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Se Ceuta foi Seta, ou lança, de entrada em África, a Laracha foi "Tiro de saída".

Tendo visto a compilação dos manuscritos sobre D. Sebastião, que indiquei antes, prossigo com algumas transcrições interessantes, aí encontradas. Embora agora não sejam "Pela mão de Sebastião", seguem o espírito.

De diversos textos que fui escrevendo sobre D. Sebastião, o que me parece mais completo será o Peça por Peça, ainda que não se inclua aí larachas ou bulas de pretendentes, mas o caso do Maluco, depois escrito Moluco, está presente desde o início. E essa brincadeira de nomes já teve o seu preço.

Bom, e há sempre "coisas estranhas" a juntar ao rol.
Encontram-se duas relações da batalha, escritas quase uma em cima da outra, e de certa forma pretendendo a relação marginal ser um complemento à principal.

Interessa-me aqui a parte final do relato principal:
Neste tempo vendo El Rey que estava na vanguarda o seu campo desbaratado, se veio recolhendo pela banda do Duque de Aveiro, e o seguiu alguma gente de cavalo e a pé, cuidando que ia fazendo uma ponta para volver sobre os mouros, viu o campo já tão desbaratado que se retirou. Durou a batalha quatro horas sem se declarar a vitória.
relato que assim termina, apresentando-se apenas depois a disposição do exército de D. Sebastião:

Disposição do exército de D. Sebastião, na Batalha de Alcácer Quibir.
(nota: "SV mouros" - podem ser 5 mil ou 8 mil mouros)
A frente de batalha é para a direita, e a disposição é explicada no relato.
Nota: O relato não menciona as carruagens de religiosos, mas menciona os "bisonhos" que não seriam gente de combate. O desenho é feito por quem transcreve, e certamente a logística própria do tempo implicaria carruagens e religiosos... que certamente aumentariam a confusão. 
Tudescos é outro nome para alemães, e os Aventureiros eram soldados experimentados em batalhas no Oriente.

Ora, a questão é - por que razão o relato do "cativo" acaba assim:
"... a batalha terminou sem se declarar a vitória"?

O outro relato marginal também não fala de nenhuma "derrota" ou vitória alheia... e apenas termina com a notícia da morte do Maluco.

Transcrevo os documentos integralmente. É claro que dada a caligrafia e ortografia da época podem ocorrer algumas falhas, mas não me parece que sejam muitas, ou muito significativas. É claro que isto não deveria ser feito por mim, mas à falta de outros... é quem fica para o fazer.

Dificilmente se encontrará melhor relato "imparcial" do que sucedeu... do que não sucedeu, isso temos variados ou avariados, uns mais pintados que outros.
É claro que o relato não explica o que se passou depois da batalha terminar sem vitória para nenhum lado. Nem explica como o "cativo que fala" ficou afinal cativo... ou como tanta gente ficou cativa, e depois regressou, pagando bom preço pelo seu retorno. Explica os mortos, mas não os vivos.

Percebe-se sim que Maluco esperava o confronto num ponto estratégico, na travessia do Rio Loucos que iria dar à Laracha. Pior, nota-se que os portugueses ignoravam o poder de artilharia de Maluco, e que sendo isso normalmente o factor decisivo para a vitória das tropas europeias, foi ali invertido. Maluco tinha o apoio directo dos Turcos, e essa foi a única razão para intervenção de D. Sebastião em África.
Trarei outra carta que explica isso "pela sua mão".
Quis assim parar a ameaça de invasão turca que avançara já por Argel, Tunis e Tripoli, faltando só apoderar-se dos reinos de Marrocos, e consequentemente das lanças nacionais em África, terminando em Ceuta.
Daí prosseguiria o Grão Turco com a ameaça de invasão ibérica, reeditando a invasão de 711. Para isso contava com todos os Andaluzes desterrados em África, prontos para regressar e refazer o reino ibérico de Granada dos seus avós, perdido então há menos de cem anos.
Portanto, toda a intervenção de D. Sebastião naquele momento tem um nexo, tem o nexo de querer evitar que hoje falássemos árabe. Tanto mais que, se Marrocos acabou por não sofrer invasão turca, o deveu muito à Batalha de Alcácer Quibir. Do outro lado da Europa, os turcos já tinham cercado Viena, e portanto estes eram os dois focos de pressão na expansão turca em direcção à Europa... conforme se pode ver pelo mapa:

