo;
e quanto a ele honra o senso pagão dos deuses do marinheiro solitário.
Armadas de grande lenho e denso bosque, por ele tantos correram o solo salgado,
que esteja no céu grato a Jesus Cristo. Onde vivendo adquiriu o adquirido.
Duas imagens do autor
A situação é tanto mais estranha porque o atlas acaba por incluir uma adição com um diferente auto-retrato do autor Urbano Monte. 
- Primeiro com 43 anos, lê-se no original URBANO:TERTIO:DA:MONTE:AN: 43.
- Depois com 45 anos, é cosido o retrato circular, dizendo URBANO MONTE D'ANNI XXXXV

Um retrato 2 anos mais recente de Urbano Monte é colado sobre o anterior

A razão pela qual isto acontece é estranha e dificilmente explicável.
Não é comum esta actualização do auto-retrato com inserção de nova imagem.

Aliás, todo o mapa é suficientemente estranho, para merecer diversos comentários. 
Só agora foi recompilado, pela biblioteca David Rumsey (Stanford University), de forma a satisfazer um contorno polar, conforme pareceria ter sido originalmente pensado.
Aspecto geral do atlas de Urbano Monte, agora compilado assim pela biblioteca David Rumsey, 
e assinalamos a amarelo a posição onde ficaria a figura de D. Sebastião.

A referência mais antiga que encontrei deste atlas é de 1810, num Magasin Encyclopedique (por A.L. Millin), dizendo que Carlo Amoretti (membro do Instituto Nacional e do Conselho de Minas do Reino de Itália, bibliotecário da Ambrosiana de Milão)
a trouvé dans la même bibliothéque un grand Traité de Géographie, manuscrit autographe d'URBANO MONTI, écrit entre 1590 et 1598, où l'on voit dessiné le détroit qui porte à la mer Glaciale
Nota "en passant" - Ferrer Maldonado; João Martins
Convirá aqui salientar que o mesmo texto de Amoretti refere que os espanhóis teriam enviado o capitão Lorenzo (Laurent, Lourenço) Ferrer Maldonado numa viagem pela passagem Noroeste.
É suficientemente estranho que esta descoberta fez sensação à época, e Amoretti mandou publicar o livro do capitão espanhol (que está à venda... por quase 10 mil dólares).
Entretanto, o tempo passou... Amoretti terá morrido, e todo o documento de viagem de Ferrer Maldonado foi desacreditado nos anos seguintes, como sendo falso ou fantasioso.
Interessa que este nome nem sequer consta da wikipedia, e dificilmente aparece mencionado pelos próprios espanhóis.

Curiosamente é ainda feita referência a uma carta náutica de João Martins ("Juan Martines", Portugais) que teria sido seguida por Ferrer Maldonado na "parte complicada".
De João Martins é dito haver um portulano na Academia Imperial de Turim. Ora, desse João Martins, em Portugal, não se parece saber quase nada... mas constam 18 atlas, e 140 cartas, atribuídos a si.

Urbano Monte -vs- Sebastião
Acerca do atlas de Urbano Monte, Djorge vai citar a Maria da Fonte que já tinha antes mencionado este mapa (no facebook), na perspectiva de que o que veríamos seria o retrato do próprio D. Sebastião e não haveria nenhum Urbano Monte!

Esta perspectiva poderá parecer ousada e bizarra, para os leitores mais convencionais.
No entanto, segue a linha de que o próprio D. João II poderia não ter morrido em Alvor.
Há comandantes e comandados.
As idílicas paisagens paradisíacas de que as navegações traziam notícia, estavam ao alcance real?
Houve conhecimento de algum rei que se fez ao mar, e seguiu os seus pilotos, em viagens que já eram corriqueiras, e que raramente traziam grandes desastres?
Haveria maior risco em enfiar-se numa batalha no meio de mouros em África, ou em enfiar-se numa nau, visitando o Brasil, que só foi conhecido "realmente" na fuga napoleónica de D. João VI?

