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Uma particularidade dos escritos ibéricos é que estão longe de reunir algum consenso sobre o que poderiam dizer, ou até de qual seria o correspondente fonético.

A base dos estudos começa no que está estabelecido como sendo símbolos gregos e fenícios, sendo normalmente assumido que as letras gregas são uma variação das fenícias. Além disso, como já aqui abordámos, as letras gregas iniciais eram 16 ou 18, a que foram adicionadas outras, algo redundantes, após a Guerra de Tróia, segundo é referido por Aristóteles e outros autores antigos.

As letras gregas originais seriam inicialmente

α β γ δ ε ζ ι κ λ μ ν ο π ρ ς τ υ φ    e em maiúsculas   A B Γ Δ Ε Ζ Ι Κ Λ Μ Ν Ο Π Ρ Σ Τ Υ Φ 

e só depois da Guerra de Tróia teriam aparecido as letras  Η (η), Θ (θ), Ξ (ξ), Χ (χ), Ψ (ψ), Ω (ω).
Se isso aconteceu, será de ponderar, de novo, quem teriam sido os vencedores e os vencidos... porque não é propriamente hábito de vencedores mudar o seu alfabeto após uma vitória. Aliás toda a identificação dos gregos aos aqueus, e toda a ridícula geografia de proximidade do conflito, sugere apenas que a história está muito mal contada.

É suposto ainda que as letras gregas derivem do alfabeto fenício, o primeiro alfabeto, o primeiro uso da correspondência fonética na escrita.

Alfabeto fenício e correspondências.

Podemos encontrar as semelhanças, atendendo a que os fenícios escreviam da direita para a esquerda, ou seja, é natural a variação por simetria (ou rotação) de alguns símbolos.

É também daqui que é suposto terem aparecido as diversas escritas ibéricas entre os séculos VII a.C. e II a.C. Podemos ver as diferentes variantes, consoante a região ibérica correspondente (nalguns casos os símbolos correspondem a sílabas e não a letras individuais, o que acontece para G, K, B, D, T, que aparecem em coluna, ligados às vogais, para formar GA, GE, GI, etc., KA, KE, etc....):

 
Esquerda: Alfabeto Greco-ibérico. Direita: Alfabeto no nordeste ibérico.

 
Alfabeto Celtibérico: à esquerda, ocidental; e à direita, oriental.

Alfabeto do sudoeste ibérico (à esquerda), e do sudeste ibérico (à direita).

Apenas coloco esta informação porque para analisar as moedas ibéricas é preciso perceber como estes símbolos são habitualmente traduzidos... e até que ponto é que isso faz sentido.

Uso aqui informação sobre moedas ibéricas leiloadas nos últimos meses (Coin Archives):

BOLSKAN (XΓMAN, XCMAN)
Bolskan (X Γ M A N)

É uma moeda em prata, datada de 150-100 a.C., com um homem de barba, provavelmente o cavaleiro com a lança que aparece no verso.
Junto à cara vemos as letras XN o que talvez fosse indicador de número.
Na coroa, no verso, o nome "Bolskan" é suposto ser a tradução (ver alfabeto celtibero ocidental):

XBOΛLMSAKANN

No entanto, mais convictamente leria o escrito como ximan, para não dizer xaman...
Há bastantes moedas com esta inscrição, conforme se pode ver nos leilões.
Nalgumas aparece ainda um golfinho (na cara) em vez de XN, e por vezes uma estrela (no verso).
Existe ainda uma outra versão, em que aparece apenas X na cara e o homem não tem barba; no verso, o cavalo aparece sem cavaleiro. Podemos estar a falar de dois reis, pai e filho, ambos Bolskan, em que um deles seria Bo e o outro Bon. Ou simplesmente seria o mesmo em diferentes idades.

