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Tendo em conta dois comentários recentes, um do José Manuel sobre os alfacinhas, e outro da Maria da Fonte sobre a realeza de linha bastarda, podemos juntar os temas.

Quem quiser acreditar que a terminologia "alfacinha" resulta de um gosto lisboeta por alfaces, pode terminar aqui a leitura.
O resto do texto destina-se apenas aos que não se contentam com essa explicação. Essa é, aliás, uma linha principal deste blog... para além de procurar mostrar contradições das versões habituais, procura uma visão com nexo alargado. 
Ora não há contradição nenhuma em associar alfaces ao lisboetas, podiam ser tomates... mas, à falta de tomates, ficaram as alfaces. Portanto, não havendo aqui contradição, não podemos dizer que a salada está mal feita... a única coisa que fazemos é, digamos, juntar tomates à história. E sim, por vezes, exageramos na quantidade de sal e azeite, e até juntamos cebola.

Adiante. 
A história vai começar nos campos de Alvalade, com ou sem alfaces. 
Será longa, porque o nexo mereceu-me a pena de ser estabelecido.

A ocorrência de bastardos reais deve ser tão velha quanto a existência de reis... no entanto, só seria um problema se alguma força apoiasse uma linha não legítima, de acordo com a tradição real.
Certamente por acaso, isso ocorreu assim que os templários se estabeleceram em Portugal, acolhidos por D. Dinis.

Aldonça Talha - Afonso Sanches
De entre muitos bastardos, D. Dinis reconheceu um, Afonso Sanches como legítimo, o que colocaria em causa a sucessão de D. Afonso IV, o único filho da Rainha Santa Isabel, dois anos mais novo que o irmão bastardo. A agravar a situação, D. Dinis colocava-o mesmo no testamento de sucessão...

D. Afonso IV, o Bravo, que foi decisivo para a histórica Batalha do Salado... montou arraiais nos campos do Lumiar,  juntando exército contra o pai, e a batalha esteve às portas de Lisboa, nos campos de Alvalade. Sendo incerto saber qual dos campos tinha tomates ou alfaces, temos a nossa opinião sobre esta outra salada, antes da batalha do Salado.
Consta que uma intervenção algo miraculosa da Rainha Santa Isabel teria evitado que o confronto prosseguisse... e, entre o mito e a realidade, é colocada sozinha a atravessar a linha de fogo, montada num burro. Afonso Sanches teve depois que se exilar.

A situação da bastardia poder ameaçar a linha legítima deve ter servido de lição a Afonso IV, que não tolerou que a cena do pai se viesse a repetir com o filho... perdido de amores por Inês de Castro.
Como "coincidência", Inês de Castro terá vivido no castelo de Albuquerque, com a tia, que era afinal Teresa Martins, mulher do bastardo Afonso Sanches. Teresa era filha do Conde de Barcelos... como veremos, os galináceos de Barcelos vão procurar sempre poleiro mais alto.

Teresa Lourenço - D. João I
Porém, a história não segue pelo lado de Inês de Castro, apesar da pretensão dos seus filhos, segue pelo lado doutra amante de D. Pedro I, uma certa Teresa Lourenço, algo incógnita, que é referida como acompanhante de Inês de Castro, ou como filha de um comerciante lisboeta.
Aljubarrota vai levar o seu filho bastardo, já promovido a Mestre de Avis, à situação de rei. A juba rota pela bastardia conseguiria a primeira juba de rei, D. João I.
Não estava em causa o valor humano, pois nada diminui um ser humano, estava em causa a lógica da legitimidade monárquica... os bastardos afinal podiam passar a reis. Tinha sido tentado com Afonso Sanches, e era conseguido com o Mestre de Avis.
Para as cortes de Coimbra contribuíram mais as Ordens Militares (de Avis, Cristo, Santiago) do que a retórica de João das Regras, já que a legitimidade de D. Beatriz era clara, apesar de estar casada com D. Juan... esse problema ocorria sempre nestas coisas! Mas, mesmo havendo a questão de independência, dificilmente o Mestre de Avis se sobrepunha em legitimidade a João de Portugal, filho de Inês de Castro, que tinha sido consagrada rainha em morte, reabilitando assim a legitimidade dos filhos. 