À partida, não vejo nenhum obstáculo lógico a que um rei decidisse findar os seus dias fora de uma corte europeia decadente e burocratizada, e partisse numa outra aventura além-mar, para ver com os seus olhos, terras, ilhas e mares, que não passariam de desenhos em mapas, doutra forma. E, se nisso tivesse projecto de desenvolver nova sociedade, para além da sociedade europeia, juntando a si os seus mais próximos... pois que outra forma subtil de se fazer desaparecer que numa batalha, no meio do nevoeiro das intrigas?

Comentários/questões
Djorge, a propósito do mapa deixa ainda as observações:

  • 1º) Julgo ser a primeira vez que vejo um autor assinar um mapa com dois auto-retratos seus.
  • 2º) Os dois auto-retratos "aparentemente" separam-se em 2 anos, no entanto não aparentam ser a mesma pessoa nos 2.
  • 3º) Se a data do atlas/mapamundi for a que aparece na discrição pelo arquivista da biblioteca, 1587, e tendo em conta que o wikipedia dá como data de nascimento 1544, significa que nem o primeiro o primeiro nem o segundo selo corresponderiam à correta idade do autor.
  • 4º) Sendo que D. Sebastião é dado como tendo nascido em 1554, a soma das duas idades das figuras daria uma datação para o mapa de 1599, ou 1596 dependendo da figura do selo.
  • 5º) Não vi ligação nenhuma no soneto, embora não me soe estranho, podendo ser algum excerto dos Lusiadas, não sei se era isso a que se referia "Maria da Fonte".
  • 6º) O texto por baixo da figura do rei de Portugal, parece-me referir a lenda do regresso de D. Sebastião, o que é estranho é que em 1586, 1596 ou em 1599 já seria Filipe I a reinar em Portugal e Algarves.
  • 7º) Estranho é que neste atlas o Rei de Espanha e das "Indias" não é o Rei de Portugal.


Ora, a este propósito mostramos a ilustração reservada ao Rei de Espanha, "Philipo:Max"

Do lado esquerdo segurando no globo e de joelhos, está o rei do Peru e diz-se:

  • qui parla Atabalipa Re del Peru designato como nela tavola seguente
  • Quando sugetto a me, quel novo mondo, et al Demonio ancor, era infelice, hora que é tuo, fia molto giocondo

... ou seja, o chefe inca diz com sarcasmo a Filipe II, que a América sujeita a ele, e ao demónio, era uma terra infeliz, mas que sujeita a Filipe II passava a ser muito agradável/feliz.
Por outro lado, no mar há uma sereia que acrescenta:

  • Eccoti o Re magnanimo, e soprano, che come merti, il marinesca stofo Del mar l'Imperio con questa a te dano.

Portanto, se Urbano Monte envelheceu muito naqueles 2 anos, percebe-se que a sua ironia poderá ter tido consequências... e também parece natural que o atlas estivesse escondido durante mais de 200 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:08


28 comentários

De Anónimo a 19.03.2019 às 16:43

Caro da Maia,

CONTAS

Tem toda a razão, esse assunto é complicado entender.

Inicialmente pensei sobre ele, mais relacionado com a numeração das páginas versus o número de páginas digitalizadas.
A página com maior número inscrito é a 326.

Assumindo que existiriam 326 páginas, isso transformar-se-ia em 163 digitalizações de 2 folhas cada, mais as 19 projeções, recortes e composições efectuado pelos técnicos da biblioteca David Rumsey, 1 digitalização da capa e 1 digitalização a preto e branco de calibração, perfazendo um total de 184 imagens que deveriam estar disponíveis.

A Biblioteca disponibiliza apenas 95 imagens para consulta, e relata que o mapa é composto por 64 folhas duplas, não batendo certo com as contas que fiz.

E obviamente, antes de fazer estas contas, fiz o que a maioria dos leitores provavelmente faria, pensar que o autor se estaria a referir a "Desenho" e não à "designação" quando escreve "qui parla Atabalipa Re del Peru «designato» come nela tavola seguente".

Nesse pensamento, consideraria que o autor se estiva a referir ao "desenho" do Re del Peru "desenhado" como na tábua seguinte, isto é, na folha 184, que casa com a 177 na composição do “grande” mapa.

O PROBLEMA

No entanto, a página onde aparece esta descrição é a 177, o "desenho" que faria sentido ligar a essa descrição, (o que temos em cima no seu recorte, ajoelhado perante o Re Philippo Max), só aparece na página 184, que na grande composição do mapa, aparece justaposta à direita da página 177.
Temos assim as páginas 177 e 184 justapostas, mas não consecutivas.

