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Pés e Cabeça

16.09.13
Um dos registos passados mais misteriosos é o que diz respeito à deformação cefálica.
Que motivo levou diferentes civilizações a deformarem os seus crânios de forma tão pronunciada?
Olhando para os crânios deformados da civilização de Paracas (Perú, zona Nazca), apenas pelos aspectos morfológicos, poderíamos até duvidar que se tratavam de Homo Sapiens...
Crânios deformados encontrados em Paracas... (ver também esta página)
Dada a sua vizinhança à paisagem Nazca, é de perguntar: 
- por que razão estes crânios expostos em museu, que lembram "figurações extraterrestres",
não aparecem habitualmente nos livros sobre Nazca, onde se fazem conjecturas sobre visitas passadas?

Não é só em Paracas (península de Ica, perto das figuras Nazcas) que se encontram crânios deformados.
A página da wikipedia que citámos (e que remete ao livro The Enigma Of Cranial Deformation: Elongated Skulls Of The Ancients, D.H. Childress and B. Foerster, 2012), indica vários casos: 
They were not unique in this, as the process of manipulating the shape of a child's head in infancy was practiced by many cultures, at different times, around the world. These other cultures include those in ancient Iraq, Russia, Melanesia, Malta, North America, Mexico, and possibly Egypt during the Amarna period: Tutankhamen has been cited as having an elongated head, but that is disputed by many scholars.
O que motivaria esta tradição em culturas que vão da Oceania (Melanésia) até à Europa (Rússia, Malta), ou às Américas (Mexico, Perú)?
Não se trata propriamente de uma moda de "corte de cabelo"... a deformação craniana é um processo violento, que poderia provocar dores inimagináveis.
Pintura do Séc. XIX (Paul Kane), representando o processo de deformação cefálica
numa criança índia Chinookan (EUA), e um resultado obtido no adulto...

No entanto, este processo estava normalmente associado a uma certa casta social... ou seja, parecia haver uma vontade de se parecer com algum modelo. Haveria uma ligação religiosa a xamãs ou sacerdotes, propagada pelas classes mais altas. É pouco verosímil que povos tão distintos se lembrassem do mesmo absurdo sem que houvesse um motivo forte, e sem dúvida que teria havido um elo ou influência comum. É dito ainda que tal prática, que ocorre modernamente, poderia colocar a pessoa mais próximo do "mundo dos espíritos"... pode ser por alucinações, ou por tradição de contacto com os tais "modelos".

Quanto à conexão entre estes crânios alongados, existentes nos Aztecas, Maias, Incas e os crânios alongados representados no Egipto, creio que esta imagem (daqui) é auto-suficiente:
Os crânios alongados de um lado do Atlântico... e do outro.
Quase todas as imagens apresentadas na página (que deve ser visitada)
... mostram bem as semelhanças e conexões culturais entre o Egipto e os Incas.

Bom, a sugestão de ligação habitual passa pela Atlântida perdida... mas convenhamos, isso não nos leva à Melanésia ou Polinésia, onde este costume ainda se mantinha, bem como que parece ter sido praticado entre os Aborígenes Australianos. Nem nos leva a registos russos... ou ainda à tradição que se manteve entre suevos e alanos (de que já falámos no texto "Suevos e os Arianismos", a propósito do texto "Mare Suevorum", no blog Portugalliae)

Isto é mais um dado no sentido da ligação que vai da Nova Guiné à Europa, passando pela América... falha aqui o registo indiano ou chinês. 
No caso chinês (ou japonês), as deformações não ficaram na cabeça, passaram para os pés.
O drama da deformação de pés, num conceito de "beleza" oriental.