Entender que o projecto de D. Sebastião era "maluco", foi pintura posterior, porque não havia apenas o acordo nacional aprovado em Cortes, havia o apoio de tropas germânicas, que sentiam a ameaça turca, a descoberto pelo lado de Viena. Quanto aos espanhóis e italianos, comparativamente menos, tinham o mesmo problema. A vitória de Lepanto só "aparara a barba ao Paxá"...
A única coisa de estranhar seria mesmo a falta de empenho de Filipe II, talvez lembrado pelo pai Carlos V, que em Tunis tinha apanhado com tiros de canhão franceses pelo lado turco.

Há um número de "80 mil cavaleiros" que me parece claro exagero ou simples erro de transcrição, mas é claro que a expedição em terreno hostil tinha tudo para correr mal, não fosse a experiência portuguesa nas praças marroquinas. Por isso a escolha de D. Duarte de Menezes, de Tanger, para liderar o campo... mas conforme é descrito, o campo esteve tão desorganizado que de "Mestre de Campo" só teria o nome. Esse mesmo sobreviveria à batalha e seria depois Vice-Rei da Índia, nomeado por Filipe II.

Segue o texto...
____________________________________________________________________

Relação da Batalha de Alcácer 
que mandou um cativo ao Dr. Paulo Afonso


Relação da Batalha de Alcácer que mandou um cativo ao Dr. Paulo Afonso.
E em nota marginal "Relação de Simão da Cunha" (pdf - pág. 144)
Novas da guerra, nem de nossas desventuras não tenho por que me "entremeter" nisso, porque creio que V. aí terá lá sabido melhor todos os sucessos de cá. O que direi só é que a gente de infantaria que El Rey trazia seriam até 16 mil, destes seriam até 10 mil piqueiros pelos quais se pode dizer que morreram mártires, dos 6 mil arcabunzeiros, os 3 mil eram bisonhos, só assim 3 mil arcabunzeiros souberam pelejar. Da gente a cavalo seriam até 1600, dos quais poderiam ficar limpos para pelejar até 900.

Esta gente de cavalo repartiu El Rey segunda-feira que foi a 4 de Agosto, que foi o dia da batalha, de 78. Ao Duque de Aveiro deu 300 de cavalo, e lhe deu a mão direita da batalha, El Rey se pôs da esquerda, por ficar encontrado com o inimigo, que vinha da parte direita. Deu a D. Duarte de Menezes, que trazia nome de Mestre do Campo, os cavaleiros de Tanger, que seriam 300, e o mandou à mão direita na dianteira do Duque de Aveiro. 
O Xarife [aliado] se pôs com obra de 250 lanças suas, muito boa gente, à mão direita do Duque de Aveiro, afastado dos Nossos, e chegado aos inimigos com obra de 200 arcabunzeiros, gente de guerra, porque pelejaram muito valorosamente.
Os Aventureiros, que seriam 2300, deu a Cristovão de Távora, que ia ora vanguarda, por lhe parecer com boas disposições, e armas lustrosas bastavam ao inimigo. Da mão direita estavam os Tudescos, da esquerda os espanhóis e italianos. A nossa artilharia plantaram diante no meio da Vanguarda, diante dos arcabunzeiros. Detrás dos espanhóis puseram no corpo da batalha o Terço de 