Bom, até aqui, tudo bem! Há sempre a hipótese de que quem numerou o volume enganou-se e saltou da folha 177 para a 184.

Numa análise mais cuidada vemos que não é bem assim.

Não é possível encontrar as páginas 178/178 ou 178/179 (não se sabe o que estará escrito ao certo na página pelo facto de não podermos consultar.

Na verdade, surge a questão, seriam essas? as páginas que, segundo o autor, seriam a “távola seguinte” que descreveriam ou desenhariam o Re del Peru?

Se foram digitalizadas, não estão disponíveis e isso é que é demasiado estranho, pois não é norma, pelo menos nesta biblioteca, omitirem partes dos documentos.

Como vemos, ao analisar a digitalização da página 184 esta, por sua vez, cobre a página anterior que tem o número 178, ou seja, a página 178 aparece por baixo da página 184 na digitalização, existe, mas não consta nos arquivos para consulta.

Por outro lado, faltariam ainda as páginas 180 e 182 até chegarmos à 184 e mais, na digitalização da página 177 temos à direita, na folha que aparece por baixo, um “3” indicando uma possível página 183, ou uma outra qualquer terminada em 3, que por si também é estranho, já que a numeração aparenta saltar de 2 em 2 números, sempre pares.
Nenhuma destas páginas está disponível para consulta.

De Anónimo a 19.03.2019 às 16:43

MISTÉRIOS & HIPOTESES

Isto leva-me às seguintes hipóteses:
1. A numeração das páginas está errada, tendo todo o livro sido digitalizado embora a primeira página após a capa seja a 287 seguida da página 31.
2. Apenas foram digitalizadas algumas páginas e estas foram reorganizados numa sequência que resulta na desorganização das páginas.

Perante estas 2 hipóteses, não encontro uma razão que justifique a não publicação de todo o livro tal como se apresenta, se foram todas as páginas digitalizadas apenas temos acesso a 95 ficheiros sendo que estes correspondem a 74 duplas páginas (e não 64 como anunciado na descrição), ou 148 folhas das supostas 326 do livro.

No caso de a numeração estar errada, não entendo o porquê de a biblioteca não explicar esta organização caótica da sequência do livro, a menos de se tratar de um erro de numeração propositado.

Ainda assim, surge alguma luz sobre o tema com este texto, disponível na descrição:

“This map is one of 3 examples extant (2 manuscript, 1 printed) that form the continuum of Urbano Monte's work on his ultimate world map. The other two examples were studied at length by Almagia: manuscript copy S is at the Bibliotheca Seminario Arcivisovale at Venegano near Milan is similar to this example with the map in 60 sheets. A second example, printed copy A, is at the Bibliotheca Ambrosiana in Milan, with the frontispiece dated 1590 and the map divided in 64 sheets making the division lines of the sheets easier to arrange. This printed version was published in 1604 on 64 plates, and is the only printed copy known.”
Este exemplar é uma cópia para impressão datada de 1604, o que poderá explicar o “mau jeito para o desenho” do autor.
Seria ótimo poder consultar a versão manuscrita de 60 folhas, da Biblioteca do Seminário em Venegano perto de Milão.

Cumprimentos,
Djorge

De Alvor-Silves a 20.03.2019 às 05:15

Caro DJorge,
pois essa questão da numeração inconsistente ou de uma possível falta de páginas, é estranha e merece que se verique melhor as partes sobreviventes.
Tenho que perder algum tempo, para ver se faz sentido essa teoria que apontou.
Obrigado,
da Maia