Dir-se-à que isto "não tem pés, nem cabeça"... mas fico cada vez mais circunspecto com a língua e expressões que herdámos. Aliás, para além de alguns títulos "sugestivos", estou a evitar entrar na questão da linguagem, porque apesar de haver coincidências a um nível demasiado grande, não é fácil abordar o assunto de maneira clara, sem entrar em especulações. 
Porém, neste caso é inevitável falar na questão da palavra "colar"... lembrar a Cola do Dragão, cobra que afinal cobre e cobra, a troco de cobres, unindo o "cou" ao pescoço francês. E sendo coço a traseira, juntar pés e coço em pescoço, mostra como colam os colares ao pescoço, com as devidas Ordens. Bom, mas já dei o meu chá para essa procissão... 

O que me interessa aqui é abordar o "modelo"... ou seja, será que estas culturas pretenderam imitar um modelo de pessoas que tinham um aspecto diferente?
Haveria uma raça diferente, dominadora, que teria servido de modelo?
Poderia falar em extraterrestre... mas tenho largas dúvidas sobre essa teoria. 
O que teria mais de "extra" seria não se querer misturar com os outros, porque afinal de contas não deixariam de ter aspecto macacóide, como todos nós, desde o Erectus ao Sapiens, passando pelos Neandertal. Ah, e claro que também teriam "esperteza macaca"!

O que é perfeitamente natural, e é nisso que tenho insistido, é que estes últimos 100 ou 200 anos, nos mostraram como poderia evoluir rapidamente uma sociedade humana, quando o génio é libertado, e não fica preso em tradições absurdas que nos amarraram a cabeça e os pés.
Se houve dezenas de milhar de anos de estagnação não foi por falta de génio... foi porque uma educação condicionada, baseada numa estrita tradição, é a maior prisão que pode existir para o espírito humano. As pessoas são ensinadas a ter os seus objectivos programados para uma inserção na sua sociedade, e se essa sociedade está doente, os indivíduos são contaminados por essa doença. As ideias instalam-se e formatam os cérebros para determinadas expectativas e objectivos, são raros os que questionam o funcionamento, e só o fazem quando tiverem razões para isso.
Faço apenas notar uma coisa - o tempo mais importante é o tempo de perceber o que é importante.
Esse tempo nunca é uma perda de tempo, porque só depois de perceber a importância das coisas é que podemos falar em perda de tempo.

A verdade é importante, mas muito mais importante do que conhecer a verdade, é aprender a distinguir o que é falso. A verdade surge apenas como consequência desse processo. 
Por exemplo, o que será mais relevante? 
- Que se decida agora publicar os segredos, ou que se definam políticas educativas que mostrem a falsidade e de como a ocultação pode ser global?
Se os segredos fossem "revelados", ficaríamos convencidos?... Como dizia Albert Pike, o famoso mação, "revelar" é apenas colocar novo véu (velo). Tal coisa poderia ser feita numa grande encenação hollywoodesca, talvez até com  gente disfarçada de humanóides, para justificar a nossa provação (e de como os nossos dirigentes eram uns meros coitados, lutando contra forças extraterrestres)!

Não há qualquer dúvida que grande parte da humanidade foi enganada durante milhares de anos, e essa capacidade de enganar não desaparece pela simples vontade. Se somos capazes de enganar, o que é importante é ser capaz de reconhecer o engano. Se há estruturas sociais dedicadas ao engano, deveria também haver estruturas sociais dedicadas a combater o engano... caso contrário o desequilíbrio é imenso.

O maior engano das estruturas sociais é que passam a seres abstractos que se usam os indivíduos contra si próprios. Nunca nenhum indivíduo vai conseguir identificar-se à estrutura, e por isso, enquanto indivíduo, vai-se sempre sentir frágil. Pode julgar que ignora isso, por estar dentro e beneficiar da estrutura, mas não conseguirá nunca libertar-se do seu papel de simples indivíduo no meio da estrutura que o ultrapassa... 
O que uma sociedade faz de mal a um indivíduo, faz por medo a todos o que o souberem.

