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Bernardo de Brito começa assim o segundo capítulo da sua
Geographia antiga da Lusytania (1597)
É este reino de Lusitania ocupado de muitas, e mui grandes serras, que o fazem inexpugnável a toda a nação estrangeira, querendo os naturais tomar a peito a sua defesa...
... lembrando que o monge de Alcobaça escreve em período do rei Filipe II de Espanha, que não seria das alturas mais fáceis para clamar a inexpugnabilidade da pátria, e indirectamente criticar os conterrâneos, que não tomaram a peito a sua defesa. 
Mais à frente afirma ainda que as pedras de Sintra choravam pela glória passada. É claro que Bernardo de Brito poderia argumentar que se referia apenas à ausência de Filipe II da corte lisboeta, mas tivessem outros portugueses o mesmo empenho na espada que ele teve na pena, e as coisas não se teriam ficado pela pena de 60 anos sob domínio espanhol.

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Geographia antiga da Lusytania 
por Bernardo de Brito

Capítulo II - Montes

É este reino de Lusitania ocupado de muitas, e mui grandes serras, que o fazem inexpugnável a toda a nação estrangeira, querendo os naturais tomar a peito a sua defesa; o primeiro dos quais, chamado dos antigos Cico, é a serra do Algarve, que serve de apartar este reino do restante de Portugal, e começa junto a Castro Marinho, continuando seus cumes até se lançar no mar Oceano, junto ao lugar de Algazur [Aljezur] (e nosso Resende tem para si que este monte é tronco da serra Morena).
Serra de Monchique, pico da Foia com 902 m. Seria conhecida na Antiguidade como Mons Cico, que derivou em Monchico, dando o actual nome. Brito associa-a a toda a serra algarvia, mas hoje a serra de Monchique designa a parte ocidental, usando-se as designações Espinhaço de Cão, e Caldeirão, para partes seguintes. Há ainda o Monte Figo, perto de Olhão, que era uma importante referência para a navegação. (foto)
Depois deste monte, se segue o que Ptolomeu e Strabo chamam Barbarico, e nós hoje serra da Rabida [Arrábida], no qual se colhe grão finíssimo para tingir panos, e sedas, e daqui a levam para muitas partes fora de Espanha, tendo por experiência ser esta mais fina que todas as outras.
Serra da Arrábida, seria o Monte Barbarico, a que à época de Brito se escrevia serra da Rábida. (foto)
Havia no Allemtejo, pouco distante da cidade de Evora um Monte, que Appiano Alexandrino chama de Venus, e no tempo de agora se chama Pumares, o qual já naquele tempo era muito cheio de olivais, e vinhas, de que no tempo de agora tem ainda muita parte (porque do sítio e coisas desta serra temos tratado assaz na Monarquia, não há para que alargar com mais leitura).
Serra da Ossa, que seria o Monte de Vénus, a que Brito nomeia como Monte Pumares. Do culto dedicado a Venus (e Cupido), passou um dos montes a ser conhecido como Monte da Virgem... e por estranho que pareça, seria provavelmente o Monte de Vénus. (foto: Anta da Candeeira, Aldeia da Serra, Serra de Ossa)
Segue-se depois deste, o monte Hermínio Menor, a quem os moradores da serra da Estrella (que é o verdadeiro Hermínio) deram este nome, como já deixámos contado acima, e agora é a a serra de Marvão, onde há lugares mui grandes, e bem povoados, e a serra em si é abundantíssima, de minas de ouro e prata, e outros metais menos estimados, principalmente chumbo, de que Plínio faz menção, quando fala dos moradores de Meidobriga, cujas ruínas estão hoje nas fraldas desta serra, como notou nosso Resende em suas Antiguidades Lusytanas. 
Serra do Marvão, que aparece nesta foto como uma "arca de Noé" encalhada na montanha, diz Brito que foi entendida como sendo o Hermínio menor. A suposta vila romana Meidobriga deverá ser a que hoje se identifica como Amaia. Ambos os nomes terão existido, mas Meidobriga também é colocada mais a norte, no Côa, em Freixo de Numão.
Segue-se desta parte do Tejo o monte que os antigos chamaram da Lua, e nós agora Serra de Sintra, assaz nomeada e conhecida em Portugal, por ser a vila deste nome ordinária recreação dos Reis de Portugal, onde tinham paços sumptuosíssimos, que hoje duram, chorando pela glória que já se viram. Na parte em que esta serra se lança no mar, estiveram antigamente uns templos de Idolos, dedicados ao Sol e Lua, e hoje duram ali algumas pedras com letreiros romanos, que dão notícia do que digo.
Serra de Sintra, como Monte da Lua, não oferece novidade, tal como o templo referido por Francisco de Holanda.
(foto: Anta de Adrenunes ... onde foi colocado um marco geodésico de cimento no topo da anta! )
