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O Cisma de Avinhão é remetido ao regresso do papado a Roma em 1378, mas o problema começou antes, com a saída do papado de Roma, em 1305-09.

A personagem no centro da acção seria o rei francês Filipe IV, dito "o Belo".
Filipe IV de França manda prender e queimar templários (13 de Outubro de 1307).

Filipe IV, estando cheio de dívidas, decidiu cobrar taxas ao clero. 
O papa Bonifácio VIII opôs-se, invocou que o poder papal estava acima do real, e excomungou o rei francês. Este não esteve com pruridos, enviou um exército contra o papa, Bonifácio foi preso e espancado, acabando por falecer em 1303.
Os cardeais tentaram eleger um novo papa mais simpático para Filipe, mas mesmo tendo-lhe levantado a excomunhão, o papa Bento XI acabou por morrer oito meses depois, em 1304, envenenado, provavelmente sob champignons françaises.
A solução sob pressão foi eleger o papa Clemente V, francês e um parente de Filipe IV, que assim serviria directamente ao rei francês... e mais que isso, instalou-se em solo francês!
Começa assim o papado de Avinhão em 1305, com a vinda da cúria em 1309, e até que o papa regressasse a Roma em 1377. 

O cisma oficial, de 1378 a 1417, ocorre pela insistência francesa em eleger papas em Avinhão que passaram a ser chamados "antipapas". Para complicar o assunto (ou talvez para o resolver) em Pisa apareceram ainda outros "antipapas". 
Curiosamente, o cisma termina em 1415, no ano da conquista de Ceuta, com a abdicação do papa de Roma, Gregório XII e do antipapa de Pisa, João XXIII, e também com a excomunhão do papa de Avinhão, Bento XIII, que não abdica. O novo papa Martinho V, que só toma o lugar em 1417, acabará por ser reconhecido mesmo por Avinhão, mas só em 1429. 
Este abdicar em 1415 visou resolver o problema de Avinhão, quanto ao seguinte, em 2013, é mistério.

Interessa que houve uma certa divisão por reinos na aliança aos papas de Avinhão ou Roma:
  • Avinhão: França, Castela e Aragão, Borgonha e Savóia, Nápoles, Gales e Escócia.
  • Roma: Inglaterra, Portugal, Sacro-Império Alemão, Flandres, Escandinávia, Hungria, Polónia.

Por isso, na aliança de 1373, e depois no Tratado de Windsor (1386), entre Inglaterra e Portugal, há aqui um outro aspecto de ligação. Ao contrário de uma baixa Idade Média, com os reinos muito focados em si mesmos, com a entrada dos Normandos, e dos reinos escandinavos (Dinamarca, Noruega e Suécia) no mundo católico, o que levou praticamente ao início das Cruzadas, o panorama europeu alterou-se significativamente quando entramos na alta Idade Média. 

As Cruzadas abrem de novo a Europa a contactos entre as diversas nações, há um espírito de união contra a ameaça muçulmana, e para isso será crucial o papel das ordens monásticas, especialmente os templários e hospitalários. Antes deste período, seria impensável ter uma armada de cruzados de diversas nacionalidades a participar na conquista de Lisboa, por exemplo.
Até por uma razão simples... os cavaleiros, escudeiros, homens de armas eram propriedade exclusiva de uma casa real, de um ducado ou condado, e só se mexeriam para combater sob o seu senhor. Isso iria ser alterado com os exércitos convocados para as Cruzadas, e para as ordens militares.

Templários
O rei francês Filipe IV e o seu papa Clemente V, ficaram mais conhecidos pela perseguição e extinção da Ordem dos Templários em 1307-12, levando à morte na fogueira de muitos templários e em particular do mestre da ordem, Jacques de Molay, em 18 de Março de 1314.

A ideia do rei francês seria propor a união dos templários e hospitalários, numa única ordem, da qual o próprio rei de França seria o único grão-mestre. 
Para Filipe IV seria especialmente incómodo ter o rei inglês como vassalo na Aquitânia, então chamada Guiana (variação de Aguitana), algo que foi conseguido em troca da Normandia, porque os reis de Inglaterra eram naturalmente duques da Normandia, até que o rei Luís IX, dito São Luís, convenceu a troca com a província mais distante, a Guiana, com capital em Bordéus.
Provavelmente, à frente desse exército seria mais fácil recuperar a Guiana, e finalmente unir o território francês, sem presença inglesa-normanda. 

Conseguiu a extinção dos templários, por bula papal, a que escapou apenas Portugal, onde tomou a forma de Ordem de Cristo. Não conseguiu a extinção dos hospitalários, que se mantiveram até hoje, sob forma de Ordem de São João, ou posteriormente, Ordem de Malta.