Bom, voltando à questão das cabeças alongadas, não posso deixar de mencionar o texto anterior Cobertura de Anedotos... onde fiz notar da semelhança das vestes dos Anedotos-Anunaki com os "bacalhaus", e também com a mitra papal. Ora, uma mitra alongada, sendo uma "cobertura" da cabeça, não pode deixar de ser referida neste contexto, porque tanto pode ter existido uma raça dominante com a cabeça alongada, como essa cobertura poderia ser disfarce, que depois levou a uma propagação desse costume entre os povos que sofriam a dominação dos outros.

No sentido da hipótese de ter havido mesmo uma raça com essa característica basta reparar numa grande diversidade de fisionomias humanas, que ainda existe, mas que seria muitíssimo mais acentuada há uns milénios atrás... e não deixo de lembrar uma figura que vi no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Uma pequeníssima cabeça mumificada da Amazónia, da tribo dos jívaros:
Apesar de se poder ler na descrição que a cabeça foi reduzida pela remoção do crânio, o tamanho das letras dá para ter uma ideia de que tal cabeça caberá numa mão, algo que me impressionou, e que me deixou muitas dúvidas sobre a dimensão original do indivíduo liliputiano. Conhecemos a espécie que sobreviveu, mas já aqui referimos várias notícias que apontam no sentido de terem havido homens quase gigantes na Patagónia, e homens muito pequenos, pigmeus na Indonésia, na ilha das Flores, perto de Timor.

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publicado às 05:34

Ao fim de muito tempo, vi ontem, pela primeira vez em televisão, alguém referir-se à descoberta do Brasil em 1498 por Duarte Pacheco Pereira. Quem o fez foi Miguel Sousa Tavares, respondendo à pergunta final num programa da SIC-Notícias, chamado "Conversas Improváveis".

O incidente é isolado e nada tem de especial, para além de ir completamente contra a versão oficial, que atribui o relato de descoberta à viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500.
A tese deveria ser largamente conhecida desde a publicação do Esmeraldo de Situ Orbis em 1892, por Raphael Basto, conservador da Torre do Tombo. Mais conhecida ainda quando Jorge Couto em 1995 sustentou a tese dessa descoberta anterior, com documentação adicional. Jorge Couto é uma figura reconhecida, tendo sido presidente do Instituto Camões e director da Biblioteca Nacional (2005-2011).
No entanto, apesar disso, que eu saiba, a tese de 1500 nunca foi beliscada em comunicações públicas, para uma larga plateia, por exemplo em televisão. Assim, a demonstração por Jorge Couto da viagem de Duarte Pacheco Pereira, em 1498, passa ao lado do folclore oficial, e de todo o comentário ou discussão, ao longo dos últimos 20 anos. Nada de estranhar, pois já teria passado ao lado da discussão do grande público durante todo o Séc. XX. Afinal, passam já 120 anos desde a publicação por Raphael Basto, que confrontou dois exemplares do Esmeraldo de Situ Orbis. Os exemplares estavam incompletos, sem nenhum dos 16 mapas (vistos na biblioteca dos Marqueses de Abrantes), e aparentemente em Setembro de 1844, para além da lei sobre funerais que originou depois a Revolta da Maria da Fonte, também houve uma portaria que retirou o livro da Biblioteca de Évora.
O detalhe da descoberta do Brasil em 1498, inscrito no livro, não passou obviamente despercebido, pois é referido pelo próprio inspector em 1891, na primeira página.

A afirmação que Duarte Pacheco Pereira dirige a D. Manuel é esta:
(...) alem do que dito é, a experiência que é madre das coisas nos desengana & de toda duvida nos tira & portanto bem aventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro ano de vosso Reinado do ano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte ocidental passando alem a grandeza do mar oceano onde é achada & navegada uma tão grande terra firme com muitas & grandes ilhas adjacentes a ela que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo artico  & posto que seja assaz fora é grandemente pauorada, & do mesmo circulo equinocial toma outra vez & vai além em vinte & oito graus & meio de ladeza contra o polo antartico (...)