De Maria da Fonte a 26.03.2019 às 05:33

Caro da Maia

Urbano Monte, designa Filipe II como Ré Philipo Max. Não como Rei de Espanha. Como Rei de Espanha está a figura do próprio Dom Sebastião. Filipe II, foi Pontifex Máximo, do Ritual de Jano, nunca herdou a Coroa da Espanha ou Spânia. O Poder Temporal, foi herdado por Dom Sebastião de Carlos V, seu avô. Aliás, é Dona Joana de Austria, quem é nomeada Regente de Espanha, por Carlos V, após o nascimento do filho, Sebastião. Filipe II era Rei de Inglaterra, pelo contrato de casamento com Maria Tudor e ascende posteriormente a Pontifex Máximo das Espânias. Carlos V, entrega o Sacro Império ao irmão Fernando, não ao filho, e Espanha ao neto. A obscuridade desta fase da História, é semelhante a muitas outras, que visam camuflar um desígnio major, que em certas fases foi comum a Portugal, Leão e Castela, e noutras não. Não parece existir qualquer animosidade entre Dom Sebastião e Filipe II, pelo contrário. A confusão só se estabelece após a morte de Filipe II. Dom Sebastião tinha um desígnio, que tem que cumprir, mas para isso tem que sair de Portugal e iniciar uma longa viagem, que o leva a atravessar a Terra e a conhecer Regiões onde nunca mais ninguém pisará. Dom António, ficará como Regente. O percurso do Rei Menino, está longe de ser o de um Rei vulgar. Será Mercúrio, o Mensageiro e Defensor da Passagem entre os dois Pólos. Eu diria, que no início, em Portugal é Rei das Espanhas, na Índia, na Etiópia e na Ilha de Moçambique é o Poeta Luso, Luiz Vaz. No final da Vida, é Urbano Monte, que deixa um legado hermético para o Futuro. A sua passagem pela Índia e Etiópia,levá-lo-á à Ilha de Moses ou de Mozambique a Ilha do Faraó, e será como Luiz Vaz, que tomará, penso eu, a mesma decisão de Frodo. Destruir o Anel do Poder, no Fogo que o criara. Urbano Monte, está já do outro lado do Espelho, e aí pode vêr o Pólo Norte. É complicado, reconheço, mas nem outra coisa seria de esperar, de um Reino, onde uma Rainha, um Rei e a sua filha, foram famosos Alkimistas. Só mais uma nota. Filipe e o Rei do Perú têm na mão Bolas de Cristal, que identificam terras diferentes. Abraço.

De Alvor-Silves a 26.03.2019 às 14:33

Cara Maria da Fonte,
antes de mais, é com prazer que vejo aqui um novo comentário seu, e especialmente aqui, no caso de Urbano Monte, já que foi a primeira a mencionar o assunto (que eu saiba).

Mais uma vez, não é fácil seguir a descrição que apresenta.
Tem toda a razão, está muito mal explicada a necessidade de Carlos V separar a herança entre a linha austríaca (do irmão, Fernando I) e a linha espanhola (do filho, Filipe II). Acresce a isso, ter a filha, a mãe de D. Sebastião, ido para Espanha, onde foi regente, tendo deixado a criança entregue à sogra.
A razão para isso acontecer também deixa muito por explicar.
Também é verdade que não parece haver registo de muita animosidade entre D. Sebastião e Filipe II, até porque o tio queria ver o sobrinho casado com a prima, sua filha.
Que haja um desígnio maior, secreto, que foi partilhado pelas coroas ibéricas do Séc. XVI, pois também isso parece claro, mas não se percebe se esse desígnio chegaria ao ponto do entendimento, ou desentendimento.

Tanto podemos ver isso na partilha dos dois hemisférios de Tordesilhas, como se quisermos numa divisão de dois pólos, um hemisfério Norte e um hemisfério Sul.
Parece ainda claro, pelo menos, a posteriori, que D. Sebastião partiu para um destino incógnito, e se morreu ou não, pelo menos essa dúvida vai deixar entre os seus nos séculos seguintes. Se isso fez parte de algum rito, ou desígnio secreto, alquimista, templário ou maçónico, pois parecem faltar mais dados para o apreciar.
Quanto aos globos, sim, ambos seguram um, mas se a de Atahualpa diz "Peru", a de Filipe não diz nada - ou se dizia, foi apagado.

Abraço.

