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Uma componente que caracterizava os pequenos-almoços ingleses, por diferença ao menos substancial "continental breakfast", era a presença de toucinho e ovos. Hoje pouco se fala em "toucinho fumado", e adoptou-se o anglicismo "bacon".
Por outro lado, Roger Bacon chamou "philosophical egg" à pedra filosofal... e este ovo de Bacon foi cozinhado numa estranha receita encriptada:
How to make the Philosophee's Egg (or Stoke) and Gunpowder.
Six hundred and thirty years of the Arabs being finished, I respond to your petition in this manner...
Let there be taken of the bones of Ada, and of lime, the same weight; and let there be six at the stone of Tagus, and five at the stone of union; and let them be rubbed up at the same time with water of life, whose property it is to dissolve all other things, so that they may be dissolved in it and cooked together. And let this rubbing and cooking be repeated until they are incerated; that is, that the parts may be united as in wax. And the sign of inceration is, that the medicine liquefies over intensely glowing iron. Then let it be placed in the same water in a hot and damp place, or suspended in the steam of very hot water; then let them be dissolved and hardened in the sun. Then you are to take saltpeter, and pour quicksilver upon lead, and again wash and cleanse the lead with it so that it may be very near to silver, and then operate as before. Also let the whole weight be thirty. But yet of saltpeter LUBU VOPO VIR CAN UTRIET of sulphur; and thus you may make thunder and lightning, if you know the method of construction. 
O estranho cozinhado de Bacon encontra-se numa carta sua enviada no Séc. XIII a um certo William, de Paris, aparecendo com o título geral "Non existence of Magic". 
Não é propriamente este conteúdo enigmático que nos interessa, nem tão pouco a menção a um único local, o Tejo, porque o "estarem seis na pedra do Tejo", poderia remeter-nos a uma passagem das quinas a sinas, ou a chinas, algo de que já falámos, ou à própria sina, cujo sinónimo é fado. 
Aliás, Bacon continua, esclarecendo se é ali verdadeiro, ou simplesmente enigmático...
You can see, nevertheless, whether I speak enigmatically or truthfully. And some may have judged otherwise.
For it has been said to me that you ought to resolve everything into a primal material, on which you have two deliverances from Aristotle in his popularized and famous book ; on account of which I am silent. And when you have possessed yourself of that, then you will have pure elements, simple and equal ; and you may do this by contrary means and various operations, which I have before called the Keys of Art. And Aristotle says that equality of powers excludes action, and passion, and corruption. And Averroes says this in reprobation of Galen. And that is rated simpler in medicine, and purer, which can be procured ; and this is worth more against fevers, and affections of the mind and body.

Farewell. 
And whoever shall have opened these things will have the key which opens them, ahd no one may shut it ; and when he shall have shut it no one may open it. 
O que mais nos interessa nesta carta de Bacon é o assumir do "secretismo dos sábios". Portanto, se há uma grande teoria da conspiração contra a população ela está bem explícita neste texto medieval, com a justificação esperada - se à "populaça" fossem dados os conhecimentos secretos, grandes perigos resultariam, e por isso, desde o início (presume-se desde o momento em que "correu mal") os "sábios", os "magos", teriam escondido de muitas formas os segredos do conhecimento da ameaçadora populaça.  
And so it is insane that anything secret should be written down unless it be concealed from the populace, and with difficulty understood by the most studious and the wise.
So has run all the multitude of the wise from the beginning, and it has hidden in many ways the secrets of wisdom from the populace. For some have hidden many things by characters and charms, others by enigmatic and figuratiye words, as Aristotle in the book of Secrets saying to Alexander : "
O Alexander, I wish to show you the greatest secret of secrets, and the divine power shall aid you to conceal the mystery, and to execute the design. Take, therefore, the stone which is not a stone, and it is in what man you will, and what place you will, and what time you will; and it is called the philosopher's egg, and the terminus of the egg." And thus innumerable things are found in many books and various sciences, obscured by such speeches, so that they cannot in any way be understood without a teacher. 
Assim, é por via de Aristóteles que Bacon fala do ovo... ou pedra filosofal. Afinal, uma pedra que não é uma pedra, que está em qualquer homem, em qualquer lugar, em qualquer tempo... pouco mais poderia ser que a própria abstracção humana (ilustrado no poema de Gedeão "Pedra Filosofal" como sendo a essência do sonho). De facto, a descrição aristotélica remete bem para a essência constituinte universal, englobando tudo o que é identificável... se a pedra, ao jeito do átomo de Demócrito, poderia simbolizar o constituinte fundamental de toda a matéria, faltariam sempre os constituintes abstractos, do espaço, do tempo, ou mais simplesmente, faltaria o constituinte das ideias humanas. 