Vasco da Silveira, da mão direita, da mão esquerda o de Lopo de Sequeira, e na retaguarda da mão direita estava o Terço de Francisco de Távora, e na esquerda o de Miguel de Noronha. Na boca desta retaguarda estavam dois esquadrões de mosqueteiros para não nos entrar o inimigo. Tinhamos por uma parte e outra as Carretas, e quatro ou cinco arcabunzeiros em cada uma.
Ao domingo nos alojámos meia légua donde demos a batalha, tivemos este dia escaramuça com os Mouros, e se no domingo não pegaram connosco para dar batalha, foi porque nos tinham certos, e sabiam que à segunda-feira, havíamos de ir buscar o passo que era o Rio, que estava perto de Alcácer, onde estava o Maluco com sua artilharia de campo prantada e todo entrincheirado, ali tinha toda a força da batalha, e como sabia que forçado havíamos de demandar este passo, trincheirou-se e fortificou-se devagar. O irmão que agora é Rei, nos correu domingo com 8 ou 10 mil lanças, dos quais à segunda-feira se passaram da nossa parte 500, que nos depois foram todos traidores.
À segunda-feira pela manhã abalamos o campo nesta ordem sem parecer que podíamos pelejar, e sobretudo mortos de fome e haver 5 dias que se não bebia vinho, e afirmo a V. aí que ao Domingo ficou o nosso arraial triste, porque vimos muita forma de Mouros que nos rodeavam de todas as partes.
Segunda-feira pela manhã começámos a marchar todos nesta ordem, mas como digo todos enfadados e tristes, porque sabíamos de certeza que estava ali o Maluco com grossa gente para nos dar batalha, que assim afirmo então a V. aí que tão bisonho estava o nosso campo que não sabíamos parte do Maluco nem da batalha. Na segunda-feira às 7 horas se abalou o campo e começámos de marchar.
Neste tempo soube El Rey que estava o Maluco dali meia légua no passo por onde havíamos de passar. Dizem que lhe mandou um recado, e que ele lhe mandara dizer que ali o estava esperando onde o fomos buscar, e antes que chegássemos a tiro de bombarda, ficámos todos cercados de Mouros, e assim fomos marchando até chegar ao Maluco, tanto espaço como do Corpo Santo até à Cruz de Cata que farás, donde o Maluco começou a disparar sua artilharia que era muita, e muito mais esforçada que a nossa que nos fez pouco uso porque a mais dela foi por alto, e nós passamos


Em nota marginal - "Oito ou nove mil Andaluzes vendo 
como a coisa ia em favor nosso, estiveram quase 
determinados para se lançarem da nossa parte."
e começou a jogar à nossa, donde um pelouro dos nossos lhe deu na sua pólvora, e lha queimou toda, e logo serraram dos Mouros connosco 80 mil de cavalo, e 6 mil de pé em que os mais eram Elches e Andaluzes, segundo os Mouros dizem, afora a gente de pé que não tem conta.
E começando agora bateria sua, e nossa, aí pelouro dos nossos na prenunciada deu no Maluco que vinha dentro em um coche e o matou, de que os Mouros ficaram amedrontados, e se retiraram ali. Tanto mais dizem que no mesmo coche trazia dois arrenegados consigo que o fizeram sempre vivo para animar os seus, deitando-lhe muito dinheiro em nome do Maluco, e os Mouros posto que não desapegaram da batalha de todo, tornaram a pegar de novo mais rijo.

Neste tempo correram os Tudescos com o seu Terço e chegaram junto da artilharia dos Mouros, donde foram logo cercados deles por não marchar toda a infantaria, que se o fizeram ganhávamos toda a artilharia, e sem dúvida os desbaratávamos. Mas como se os Tudescos se viram sós, e com o seu Coronel e Capitão mortos ficaram logo perdidos, por não haver quem os socorresse. Porque os Aventureiros, que com eles estavam juntos não os socorreram, por não terem arcanbuzeria nenhuma, senão só duas companhias de escopeteiros de Tanger que todos valorosamente pelejaram, até os matarem a todos, e aos Aventureiros, que morreram mártires pelos não deixarem marchar como queriam. Os Mouros tanto que viram a desordem cortaram o terço dos Tudescos, e Aventureiros, e foram nos ganhar nossa artilharia que não tirou mais que a primeira vez.
Neste tempo estando a batalha indeterminada de ambas as partes, desbarataram-nos muita gente de cavalo. Deu El Rey pela sua parte Santiago de quatro ou cinco mil de cavalo, onde pelejou muito valorosamente, mas mais cavaleiro do que capitão. E o Duque de Aveiro por outra parte, com D. Duarte de Menezes que ia na dianteira dele, com a gente de Tanger, deu nos Mouros onde os puseram em fugida, e a gente de Tanger chegou à artilharia do Maluco, e lhe tomaram uma bandeira de cima da artilharia, e como a nossa cavalaria era pouca, a cortaram logo, pelo que conveio retirar-se ao nosso esquadrão, mas com muita gente perdida, que com a escopetaria matavam, e fazendo só três voltas com os Mouros (de que lhe matámos 

