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Fazer Gazeta (3)

16.01.16
A propósito de uma pergunta de João Ribeiro sobre um antigo post que dava conta da história do Príncipe Wiasemsky, um aventureiro russo de origem polaca, que se tinha proposto a atravessar o Estreito de Bering a cavalo (quando nessa altura, em 1895, estaria coberto de gelo), encontrámos vários registos jornalísticos da época, e um posterior, já de 1917, que voltava a referir a mesma história (que um comentador anónimo teve a amabilidade de nos dar conta).
O registo da gazeta do Município de Itu, no estado de São Paulo (cognominada "cidade dos exageros"), tem ainda a ousadia de antecipar a tese que Ludwig Schwennhagen irá publicar uns dez anos depois, e que no fundo se resume a juntar a história de Platão com informações de Diodoro Siculo, e outros escritores antigos, ou por outro lado, seguindo também o que Cândido Costa já tinha escrito.
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Indianapolis Journal,
Indianapolis, Marion County, 26 June 1895 (pág. 4)

M. Wiasemsky, a gentleman well known In Parisian fashionable circles, has made a wager that he will rldo from Paris to America on horseback. He proposes to ride through Siberia to Bering strait, and cross to Alaska on the ice.

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Municipio de Itu, Anno II - Nº66 
(Estado de S. Paulo) Itu, 4 de Fevereiro de 1917 (pág. 1)

Excavações Não menos curiosa, embora assás discutida, é a tradição millenaria da Atlantida. Pensavam os antigos que, ao occidente da Africa, banhada pelo oceano Atlântico, existiu immensa ilha que, desde tempos remotissimos, havia desapparecido, tragada por violento cataclysmo. A descripção mais completa deste paiz, legou-nos o celebre philosopho grego Platão, reproduzindo o que a Solon referiram os sacerdotes egypcios de Sãis. Vamos dar, tomado de um seu traductor, breve resumo.

"Atlantida era uma das mais bellas regiões do universo, suas florestas eram riquissimas de madeiras de construcção, seus rios eram navegáveis, o ouro e as pedras I preciosas abundavam por toda a parte. Os descendentes de Neptuno reinaram nesse paiz, de paes a filhos, durante o espaço de nove mil annos. Eram sobrios, virtuosos e religiosos; mais tarde, porem, cegou-os o orgulho. Em vez de cultivarem as terras opulentas, de desenvolverem o commercio, de obedecerem ás leis e ás auctoridades, preferiram extender seus domínios sobre outros povos. Subjugaram as ilhas vizinhas, a Africa' toda até o Egypto e a Europa até a. Tyrenia. Por fim, Júpiter castigou esta nação impia e guerreira, fazendo desapparecer a ilha em um dilúvio."

Diodoro de Sicilia fala também de uma vasta ilha a oeste da Lybia, a qual era cortada de muitos rios, quasi todos navegaveis, ilha que desapparecera inteiramente. Herodoto, cognominado o pae da historia, escreveu igualmente sobre esse paiz:

"Os Carthaginezes referem que alem das columnas de Hercules (hoje estreito de Gibraltar) havia um grande paiz habitado, onde elles costumam commerciar.
Quando chegam, tiram as mercadorias, espalham-nas pela praia e voltam aos navios, deixando grandes fogueiras, cujas fumaças servem de signal. Os do paiz veem, examinam as mercadorias e deixam o ouro que julgam sufficiente para o pagamento.
Voltam os Carthaginezes, de novo, tomam o ouro, e se julgam que a importância paga as mercadorias, levam-no; se acham que é pouco, retiram-se sem tocar em nada, e esperam tranquillamente, novas offertas. De facto, os compradores augmentam a somma e assim se realiza o negocio, a contento dos interessados.
Jamais estes povos fazem injustiças uns aos outros. Os Carthaginezes só tocam no oiro, quando reconhecem que representa o valor de seus generos, e os do paiz não levam os generos, sem que o pagamento haja sido retirado."

Nas descripções feitas por Platão, dos templos e de outros monumentos, vê-se que o estylo era mui diverso do empregado nas construcções gregas; tendo-se verificado, após as descobertas das ruinas do antigo Mexico, que mais se assemelhavam ás construcções mexicanas, as da Atlantida.
Este facto merece especial menção, não só porque, se nas descripções platônicas prevalecesse a phantasia, ellas deveriam reproduzir o estylo grego, que bem conhecia, e não outro inteiramente diverso e desconhecido, mas também, porque combina com importante descoberta feita por Elien, qual a de serem perfeitamente iguaes os emblemas dos reis de Atlantida aos dos idolos mexicanos, ultimamente descobertos.
Ora, essas tradições podem ser algum tanto exageradas, mas parece impossivel que repousem somente em factos imaginários.
Destarte, não seria temerário considerar, historicamente verificada, a existência dessa ilha e seu desapparecimento, e consequentemente, a facil communicação entre o velho mundo e o novo, esclarecendo a solução do problema sobre o homem americano.
Não obstante, ainda que não se admitta a existência da Atlantida, ha provas positivas, claras e concludentes da migração dos povos encontrados neste continente.
O que absolutamente repugna, é serem autochtones esses povos, pois a sciencia já disse a ultima palavra sobre a unidade da especie humana.