Fica completamente claro que Duarte Pacheco Pereira ao referir-se a uma extensão de terra firme que vai da latitude 70ºN (Gronelândia, Norte do Canadá) a 28ºS (Rio Grande do Sul, Brasil), dá logo no ano de 1506 uma informação demasiado detalhada sobre o que se conhecia da América. Aliás, dá informações precisas sobre a parte da América que estaria destinada dentro do Hemisfério português, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Isto praticamente mostra que o conhecimento do continente americano era completo, antes mesmo do nome América ter sido associado a Alberico Vespúcio. Dizer que 1498 é a data da primeira viagem ao Brasil apenas peca por ser tão escasso quanto tudo o que esconde essa afirmação e que Duarte Pacheco Pereira revela.

Quando falei do Esmeraldo de Situ Orbis, em 17 de Dezembro de 2009, no Knol da Google, escrevi o seguinte:

Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!
Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Nessa altura procurei ligar a descrição da Costa de África à descrição da Costa Americana
Paralelismo África-América (Tese de Alvor-Silves, Dezembro 2009)

Vim na altura a saber (pelo José Manuel-CH) que a Duquesa de Medina-Sidonia, Luisa Alvarez de Toledo tinha argumentado no mesmo sentido no livro Africa versus America.

Provavelmente, caso fosse hoje, nem teria escrito nada acerca desse paralelismo... simplesmente porque é difícil sustentar a tese baseando-nos apenas na leitura de textos antigos, já que facilmente se poderá contra-argumentar que se tratam de coincidências interpretativas, sem usar outras provas.
Se usei aqui muitas interpretações, e fui avançando com diversas possibilidades, elas foram sendo sustentadas cada vez mais em citações literais, e factos documentais. Inicialmente não fazia ideia de que existisse tanta matéria "escondida com o rabo de fora", e por isso ainda procurava estabelecer relações fugazes, que pouco a pouco deixaram de ser fugazes... 

Quebrada a confiança com o conhecimento oficial, aquilo que escrevi sofre de toda a incerteza sobre as fontes e sobre a interpretação que fazemos delas. As diversas hipóteses que fui escrevendo resultam de tentativas parciais de encontrar nexo lógico, sem desacreditar tudo o que nos foi transmitido. O formato de blog tem a vantagem de não pretender ser mais do que uma interpretação escrita naquela data, em face da conjugação dos diversos dados acumulados, procurando focar mais no nexo lógico global do que no detalhes contraditórios.
Afinal, o que podemos saber resulta apenas do que nos é dado a saber... nada mais do que isso.
A maioria dos textos a que temos acesso é posterior à Idade Média, e muito tempo terá havido para definir o conhecimento que se divulgaria e o que iria ser ocultado. O povo nasce órfão de informação antiga... mal conhecemos os nomes dos trisavós, e poucas famílias passaram no seu seio histórias anteriores ao Séc. XIX. A partir daí fica só a confiança na cultura comum aprendida na escola formadora de mentes... Mesmo sobre monumentos/livros, devemos contar com reconstruções/ reedições, com a boa-fé dos criadores/autores, etc.
Quebrada a confiança, a grande certeza é a incerteza... e se dela não se livra o povo, órfão de antigos legados familiares, também não estarão muito mais seguros os depositários de conhecimento mais antigo. Afinal, têm que contar que a informação nunca foi alterada, coisa algo difícil de assumir mesmo em casas reais europeias, cujo legado teve múltiplas oscilações, e dificilmente chega ao Séc. X d.C. Indo mais longe, o registo perde-se nos legados religiosos. 
De qualquer forma, esquecendo o encobrimento nas descobertas arqueológicas, não há aparentemente um registo fiável para além das civilizações egípcias ou mesopotâmicas... como se os nossos anteriores antepassados nada nos tivessem querido deixar de importante. 
E, no entanto, em todos os povos parece ter havido a necessidade de transmitir um legado, não tanto uma história factual, mas antes uma tradição cultural religiosa, cujo significado primeiro se perdeu. A excepção parece ser a tradição hebraica, já que o Velho Testamento engloba também uma história do povo.
Vemos assim que o conhecimento que foi passando, não apagado entre gerações, foi uma mensagem religiosa autorizada. As histórias de heróis deveriam ser igualmente populares, mas retirando personagens divinos, poucas ficaram nos mitos, e talvez Hércules seja a excepção humana.
As novas gerações nasciam com conhecimento restrito, com pouco mais do que recebiam dos pais,  quase ignorando os avós. Quando isso acontece a evolução é normalmente pequena, e os jovens arriscam a fazer apenas uma repetição do percurso dos progenitores, sem acumular inovação no conhecimento. Isso seria tanto mais efectivo quanto as imposições religiosas visassem condicionar o progresso do conhecimento. A motivação poderia ser simplesmente manter o maior conhecimento na pequena elite reinante, para facilitar o controlo. No entanto, essa estagnação cultural funciona localmente, permite manter uma elite tribal, pelas condicionantes e proibições, mas não aguenta o embate com outra civilização em que o progresso de conhecimento seja mais valorizado e generalizado. Basta ver que em pouco mais de 200 anos de difusão de conhecimento, passámos de carruagens para aviões e foguetões....
Na tentativa de preservar a ordem, mantendo a habitual distância entre o conhecimento da elite e o conhecimento popular, compromete-se o progresso e a sociedade cairá no vício de estagnação, alimentado por sucessivas imposições e proibições, tal como nas primitivas sociedades tribais condicionadas pela religiosidade e tradição cultural fechada.