AREKORATA, SEKOBIRIKES, BILBILIS
Uma certa prova de que o nome servia para designar o rei, ou a pessoa representada, é que a mesma moeda aparece com outros nomes e outras caras. Não irei de novo divagar sobre a "tradução" do nome, porque o mais importante será manter um consenso evitando confusões desnecessárias.

Moeda do Séc. III a.C. com a inscrição AREKORATA, aparecendo O atrás da cara. 

Moeda do Séc. II a.C. com a inscrição SEKOBIRIKES, aparecendo U ou uma lua crescente, e M abaixo da cara.
Moeda do Séc. III a.C. com a inscrição BILBILIS, aparecendo M atrás da cara.

Curiosamente em todos os rostos é possível ver um perfil grego clássico, em que o nariz escorre directamente da testa, sem inclinação, e que podemos ainda ver nalguns espanhóis (como em Javier Bardem), mas que é agora mais raro (especialmente na Grécia...)

BELIKIO, EKAULAKOS, TITIAKOS, KONTERBIA
Este tema, do cavaleiro com a lança (no verso), aparece ainda noutras moedas
 
Belikio (esq.), Ekaulakos (dir.)
Titiakos (esq.), Konterbia Karbika (dir.)


TURIASU, SEKAISA, IKALKUSKEN, ILTIRTA, BARSKUNES, KELSE
Na mesma, ou em pequenas variantes (sem lança, com ou sem espada), temos moedas associadas a outros nomes:

 
Turiasu (esq.), Sekaisa (dir.)

Ikalkusken (esq.), Iltirta (dir.)

 
Barskunes (esq.), Kelse (dir.).


No total juntam-se aqui 16 moedas com referências a outros tantos reis ou personagens, e isto sem ser minimamente exaustivo (há muitas outras moedas).
Para além de Melqart, o Hércules fenício, deveremos estar na presença de reis que emitiram moeda, e portanto não se devem tratar de personagens fictícios, falando sim de líderes reconhecidos, que emprestavam credibilidade às moedas que mandavam cunhar.
Estando em diversas colecções, a sua origem é ibérica, principalmente em território espanhol (talvez exclusivamente no caso das apresentadas aqui), e é reportada uma datação que varia entre 300 a.C. e 100 a.C., mas desconhecendo o processo de datação, podemos considerar que podem até ter origem muito, mas muito mais antiga.

Sucessão de reis celtiberos?
Até que ponto é que se pode dizer ou excluir que estes personagens correspondam a uma linhagem de reis celtiberos, ou que de alguma forma dominaram uma parte considerável do território ibérico.
Apesar destas provas numismáticas da sua existência, talvez por falta de registos complementares concordantes, ou apenas por mera inércia ou política, a historiografia tem descartado estes nomes, e a Hispânia pré-romana continua a aparecer como uma massa bruta, parecendo quase surpreendente que montanheses como Argantonio, Viriato, e outros similares, de cujo nome apenas vemos nestas moedas, tivessem capacidade sequer de mandar cunhar moeda.
Podemos estar aqui com referências a alguns reis constantes na Monarquia Lusitana?
No caso de Hércules (ou Melqart), é claro que sim... e se a diferença entre o nome cunhado e o nome constante na Monarquia Lusitana for assim tão grande, então poderíamos considerar isso, ou outra coisa qualquer. No entanto, não vejo base para isso, e não vamos seguir esse caminho fácil.

Interessa notar que, ao contrário do que acontecia com os cavalos em moedas fenícias, onde era normalmente exibido um único em posição estática, aqui os cavalos estão sempre em movimento, em galope, o que é visto noutras moedas gregas, especialmente nas sicilianas. Ou seja, parece claro que a cultura ibérica estava em muito maior proximidade com a cultura grega, do que com a fenícia ou cartaginesa.

Num próximo postal continuaremos com as moedas ibéricas.


Nota [28.07.2019]:
Há uma associação comum de Bolskan a Osca, ou Huesca (a cidade espanhola).

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publicado às 15:02



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