Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Num comentário anterior disse que faltaria escrever um Arquitecturas (5), e por isso acrescento este texto. Claro que faltariam muito mais coisas, nomeadamente uma boa indexação, e ainda uma revisão de textos anteriores, adicionando novo material, corrigindo algumas insinuações, etc... Porém, não vejo este trabalho que aqui tive como sendo algo acabado. Convivo bem com os erros, alguns não intencionais, outros nem tanto, e o mais importante é saber justificar as decisões e opções. 
Pouco mais somos do que uma linha de decisões conscientes. Essas decisões podem ser acções ou inacções, mas apenas somos capazes de justificar as que fazemos conscientemente. Do ponto de vista externo, pouco mais se verá que as decisões, e sobre a consciência com que as tomámos, resta-nos uma linguagem ambígua, e uma maior ou menor inibição de revelar o nosso pensamento mais íntimo.
Essa inibição é um resultado da vivência social, e quanto mais inibidora e incompreensiva for a sociedade mais acumulará conhecimento reprimido, escondido num mundo de trevas. Agora, como é óbvio, o conhecimento deve ser informado e enquadrado. O conhecimento não deve servir o propósito contraditório de aniquilar o conhecimento. Da mesma forma que o conhecimento não deve ser negado a quem está em condições de o compreender.

Quem aqui aportar pode cair em frases ou textos soltos que, retirados do contexto, podem levar a interpretações precipitadas. Tratou-se de um estudo pessoal, ziguezagueante, que serve para mostrar dúvidas e incertezas, conceitos e preconceitos. Apesar de cada texto ser razoavelmente autocontido, sofre obviamente do conhecimento circunstancial, ou até do simples estado de espírito, que se foi adaptando, tentando encaixar diversas peças de um imenso puzzle. Também isso é instrutivo.

Interessa-me aqui voltar à questão da cosmogonia, no fim, começando pelo princípio...
Para esse efeito, refiro um mito criacionista chinês, atribuído a Laozi (séc. VI a.C), segundo a tradução disponível na wikipedia:
The Way gave birth to unity, Unity gave birth to duality, Duality gave birth to trinity, Trinity gave birth to the myriad creatures. The myriad creatures bear yin on their back and embrace yang in their bosoms. They neutralize these vapors and thereby achieve harmony.
Este mito procura justificar o aparecimento de tudo, através de um caminho, que pode ser visto no sentido abstracto. É interessante, porque basicamente individualiza a unidade, a dualidade, e a partir da trindade, tudo o resto é consequência.
Podemos ver aqui uma perspectiva de trindade, comum noutras religiões, e mesmo em filosofia, no sentido da percepção cartesiana do "eu", da evidência do "não-eu", e do agrupamento destas duas entidades num conceito maior, eventualmente num "Eu" solipsista, conforme já abordei
Porém, essa visão, que remete o indivíduo para a sua introspecção, é muito própria da filosofia budista, ou ainda mais antiga, do hinduísmo, Veda, ou vedado, entre castidades, castas, árias e párias.

Não faz muito sentido usar analogias de autores que inventam personagens, que se misturam com personagens na sua história, até porque um personagem resistente pode duvidar do autor, e até considerar que o próprio autor não passa de um personagem da sua imaginação... contradições do paradoxo do pensador, porque o pensador não pode conhecer a raiz do seu pensamento.

Passamos pois, para o "vácuo sagrado", como eventual fonte primeva, em qualquer mito criacionista.
O universo intemporal é uma entidade estável e imutável... por definição, por negação do tempo enquanto entidade aniquiladora.
No entanto, ao admitir mudança, surge sempre a questão do que foi antes de ser o que o que é...
Ora, a simples assumpção de inexistência, seguida de existência, define o universo também como a junção desses dois eventos. Passamos do 0 ao 1, definindo o 2 na junção. Será como um shakespeariano "ser ou não ser", a dúvida entre o existir e o não existir, sendo que essa dúvida é já uma terceira nova entidade.
Creio que esta passagem até à trindade é similar ao invocado por Laozi. Bom, e a partir daqui o processo pode repetir-se. Georg Cantor definiu de forma similar a construção dos números naturais.