No santuário de Delfos haveria a inscrição "conhece-te a ti mesmo"... e sem dúvida que esse é o primeiro passo do homem, mas depois deve ser aplicado aos homens em conjunto, na sua unidade de conhecimento. 
Enquanto não percebermos o que fomos, o que nos condicionou e condiciona, dificilmente podemos definir o que devemos ser, funcionando como uma hidra insana... com múltiplas cabeças não coordenadas, competindo pelo controlo do mesmo corpo.
Temos até um exemplo interno... se os nossos hemisférios cerebrais direito e esquerdo funcionassem isoladamente e competitivamente, desconfiando um do outro, mentindo um ao outro... alguma vez teríamos tido sucesso enquanto organismo?

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publicado às 04:43

Ao fim de muito tempo, vi ontem, pela primeira vez em televisão, alguém referir-se à descoberta do Brasil em 1498 por Duarte Pacheco Pereira. Quem o fez foi Miguel Sousa Tavares, respondendo à pergunta final num programa da SIC-Notícias, chamado "Conversas Improváveis".

O incidente é isolado e nada tem de especial, para além de ir completamente contra a versão oficial, que atribui o relato de descoberta à viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500.
A tese deveria ser largamente conhecida desde a publicação do Esmeraldo de Situ Orbis em 1892, por Raphael Basto, conservador da Torre do Tombo. Mais conhecida ainda quando Jorge Couto em 1995 sustentou a tese dessa descoberta anterior, com documentação adicional. Jorge Couto é uma figura reconhecida, tendo sido presidente do Instituto Camões e director da Biblioteca Nacional (2005-2011).
No entanto, apesar disso, que eu saiba, a tese de 1500 nunca foi beliscada em comunicações públicas, para uma larga plateia, por exemplo em televisão. Assim, a demonstração por Jorge Couto da viagem de Duarte Pacheco Pereira, em 1498, passa ao lado do folclore oficial, e de todo o comentário ou discussão, ao longo dos últimos 20 anos. Nada de estranhar, pois já teria passado ao lado da discussão do grande público durante todo o Séc. XX. Afinal, passam já 120 anos desde a publicação por Raphael Basto, que confrontou dois exemplares do Esmeraldo de Situ Orbis. Os exemplares estavam incompletos, sem nenhum dos 16 mapas (vistos na biblioteca dos Marqueses de Abrantes), e aparentemente em Setembro de 1844, para além da lei sobre funerais que originou depois a Revolta da Maria da Fonte, também houve uma portaria que retirou o livro da Biblioteca de Évora.
O detalhe da descoberta do Brasil em 1498, inscrito no livro, não passou obviamente despercebido, pois é referido pelo próprio inspector em 1891, na primeira página.

