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T´ouro

24.11.18
Em 1876 a Sociedade Protectora dos Animais, dirigida pelo Conde de Penamacor (António Maria de Saldanha e Castro Ribafria), apresentou um requerimento ao rei D. Luís para a abolição das touradas. O documento exemplar está disponível aqui:

Requerimento a sua magestade el-rei pedindo a abolição das touradas em Portugal


Transcrevo o primeiro ponto, mas o documento de 34 páginas merece ser lido.
Tudo quanto tender, directa ou indirectamente, para extirpar dos usos nacionais os restos da barbárie de antigas eras, amaciar os animos, e espalhar ideias sensatas, suaves, e compassivas, é da estricta obrigação d'esta Sociedade lembral-o, pregoal-o, e persuadil-o quanto poder. Às auctoridades constituídas (sabe-o Vossa Magestade para ventura d'esta nação) compete propagar aquellas ideas sãs, empregar todos os meios para desenvolver no povo as tendencias humanitarias, e arrancal-o aos perigosos entretenimentos, que lhe acordam no peito o desamor, a ferocidade para com os animaes, e a final lhe endurecem o coração para com os seus próprios semelhantes.
Entre os usos mais barbaros figuram em primeiro logar as repugnantes, as inqualificaveis corridas de touros, vestígio das civilisações cahoticas e sanguinarias de outros tempos, descendencia espuria dos circos romanos, escarneo ás ideas modernas, conservado para opprobrio da Peninsula em face da Europa culta, christã, e utilitaria, e em pleno seculo XIX!
Não ha principio que as defenda; não ha lei que as auctorise; não ha consideração, que não as condemne bem alto.
Vamos demonstral-o.
I
Não ha principio moral que defenda as corridas de touros. Martyrisar durante horas, e sem motivo, uns desgraçados animaes, arrancados ao seu meio, á sua vida pacífica, arrastados a grande custo, e com grande risco, a enormes distancias, é (pelo menos) prova de uma ociosidade de animo e de uma crueza notaveis; muito mais, se considerarmos que as victimas são, antes de entrarem na praça, barbaramente espicaçadas a pampilho no recinto de poucos palmos que lhes serve de jaula, a fim de se acordar nellas maior furia, isto é mais pretextos a maior supplicio.
Acabada a tourada, chega, em vez do descanço, o chamado curativo. O curativo das feridas feitas a sangue frio por homens adestrados n'aquelle triste mister, e talvez mais atormentador do que os dois supplicios que se acabam de infligir.
E quem auctorisa o homem, o rei magnanimo da creação, a fazer das dores de algum ente vivo o joguete para horas frivolas, a suppliciar esses bons animaes, dos mais uteis sem duvida, dos nossos mais prestadios servidores, os bois, companheiros e instrumentos das lidas agrarias, servos constantes, e não salariados, do lavrador!?
Quem permitte á praça de touros, ignobil e ridiculo Colliseu de taboas pintadas, recinto immoral, onde a crueldade se arvora praticamente em principio, a vir desmentir com ironias as doutrinas puras da escola primaria, onde se inoculam theoricamente nas creanças as ideas de compaixão e protecção para com os irracionaes?
Vir-se-ha ainda invocar, pela millesima vez, a usança, a posse consuetudinaria, para justificar as corridas? fraco argumento na verdade, ante o qual cairiam sem duvida por terra todas as reformas, por mais uteis, por mais instadasl
Não confundâmos a tradição, esse archivo sui generis das nações, com as praticas e costumagens da plebe inculta. Nada mais alto, Senhor, nada mais nobre, que as commemorações do passado; nada mais augusto, que a tradição dos povos. Nada mais odíoso que o preconceito, enferrujado grilhão da nossa escravidão moral.
Adduzir-se-ha ainda o exemplo da nossa briosa visinha, a Hespanha, onde (pela força do vezo) as corridas são bem mais barbaras do que em Portugal? Mas essa sombra de rasão não poderia colher, visto que o pessimo alheio não justifica nunca o nosso mau.
Julgar-se-ha defender as touradas affirmando serem ellas clara prova da dextreza dos cavalleiros e capinhas, signal do seu sangue frio e da sua hombridade, e mostra brilhante da victoria do engenho sobre a força? Mas, por Deus! quando tantas outras demonstrações podem blazonar aquelles luctadores da sua pericia e do seu valor, porque hão-de assim escolher para taes alardos o mais condemnavel dos passatempos, praticando sevicias inuteis, e (o que é mais grave) expondo a vida n'uma lucta ingloria, sem alvo nobre, sem motivo que saiba ao menos justificar os meios? 
Os argumentos continuam, invocando o papel primeiro que Portugal teve em abolir a pena de morte, algo já então entendido como motivo de orgulho nacional. Faz uma resenha história que lembra uma proibição das touradas por bula papal de 1567 de Pio V, proibição que durou 8 anos, até que em 1575, por pressão do rei de Espanha, Filipe II, foi levantada a excomunhão aos toureiros pelo papa seguinte, Gregório XIII.
Não deixa ainda de se lembrar que D. Afonso VI ou o irmão D. Pedro II impuseram algumas proibições, determinando o fim do toureio com os cornos afiados. 
Lembra-se ainda o decreto de Passos Manuel de 1836, em nome da rainha D. Maria II, que proibia as touradas, mas que viria no ano seguinte a revogar a proibição... este foi um ponto falado nas últimas semanas.