Porém, enquanto construção puramente abstracta, um simples processo de edificação, resume-se a uma lista de "estados":
 (0): 0
 (1): 1
 (2): 0 1
 (4): 0 1 0 2
 (8): 0 1 0 2 0 2 0 4
(16): 0 1 0 2 0 2 0 4 0 2 0 4 0 4 0 8 
                                                              etc...

Aquilo que vemos é apenas uma sequência numérica, de replicação da estrutura anterior. A estrutura anterior é mantida, e a nova (a negrito) corresponde a uma evolução dessa para o estado seguinte (porque o universo tem que actualizar os conceitos com a nova estrutura). Os números são apenas símbolos que podem ser substituídos pela sua atribuição anterior. Ou seja, é mais rápido escrever 2 do que (01), e mais rápido escrever 4 do que (0102).

Bom, e como se comporta esta sucessão numérica, que emula uma concepção abstracta, de um universo que forçosamente inclui as entidades geradas? A sucessão numérica em causa está directamente ligada a uma representação binária (cf. OEIS), e apesar de poder ser gerada por uma simples linha de programação u = unir(u,2u), começando com u=(0,1), ao fim de algumas repetições torna-se bastante complexa, evidenciando ainda um comportamento fractal.
Podemos mostrar isso num percurso definido por direcções correspondentes aos números obtidos:

esta figura é apenas ilustrativa, mas serve para mostrar a complexidade, imprevisibilidade e não simetria do sistema gerado, ainda que se possam vislumbrar repetições de padrões (fractalidade). Computacionalmente podemo-nos ficar por umas dezenas de repetições, talvez centenas ou milhares, com grandes máquinas... mas tudo isso é nada, porque a estrutura emerge automaticamente, sem limites, pela sua simples definição.
Bom, e do que se compõe a estrutura? Simplesmente de vários estados do mesmo universo. Por isso, cada "partícula" pode ser encarada como um universo num estado mais elementar, e associações mais complexas aparecem em estados posteriores.
Estranho? Não é assim tão estranho, se notarmos que a idealização de uma máquina universal, uma modelação simplificada como sequência de "0" e "1", esteve presente na concepção de Turing.
Tanto poderá ser visto como enigma, como deus ex machina (ou ex mecanica).
Também não será de estranhar, atendendo à própria opinião da escola pitágorica, que encarava o mundo como uma simples manifestação numérica, acrescentando "a vida é como uma sala de espectáculos, entra-se, vê-se e sai-se"... e nesse sentido seria bom evitar a repetição de tragédias.

Importante é também a interrogação no sentido oposto.
Ou seja, assumindo a existência de partes no universo, de que podem elas ser constituídas?
São universos fechados em si mesmos? Então obedecem à própria lógica de um universo.
São outra coisa? Mas o quê, se são obrigatoriamente partes do universo. Só a nossa modelação física nos leva a pensar em constituintes diferentes, vindos sabe-se lá de onde...
Por isso, as partes de um universo, resultam de manifestações do próprio. Também por isso, quando a estrutura ganha consciência pode entender que uma sua parte é um universo fechado em si mesmo (concepção solipsista).
Bom, e como pode uma estrutura abstracta ganhar consciência?
Pode responder-se com outra questão - e como pode uma estrutura física, um corpo humano, ganhar consciência?
Não só. Há algumas pistas não desprezáveis. Não sei, mas creio que na ausência de uma estrutura social, para um indivíduo isolado, não será verosímil a necessidade de uma linguagem. Acaba por ser a linguagem a formatar conceitos no nosso pensamento. A linguagem emerge de uma experiência de vida social, solidifica-se por múltiplas experiências, e pode liquidificar-se mais tarde, com outras...
Como é possível a partir de repetições, de associações, aprender uma linguagem, num cérebro feito de neurónios? Ou seja, a emergência é natural, numa aparente predisposição do cérebro para esse efeito.