A afirmação que Duarte Pacheco Pereira dirige a D. Manuel é esta:
(...) alem do que dito é, a experiência que é madre das coisas nos desengana & de toda duvida nos tira & portanto bem aventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro ano de vosso Reinado do ano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte ocidental passando alem a grandeza do mar oceano onde é achada & navegada uma tão grande terra firme com muitas & grandes ilhas adjacentes a ela que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo artico  & posto que seja assaz fora é grandemente pauorada, & do mesmo circulo equinocial toma outra vez & vai além em vinte & oito graus & meio de ladeza contra o polo antartico (...)

Fica completamente claro que Duarte Pacheco Pereira ao referir-se a uma extensão de terra firme que vai da latitude 70ºN (Gronelândia, Norte do Canadá) a 28ºS (Rio Grande do Sul, Brasil), dá logo no ano de 1506 uma informação demasiado detalhada sobre o que se conhecia da América. Aliás, dá informações precisas sobre a parte da América que estaria destinada dentro do Hemisfério português, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Isto praticamente mostra que o conhecimento do continente americano era completo, antes mesmo do nome América ter sido associado a Alberico Vespúcio. Dizer que 1498 é a data da primeira viagem ao Brasil apenas peca por ser tão escasso quanto tudo o que esconde essa afirmação e que Duarte Pacheco Pereira revela.

Quando falei do Esmeraldo de Situ Orbis, em 17 de Dezembro de 2009, no Knol da Google, escrevi o seguinte:

Duarte Pacheco Pereira não tem problema em atribuir navegações, para o contorno costeiro de África - aos gregos e fenícios... e até se atribuem navegações atlânticas aos fenícios!
Porquê?... porque isso não era nada, comparado com as navegações nacionais!
Duarte Pacheco Pereira, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis", é bastante claro a esse respeito... mas também diz que teve o cuidado de preparar essa obra convenientemente, pois D. Manuel quereria "fiar-se" do que iria escrever... e, mesmo assim, a obra esteve perdida até ao Séc. XIX.
Tem um pequeno descuido, onde diz explicitamente que navegou para o Brasil, a mando de D. Manuel em 1498, mas isso é um detalhe sem qualquer importância, face a tudo o resto que nos consegue dizer - para quem o queira ler a sério!

Nessa altura procurei ligar a descrição da Costa de África à descrição da Costa Americana
Paralelismo África-América (Tese de Alvor-Silves, Dezembro 2009)

Vim na altura a saber (pelo José Manuel-CH) que a Duquesa de Medina-Sidonia, Luisa Alvarez de Toledo tinha argumentado no mesmo sentido no livro Africa versus America.

Provavelmente, caso fosse hoje, nem teria escrito nada acerca desse paralelismo... simplesmente porque é difícil sustentar a tese baseando-nos apenas na leitura de textos antigos, já que facilmente se poderá contra-argumentar que se tratam de coincidências interpretativas, sem usar outras provas.
Se usei aqui muitas interpretações, e fui avançando com diversas possibilidades, elas foram sendo sustentadas cada vez mais em citações literais, e factos documentais. Inicialmente não fazia ideia de que existisse tanta matéria "escondida com o rabo de fora", e por isso ainda procurava estabelecer relações fugazes, que pouco a pouco deixaram de ser fugazes... 