Inês Pires - Afonso de Bragança
Só que o precedente criado causaria uma ferida de legitimidade nos séculos seguintes. A nobreza, que tinha alinhado pela legitimidade, era substituída por nova nobreza.
Novos actores, o mesmo guião.
A bastardia voltava a colocar-se com Afonso, filho do Mestre de Avis com Inês Pires.
O pai passava de bastardo a rei, e certamente que o filho do Mestre poderia ser opção na sucessão... era uma questão do pai se empenhar tanto quanto tinha feito D. Dinis por Afonso Sanches.
Só que D. João vai casar-se com Filipa de Lencastre, e as esperanças de Afonso resumem-se ao casamento arranjado com a filha de Nun'Álvares, então já tornado poderoso Conde de Barcelos, com domínios de terras que rivalizavam com os reais.
Por muito que tente... e o galo de Barcelos vai cantar muito, conseguindo depois criar o ducado de Bragança, a casa do bastardo Afonso só irá tomar o poder muito depois: - Após ter trazido os espanhóis e ter-se livre deles, em 1640.
Afonso vai destabilizar a corte até Alfarrobeira, provocando a morte do meio-irmão, Infante D. Pedro, que o tinha feito duque... Pedro, duque de Coimbra, pensara que igual tratamento seria suficiente para Afonso, criando o ducado de Bragança, mas não era. A influência dos Bragança já estava em Castela, e a aposta na neta - Isabel, a Católica, seria ganha contra D. Afonso V e D. João II, que apoiavam Joana.

Ana Mendonça - Jorge Lancastre
D. João II procurará eliminar a questão Bragança, ou dos galos de Barcelos, executando o filho de Afonso, Fernando, mas o problema da bastardia voltaria a colocar-se com a morte do príncipe Afonso.
D. João II procura legitimar o seu bastardo Jorge (filho de Ana Mendonça), algo que seria perfeitamente natural no quadro ilegítimo que iniciara a própria dinastia de Avis, uma vez que não havia sucessores... porém, afastados pela bastardia, os Bragança não iriam agora tolerar excepções. 
Assim, a linha segue com o primo, D. Manuel, mas há uma efectiva quebra de Dinastia. 
Manuel não sucede a D. Afonso V, nem a D. João II. No panteão da Batalha só teria o avô D. Duarte, e o bisavô D. João I, e por isso constrói um novo panteão nos Jerónimos.
Será na Dinastia Avis-Beja a continuação do ducado de Viseu, iniciado com o Infante D. Henrique. O ducado de Coimbra teria em D. João II um rei único. Depois de Viseu, chegaria a vez dos Bragança, não sem antes convidarem os espanhóis.

Violante Gomes - D. António
Quando volta a colocar-se o problema da bastardia?
Tal como D. Manuel era primo de D. João II, também depois o eram os seus netos, Filipe II de Espanha e o Cardeal D. Henrique. Assim, pela morte de D. Sebastião, a questão da legitimidade apontava de novo para a vizinha Espanha quando morre o velho cardeal... 
O cenário repetia-se. A nova nobreza, pela questão legitimista, ainda que tivesse toda resultado dessa quebra de legitimidade, alinharia pela lógica intrínseca ao seu poder... o poder legal. Os Bragança, excluídos pela bastardia, alinhariam nessa lógica, com promessas de terras, mais do que haviam perdido com D. João II. 
Do outro lado estava D. António I, Prior do Crato - mais um bastardo... também neto de D. Manuel, filho do Infante Luís com Violante Gomes (dita "a Pelicana", dita judia). Obteve algum apoio, pouco, tentou resistir ao Duque de Alba, desembarcado em Cascais sem problemas, mas perdeu a Batalha de Alcântara. Filipe II poderia fazer a sua entrada triunfal em Lisboa.