Não houve nenhuma evolução especial no sentido de preservar informação por via genética. Há uma parte, que designamos "instintiva", e essa deve ser considerada herdada, e há uma outra parte, que fez aparecer noções ou valores semelhantes, em diferentes culturas, que também pode ser considerada herdada (parcialmente, porque se mistura com a educação).
Porém, o que é mais importante é que a linguagem não se tornou apenas circunstancial, ligada ao que observamos. Tornou-se abstracta, capaz de evidenciar as mesmas conclusões em indivíduos distintos (por exemplo, através da matemática, ou simplesmente em jogos), e capaz de idealizar mundos para além do observado.
Ora, quando as noções abstractas ganham corpo de ciência, para além do homem, como se verifica no caso das noções e conclusões matemáticas, isso indicia que há uma realidade que transcende as habituais concepções físicas, ainda que possa ser inspirada por elas.

Regressando ao modelo de repetição associativa para um universo, convém notar que cada repetição não significa necessariamente um salto temporal... da mesma forma que não se evidenciam ali nenhumas dimensões físicas. A única coisa que se evidencia é sua complexidade emergente, e de como as partes não são mais do que diferentes associações do todo.
Uma coisa é não ter acesso cognitivo ao passado, outra coisa é achar que ele se perdeu irremediavelmente, como se houvesse um "caixote de lixo" temporal.
E se isto é válido para a história, enquanto passado, também é válido para outras incapacidades cognitivas, provavelmente por defeito de evolução na nossa comunicação.

As efémeras certezas acerca das nossas potências podem transformar-se em incertezas face às nossas impotências. Porque as nossas potencialidades surgem-nos como aparentes dádivas, mas nada disso surgiu com certificado vitalício, e maior potencialidade interior resulta de perspectivar adversidades, sem que isso constitua uma negação às actuais faculdades.

14 de Fevereiro de 2013

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:23

Para além das considerações históricas, os agentes da História são homens, não apenas enquanto personagens, mas enquanto actores, ainda que a sua acção esteja algo limitada pelo enredo.
É nesse sentido que importa perceber o que moveu os homens para empreenderem as suas acções, muito vezes parecendo arriscar muito empenho por pouco retorno. A sua relação com o desconhecido, através da religião, filosofia ou ciência, foi uma das facetas políticas.

Para não entrar em considerações que podem ser vistas como lunáticas, vou-me socorrendo de outros que foram desbastando preconceitos, e não deixam sozinho este caminho comum.
Encontrei uma entrevista da BBC a Carl Jung:
Estes 10 minutos da parte final da entrevista merecem ser vistos. Para o que se segue escolho as seguintes passagens:
- Lembro que disse que a morte é psicologicamente tão importante quanto o nascimento e que ela é parte integrante da vida. Mas não pode ser assim, se é um fim; ou pode?
- Certo, se ela for um fim, mas... não estamos muito certos sobre esse fim porque existem as faculdades especiais da psique, ela não é inteiramente limitada pelo espaço e pelo tempo. Pode ter sonhos ou visões do futuro, pode ver mais longe do que as esquinas. Apenas a ignorância recusa tais factos. É evidente que eles existem... e sempre existiram. Mostram que a psique, ao menos parte dela, não depende desses limites.
- E daí?
- Se a psique não é obrigada a viver no espaço e no tempo apenas, e obviamente não vive, então até tal ponto a psique não está sujeita àquelas leis, o que indica uma continuação prática, uma espécie de existência psíquica além do tempo e do espaço.

Começamos pelo trivial.
O homem tem conhecimento de realidades alternativas, normalmente designadas por sonhos.
Ao dormir, o sonho inconsciente confronta-nos perante realidades que não têm lugar no espaço da realidade comum, que partilhamos com outros. Esses cenários alternativos não foram criados por nós, no sentido em que não fazemos a mais pálida ideia de como construímos o cenário do sonho, ou porquê. Também aí tomamos o lugar de personagens intervenientes numa realidade de que desconhecemos as regras, e que é suficientemente imprevisível e credível.