Depois desta serra achamos logo o monte Tagro, segundo o chama Varro, ou Sacro, como sente Columella, e nós hoje chamamos Monte Iunto, foi antigamente famosa esta serra entre os Autores, pela fama vulgar que havia, de conceberem nela as éguas do vento, a qual fábula como já tocámos acima, teve princípio da muita ligeireza dos cavalos, que aqui nasciam, dado que alguns tenham por coisa certa, o emprenharem e parirem do vento.
Serra de Montejunto, segundo Brito seria o Monte Tagro ou Sacro... onde varia bastante com a interpretação de Francisco de Holanda, que considerava uma designação alternativa da Serra de Sintra. Também por isso o mito das éguas do vento não era colocado em Montejunto. (foto: ruínas do primeiro convento de dominicanos em Portugal)
É este monte quase um com a serra de Albardos, ou de Minde, onde no tempo de agora há gentil raça de cavalos, que se estimam por serem fortes, ligeiros, e mui sofredores de trabalho. Além disto há nela grande criação de vacas, e outro gado miúdo, as carnes do qual são excelentes pela bondade dos pastos; colhe-se nela algum grão, e colher-se-ia muito mais, se houvesse curiosidade nos moradores. Tem canteiros de pedra branquíssima e singular para edifícios, e no fim da serra há minas de azeviche, mui fino, donde se lavram brincos de muita estima.
Serra dos Candeeiros, que chegou a ser chamada Serra de Albardos, nome que caiu em desuso; e mais a norte, junto a Fátima, toma o nome de Serra de Aire ou Minde. Uma boa parte da serra está cheia de muros, de cerca de 1 metro de altura, que dão-nos notáveis imagens "tipo-Nazca" em território nacional. Já andei por lá, sem concluir coisa nenhuma... a disposição dos muros parece anárquica, mesmo para finalidade de pastorícia (na maioria dos casos os muros estão fechados, sem nenhuma abertura) (foto). Sendo claramente natural, a noção de serra, formada por montes piramidais colados, é ali notável.
O mais famoso monte da Lusytania, e que é como origem e fonte donde se derivam todos os mais, que há entre o Tejo e Douro, é o Hermínio maior, chamado em nosso dias Serra da Estrella, assaz conhecido e nomeado em toda a Espanha. A grandeza deste monte é notável, porque a maior parte do ano estão seus cumes cobertos de neve, e quando na força do verão se permite subir ao alto, anda ocupado de grandes rebanhos de ovelhas, que acodem ali da província do Allemtejo, atraídos dos muitos pastos que há nas várzeas e prainos, que ficam no mais alto da serra. Os moradores antigos deste monte eram homens ásperos, e duros de condição, indómitos pelas armas, mui rústicos no trajo e modo de vestir, amigos de roubar o alheio, e pouco fiéis no que tratavam. As mulheres tiveram antigamente menos polícia e gentileza, que agora têm, e foram notadas, como toca Alladio, de pouco continentes, e que facilmente se enamoravam de qualquer estrangeiro que viam na terra. Mas esta condição fácil é já mudada com o tempo, porque as mulheres que vivem nela, dado que pela maior parte sejam formosas, e de carões lindíssimos, são por extremo continentes e virtuosas.
Há no mais alto desta serra duas lagoas de monstruosa grandeza, uma das quais é tão funda que se lhe não pode sondar o lastro. e afirmam os moradores da terra, que algumas vezes se vêem nelas tábuas de navios, e outras coisas semelhantes. Sua água é doce, como de fonte, mas escura e triste, e pouco saborosa ao gosto. Não se cria em nenhuma dessas lagos nenhum género de peixe, nem coisa viva. 
É esta serra em muitas partes fertilíssima de frutas, e todas de gosto singularíssimo, e tem por seus vales muitas fontes de água clara, e de gentil sabor. Há nela muito pouco pão, centeio e quase nenhum trigo, e qualquer destes que há, colhe-se com muito trabalho dos moradores da terra, por sua grande aspereza. 
Deixou o nome antigo de Hermínio, e chamou-se da Estrella, por causa (como diz Resende) de há aí rocha altíssima, que está quase no mais alto da serra, o cimo da qual se remata em feição de uma estrela, da qual os pastores, que ali vêm ordinariamente, vieram a dar nome a toda a serra.
Serra da Estrela, era o "Hermínio maior". Em 1881 a Sociedade de Geographia irá conduzir uma expedição ao topo liderada por Hermenegildo Capello, onde ia ainda o médico Sousa Martins, integrado na moda dos Sanatórios (ver ex. Águas Radium). Desse ano de 1881 resulta a imagem da Torre (da antiga Torre, depois demolida e/ou substituída pela actual). Daquela imagem da torre fica claro que a construção teria certa história antiga... e como último vestígio de antiga obra humana no topo da serra, desapareceu, ficando apenas estranhas formas naturais do tor serrano. A expedição terá ainda colocado um ponto final nas fábulas sobre as lagoas da serra que Brito e tantos outros contavam. Foi notícia recente o "sumidouro" do Covão dos Conchos, que remeterá o excesso de água dali para a Lagoa Comprida, por canalização feita no ano 1955. Quanto à "rocha altíssima com forma de estrela"... não a encontrei.