Mas não interessa aqui tanto os aspectos ontológicos da filosofia, especialmente debatidos na época medieval, quando houve um efectivo negar da tecnologia, em estilos de vida semelhantes aos ainda hoje defendidos pelos amish ou, em menor escala, procurados pelos movimentos hippies. E sobre este aspecto, também o texto de Bacon não é escasso em "revelações"... falando em carruagens que se moveriam a grande velocidade sem auxílio de animais, em barcos sem remadores, conduzidos por um só homem, ou ainda em "máquinas de voar":
For instruments of navigation can be made without men as rowers, so that the largest ships, river and ocean, may be borne on, with the guidance of one man, with greater speed than if full of men. Also carriages can be made so that without an animal they may be moved with incalculable speed; as we may assume the scythed chariots to have been, with which battles were fought in ancient times. Also instruments for flying can be made, so that a man may sit in the middle of the instrument, revolving some contrivance by which wings artificially constructed may beat the air, in the manner of a bird flying.
Tudo isto, e mais, poderia ser classificado no domínio da simples hipótese especulativa de um monge inglês alucinado. Porém, ele simplesmente confirma a existência passada e contemporânea a si, por testemunho directo, colocando apenas excepção à "máquina voadora", que não teria visto pessoalmente. 
These things were done in ancient times, and are done in our own, as is certain, unless it may be the instrument for flying, which I have not seen, nor do I know any man who has seen; but I know that the wise man who planned this device completed it. And such things can be made almost infinitely, as bridges across rivers without pillars or any other support, and machines, and unheard-of devices. 
Talvez o relato mais credível que lhe é apontado será sobre lentes ópticas, onde seguirá trabalhos anteriores (nomeadamente do sábio persa Alhazen

Não será o primeiro a afirmar que seria possível construir lentes que permitiriam ler o mais pequeno texto a grande distância, e certamente que outros trabalhos sobre óptica indiciaram o mesmo conhecimento. Acrescenta que Júlio César teria usado essas lunetas ou telescópios para inspeccionar os castelos na costa inglesa (referindo-se certamente à vista de Dover a partir de Calais). 
For glasses can be so constructed that things placed very far off may appear very near, and vice versa; so that from an incredible distance we may read the minutest letters, and number things however little, and make the stars appear where we will. For thus it is believed that Julius Caesar, on the shore of the sea in Gaul, discovered through huge glasses the disposition and sites of the castles and towns of Great Britain. 
É assim neste contexto que Roger Bacon afirma a presença de um conhecimento secreto, ausente da população, mas detido desde a Antiguidade por "sábios". Este conhecimento iria aparecer, ou reaparecer, logo no final da Idade Média... por exemplo, com o uso de óculos por monges, ou com uma maior difusão da pólvora, que iria marcar as guerras na Idade Moderna, no advento dos descobrimentos. Conforme ilustrado na charada sobre o ovo de Colombo, o término do ovo seria quebrado, para acomodar a farsa evolutiva seguinte.
A observação a posteriori é sempre muito simples. Porém, uma coisa é ver o resultado, outra coisa é ver o caminho. E entre tanto ver, há diversas coisas que não poderiam deixar de ser vistas...

A historieta ensinada aos petizes, conta sobre a invenção do telescópio em 1609 por Galileu, mas o nome de Galileu foi um dos vários escolhidos para contar uma estória. É hoje aceite que havia várias tentativas de registo de patente na Holanda em 1608, e por isso Galileu passa por tê-lo "aperfeiçoado" (sabe-se hoje que nem terá sido o primeiro a reclamar ter visto as luas de Júpiter). Afinal, a razão pela qual tanta coisa começou a ser descoberta na "Holanda", na França, Inglaterra, Escócia, etc... tem muito simplesmente a ver com a libertação da proibição papal, conseguida a custo da Guerra dos Trinta Anos. 
A "caixa de Pandora" estaria de novo acessível, não tanto pela sua consulta directa, mas por uma certa permissão para "redescobrir" em certos territórios menos católicos. Assim, as velhas invenções passaram para novos inventores, e a época dos grandes génios, saídos da lâmpada, era autorizada. 
Não era autorizada por completo, pois o salto de canguru para a Austrália, só foi outorgado mais tarde, na altura em que foram soltas as diversas maquinetas que alimentariam a revolução industrial seguinte. Nesta fase, já a caixa de Pandora estaria entregue também à nova associação de guardadores de segredos - a maçonaria, que actuaria nesses países em substituição do antigo controlo papal, através dos seus monges e das suas bulas (aliás "bull sheet" é literalmente uma "folha da bula").

Para terminar, relembramos o episódio do incêndio da frota romana pelos espelhos de Arquimedes.
Esse episódio foi relatado pelo arquitecto de Hagia Sophia, portanto muitos séculos depois, e temos aqui uma ilustração do evento:

O espelho incinerador de Arquimedes - pintura de Giulio Parigi (c. 1600).

O que interessa deste facto é muito simples.
Se Arquimedes tivesse feito um espelho capaz de incendiar o que quer que fosse... também teria construído o espelho parabólico de um telescópio... porque são iguais, ou aliás, seria até mais simples o espelho do telescópio atribuído depois a Newton.