Quebrada a confiança com o conhecimento oficial, aquilo que escrevi sofre de toda a incerteza sobre as fontes e sobre a interpretação que fazemos delas. As diversas hipóteses que fui escrevendo resultam de tentativas parciais de encontrar nexo lógico, sem desacreditar tudo o que nos foi transmitido. O formato de blog tem a vantagem de não pretender ser mais do que uma interpretação escrita naquela data, em face da conjugação dos diversos dados acumulados, procurando focar mais no nexo lógico global do que no detalhes contraditórios.
Afinal, o que podemos saber resulta apenas do que nos é dado a saber... nada mais do que isso.
A maioria dos textos a que temos acesso é posterior à Idade Média, e muito tempo terá havido para definir o conhecimento que se divulgaria e o que iria ser ocultado. O povo nasce órfão de informação antiga... mal conhecemos os nomes dos trisavós, e poucas famílias passaram no seu seio histórias anteriores ao Séc. XIX. A partir daí fica só a confiança na cultura comum aprendida na escola formadora de mentes... Mesmo sobre monumentos/livros, devemos contar com reconstruções/ reedições, com a boa-fé dos criadores/autores, etc.
Quebrada a confiança, a grande certeza é a incerteza... e se dela não se livra o povo, órfão de antigos legados familiares, também não estarão muito mais seguros os depositários de conhecimento mais antigo. Afinal, têm que contar que a informação nunca foi alterada, coisa algo difícil de assumir mesmo em casas reais europeias, cujo legado teve múltiplas oscilações, e dificilmente chega ao Séc. X d.C. Indo mais longe, o registo perde-se nos legados religiosos. 
De qualquer forma, esquecendo o encobrimento nas descobertas arqueológicas, não há aparentemente um registo fiável para além das civilizações egípcias ou mesopotâmicas... como se os nossos anteriores antepassados nada nos tivessem querido deixar de importante. 
E, no entanto, em todos os povos parece ter havido a necessidade de transmitir um legado, não tanto uma história factual, mas antes uma tradição cultural religiosa, cujo significado primeiro se perdeu. A excepção parece ser a tradição hebraica, já que o Velho Testamento engloba também uma história do povo.
Vemos assim que o conhecimento que foi passando, não apagado entre gerações, foi uma mensagem religiosa autorizada. As histórias de heróis deveriam ser igualmente populares, mas retirando personagens divinos, poucas ficaram nos mitos, e talvez Hércules seja a excepção humana.
As novas gerações nasciam com conhecimento restrito, com pouco mais do que recebiam dos pais,  quase ignorando os avós. Quando isso acontece a evolução é normalmente pequena, e os jovens arriscam a fazer apenas uma repetição do percurso dos progenitores, sem acumular inovação no conhecimento. Isso seria tanto mais efectivo quanto as imposições religiosas visassem condicionar o progresso do conhecimento. A motivação poderia ser simplesmente manter o maior conhecimento na pequena elite reinante, para facilitar o controlo. No entanto, essa estagnação cultural funciona localmente, permite manter uma elite tribal, pelas condicionantes e proibições, mas não aguenta o embate com outra civilização em que o progresso de conhecimento seja mais valorizado e generalizado. Basta ver que em pouco mais de 200 anos de difusão de conhecimento, passámos de carruagens para aviões e foguetões....
Na tentativa de preservar a ordem, mantendo a habitual distância entre o conhecimento da elite e o conhecimento popular, compromete-se o progresso e a sociedade cairá no vício de estagnação, alimentado por sucessivas imposições e proibições, tal como nas primitivas sociedades tribais condicionadas pela religiosidade e tradição cultural fechada.

No santuário de Delfos haveria a inscrição "conhece-te a ti mesmo"... e sem dúvida que esse é o primeiro passo do homem, mas depois deve ser aplicado aos homens em conjunto, na sua unidade de conhecimento. 
Enquanto não percebermos o que fomos, o que nos condicionou e condiciona, dificilmente podemos definir o que devemos ser, funcionando como uma hidra insana... com múltiplas cabeças não coordenadas, competindo pelo controlo do mesmo corpo.
Temos até um exemplo interno... se os nossos hemisférios cerebrais direito e esquerdo funcionassem isoladamente e competitivamente, desconfiando um do outro, mentindo um ao outro... alguma vez teríamos tido sucesso enquanto organismo?

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publicado às 20:43


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