Numa sociedade que praticamente desprezou tudo o que eram tradições populares, vindas de tempos imemoriais, perdendo-se grande parte do seu significado, é especialmente caricato ver uma protecção desta prática com o argumento da "tradição". 

O argumento da "tradição" é uma "contradição", porque nenhum dos promotores tem a mais pálida ideia de qual seria o significado remoto dela. A herança mais recente poderá ter-se ligado a uma continuação dos circos romanos, conforme sugere o documento, no seu lado de espectáculo violento, promotor da libertação de um lado negro na índole humana.
Mas, do que pude entender, a tradição mais antiga prende-se provavelmente com a celebração do "touro embolado", com os cornos em chamas, conforme referimos em postal anterior:
... e que pode estar ligado a uma manifestação ainda mais antiga, encontrada em pinturas rupestres na Crimeia.
Há alguma ligação histórica pretendida entre uma coisa e outra? Algum nexo, alguma moral digna, algum ensinamento primevo que se transmita? Claro que não!
Curiosamente, se alguém promovesse o espectáculo do "touro embolado", seria provavelmente acusado de mau trato aos animais... apesar de nada disso se passar, e haver muito mais razões e mais antigas, para manter essa tradição. Lembramos ainda os frescos de Creta, onde o convívio com o touro se limitava à acrobacia de fazer um "pinote" nas suas costas.
Se o "touro embolado" é uma tradição que remonta à pré-história, é muito natural que as touradas tenham aparecido "recentemente", na altura em que a civilização da Lua deu lugar à civilização do Sol. Ou seja, quando o tempo da caça, regido pelos meses lunares, deu lugar ao tempo da agricultura, regido pelos anos solares.

O crescente dos cornos do touro sempre esteve associado à Lua, e às sua fases, que mostrava esse mesmo aspecto, em quarto crescente ou quarto minguante. O touro esteve assim ligado a uma civilização primordial, matriarcal, de pequenas comunidades, uma sociedade mais feminina do que masculina. A sua importância não parece perdida na palavra onde touro ou tauro se liga a ouro ou a auro, a um esplendor antigo, entretanto perdido.
A substituição da caça pela agricultura trouxe comunidades sucessivamente maiores, de dimensão descomunal, onde "descomunal" significa mesmo fora da comunidade, pela sua dimensão exagerada. O símbolo dessa civilização agrícola passou a ser o Sol em substituição da Lua, e parece-me natural que tourear o touro, fosse uma espécie de comemoração insana da vitória do dia sobre a noite, na perspectiva dos novos mandantes.

Interessa que é absolutamente perverso, e cínico, invocar tradição sem querer ligar ao seu significado, não ao significado de duas patacoadas e meia, mas sim ao significado mais profundo.
O que resta assim da tradição é apenas o espectáculo... e sobre esse mesmo espectáculo não há grandes dúvidas - ou a empatia com o touro é maior, ou é menor.
Havendo empatia com o touro, quem observa o espectáculo, ou simplesmente quem sabe que ele existe, não pode ficar indiferente a que haja pessoas que não tenham qualquer empatia pelo bicho, e o tratem de forma desalmada. Não se trata de uma questão de liberdade, tal como não faz parte da liberdade individual afectar a liberdade alheia.
Trata-se de uma questao de civilização.

Enquanto a nossa civilização não evoluir ao ponto de nutrir empatia com o que nos rodeia, pois permanecerá numa evolução que leva inevitavelmente à separação, e ao afunilamento em grupinhos e grupelhos.
Não me preocupa muito o sofrimento do touro, preocupa-me saber que há quem saiba que o touro sofre e faça disso um espectáculo. Não tem paralelo com outro tipo de sofrimento infligido a animais, que pelo menos serve um pretexto de necessidade humana.