O monte que Salviato, discípulo de São Martinho, chama Tapeio, é o que vulgarmente chamamos serra de Ansião, posta sobre o Rabaçal: ainda que alguns com melhor conjectura, têm para si ser outro monte, que fica sobre a vila de Soure, que ainda hoje se chama Porto Tapeo. Há nele algumas povoações de pouca conta, onde a gente vive pobremente; é este monte assaz conhecido, e nomeado pelos dificultosos passos, e ruins caminhos que tem, para gente que caminha por ele.
Serra do Ansião, na acepção de Brito, deveria incluir serras vizinhas como a serra de Sicó, de que deixamos uma imagem das enormes Buracas do Casmilo (que já tínhamos mencionado). O nome Tapeio, que Bernardo de Brito menciona para esta serra/monte, passou hoje a Tapéus, como freguesia no concelho de Soure. Existe ainda a Vila Romana do Rabaçal, perto de Penela, com surpreendentes mosaicos do Séc. IV, esta villa é pouco conhecida, por comparação à vizinha Conimbriga.

Há também na Lusytania um monte de maravilhosa grandeza, que os antigos chamaram Alcoba, e nós agora partindo-o em diferentes nomes, o fazemos diferente em muitos lugares, chamando uma parte dele serra de Besteiros, outra Alcoba, como os antigos o chamaram; e assim em outras partes, até se juntar com a serra de Monte de Muro.
É a maior parte desta serra, pelos altos, estéril, e de mui pouco pão, e o mantimento ordinário do moradores é algum milho, que colhem, e pouco centeio: é em muitas partes despovoada e a gente que vive nos lugares que se habitam, é comummente pobre, e que vive com necessidades, imitando neste particular e na pobreza de vestir, aos antigos povoadores daquela própria terra, que (como diz Alladio) andavam quase nus, e se mantinham de ervas cozidas em leite.
Os vales deste monte são em algumas partes fresquíssimos, e abundantes de frutas de espinho, e outras de várias castas. Há também neles abundância de colmeias, donde se tira mel singularíssimo, que se leva por muitas partes do Reino.