De Maria da Fonte a 26.03.2019 às 22:03

Caro da Maia

Talvez as Folhas perdidas, esclareçam a verdadeira questão. Leu a Dedicatória do Rei, não leu!? Ele duvida que aquele Mapa, ou melhor que aquela informação, seja para a sua época. Quem sabe se não foi o próprio Dom Sebastião, quem retirou algumas folhas, cortou algumas legendas e apagou o nome no Globo de Filipe. Afinal, com a morte de Filipe II, qualquer tipo de acordo entre ambos, chegou ao fim. E o que me parece, é que apesar das inúmeras tentativas posteriores,para descobrir a ponte entre a Antártida e o Pólo Norte, as mais mediáticas desde o século passado, nunca mais ninguém a voltou a encontrar. É como eu vejo a questão. Vale o que vale. Abraço

De Alvor-Silves a 27.03.2019 às 02:27

Cara Maria da Fonte,

não sei se está a referir a este trecho que está por cima da figura de Urbano Monte:

Discretti et benigni lettori
Questo Mappamondo é fatto a modeo de una palla schiaciata che habbi la parte da basso distesa et allargata intorno egualamente in ponto nel mezo del quale é quella stella figurata per il polo Artico, et nella circonferenza quale é ridotta in punte, si ha da imaginare che in tutte le parte di essa circonferenza vi sia il Polo Antarctico, quale ponte reducendosi insieme ò imaginandosi di redurle, si puo imaginar pavimente che fariano l'effeto istesso che fano le ponte, quale finiscono al Polo Antarctico.

Et é fatto da Urbano Monte, l'ano 1587 doppo la Nativitá di nostro signore.


cuja tradução será mais ou menos esta:

Este globo é feito sob a forma de uma bola achatada que tem o baixo esticado e estendido igualmente do ponto do meio, o qual é a estrela figurada para o Pólo Árctico, e na circunferência reduzida ao ponto, temos que imaginar que em todas as partes da circunferência vai ao Pólo Antártico, cuja ponte se reduz ou imagina redobrar, é possível imaginar que farão o mesmo efeito que faz a ponte, que acaba no Pólo Antártico.
E é feito por Urbano Monte, no ano de 1587 depois da Natividade do nosso senhor.


Creio que aqui ele tenta explicar o efeito da projecção centrada no pólo norte, que é o mesmo tipo de mapa que usou antes João de Lisboa, no símbolo que uso para o blog... ou ainda é o mesmo tipo de mapa usado no símbolo da ONU.
Esta projecção da esfera que termina em forma de gomos, seria original, e creio que ele terá sentido necessidade de explicá-la.

Enquanto ponte entre o os pólos será uma forma mais poética de definir os meridianos, mas não creio que daí se possa concluir nada que leve à ideia da "Terra Oca". Com isto não estou a dizer que essa possibilidade se possa excluir levemente. Simplesmente, não parece acontecer, porque se acontecesse o fluxo dos oceanos e da atmosfera seria bastante diferente.
Urbano Monte tem o cuidado de referir que a estrela é uma figuração do Pólo Árctico.

Bastante mais estranha é a menção que faz, muito perto do pólo norte:

Paesi di temperie sanissima fatto habitare del Re Artu

Não percebo se é Artu, Arsu ou Arfu, mas se quiser dizer Rei Artur, estaria ele a sugerir o local de Avalon, enquanto país de tempo muito saudável?

É que ao mesmo tempo, ao lado, refere a existência de habitantes pigmeus (esquimós).

Com efeito, a falta de folhas só adensa a parte misteriosa, que este mapa já tem.

Abraço.

De Maria da Fonte a 27.03.2019 às 03:22

Caro da Maia

"Sonetto in Confinenza de questa Opera ha Lettori"

É este o Soneto, onde o autor expressa a dúvida de que a sua obra, seja para o seu Século.
É óbvio que não só não foi uma obra para o século XVI, como receio que o não seja para o século XXI.
Para que haveria Urbano Monte, de explicar a Projecção centrada no Pólo Norte?
O que ele explica é outra coisa, que por acaso encontramos em diversos Mapas Antigos.
No Atlas Miller e no Piri Reis, por exemplo.
O que ele explica, é que a Antártida rodeia a Terra e que forma uma espécie de ponte, de onde se avista o Pólo Norte.
Mas para imaginar essa ponte, é necessário romper com tabus e preconceitos, made in Século XVI. O tal da Luzes.
Não se quebram Paradigmas, sem que o tempo certo tenha chegado.
E as imagens da Terra, made in NASA,com a mediática Península do Sinai, sempre presente, estão demasiado coladas na retina.
Dom Sebastião fez bem em retirar algumas folhas do Mapa.
Eu no lugar dele, teria guardado tudo.
Decididamente, nunca o merecemos.
Só uma nota, caro da Maia, quem primeiro me alertou para a existência deste Mapa, foi o Kayros do Brasil.
Não fui eu quem o encontrou.