muita gente) não se pôde mais sortir a nossa cavalaria por ser tão pouca, e se meteu no esquadrão, que estavam já neste tempo desbaratados, e a artilharia perdida. O Xarife com a sua gente pelejou muito valorosamente, mas como éramos todos poucos, não nos pudemos sustentar.

Neste tempo vendo El Rey que estava na vanguarda o seu campo desbaratado, se veio recolhendo pela banda do Duque de Aveiro, e o seguiu alguma gente de cavalo e a pé, cuidando que ia fazendo uma ponta para volver sobre os mouros, viu o campo já tão desbaratado que se retirou. Durou a batalha quatro horas sem se declarar a vitória.



















O outro relato "por relação de Simão da Cunha", escrito na margem, diz assim:
Havendo el Rey passado o rio e todo o exército, veio ter com ele D. Duarte de Menezes e lhe disse que todo o exército havia passado o rio, pelo que mandasse Sua Alteza o que se havia de fazer. Peguntou-lhe El Rey o que lhe parecia, disse-lhe D. Duarte que o seu parecer e de todos e dos Elches (um dos quais era o Alcaide Raposo) era que caminhasse Sua Alteza ao longo do rio para Larache. Mandou El Rey chamar o Raposo e os outros seus companheiros, que lhe disseram o mesmo. E que fazendo assim, Sua Alteza ganharia a mais preciosa vitória sem sangue que se podia desejar, porque o Maluco estava morrendo e não escaparia daquele ou do outro dia. E estando El Rey quasi determinado a seguir este conselho, chegou a ele Fernão da Silva, o clérigo, armado, e do que lhe disse que ninguém ouviu (estando Simão da Cunha que ia no esquadrão dos aventureiros presente), voltou El Rey para D. Duarte e lhe disse que marchasse o campo adiante assim como ia, contra o do Maluco, o qual se o esperasse lhe daria batalha, e se fugisse que fosse com todos os diabos. 
Quando os nossos ouviram a artilharia dos inimigos e o estrago que neles fazia ficaram maravilhados e cretados do medo, porque a quasi todos parecia que os mouros não haviam artilharia; tão pouca notícia havia de tudo, sendo tão necessária. 
Quando o esquadrão de aventureiros arremeteu, e chegou à artilharia dos inimigos, e os mouros se retiraram, andava o Maluco [Mulei Moluco] a cavalo e vendo ou entendendo que os seus fugiam, levou do Alfange para os deter, e com a cólera e enfermidade não acabou de arrancar o alfange e caiu do cavalo. Meteram-no logo nas andas e logo expirou.
______________________________________

