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Reino do Terror

18.01.15
Após a "Revolução Francesa" seguiu-se um período denominado "Reino do Terror" que nos introduziu à França contemporânea. A Idade Contemporânea é, por ajustamento de agulhas à obstinação francesa, marcada pela tomada da Bastilha - uma prisão onde basicamente não havia presos. O acontecimento foi marcado por alguns actos sangrentos subsequentes, mas não foi esse o principal problema.
"É assim que punimos os traidores" (Panfleto de 1789)

Passados quatro anos de instabilidade política, os Jacobinos liderados por Robespierre, vão elevar a violência do Estado contra os cidadãos, a níveis que não eram lembrados.
Como as caricaturas não são de hoje, mas ilustram bem o problema, a que se segue dá conta de Robespierre a guilhotinar o carrasco, depois de ter mandado cortar todas as cabeças francesas.
Após cortar todas as cabeças francesas,
Robespierre guilhotina o carrasco.
Tempos de fanatismo e desespero, levam a esta frase icónica de Robespierre (1794): 
"O governo revolucionário é o despotismo da liberdade contra a tirania"
A contradição de noções, é o que permite a um déspota ser contra os déspotas, é o que permite ser paladino da liberdade prendendo os outros.

O que justifica o terror senão o terror?
Contra os "terroristas" que ameaçavam o seu governo revolucionário, aplicavam-se as leis "anti-terroristas" habituais - ou seja, legalizava-se o terror estatal.
É claro que, mesmo quando a ameaça terrorista não existe, querendo impor terror, inventam-se terroristas... e se os desgraçados nem têm sucesso, facilitam-se as coisas.
O Dr. Guillotin ficou eternamente famoso pela guilhotina revolucionária, e a Robespierre só faltaria juntar toda a França numa única cabeça, para a decapitar, conforme se entende da caricatura.

As execuções eram cumpridas na estrita observância da lei.
Os 16 mil guilhotinados em menos de 1 ano, mostram a eficácia de uma justiça célere.
Os processos não se arrastavam por anos, tudo era decidido eficazmente em poucos minutos, apesar do veredicto raramente diferir da guilhotina.
Portanto, sobre Terror, a França ensinou-nos da eficácia da justiça no cumprimento da legalidade.

O terror que as populações sentem por acção de grupos fora-da-lei é sempre muitíssimo menor do que o terror imposto pelo próprio Estado. Quando se é alvo de uma acção de banditismo, recorre-se ou espera-se pela acção da polícia. Porém, se o Estado usa a polícia, a quem se recorre quando o terror tem origem no próprio Estado?
Foi esse sentimento de impotência que os cidadãos franceses sentiram, quando passaram a vítimas do terror estatal de Robespierre, homem que lutava ardentemente contra o terror aristocrata. Qualquer frase inadequada ou mal interpretada, qualquer denúncia arbitrária, poderia levar um inocente para uma justiça rápida, de desfecho legal quase certo - a guilhotina.

Houve portugueses adeptos da Revolução Francesa, que receberam de braços abertos as tropas napoleónicas - uma versão mais branda desse terror estatal. Nem todos puderam fugir para o Brasil, e muitos "foram parar ao Maneta". O "maneta" era o General Loison, conhecido não só por pilhagens, como também por actos violentos que vitimaram os portugueses... de tal forma que a frase ainda hoje é usada como aviso de tempos antigos.

Na Europa, estas tendências têm tendência a propagar-se rapidamente, e não podemos considerar que estamos numa bolha isolados. As mais escandalosas violações de liberdade, em nome de um terror que se chama "anti-terror", levam à justiça, pela lei do terror legalizado.

Cada vez mais pela integração e subordinação a leis europeias, contaminadas por paranóias alheias, de novos Robespierres, estamos sempre com o risco de novo de ir parar ao Maneta.

Há novas vítimas de um terrorismo estatal que, embandeirando na liberdade de expressão, ataca a liberdade de expressão. 
Nada pior para uma mente fechada do que uma boca aberta.
Não há apenas os casos conhecidos, há casos mais parvos, que reflectem bem a loucura que tomou hoje conta de estados que não estão lá longe... não são regimes despóticos lá nas arábias ou nas coreias, estão bem metidos dentro da nossa porta e até se pretendem vestir com "as cores da liberdade".