A questão importante aqui é que é reconhecido que havia na Antiguidade lentes capazes de incendiar, mas não é reconhecida a existência de lupas, ou outras lentes ópticas ampliadoras.
Portanto, o grotesco, o absurdo, o caricato, é que se admite que os romanos usavam lupas ou espelhos para atear fogo, mas... espante-se a populaça, ninguém olhava para elas, desconhecendo afinal que ampliavam!!

Sim, havia lentes, na forma de lupas, como o caso da lente de Nimrud, das lentes de Visby ou muitos outros casos (ver apontamento em www.ancient-wisdom.co.uk/optics.htm).
Lente viking (Visby, ilha de Gotland, Suécia)
No entanto, já sabemos as possibilidades:
- na versão oficial, são normalmente consideradas "coisas" decorativas... e assim apesar de até servirem para se olhar para elas, ninguém repararia que ampliavam.
- na versão History Channel, provavelmente seriam dadas como coisas de extraterrestres. 

Quem conhecer minimamente o processo de fabricar vidro, perceberá que uma situação comum seria a de obter vidros que deformassem, e em particular que ampliassem ou reduzissem. Por isso, desde que o vidro foi fabricado, as lentes seriam conhecidas, perdendo-se tal conhecimento na noite dos tempos. 
Quando o vidro era fabricado com a qualidade que os Romanos exibiram (ver texto anterior sobre a Taça Licurgo), o que seria de esperar, seriam lentes de grande qualidade e precisão, rivalizando certamente com os telescópios do Séc. XIX.  

Roger Bacon explicava-nos esta necessidade de manter a populaça desinformada, e o seu homónimo, Francis Bacon, conselheiro privilegiado de Isabel I, foi depois um grande promotor do método científico. O passo para abrir o conhecimento a uma parte alargada da população iria sendo dado, pouco a pouco. Da ocultação total e obscurantismo medieval, a caixa de Pandora foi sendo aberta de novo, provavelmente porque houve resultados que suplantaram os antigos, porque foram definidas formas de conter a ameaça gentia. Afinal, mantendo os génios entretidos no seu ofício, funcionariam como máquinas, cuja função seria o simples acrescentar de novos "brinquedos", a troco da cenoura de um certo reconhecimento individual. O sábio medieval, praticamente anónimo, daria lugar a uma fabricação de estrelas científicas e intelectuais. As estrelas de referência, de renome, orientariam os olhos e os passos da caminhada dos novos petizes, que os procurariam imitar, bajular, etc.
Roger that, Bacon.

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publicado às 04:50


4 comentários

De Anónimo a 02.01.2015 às 20:40

Re: "espante-se a populaça, ninguém olhava para elas, desconhecendo afinal que ampliavam!!"

Um recipiente de vidro cilíndrico com água dá uma boa lupa...

Sobre descobertas e encobertas diria que tudo dependo do que se quer ver ou o que se escolhe de ignorar, mas é verdade que o difícil depois de mostrado pela primeira vez vira fácil e cai no esquecimento.

Em caso de colapso da civilização actual de nada serviria um avião sem tudo o que o faz voar, passados 12 mil anos talvez restasse o espesso cristal duma das suas janelas...

Bom 2015

Cpts.
José Manuel CH-GE

De Olinda P. Gil © a 05.01.2015 às 22:30

Bolas de Cristal...

De Alvor-Silves a 06.01.2015 às 04:58

Tem razão, José Manuel, cresceu muito no Séc. XX a diferença entre o que se usa, e o que se compreende minimamente o funcionamento.
Colocados um grupo de pessoas de hoje num local com toda a matéria prima, mas sem quaisquer ferramentas, se sobrevivessem, só atingiriam um nível próximo ao do Séc. XIX ao fim de várias gerações.
Porque os primeiros problemas com que se defrontariam seriam dificuldades ancestrais... e não começava apenas o habitual problema de fazer fogo, começava pela grande dificuldade em recolher, fundir e moldar metais, e até em fazer vidro... mesmo que soubessem o que queriam replicar, o que já era uma grande vantagem, demoraria bastante a encontrar o processo de novo.
Vi um programa num canal qualquer, onde deixavam duas pessoas, com treino militar, num sítio remoto, sem nada (só com isqueiros ou facas), durante 2 semanas. O que faziam? - Esperavam que o tempo passasse, tentando matar alguns animais pequenos, algo que dificilmente conseguiam, saindo de lá praticamente doentes e esqueléticos.
Raramente nos damos conta de pequenas grandes vantagens que usufruímos pela evolução da vida comunitária... apesar de todos os defeitos que lhe conhecemos.

Melhores votos para 2015.
Abraço.

De Alvor-Silves a 06.01.2015 às 05:04

Essa é uma boa observação, Olinda.
De facto, as bolas de cristal estão também associadas a bruxaria, à magia da visão do futuro.
Assim, também Roger Bacon com as suas revelações futuristas, falando de coisas que não se podiam ver ou saber, acabou por ser condenado por heresias, e convenientemente encarcerado até ao final da sua vida.

Abraços e melhores votos para 2015.

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