Conforme disse, esta história por este lado dos manuscritos acaba assim, sem final para D. Sebastião. Quem quiser pode agora contentar-se ou não com um final habitual que nos é conhecido:
"Depois de quatro horas de luta, terminara a batalha. Apenas D. Sebastião e um pequeno grupo de fidalgos seguiam combatendo. Nem a bandeira, nem o guião real, chamavam já a atenção dos mouros sobre o monarca ; e talvez a esta circunstância devesse não ter sido ainda morto. Mas era um fim previsto. Cristóvão de Távora suplica-lhe que se renda. D. João de Portugal acrescenta : "Que pode haver aqui que fazer, senão morrermos todos?" Respondeu D. Sebastião: "Morrer, sim, mas devagar". D. Nuno Mascarenhas chegou a arvorar um lenço, na ponta da lança ou da espada. D. Sebastião, porém, não se rendeu; e travando-se combate, foram mortos o conde de Vimioso, Cristóvão de Távora e alguns fronteiros de Tânger. Os restantes ficaram prisioneiros. Mais adiante, foi o soberano português cercado dum grupo de alarves que o mataram, com profundos golpes na cabeça e algumas arcabuzadas no tronco."   
(daqui) 
Pela minha parte, aqui leio outra coisa.
Leio que D. Sebastião "viu o campo já tão desbaratado que se retirou". E leio não apenas que "depois de quatro horas de luta terminara a batalha", leio que "terminou sem se declarar a vitória".
Por isso, parece-me que havia condições de se ter feito uma "retirada estratégica". 
Se é possível acreditar que isso não fizesse o estilo de D. Sebastião, "mais cavaleiro que capitão", a rendição de D. Duarte de Menezes foi mais de capitão do que de cavaleiro. Porque em que paragens andaria a honra do Mestre de Campo que se rendeu, se o rei não o fez?
Certo é que as inconsistências do relato final levaram ao mito sebastianista.

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publicado às 06:59


11 comentários

De Anónimo a 23.08.2015 às 13:59

Os renegados a darem dinheiro para os mouros combaterem! essa não sabia documentado!
Renegados e traidores sempre o tiveram em Portugal, é o resultado de se formar uma nação com um povo 100 % muçulmano, até cerca de 1500 ainda era a língua árabe a utilizada em Portugal... um povo pode mudar de religião administração mas nunca se esquecerá da liberdade que teve no regime do califado... para mim quem traiu D. Sebastião foram os "renegados", ou seja os cristianizados à força viam (e hoje ainda!) com bons olhos a queda da administração dos Reis católicos submissos à Roma dos Papas, pena que ainda não tenham feito o mesmo ao novo Império da UE, mas enquanto lhes correr dinheiro nas bolsas vão-se rindo e festejando no país do turismo das feiras e festivais em que se tornou Portugal, não tenho pena nenhuma, para mim Portugal acabou justamente com o fim de D. Sebastião.

Entre ser vassalo do Rei católico representante de Deus na Terra, e Alllah não presente e sem representante a quem prestar contas, a escolha foi é e será fácil, infelizmente.

Por outras palavras os portugueses nunca o quiseram ser.

Cpts.

P. S. pena de não haver quem escreva sobre as provas que a Duquesa vermelha tinha sobre o fim de D. Sebastião nas masmorras dos castelhanos, não me admiraria se tivesse sido nas francesas, mas esses são os eternos quiduchos da história e os alemães os maus da fita.

De Alvor-Silves a 24.08.2015 às 06:51

Caro José Manuel,
note no detalhe da descrição oficializada:

Depois de quatro horas de luta, terminara a batalha. Apenas D. Sebastião e um pequeno grupo de fidalgos seguiam combatendo.

Repare bem neste "Apenas"... então quem é que declara que a "batalha terminara", se o rei continuava a combater?
- Havia um árbitro? Estamos num jogo de bola?

O que me parece é que se tentou colar a versão dos combatentes, que dava a "batalha terminada sem vencedor", com um "tempo de prolongamento".
Esse tempo de prolongamento inventado é que dava a explicação conveniente para o desaparecimento do Rei.
E se há coisa inconsistente é ao mesmo tempo dar D. Sebastião como impetuoso contra o inimigo, e a dizer "morrer sim, mas devagar".
Claramente, a frase final é boa para os argumentistas de Hollywood, que não se preocupam com a coerência do enredo, mas apenas em guiar o espectador para a versão pretendida.

Se o extra-relato fosse fidedigno, dir-se-ia "depois de 4 horas, estava a batalha terminando...", e nunca que "terminara", estando o rei em combate.