____________________
Excerto da notícia em thelocal.fr (13/01/2015)
In Orleans a young man was handed a six month jail sentence for shouting "Long live the Kalashnikov" at a group of police officers in the city.
He was also ordered to pay €200 in compensation to each of the four police officers. He claimed he was drunk at the time, admitting that it was a stupid thing to say.
Robespierre parece reencarnado, vejamos a legalidade:
“We can’t back down an inch,” public prosecutor Patrice Michel told AFP.
“It’s the first time we’ve applied the law of 14 of November 2014 in our fight against terrorism.”
Dubbed the “French Patriot Act” by its opponents, the bill received the support of a majority of lawmakers in the Senate but was deemed “anti-democratic” by civil rights groups and some political parties who were wary of the extended powers it granted the government.
Parece haver esperança - há quem esteja contra! Será?
All this criticism came before the worst terror attacks France has seen in more than 50 years, so opinions and doubts over the divisive legislation have more than likely been silenced, at least for now.
Ah! O acto terrorista silenciou a oposição à lei que vinha de ser aprovada. Só dá razão a todos os Robespierres, avisados por Nostradamus, do eventual atentado, que veio mesmo a ocorrer! Coincidências complicadas.
Vejamos o que diz um advogado de defesa:
"There are 40,000 tweets out there expressing support for the terrorists," he told AFP. "What are we going to do with all these people? Are the French prisons ready to take in 40,000 people, because they made a bad joke on Twitter?"
Quarenta mil pessoas com mau sentido de humor? 
Isso não impediria Robespierre de lhes tirar o riso.
O que parece interessar é educar o humor... Más piadas - prisão com elas!

A loucura só termina quando a loucura sai da cabeça. 
Robespierre, antes de guilhotinar toda a França, foi guilhotinado.
De qualquer forma, acabando com todos os inimigos, perceberia que o único inimigo que restava era afinal a sua cabeça. Não haveria pois outro remédio.
A sua morte não apagou os seus crimes, nem os dos patrocinadores ou complacentes com a loucura jacobina... mas esse assunto recorrente é remetido para outras esferas. Para esferas onde o único inimigo que resta é o próprio, porque ao pé de si já não consegue prender ninguém. E o pior... é que já nem a própria cabeça terá, para cortar o mal.

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publicado às 04:03


11 comentários

De Alvor-Silves a 20.01.2015 às 04:59

Bom, o assunto "sacrifícios humanos" dá para um bom tópico, e já andava a pensar fazê-lo.
Mais recentemente, por razão do "homem de vime", mas também pela razão do significado das palavras:
- hecatombe - sacrifício de 100, creio que apontado por Estrabão aos "Lusitanos".
- dizimar - castigo romano contra desertores/refractários em batalha, matando 1 em cada 10.

Também ficou famoso o registo do sacrifício de crianças pelos fenícios/cartagineses, mas há quem pense não haver suficientes provas disso, sendo mais pretexto romano posterior.

Portanto, é claro que podemos ser facilmente levados por tradições e registos históricos que nos induzem numa certa propaganda (por exemplo, lembro-me da piada lançada sobre "os comunistas comerem criancinhas").

Eu peguei no exemplo Azteca porque me pareceu ser o mais consensual sobre as suas práticas sacrificiais. Agora, o que é consensual nem sempre é o correcto, mas neste caso tendo sido lançadas dúvidas sobre o assunto, pensando na propaganda espanhola, parece que efectivamente têm sido encontrados múltiplos registos de sacríficios. No caso Azteca aponta-se mesmo para 80 mil num só ano. Os códices podem não servir, porque são posteriores à invasão, e o registo dos padres pode ser considerado orquestrado, mas parecem ter-se recolhidas provas forenses mais recentemente, e tudo aponta para essa prática antes documentada.
Quantos aos Incas, a situação seria razoavelmente diferente (nem faziam pirâmides), e creio que aí poderá ser mais uma extrapolação espanhola conveniente.

A descrição de Cortés aponta justamente para ser um festival, onde se iriam realizar sacrifícios humanos, o motivo para o conflito completo
http://en.wikipedia.org/wiki/Fall_of_Tenochtitlan#Massacre_at_the_festival_of_T.C3.B3xcatl

Agora, eu não conheço outros relatos onde seja dito que não havia essas práticas religiosas - pelos Aztecas. Creio que os Maias também não se escapam dessa associação, e onde me parece mais artificial foi realmente no caso Inca, onde foi apenas uma maneira de justificar o massacre espanhol.
De qualquer forma, e a menos que tenhamos que duvidar de quase tudo o que é dito... as práticas sacrificiais de guerreiros das tribos derrotadas eram comuns em toda a América, central e do sul, onde os registos de canibalismo chegaram até ao Séc. XX.

Agora, a prova de que a genética tem pouco a ver com os comportamentos éticos, é dada na atitude perfeitamente pacífica dos descendentes de escravos trazidos da costa do Golfo da Guiné, que em nada de substancial difere dos europeus colocados nas mesmas condições sociais, por exemplo, nos EUA ou no Brasil. Em contraponto, nessas paragens de origem, é fomentada e educada uma violência primária, que atinge as maiores atrocidades ainda hoje.

Por isso, basta ver como descambou a Guerra Civil espanhola, para perceber que a distância que nos separa entre a cortesia e a barbárie depende muito do contexto criado. Más lideranças criam pessoas más. Mas, tal como "há bons em épocas más", também "há maus em épocas boas"... mas será sempre mais notável ver a réstia de bondade, porque foi essa que nos livrou de extinções completas em épocas anteriores.

Abraços.

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