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Em Fevereiro de 1519, Hernán de Cortés parte de Cuba para a invasão do território Azteca.
Doze anos mais tarde, Francisco Pizarro irá iniciar a invasão do Peru, saindo do Panamá.
Farão isso de forma cruel, pragmática, ou brilhante. Ajustam-se diversos adjectivos.
Passam 500 anos, e para os mexicanos não é muito claro o tom da comemoração.

Convém notar que os Aztecas e Incas não eram civilizações antigas.
Os Incas iniciaram o seu império em 1438. 
O Império Azteca começa em 1428, com a aliança das cidades Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan.
Passado um século, ambos estes impérios foram destruídos num ápice pelos espanhóis.

Quadro da conquista do México e Tenochtitlan por Cortés.
Portanto, quando Ceuta é conquistada (1415), e o Infante D. Henrique começa a tomar conta das explorações atlânticas, os impérios Azteca e Inca ainda não existiam. Estes impérios desenvolvem-se ao mesmo tempo que se desenrolam as explorações portuguesas no Atlântico, e vão cair quando Carlos V é sagrado imperador do Sacro-Império Germânico, em Janeiro de 1519, e inicia a sua expansão territorial além das Caraíbas.

Surge assim uma pergunta:
- Há alguma evidência de contacto anterior entre Incas ou Aztecas com europeus?
- Aparentemente, não.
Um argumento comum é que se tivesse havido um contacto anterior, as doenças que vitimaram muitos indígenas, teriam aparecido mais cedo.

Esse dado, normalmente aparece sem grande suporte objectivo.
Os indígenas teriam sucumbido às doenças trazidas pelos europeus, dando-se como exemplo mais comum a varíola. Aponta-se para este número uma redução de 90% da população indígena. 
Normalmente parece esquecer-se que também os europeus eram vítimas naturais desta doença, e que na Europa do Séc. XVIII foi contabilizada a morte de 400 mil pessoas por ano, até à invenção da vacina. Ou seja, a varíola não atingia só os indígenas, a novidade terá sido que passou a afectar também os indígenas. Também os europeus passaram a ser vítimas de novas doenças tropicais, de que antes tinham pouca notícia - por exemplo, a febre amarela.

Outra causa do decréscimo da população indígena pode explicar-se praticamente por um factor:
- Mestiçagem.
Este factor teve logo como exemplo a entrada de Cortés no México.
La Malinche foi oferecida como companheira de Cortés, e dela ele teve vários filhos. 

Este processo era o mais frequente porque as tripulações embarcadas de Espanha não levavam mulheres. As mulheres a que os espanhóis tinham acesso eram as indígenas, e aí não houve prurido de múltiplos acasalamentos. Rapidamente surgiu uma segunda geração mestiça, já afiliada a uma origem espanhola, ocidentalizada, que foi perdendo a ligação aos aztecas. Repetidamente, o processo levou a que se perdesse a língua e cultura dos antepassados, com a pressão do clero católico, extremamente cioso da pureza cristã e condenação da bárbara cultura pagã azteca.
A população nas cidades mexicanas poderia ser medida no seu nível social pela maior ou menor quantidade de sangue espanhol. Ao contrário do que veio a ocorrer depois com as colonizações britânicas ou holandesas, no caso espanhol ou português a mestiçagem foi crucial para o desaparecimento da cultura indígena. Por exemplo, o emblemático Mayflower partiu para a América com colonos - homens e mulheres - mas só nos séculos XVIII e XIX é que as colonizações portuguesa ou espanhola seriam mais feitas por famílias partidas do continente europeu. Apesar de haver alguma presença de mulheres e famílias nos navios que cruzavam os oceanos, esse número foi sempre contido ou reduzido ao estritamente necessário.
A facilidade de ligação com os indígenas nem sempre foi tão facilitada quanto no caso americano, sendo claro que no caso do contacto com populações chinesas ou japonesas, a miscenização foi uma prática muito residual, quase inexistente.

A rota de Cortés
O sucesso estrondoso de Cortés é pouco digno de ser reconhecido, porque ao mesmo tempo acaba por se ligar a um pragmatismo possível. 
Cinco centenas de espanhóis consegue, por meio de grande engenho e artimanha, fazer sucumbir em dois anos, um império ingénuo e cruel, que contava com milhões de habitantes.

Uma das razões do sucesso de Cortés foi o seu percurso até Tenochtitlan, de Abril a Novembro de 1519, onde com sucessivas alianças a tribos inimigas dos aztecas foi reunindo uma força invasora já muito considerável, com milhares de homens.
Para esse efeito contribuiu La Malinche, a concubina nahua oferecida a Cortés, que depois o ajudou não apenas na tradução, mas até a definir a estratégia de alianças. O termo "malinche" passou a designar a traição ao próprio povo... por incompreensão posterior.
Mais crucial terá sido a aliança com Tlaxcala, que após feroz guerra no início de Setembro, aceitaram negociações e aliança com os espanhóis contra os aztecas, seus inimigos. Os seus quatro chefes foram baptizados e ofereceram as filhas em casamento aos companheiros de Cortés. 