Após a expulsão dos Cruzados dos territórios da Palestina, o outro território onde a sua acção seria mais efectiva contra os árabes, seria a Ibéria. Assim, e especialmente os templários, tinham múltiplos castelos na Península Ibérica... e vemos desde logo aqui a diferença entre a abordagem portuguesa, que permitiu a permanência da ordem, e a abordagem castelhana ou aragonesa, que acabaram por seguir a bula de Avinhão e suprimir a ordem, em favor de outras ordens locais, espanholas - como as ordens de Calatrava, de Montesa, de Alcantara, ou de Santiago (esta também com uma variante portuguesa).
Tal como a Ordem de Avis, portuguesa, ou a Ordem Teutónica, tipicamente alemã, estas ordens locais não tinham o mesmo impacto trans-nacional que exibiam as ordens templária e hospitalária, que eram de nomeação papal directa.

A agenda dos templários não teria mudado, e o plano continuaria a ser um combate contra o domínio muçulmano. Em particular, a denominada "tática da cunha", que consistiria em contornar o continente africano e surpreender os árabes pela retaguarda, na península arábica... Algo que esteve praticamente pronto a ser concretizado por Afonso de Albuquerque, aquando da sua substituição como vice-rei.

Também não será de estranhar que em mapas de Pedro Reinel, e outros, apareça não só a bandeira das 5 quinas, mas também a bandeira com a Cruz de Cristo, significando possivelmente uma concessão à Ordem de Cristo.
Mapa "Pedro Reinel a fez" - bandeira com a cruz templária da Ordem de Cristo 
e bandeira nacional com as 5 quinas.

A reconquista de Jerusalém chegou mesmo a tentar ser negociada com a China, enquanto sob dinastia mongol, quase ao mesmo tempo que Marco Polo fazia as suas famosas viagens. O interesse não era apenas europeu, e houve um enviado de Kublai Khan, de nome Rabban Bar Sauma que partiu numa viagem de 1280 a 1294 onde se encontrou com diversos monarcas europeus, em particular com o rei francês Filipe IV, e com o rei inglês, Eduardo I. Ainda constou que o grão-mestre templário, Jacques de Molay, tivesse comandado uma ofensiva mongol que teria invadido Jerusalém, em 1300, mas essa notícia veio a constatar-se ser falsa. A partir dessa altura, e com os relatos de Marco Polo, os europeus consideraram ser igualmente perigoso o risco de uma invasão pelos mongóis, no pretexto de se aliarem contra os árabes.

Maçonaria
Com o fim dos templários, e apesar dos hospitalários manterem um carácter trans-nacional, a ideia de um projecto trans-nacional para a reconquista de Jerusalém foi sendo perdida. Poucos anos após o fim dos templários, o rei inglês Eduardo III decide formar a Ordem da Jarreteira, inicialmente ligada à disputa com França na Guerra dos 100 anos, mas que vai afiliar reis estrangeiros aliados - em particular, e o primeiro rei não inglês, seria D. João I, assim como serão membros os seus sucessores da Dinastia de Avis. Em contrapartida, seria criada a Ordem do Tosão de Ouro, pelo Duque da Borgonha, também de carácter multi-nacional. A política no final da Idade Média começa já a fazer-se de alianças entre os reinos, devido à constatada fraqueza da posição e arbitragem papal.

Esse paradigma de alianças e tratados entre estados passará a ser a única forma diplomática de relacionamento quando termina a Guerra dos Trinta Anos, em 1648, com uma derrota dos Habsburgos e consequente declínio e fragilidade da posição papal.

Um entendimento e uma diplomacia subterrânea, passam a ser necessárias para além da Cúria Romana, agora com um poder de influência muito limitado. É neste contexto que vai aparecer em Londres a Maçonaria, formalmente em 1717, ou seja praticamente 70 anos depois.

A Maçonaria exibe ainda no seu rito escocês, ou de York, nomenclaturas que invocam uma herança templária, e também hospitalária. Portanto, a herança de uma organização trans-nacional que terá sido característica destas ordens monásticas francesas, acabou por migrar para uma organização inglesa, praticamente sob alçada da coroa britânica. Seriam ainda os britânicos que finalmente, em 1917, vão conquistar Jerusalém, realizando o velho sonho templário. A ordem templária, depois maçónica, e que nunca deixou de transparecer uma forte influência judaica (começando na invocação ao Templo de Salomão), acabaria mesmo por definir na declaração de Balfour o projecto sionista.
É verdade que antes, Napoleão ao desembarcar em Jaffa, procurava ser ele o restaurador do domínio europeu sobre Jerusalém, mas nessa altura já todo o poder se desequilibrava para o lado inglês, e não caberia aos franceses esse papel de regular os sinos das lojas. 
A sucessora de Roma não seria Avinhão, mas sim Londres.

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