O sonho pode ser visto como um teste ao nosso pensamento em resposta a mundos diferentes do que conhecemos. Quem produz esses mundos? Não é o nosso consciente, e quanto ao inconsciente dificilmente podemos chamar-lhe "nosso"! É tão externo quanto a realidade que nos é oferecida, e é por isso que no sonho acreditamos estar a viver uma experiência real.
Como não é uma experiência partilhada, quando regressamos à realidade comum, há uma tendência clara de ser socialmente negligenciada... não o seria se um grupo de pessoas tivesse partilhado o mesmo sonho.

Em contrapartida, como ao individuo é atribuída a criação do sonho, através do seu inconsciente, também o indivíduo pode pensar que a realidade "comum" é produto do seu inconsciente.
Essa convicção solipsista foi especialmente notória na filosofia hindú, ou na concepção de Parménides, e nos resultantes idealismos, de Platão à escola idealista alemã.
No entanto, é indiferente... o que importa é que o indivíduo é sempre colocado perante uma realidade que não controla completamente. Pode acreditar que é o "seu" inconsciente, ou que é "outro" que origina essa realidade que percepciona. Esse "outro" tanto assumir a forma de crença numa divindade consciente, como a forma de crença numa ordem inconsciente (na perspectiva materialista).

Convirá aqui notar que a justificação para certas entidades, ou acontecimentos, não explicáveis pelo conhecimento comum, tem várias formas quase equivalentes. Consoante a época, podemos falar de deuses, magos, vampiros, alienígenas, etc... pouco importa. Não importa a forma, importa a sua essência. Há entidades que surgiram como metáforas literárias a um poder humano submerso, e que ganharam espaço no imaginário, propagando-se de forma errada por interpretação diversa dos leitores, e há outras que têm um conceito diferente.
Podemos chamar "vampiro" a um ser que suga o sangue, no mesmo sentido em que criticamos uma elite ociosa que subsiste do trabalho dos restantes. E neste caso o seu poder forma-se nas trevas, no secretismo, no desconhecimento da população, e tal como o vampiro, não suportará que caia luz sobre si.
Esta figura metafórica de Bram Stoker tanto fez a delícia dos que a compreendiam, como a dos que não compreendiam (apenas se assombravam com tal ideia) e por isso acabou por ser inócua, e fazer parte da cultura popular como um medo, o que até agradou às mesmas elites.
No sentido oposto, creio que se pretendeu depois substituir esses medos por uma ciência primária que ostracizou qualquer ideia de espiritualidade, varrendo todas as ocorrências mais estranhas para debaixo da ocultação. Fica assim confuso perceber o que são apenas manifestações literárias alegóricas, mitológicas, de outras que podem corresponder a verdadeira observação (por exemplo, uma questão serão os eventuais registos arqueológicos de gigantes).

Não se pode experimentar a ideia de morte na realidade "comum", no entanto há sonhos em que o próprio se vê confrontado com uma realidade cujo o único desfecho lógico, mesmo no mundo do sonho, seria a morte. Assim, o próprio pode aceitar nesse sonho a ideia de que morreu, mas dá consigo a pensar sobre isso, e percebe que não pode estar morto. Tem que acordar para outra realidade... e acorda!
Conforme diz Carl Jung, há uma distinção entre a morte individual e a morte dos outros. No espaço da realidade "comum" observa-se a morte dos outros, que se desligam do nosso convívio, e é uma consequência lógica da realidade partilhada por todos. No entanto, o simples materialismo não reconhece as suas contradições, e acaba por inventar umas partículas chamadas "pensões", que não justificam o pensamento, servem antes para financiar a sua ocultação.

Há uma realidade partilhada e uma realidade individual. Só o indivíduo que abdique por completo da vivência dos sonhos, atribuindo a si o que não é seu, chamando-lhe "inconsciente", pode negar essoutra realidade. A realidade partilhada, essa tem um fim previsto, quanto à outra, conforme diz Jung, há fortes razões para pensar que não se esgota nesta realidade. Tem nascimento neste útero da realidade terrestre, onde adquire consciência e ideias primevas, mas nada lógico impede que  prossiga para além desta realidade física.