Parte da grande pirâmide de Cholula.
De forma mais importante, Tlaxcala deu um exército suplementar a Cortés, que o usou contra Cholula, a segunda cidade mais importante, e um grande centro religioso. 
Cholula tinha sido instruída pelo imperador Moctezuma para parar Cortés, mas a cidade era um ponto religioso, com fraco dispositivo militar. Acabou por acolher Cortés, e como a sua concubina acabou por revelar/descobrir um plano de assassinar aí os espanhóis, estes terão executado 3 mil (ou 30 mil) habitantes, e deitado fogo à cidade para servir de exemplo.
A partir daí, Cortés não teve maiores dificuldades em seguir até ao centro do império Azteca, a cidade de Tenochtitlan, e lago Texcoco, no que é hoje a Cidade do México.

Tenochtitlan no lago Texcoco, é hoje a Cidade do México.
Tenochtitlan teria, à chegada de Cortés, uma população estimada em 200 mil habitantes, e seria assim uma das maiores cidades do mundo à época, maior que as cidades europeias.
Além disso, a complicada construção de Tenochtitlan, no meio do lago Texcoco, faziam dela uma cidade comparável a Veneza, em diversos aspectos. Este enorme lago Texcoco foi completamente assoreado pelos espanhóis, o que permitiu depois a construção de uma Cidade do México cada vez maior, assente num lamaçal que resultou da construção feita sobre o lago (isto causa ainda problemas graves na propagação das ondas sísmicas, conforme se verificou no sismo de 1985).

Aztlan, Quetzalcoatl, Kukulkan e Viracocha
Moctezuma II recebeu com todas as honras Cortés e os seus homens, instalando-os no palácio que fôra de seu pai. Desde que desembarcara, emissários de Moctezuma enviavam saudações e presentes, procurando que ele não fosse a Tenochtitlan, mas os ricos presentes apenas serviram para mostrar que estava no caminho certo. 
Moctezuma prendeu-se à lenda Mexica-Azteca que colocava a origem do povo em Aztlan (note-se a semelhança com o termo Atlan, ou Atlas-Atlântico), um local indefinido a norte. Ligando Cortés à divindade Quetzcoatl, enquanto homem branco de barba, o imperador dava aos espanhóis um estatuto divino que facilitou a perdição azteca. A mesma lenda, que existia nos Maias e nos Incas, variando no nome - Quetzalcoatl era Kukulkan para os Maias e Viracocha para os Incas - serviu de grande facilitador para a conquista de Aztecas e Incas (os Maias, menos centralizados, resistiram mais tempo). 
Ao fim do segundo dia, e com o pretexto de erguer uma cruz e um altar à Virgem Maria, os espanhóis arranjaram pretexto para sequestrar Moctezuma, e mantê-lo como imperador fantoche. Fraco, esteve mais preocupado em não ser destronado, caso os espanhóis escolhessem o irmão Cuitlahuac, apesar dos protestos da sua corte. Moctezuma foi colaborando ao ponto de o avisar da chegada de um exército de Cuba, liderado por Narvaez, para o prender. 

Cortés, mais uma vez resolveu a situação pragmaticamente. Foi até Veracruz, onde derrotou Narvaez, e convenceu o exército que vinha no seu encalço a juntar-se a si, na conquista de Tenochtitlan. Quando regressou, a situação era ainda mais caótica, os Aztecas tinham-se juntado em torno do irmão de Moctezuma, após um massacre no grande templo ordenado por Alvarado (segundo no comando de Cortés). Cortés pede a Moctezuma que fale à população para a apaziguar, mas este acaba morto pela saraivada de pedras que recebe.
Com a morte de Moctezuma, os espanhóis são forçados a fugir de Tenochtitlan, mas reagrupam forças com os aliados de Tlaxcala. No final tudo se resume a convencer as cidades vizinhas a alinharem com o novo poder espanhol, e um cerco de dois meses à capital, que acabará por cair a 13 de Agosto de 1521.

Uma conquista que doutra forma poderia ter demorado séculos (o que aconteceu noutras paragens próximas, incluindo os Maias), acabou por se resumir, numa série de acasos favoráveis, e numa crença no cumprimento do mito de Quetzalcoatl. O engenho de Cortés, para coordenar os diversos balanços de poder, e tirar daí o melhor proveito, foi ainda mais notável.

Os Aztecas, e a sua Méxica, caíram sem grande dificuldade aos pés de Cortés.
Como já referimos, o nome "América" poderá ser um desvio de "A méxica", mas aqui também surge como interessante este mito ligado a "Aztlan", um nome demasiado próximo de "Atlan" para não ser ignorado. Aliás, a frequência dos nomes aztecas com o som "tl" não deixa de ser intrigante como relação do próprio nome de Atlas, com este continente perdido.

Curiosamente, até a descrição de Platão de uma cidade aquática atlante deixa algumas questões, pois isso teria ocorrido milhares de anos antes de ser construída. Ou seja, a lenda que levou os Mexica-Aztecas até ao lago Texcoco, procurando o símbolo da águia que bica a serpente junto ao cacto (símbolo da bandeira mexicana), serviu ainda para ajustar a pretensão de que a lenda parecia inspirada no cumprimento do relato de Platão no Timeu.

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publicado às 04:28


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