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Um dos problemas de quem estuda cetáceos, é saber se uma baleia avistada é a mesma avistada noutra altura. As baleias não têm propriamente um cartão de identidade, e ainda que os métodos sejam cada vez mais fiáveis, terá havido confusões.

O mesmo problema se pode colocar com cometas, e foi abordado por Charles Fort a propósito da passagem do Cometa Halley em 1910.
O que aconteceu em 1910?
Em 17 de Janeiro de 1910, apareceu um enorme cometa, visto mesmo durante o dia:

... só que este "grande cometa" não seria declarado como o Cometa de Halley!

O problema é que estava previsto que esse só apareceria em 20-24 de Maio, e portanto havia antecipação, ou então uma falha na previsão.
Como as previsões anteriores tinham sido razoavelmente bem sucedidas (em 1759 tinha sido previsto para Abril, e aparecera a 12 de Março, e em 1835 tinha sido previsto entre 4 e 15 de Novembro, e aparecera no dia 16), todos esperavam que os astrónomos em 1910 fizessem ainda melhor.
De certa forma, falhar por 4 meses estava fora das expectativas aceitáveis na astronomia do Séc. XX.

Assim, no dia 20 de Maio as pessoas foram convidadas a ver o "verdadeiro" cometa de Halley.
Só que, segundo Charles Fort, e outros, ninguém viu nada. 
Houve depois fotografias propositadamente modificadas - ver o caso de Duluth (Minnesota), onde se diz:
On this day in 1910, Halley’s Comet passed over Duluth—but no one saw it. The headlines for the next day read “Aged Wanderer is Fickle Thing” and “Halley’s Comet Again Disappoints Duluth people—Was Invisible Here Last Night.” 
Foto falsificada do cometa Halley.
Mesmo com telescópios não teria sido fácil de ver ("... even Duluth astronomer John Darling failed to see the comet"), e houve então quem decidisse falsificar o resultado ("None of that stopped renowned Duluth photographer Hugh McKenzie from publishing the photograph seen here as a picture postcard. He likely made the stars and comet by scratching the negative."):


Noutra fotografia que a Wikipedia coloca, notam-se rastos nas estrelas, o que indica que se tratou de uma fotografia de longa exposição (supostamente tirada já no dia 29 de Maio):
(Fotografia forçada a longa exposição como se vê pelo rasto das estrelas)

A wikipedia diz que o cometa foi visível a olho nú desde Abril de 1910, e que a Terra terá mesmo passado pela cauda do cometa. Não é bem isso que contam alguns relatos da época...

Charles Fort, que escreve 9 anos depois, no seu livro "Book of the Damned" (1919) diz o seguinte:
As to Halley's comet, of 1910 — everybody now swears he saw it. He has to perjure himself: otherwise he'd be accused of having no interest in great, inspiring things that he's never given any attention to.
Regard this:
That there never is a moment when there is not some comet in the sky. Virtually there is no year in which several new comets are not discovered, so plentiful are they.
É mais ou menos o que podemos dizer do Cometa Halley em 1986... eu não vi nada, mesmo com uns bons binóculos, mas não era difícil encontrar quem dissesse que o viu. A incapacidade passa para quem não vê, e os outros são uns abençoados!

Depois, tal como nota Charles Fort, com o aumento de capacidade dos telescópios, todos os anos eram descobertos vários novos cometas, e por isso não faltariam candidatos a serem identificados com o Cometa de Halley, mesmo que não o fossem... até porque a sua observação só seria possível a um reduzido número de pessoas, com acesso a bons telescópios. 
Charles Fort é mais sarcástico, comparando com o grande cometa de Janeiro:
Early in 1910, a far more important comet than the anaemic luminosity said to be Halley's, appeared. It was so brilliant that it was visible in daylight. The astronomers would have been saved anyway. If this other comet did not have the predicted orbit—perturbation. (...)
I predict that next Wednesday, a large Chinaman, in evening clothes, will cross Broadway, at 42nd Street, at 9 P.M. He doesn't, but a tubercular Jap in a sailor's uniform does cross Broadway, at 35th Street, Friday, at noon. Well, a Jap is a perturbed Chinaman, and clothes are clothes.
Passados uns anos, as pessoas poderiam dizer que tinham visto o cometa em 1910 (referindo-se ao de Janeiro), mas como a maior parte não apostaria se o tinha visto em Janeiro ou Abril/Maio, e como pelas fotografias também não saberiam distinguir se era o verdadeiro ou não, tudo ficou no diz-que-disse, de quem o podia dizer... e na sua conivência com a conveniência.

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publicado às 06:47



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