Alfacinhas de gema, amigos da onça, e os amigos de Peniche, a ver navios
Chegamos assim ao período em que "andava o diabo em casa do Alfacinha".
"Demon-du-midi", ou diabo, foi designação colada a Filipe II pelos franceses, ameaçados pelo seu poder crescente. Quanto à alfacinha...
Alfacinha (Lechuguilla): certo género de cabeções e de punhos de camisa muito grandes e bem engomados, frisado com ferro em forma de folhas de alface, e que se usavam muito no tempo de Filipe II de Espanha.
Dicionário espanhol-português (pg. 1004) de Manuel Mascarenhas Valdez (1864)
Não é difícil encontrar esses exemplares de "alfacinhas" em quadros da época, era moda usada pela burguesia e pela aristocracia. Os que usavam alfacinhas estavam na elite lisboeta.
Quanto às gemas preciosas e às onças de ouro... (como bem salientou o José Manuel), podem ser ilustradas pelo monumental Arco dos Ourives e Lapidários
a imagem do centro é do Filipe II, alfacinha, conforme é ilustrado
no blog "do Porto e não só"... 

A grande alface abria a sua face, recebendo Filipe II com múltiplos Arcos Triunfais, conforme ilustrado no antigo postal que fizemos sobre a Monumentália Filipina Lisboeta, e depois ainda melhor ilustrado no blog "do Porto e não só".
O que aconteceu a tantos arcos? - foram destruídos. Porque a memória era algo inconveniente. 
Por exemplo, o "Arco do Ouro" e o "Arco do Espinho" caíram em 1754... o terramoto, relembramos, foi em 1755. Ficou um só Arco, sobre a Rua Augusta... acho que esse e todos os outros podem ser vistos simbolicamente na designação "Arco do Cego" (zona de Lisboa, onde não há hoje nenhum arco, diz-se que foi demolido para facilitar a passagem do coche de D. João V quando ia a banhos às Caldas).

D. António I não deixou de procurar apoios para recuperar o trono que lhe fora fugaz... conseguiu convencer Isabel I de Inglaterra, e uma frota de Francis Drake entraria por Cascais isolando a cidade, enquanto outra, de Norris, desembarcaria em Peniche.

Uma parte do plano não funcionou... contava-se que Lisboa se revoltasse, e apoiasse D. António. E parecendo querer puxar a imagem do Mestre de Avis, que entrara em 28 de Maio de 1384, pelas portas de Santa Cantarina, D. António ataca aí, também junto à contígua Porta da Trindade:
 "D. António atacou Lisboa aos 3 de Junho de 1589, com o exercito Inglez que o auxiliava, fazendo grande destruição, e pondo fogo a todos os edifícios exteriores do seu muro, e das circumvizinhas". (Revista Panorama, 1838, vol. 1-2, pág. 339).
Porém, D. António terá "ficado a ver navios do alto de Santa Catarina".
Drake aguardava, e parece não ter investido o suficiente, pois esperava-se que a alface se abrisse com a coragem de D. António, mas isso parece não ter bastado à salada.
Os alfacinhas revoltaram-se? 
Abriram as portas ao rei português e libertaram-se do jugo espanhol?
Os alfacinhas de gema, mais amigos da onça, parece que não... 

Poderiam queixar-se de não ver os "amigos de Peniche", ou seja, um exército inglês ainda maior, mas de facto Lisboa já não alinhava com os ingleses. Foi de Lisboa que zarpara a Armada Invencível, um ano antes, em 1588, e o lado português, pelo menos lisboeta, era o lado espanhol, ibérico.
A designação "gema" pode até ser mais "gémea", pois Lisboa via-se como gémea de Madrid, e os lisboetas estavam mais preocupados em convencer Filipe II a trazer a capital para Lisboa. Essa alusão está aliás no arco dos ourives.

A guerra de D. António, filho da "Pelicana" (em clara alusão a D. João II), era também uma guerra contra os Bragança, altamente favorecidos por Filipe II, e dificilmente uma revolta aconteceria fora da teia cortesã montada por uma casa que nunca reconheceria outros bastardos. Para bastardos, estavam lá eles... e por isso a Restauração só foi feita com os descendentes do Barbadão, em 1640. A desonra do pai de Inês Pires, sapateiro que não cortara as barbas devido ao "deslize" da filha, tinha honras de comandar um Império de Timor ao Brasil. Sobre alguma honrada irmã de Inês Pires... pois, é óbvio que não sabemos o destino da descendência popular.