Por isso, não foi à toa que surgiu o "mito do desaparecimento", porque devem-no mesmo ter feito desaparecer.
Se ficou preso, pois não sei, mas há aqueles documentos de que fala Camilo Castelo Branco:

http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/06/noites-de-insomnia-camilo.html

Seja como for, se morreu não terá sido no curso da batalha, se dermos este relato do cativo como fidedigno, e tudo aponta para que o seja.
A partir daí, tendo sido afastado, por morte ou por rapto interno, isso explicaria outras mortes finais... de quem não quis alinhar com os filipinos, e quis salvar o Rei. Assim mostraria também como Lisboa estava pronta para receber Filipe II - talvez com a promessa vaga de que seria a capital...

O que parece certo é que o mito do desaparecimento, e não da morte, começou logo entre os soldados capturados, que não viram os mouros tomarem o seu estandarte. A própria forma como começa o relato "não tenho que me intrometer nisso, e vós daí sabem melhor o que se passou cá", mostra como as coisas estavam "complicadas"... ao ponto do testemunho directo ser desvalorizado assim.

Abraços

De Amélia Saavedra a 24.08.2015 às 15:44

Este comentário foi removido pelo autor.

De Amélia Saavedra a 24.08.2015 às 15:59

"Renegados e traidores sempre o tiveram em Portugal, é o resultado de se formar uma nação com um povo 100 % muçulmano"... Não sabia dessa... o que já ouvi dizer é que somos para ai 90% de origem judia...
Isto é mais um mistério para o caro Alvor tentar resolver... ;-)
Na minha modesta opinião, devemos ser uma miscelânea de povos de diversas origens... Nas minha lides genealógicas só conheço um caso ("provado" via ADN) de origem turca (agora não sei se essa origem remonta ao período otomano - aka muçulmano - ou se é anterior - enfim, dilemas ancestrais)... Mas é como diz, o povo pode mudar de religião, cultura, língua, governo, mas há sempre algo ou alguém que teima em não mudar...Que é como quem diz - "old habits die hard"! :-)

De Anónimo a 24.08.2015 às 22:24

Certamente algo teima em não mudar, mesmo que nos lavem a cabeça com o "mudam-se os tempos muda-se as vontades", mas o que é que muda na verdade? dava pano para mangas e como de fato as telenovelas brasucas mudaram os factos aos tugas poderia dizer que sim os tempos mudam as vontades, e quem faz o tempo ? o que me ocorre como resposta rápida é o PR Sampaio a condecorar um douto inginheiro consultante da comissão europeia por trabalhos prestados ao relatar como fazer aceitar a ideia do "projecto europeu" aos tugas... levou com a ordem do Infante na lapela ! Recuando no tempo o que foram as ordens religiosa vindas de França para a Lusitânia mourisca? o mesmo propaganda manipulação e mudanças, mas acompanhados evidentemente de muita prata e ouro... e ópio pró povinho substituir o dos 400 anos de Alllah...

Re: " Na minha modesta opinião, devemos ser uma miscelânea de povos de diversas origens..."

essa do ADN é a explicação da dos pais... aí é tudo "celta" a uns 75%, mas quando se olha para o da mãe... a coisa é mais inconveniente, se forem ver como e onde foram escolher a matéria da análise é tendencioso, as populações da Serra da Estrela vieram do Atlas marroquino para a Lusitânia há 12.000 anos, seja como for quem é que acredita na versão do Hermano Saraiva que no califado sobreviveram durante 400 anos cristãos no actual território português ? eu não, pois está documentado que foi tudo degolado até à Galiza, só os das cavernas das Astúrias sobreviveram, isto é mesmo duas facções em guerra há muito, mas muito tempo. O ADN tem um gene da memória, mas não tem marcador religioso aparentemente, excepto para quem quiser ver que somos todos filhos de Abraão.

Cpts.

De José Manuel a 24.08.2015 às 23:31

Boa noite a todos os leitores...