Serra do Caramulo, cujo nome antigamente seria Alcoba, que Brito junta à parte da serra de Besteiros. Uma zona onde as formações naturais têm jeito para iludir mão humana, nos empilhamentos singulares (ver Rota dos Caleiros à Lupa).
Quase junto com esta serra, fica logo a que vulgarmente se chama Monte de Muro, e os antigos com pouca diferença chamavam de Mons Maurus; toma grande distância de terra e seus altos são asperíssimos, habita-se alguma parte dele, com trabalho dos moradores, porque a terra dá muito pouca cevada, e quasi nenhum trigo, e o mais que tem é centeio, de que vivem miseravelmente. Não se cria em todo ele vinho, nem fruta que possa trazer recreação aos moradores.
A gente é grosseira e rústica em seu trato, veste pobremente e o vestido vulgar é burel grosseiríssimo. As mulheres são pouco para cobiçar, porque além da pobreza, que costuma dar pouco lustre, têm elas de si tão pouco nas feições naturais, que entre mil se não achara uma que tenha mortas cores de formosura: são robustas, trabalhadeiras, e amigas de grangear sua vida, castas pela maior parte, e desamoráveis para os estrangeiros. Os homens são robustos, sofredores de trabalho, e se tiveram exercício nas armas, fizeram grande efeito na guerra. Criam-se neste monte muitas vacas bravas, de pequenos corpos, mas mui fortes para trabalhar, e para comer de gosto singularíssimo: tiram delas alguma manteiga, que ordinariamente lhe serve de azeite. Faz menção deste monte nosso Laymundo no terceiro livro, e Resende no primeiro.


Serra de Montemuro, com o seu mais alto pico - Talefe ou Talegre, a quem Brito chamava Monte de Muro, associando à designação latina antiga Mons Maurus. A região está agora cheia de hélices eólicas, que vão servindo as rendas energéticas, triplicando a produção nacional, para nada... No topo, mais uma torre, de pedras empilhadas (tal como a antiga torre da Serra da Estrela), mas coberta com uma película de cimento, passando assim por marcos geodésicos bem mais recentes - até que a película de cimento começa a cair - neste e noutros casos. 
O Gerez, chamado dos antigos Iurezum, começa na província de Entre Douro e Minho, e caminhando por ele algumas léguas, se mete pela Galiza a dentro. É monte de grande altura e asperíssimo em algumas partes, não é povoado pela sua aspereza. Tem um grande número de veação, como são cabras selvagens, corças, porcos monteses, veados, e alguns ussos [ursos]. Há nesta serra vales de muita ervagem, por onde correm fontes de água belíssima, e que foram de maior estima; se estiveram em lugares povoados, onde a gente se aproveitara de sua frescura.
Serra do Gerês, segundo Brito teria como nome antigo Iurezum. O pico da Nevosa tem um marco geodésico muito mais discreto (foto), e omitimos aqui a cascata ou o mosteiro de Pitões das Júnias. Mas mencionamos em Vieira do Minho, na fronteira do Gerês nacional, a notável Igreja de Nª Srª da Lapa, datada de 1694 (foto), onde certamente se procedeu à devida limpeza interior (mas onde a tentação de escrever no tecto herdaram-na os párocos... com um "rogai por nós...").

Outros muitos montes há em Portugal, famosos por sua grandeza, de que não faço menção particular, fazendo-a de outros montes,  porque o meu intuito é só falar das que têm nomes antigos, e andam celebrados entre os Historiadores, que alego nesta primeira parte.

______________ (continua) ______________

NOTA: Um apontamento final, para notar que a visão sobre as cadeias montanhosas, descrita por Bernardo de Brito, e seus contemporâneos, era semelhante à dos rios. Conforme se vê na descrição da Serra da Estrela, ela era entendida como um pico principal, uma raiz montanhosa, dos quais todas as restantes elevações contíguas seriam apenas um seu prolongamento.
Terminou de incluir as figuras e as legendas com comentários ao texto, finalizando com Vieira do Minho, porque quando falei do Caminho do Minho, que terminava em Caminha, esqueci-me de mencionar esta Concha, esta Vieira (do Minho), no texto col-chas (ou antes, no com-chas) sendo esse caminho do Minho, alternativo ao de Santiago, ou ainda ao anterior caminho de Lugo, o Callix Ianus, 
02-03-2016

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publicado às 05:19



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