Esse enguiço da casa de Bragança, que os perturbou além do racional, durante séculos, levou à extinção da concorrente Casa de Aveiro, da descendência do bastardo pelicano, D. Jorge. Foi o conhecido Processo dos Távoras, onde, para além dos Távoras, se eliminou o último duque e se extinguiu a casa que de Coimbra fora forçada a chamar-se Aveiro por D. Manuel. Curiosamente, o nome ligado ainda a essa descendência é Abrantes... local onde D. João II simulara a execução do Bragança fugitivo, e convém não esquecer a expressão "tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"... aplicada à invasão francesa de Junot, mas em que a escolha de quartel pode não ser tão mole quanto parecem os ovos.

Poderia continuar... mas o texto já vai longo. 
Há muitos detalhes que ficam sempre por dizer. 
Escolho alguns sortidos.

A lista da Revista Panorama, de 27 de Outubro de 1838, vol. 1-2, pág. 337 ... comunicada por um "anónimo", é excelente. Aprende-se muito sobre o que existiu e desapareceu na cidade de Lisboa. As referências às destruições pelo "terramoto" de 1755 são nalguns casos deliciosamente subtis, invocando explícita ou implicitamente outra origem na destruição.

Podemos ver que "Abaixo da Porta Moniz, na Costa do Castelo, existiu uma povoação chamada Villa Quente, que foi submergida pelo lastimoso terremoto que sucedeu em Lisboa a 26 de Janeiro de 1531".
Portanto, o famoso maremoto foi mesmo em 1531... quando se construiu o Bairro Alto.

Outro exemplo, é pouco conhecido - e nada divulgado - que a Universidade fundada em Lisboa por D. Dinis esteve sediada no Pátio dos Quintalinhos... não fui lá, não sei se estas imagens correspondem ou não a essa glória da cultura nacional:
Onde foi a primeira universidade? 1290 - Pátio dos Quintalinhos, Lisboa.
... ou como os alfacinhas de gema guardaram o seu património histórico.
À atenção dos responsáveis camarários, a bem do turismo ou cultura... 
... que façam uso dos seus instrumentos de maçonaria fora das negociatas.

Conforme é dito na Revista Panorama, houve aí a velha Casa da Moeda, onde D. Dinis teria instalado inicialmente a Universidade, e acrescentamos, onde depois D. Manuel colocou os Estudos-Gerais.
Apesar da página no CNC, tem sido apontado para local da universidade o Largo do Carmo... mas para esse, há outras comemorações, ao que parece de uma revolução que, como o nome indica - na revolta, a volta repete-se. 
Afinal entre o Quartel do Carmo e a Porta da Trindade (de D. António), será tudo como dantes, Quartel-General em Abrantes?

Serão detalhes do arco-da-velha (expressão antiga usada para o arco-íris, por invocar lei velha do acordo entre Deus e os homens), e assim termino com o diálogo entre "Archia" e "Íris", da peça/ópera "Encantos de Circe" (1756), que ilustra diversos arcos... e praças.

Íris: Na verdade, tão cativo estás de mim?
Arch: E tão cativo, que se me viessem resgatar, me faria um renegado de Grécia, só por estar na masmorra da tua graça.
Íris: Tão bem te pareço?
Arch: Já que és Íris, por arcos te explico a tua beleza; porque comparo as tuas sobrancelhas aos Arcos da Capella; os teus olhos ao Arco do Cego; o nariz ao Arco dos Pregos; a boca ao Arco das Mentiras; o pescoço ao Arco do Espinho; o corpo ao Arco do Garajão; e toda tu és um arco da velha, e sendo toda arco, não vi coisa mais desarcada.
Íris: Não te pareça que menos agradada estou de ti; e por praças te retratarei: e assim é a tua testa praça vazia, os teus olhos Praça do Remolares; o nariz Praça do Castelo; a boca Praça da Palha; o pescoço Praça do Pelourinho; o corpo praça morta; e sendo tu homem de tantas praças, não vi homem de menos praça.
Íris vai-se.
Arch: Parece que lhe não agradou o retrato, se já não é que por ser já noite, não deve aparecer este arco da velha.

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