Caro Alvor,

De D. Sebastião não sabia que bem escrevia ! é bom ter o seu blog a ler, depois de anteriormente ver vídeo com o luso germânico Rainer Daehnhardt autor do "Dom Sebastião o Elmo e Alcacer Quibir" fiquei convencido de que não morreu em África, gostaria de ter lido o da Duquesa vermelha mas o seu castelhano é difícil, este Rainer inúmera as vezes que D. Sebastião mudou de cavalo nesta batalha, duvido que o Rei combatesse, pode ter dado a vida cara e difícil a quem o queria matar, se a artilharia moura fosse superior à da aliança católica a batalha tinha tido o desfecho em pouco tempo, em quatro horas, e teve, para mim os canhões mouros só poderiam ser dos tais renegados, ou melhor dos franceses... D. Sebastião deu armas estandarte brasão ao Zimbabwe reconheceu a sua monarquia, com D. Sebastião vivo Portugal não teria perdido a "TERANOVA DOLAVRADOR AQUAL SENHREA OSCORTEREAIS" e os franceses não teriam tomado posse do Canada...

Melhores cumprimentos de Genebra

José Manuel

De Alvor-Silves a 25.08.2015 às 07:25

Caro José Manuel,
aconselho seguir esta "pista" sobre a porcelana de Limoges:

http://www.cmjornal.xl.pt/cultura/detalhe/d-sebastiao-foi-preso-em-italia.html (http://www.cmjornal.xl.pt/cultura/detalhe/d-sebastiao-foi-preso-em-italia.html)

e passo a citar a notícia que já não me lembro se me passou despercebida ou não (nem sempre me interesso pelo assunto):

O rei D. Sebastião sobreviveu à batalha de Alcácer-Quibir e reapareceu no ano de 1598 em Itália, onde foi mais tarde preso em Veneza, Florença e Nápoles, com a cumplicidade dos espanhóis. Quem o escreve é a historiadora Maria Luísa Martins da Cunha no terceiro volume do livro ‘Grandes Enigmas da História de Portugal’, que é lançado hoje e a que o CM teve acesso. Segundo acrescenta a investigadora, "a maioria dos historiadores tem aceite sem discussão a versão oficial da História de D. Sebastião" que foi criada "durante o período da dominação filipina com claros intuitos políticos". Houve "uma destruição continuada e premeditada da imagem do rei ". Entre as provas que sustentam que D. Sebastião não morreu em Alcácer-Quibir, Maria Luísa Martins da Cunha cita "várias testemunhas que atestaram que o viram sair vivo da batalha, entre os quais Sebastião Figueira, que declarou ter saído dela com o rei" e que "o reconheceu em Veneza na pessoa do Cavaleiro da Cruz, ou, como ficou para a História, como ‘D. Sebastião de Veneza'." Mais: "Para além de outros indícios muito fortes, um indício importante de que D. Sebastião sobreviveu" foi "o achamento, no século XIX, de uma medalha de ouro com a inscrição ‘Sebastianus Primus Portugaliae Rex' num túmulo da capela de S. Sebastião do Convento dos Agostinhos de Limoges, onde segundo a tradição estava sepultado um rei português do mesmo nome.


Com uns poucos cliques cheguei logo a outro dado:

Ordem do Espirito Santo ... francesa!
https://fr.wikipedia.org/wiki/Ordre_du_Saint-Esprit

Qual a data da sua criação?
- 31 de Dezembro de 1578.
Foi mesmo antes que acabasse o ano de 1578.

Vou ver se esta "porcelana de Limoges" leva a mais algum lado!
Parece-me seguro que antes de do Séc XVII se havia cerâmica em Limoges não era porcelana tão delicada quanto a que a tornou famosa depois (a partir de 1771).
https://fr.wikipedia.org/wiki/Limoges
(quem é S.M. representado no brasão? sua majestade?)

Não sabia desse reconhecimento do Zimbabwe!
Já vi agora aqui:
https://en.wikipedia.org/wiki/Kingdom_of_Mutapa#Portuguese_Contact
Li sobre intervenção do Monomotapa, mas não muito...

E quanto às pretensões de D. Sebastião, acho que é só olhar para aquele mapa do costume:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2013/05/prova.html
para perceber que o rapaz sonhava alto, e haveria muita gente interessada em cortar-lhe as asas dos pés.