Nota adicional (24.11.2018):
Surge este postal também um pouco na sequência dos comentários ao anterior.

Convém salientar o argumento de atraso civilizacional no Século XIX... pois estamos no XXI.
Há assim uma tradição crítica que remonta não apenas aos quase 150 anos deste requerimento, mas até aos mais de 450 anos da bula papal. 
Ao mesmo tempo que há já proibição do uso de animais em espectáculos de circo, a tauromaquia tem se feito valer da sua última ligação às ganadarias e perdida aristocracia, para mover influências e manter ao longo dos séculos este status quo. Não é apenas o touro bravo que arrisca extinção, é uma última ligação de alguma aristocracia ao combate de sangue, que dos sarracenos passou para os bovinos. 
Citando o documento: 
- "Tristissimo preconceito (ainda hoje não extincto) o que assim erguia aqueles lidadores do corro á cathegoria de heroes, e como que realçava, perante a opinião de uns certos, o quilate heraldico dos seus brazões."

O argumento de que sem as touradas não existiriam os touros... tem alguma razão histórica, mas não tem a razão emocional. Não podem os ganadeiros invocar-se como protectores da espécie, se apenas o fizeram para gáudio da exploração sem consideração pelo animal, socorrem-se da tradição para uma contradição de propósitos.

Finalmente, do outro lado da barricada, começam a crescer vozes de uma completa imbecilidade argumentativa, colocando o homem como apenas mais uma espécie, que não tem o direito de se querer distinguir dos restantes animais. Essa insanidade que aparenta ser científica, é uma irracionalidade básica, promovida por muitos pretensos cientistas. 
Quando o homem é colocado par a par com os restantes animais, tem liberdade para agir irracionalmente. É por isso de uma perfeita contradição de termos pedir racionalidade, invocando uma paridade com a irracionalidade.
Uma tristeza dos nossos dias...

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publicado às 06:51


5 comentários

De João Ribeiro a 27.11.2018 às 09:21

Como liga a palavra touro/taurus com ouro/aura deixo-lhe aqui um bovino (infelizmente extinto) cujo nome faz precisamente essa conexão.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Auroque

Poderão ter sido estes bovinos que se encontravam em grande quantidade nos termos da Atouguia de que falam as crónicas. E pela aproximação fonética quase que poderíamos afirmar que nos campos de Ourique pastavam muito auroques ehehh.

Cumpts,

JR

De Alvor-Silves a 27.11.2018 às 11:50

Pois, é óptima essa observação.
De facto, como também dissemos antes, Atouguia poderia ser A-touria.
E... ainda que extintos os auroques, por cá há bois suficientemente parecidos:
https://alvor-silves.blogspot.com/2015/08/estado-da-arte-4.html

Já agora, quando falamos em "aura" relaciona-se com uma decoração na cabeça, não somos suficientemente maus para dizer que "boa aura" seriam "bons chifres", mas a diferença é que os chifres bovinos seriam metade de uma aura.

Não vamos saber se estas conexões são mais do que coincidências, mas como já vimos abundam o suficiente, para podermos levá-las mais a sério.

Abç

De João Ribeiro a 05.12.2018 às 13:55

Boa tarde,

Relacionado com o tema:

https://www.publico.pt/2018/11/24/politica/noticia/vida-privada-toiro-bravo-20-minutos-fama-1852241

Umas coisas certas, outras erradas.

Cumpts,

JR

De João Ribeiro a 01.07.2020 às 08:57

Bom dia caro Da Maia,

Apenas uma curiosidade...

Hoje enquanto lia um pedaço do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro (edição do fragmento manuscrito da Biblioteca da Ajuda) dei com isto ..." dona leonor Vaasques que foi freyra ê auroca". Lembrei-me de imediato desta nossa troca de comentários. É certo que no séc XIV a escrita não estava padronizada da forma que está hoje em dia e certas palavras eram escritas das mais variadas formas mas fica o registo. A moderna Arouca poderá advir de "Auroca" como em terra dos auroques. E veja como as coisas são, pois Arouca é deveras conhecida pela famigerada raça bovina autóctone, "Arouquesa".

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arouquesa_(ra%C3%A7a_bovina)


Cumpts,

JR

De Alvor-Silves a 02.07.2020 às 07:38

Caro João,
sim, confirma-se.

É dito que Arouca se chamava antes Auroca, p.ex. Elucidario das palavras, p. 274:

https://archive.org/details/elucidariodaspal00vite/page/n283/mode/2up

Boa pesquisa! Obrigado.


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