Um abraço

De da Maia a 27.03.2019 às 11:25

Cara Maria da Fonte,

coloco então aqui o soneto:

Sonetto in continenza de questa opera a lettori
Ecco lettori, in breve, e piciol parte, come ben'sied l'universo ordito, in climi, in zone, en gradi compartito, et de paesi le qualitá sparte.
Vi mostro ancor'intorno d'ogni parte delle genti i costumi in detto sito, se legerete con spirto gradito saciando l'occhio con diletto et arte.
In'oltra in questo Mapamondo nostro come variano i miglia, notte, e giorni, mostran diversi e differenti gradi.
E nelli Angoli poi, circoli Adorni, de venti i nomi, et altre qualitadi, con doi eclissi in quelli vi dimostro.
Et in dubio sto'se in opera d'inchiostro un qua si trovi un tal nel secol nostro.


cuja tradução será mais ou menos assim:

«Soneto no conteúdo desta obra para os leitores»
Eis leitores, em suma, e pequena parte, como está o universo da urdido, nos climas, nas zonas, em graus compartimentado, e nos países as diversas qualidades.
Eu lhe mostro em torno de cada parte as pessoas e os costumes desse sítio, se o encarar com bom espírito, semeando no olho prazer e arte.
Além disso, neste Mapa Mundo, como as milhas, a noite e os dias variam, mostram diversos e diferentes graus.
E nos cantos então, círculos adornados, de vinte nomes, e outras qualidades, com dois eclipses em quais lhe mostro.
E em dúvida estou, se em obra de tinta, existe tal coisa no nosso século.


Apesar de me entender bem em Itália, estou longe de ser conhecedor de italiano. Porém creio que o que ele menciona no final é se em "trabalho de tinta" (opera de inchiostro) existe tal coisa no seu século.

A razão para explicar tal projecção é que naquela altura (desde 1569) era comum a Projecção Mercator, bem como antes era comum o uso dos planisférios sem latitude, chamados "portulanos" (ainda que fossem semelhantes, e a pouca diferença seria mais para dar relevo a Mercator).

Sim, a Antárctida rodeia a restante Terra, mas isso é válido para qualquer ilha. Quando estamos numa superfície esférica, tanto é a ilha rodeada pelo restante, como se pode encarar a ilha rodeando o restante. Num plano não esférico isso já não é assim. Claro que, mesmo numa esfera, normalmente diz-se que a parte maior rodeia a mais pequena, mas isso é só porque é mais fácil entender assim.

No entanto, e para notar que não sou descrente de uma ligação entre os dois pólos, deixo outra perspectiva, que não exige nenhuma terra oca:

https://alvor-silves.blogspot.com/2016/12/de-calisto-ao-contrario-polo-2-uma.html

que faz parte de 3 postais com o nome

"de Calisto ao contrário Pólo" (expressão usada nos Lusíadas)

publicados aqui em Dezembro de 2016.

Abraço.

De Anónimo a 27.03.2019 às 17:55

ENSAIO e respectiva CURIOSIDADE

«in» Selo sobreposto:
"VRBANO MONTE D'ANNI XXXXV"

5 RB ANO 1000 ONTE 500 ANNI 45

5 RB -> Capítulo 5 Regula Benedicti??

«in wikipedia.en»
"Chapter 5 prescribes prompt, ungrudging, and absolute obedience to the superior in all things lawful,"unhesitating obedience" being called the first degree, or step, of humility"

link: https://en.wikipedia.org/wiki/Rule_of_Saint_Benedict

ANO 1000 ONTE 500 ANNI 45 -> 1545?! Urbano Monte, nasce em 1544 (fonte wikipedia.en)

ANO 1000 ONTE 500 ANNI 54 -> 1554?! Ano de nascimento de D. Sebastião (fonte wikipedia.pt)

Cumprimentos,
Djorge

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