Muito obrigado,
Abraço!

De Alvor-Silves a 25.08.2015 às 07:27

Só como complemento... já adicionei algumas coisas aqui
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_de_Portugal
e aqui
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Alc%C3%A1cer-Quibir
... vejamos o que se segue.

De Anónimo a 25.08.2015 às 14:20

Tempos de D. Sebastião (muito ouro)

(...) Os monomotapas tornam-se dependentes dos portugueses e, em 1616, necessitam do auxílio militar destes para fazerem face a convulsões internas, tendo para tal Belchior de Araújo, Capitão-Mor de Tete, acorrido em seu auxílio. Só em 1628 é que Nyambo Kaparidze, referido pelos portugueses como Capranzine, guerreia os seus opressores, auxiliado pelos reis do Quiteve e de Manica, o que origina a morte de centenas de portugueses. No entanto, a resposta portuguesa é fulminante e Diogo de Sousa, liderando um força militar portuguesa, reprime a revolta. Derrotado, Capranzine retira-se e, daí em diante, os monomotapas são eleitos, muitas das vezes, consoante o interesse dos portugueses adoptando, inclusivé, nomes lusitanos como, por exemplo: Mazuva / Dom Filipe; Siti Kazumku Musapa / Dom Domingos (...) A principal causa da extinção deste Reino residiu na incrementação da política de instalação de novos prazos, nos quais os prazeiros, com os seus exércitos de achikundas munidos de armas de fogo, debelavam qualquer tentativa de autonomia. Contam-se, entre os prazeiros que assinaram a sentença definitiva do Reino do Monomotapa, Inácio de Jesus Xavier, João Lobo, José de Araújo Lobo,José do Rosário Andrade, Sebastião Morais de Almeida, Vicente José Ribeiro e Vicente Ribeiro da Fonseca. Em finais do século XIX o Monomotapa rebelar-se-á contra os portugueses, através do seu Rei Kandi e, depois, pelo seu filho Chioco, revolta essa que será definitivamente finda com a morte deste.

http://satanhoco.blogspot.ch/2012/03/antonio-fernandes.html

Olá,

Re: Ordem do Espirito Santo ... francesa!

Desconhecia, são tantas as que vieram de França para Portugal, que esta não parece ter tido membro português, o que me impressiona é a tenacidade desde o Império Romano aos franceses católicos à CEE/UE criada pelos mesmos, com o mesmo intuito de unirem todos os povos desta Europa debaixo da sua bandeira, isto é escravatura mascarada de várias formas.

Ao projecto napoleónico francês de dominar a Europa concluído com a UE (em Lisboa!) falta a base dos foguetes Ariane ogivas nucleares nas Lajes Açores (primeira grande guerra naval entre adeptos dos Filipes e franceses) e aumentar o número da população do "povo europeu" para fazer face aos USA, para tal será necessário abrir as portas à imigração africana para a Europa e incentivar os casamentos inter-raciais, métissage (está documentado) isto é um pouco uma cópia do plano da cristianização do D. Manuel, plano que obviamente não seria o autor, portanto o esquadro e compasso está a desenhar planos há muito, o D. Afonso Henriques era adepto de fazer rosas com o compasso coisa que não inventou certamente.

"A História repete-se sempre, pelo menos duas vezes - disse Hegel. Karl Marx acrescentou : a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa..."

Programme spatial français
https://fr.wikipedia.org/wiki/Programme_spatial_fran%C3%A7ais

Cpts.
José Manuel CH-GE

De Alvor-Silves a 09.09.2015 às 06:59

Caro José Manuel, ¨
mais uma vez acabei apanhado por outros afazeres, e só agora venho aqui à caixa de comentários.
Muito obrigado pelas informações!
Não tive tempo de ir mais longe nessa Ordem do Espírito Santo, mas hoje juntei aqui informação sobre a Austrália do Espírito Santo.
Enfim, há muita coisa que vai ter que falir...
Abraço

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