A communicação entre a Asia e a America é facil, tanto que o principe Wiasemsky, que já viajou a cavallo ao redor da Asia, dirigindo-se ao ”Figaro” que se publica em Paris, declarou que pretendia passar da Europa a America, montado a cavallo, exclusivamente.
Sairia de Paris, atravessaria a Europa, passaria os Montes Uraes, venceria toda a Siberia, seguindo em direcção ao estreito de Behring, que estando gelado, lhe daria passagem. De Alaska, na America do Norte, dirigir-se-ia para o sul até a Patagônia...

Que alguns de meus amaveis leitores, assombrados por esta inaudita façanha principesca, não se lembrem de atirar-lhe, ao príncipe cavalleiro, o popular e expressivo terminho da moda ... GARGANTA! ...
J. L. Pinheiro
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Como observação adicional, convém lembrar a descrição que Duarte Pacheco Pereira fazia sobre a forma de negociar com os "Rostos de Cão", e que era praticamente a mesma:
(...) os quaes no modo do seu comercio tem esta maneira. Todo aquele que quer vender escravo ou outra cousa se vai a um lugar certo para isto ordenado & ata o dito escravo a uma árvore & faz uma cova na terra daquela quantidade que lhe parece bem & isto feito arreda-se fora um bom pedaço & então vem o Rosto de Cam & se é contente de encher a dita cova de ouro, enche-a & senão tapa-a com a terra & faz outra mais pequena & arreda-se fora & como isto é acabado vem seu dono do escravo & vê aquela cova que fez o Rosto de Cam, & se é contente aparta-se outra vez fora & tornado o Rosto de Cam ali enche a cova de ouro & este modo têm em seu comercio & assim nos escravos como nas outras mercadorias & eu falei com homens que isto viram & os mercadores Mandiguas vão às feiras de Bétú & Bambarraná & Dabahá comprar este ouro que hão daquela monstruosa gente & tornado o Rio de Guambea (...)
com a diferença de que Duarte Pacheco Pereira estava-se a referir a uma negociação com "africanos", e não com "americanos". Mas, lembramos ainda que o próprio Duarte Pacheco Pereira afirmou ter estado no Brasil em 1498, a mando do rei, ou seja, dois anos antes de Pedro Álvares Cabral ter descoberto essas terras "acidentalmente"...

Quanto às habituais especulações sobre "alterações climáticas", como se não houvesse nesta designação pseudo-científica uma redundância de termos, e o clima devesse funcionar como um "aparelho de ar condicionado"... é claro que haveria gelo na ligação, independentemente de Wiasemsky ter conseguido ou não atravessar o Estreito de Bering a cavalo, numa "troika".
Curiosamente o termo "troika" em Fevereiro de 2011 era pouco conhecido, e remetia para o significado russo de trenó (três nós de cavalos). Só em Abril de 2011 é que começou a ser usado (e não apenas em Portugal) para a comissão tripla de ajuda financeira da UE e FMI.

modificado e terminado em 16/01/2016


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publicado às 07:59


1 comentário

De Alvor-Silves a 17.01.2016 às 04:45

Outras referências ao mesmo evento:

Nº71 - LE STÉPHANOIS - Mercredi, 13 Mars 1895

Passer d'Europe en Amérique à cheval, voilà une entreprise qui n'est pas banale!
C'est le projet du prince Wiasemshy, qui a dèjà fait autour de l'Asie un voyage à cheval.
Le hardi pionnier nous écrit, du mont Athos les détails de son plan. Il compte partir de Paris sur sa monture, traverser l'Europe et la Sibérie, toucher la détroit de Behring, le franchir sur la glace — la mer est prise deux mois par an — et de là parcourir les deux Amériques, de l'Alaska à la Terre du Feu!

Le-prince Wiasemsky qui suppose trèa bravement pouvoir périr en route, est pourtant bien décidé à ne pas rebrousser chemin, ni à changer son itinéraire. Il accepte, à ses frais, des compagnons, de préférence ceux qui connaissent l'anglais et savent photographier.


http://www.memoireetactualite.org/presse/42STEPHANOIS/PDF/1895/42STEPHANOIS-18950313-P-0001.pdf

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