Acreditar num acaso que formou este universo e mais nenhum outro, acaba por nos remeter e prender a uma visão funesta, redutora para além do necessário, em que é cultivado o excessivo medo da morte. E, como sabemos, os medos são excelentes recrutadores de vontades...
Nem sempre terá sido assim, já que as circunstâncias de guerra implicavam até uma visão voluntarista, em que o modelo de vida, a ideia da morte honrada, seria até usada no sentido oposto - recrutamento de guerreiros que não temiam a morte. Na maioria das vezes esses combatentes desconheceriam pouco mais do que um código de valores eficaz para a fidelidade ao líder, ou à tribo... podendo ser tribo de preservação genética, ou de preservação religiosa. Na prática foram progressivamente usados contabilisticamente por uma inteligência secreta, como autómatos em confrontação.

O que aprendemos em conjunto, e que vai para além desta realidade material, é que há noções abstractas que não são apenas ilusões individuais... e na pior das hipóteses serão ilusão da espécie humana. Essas noções abstractas estão na nossa linguagem, ajudaram a descrever e compreender a realidade comum, mas vão muito para além dela.
Nem calhaus, nem vegetais, pensam abstractamente (pode duvidar-se de alguns animais com comportamento social...), por isso essas noções abstractas só emergem da realidade através do nosso pensamento, e no entanto, pela abstracção matemática, acabamos por constatar que essas ilusões mentais têm afinal algum correspondente na nossa realidade, e servem para modelá-la.
Portanto pretende-se fazer crer que apenas esta realidade é possível, quando é esta própria realidade que nos induz ideias que mostram que ela é apenas um caso particular sujeita a leis de modelação, que até podemos grosseiramente simular em computador.

Poderemos até no futuro ser capazes de simular realidades virtuais, onde os pequenos entes computacionais ganhem cognição capaz de iludir uma auto-consciência, mas isso não faria de nós seus deuses, seríamos apenas criadores, já que as dúvidas sobre criação que levou à nossa própria existência não ficariam resolvidas por esse meio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:43

Para além das considerações históricas, os agentes da História são homens, não apenas enquanto personagens, mas enquanto actores, ainda que a sua acção esteja algo limitada pelo enredo.
É nesse sentido que importa perceber o que moveu os homens para empreenderem as suas acções, muito vezes parecendo arriscar muito empenho por pouco retorno. A sua relação com o desconhecido, através da religião, filosofia ou ciência, foi uma das facetas políticas.

Para não entrar em considerações que podem ser vistas como lunáticas, vou-me socorrendo de outros que foram desbastando preconceitos, e não deixam sozinho este caminho comum.
Encontrei uma entrevista da BBC a Carl Jung:
Estes 10 minutos da parte final da entrevista merecem ser vistos. Para o que se segue escolho as seguintes passagens:
- Lembro que disse que a morte é psicologicamente tão importante quanto o nascimento e que ela é parte integrante da vida. Mas não pode ser assim, se é um fim; ou pode?
- Certo, se ela for um fim, mas... não estamos muito certos sobre esse fim porque existem as faculdades especiais da psique, ela não é inteiramente limitada pelo espaço e pelo tempo. Pode ter sonhos ou visões do futuro, pode ver mais longe do que as esquinas. Apenas a ignorância recusa tais factos. É evidente que eles existem... e sempre existiram. Mostram que a psique, ao menos parte dela, não depende desses limites.
- E daí?
- Se a psique não é obrigada a viver no espaço e no tempo apenas, e obviamente não vive, então até tal ponto a psique não está sujeita àquelas leis, o que indica uma continuação prática, uma espécie de existência psíquica além do tempo e do espaço.

Começamos pelo trivial.
O homem tem conhecimento de realidades alternativas, normalmente designadas por sonhos.
Ao dormir, o sonho inconsciente confronta-nos perante realidades que não têm lugar no espaço da realidade comum, que partilhamos com outros. Esses cenários alternativos não foram criados por nós, no sentido em que não fazemos a mais pálida ideia de como construímos o cenário do sonho, ou porquê. Também aí tomamos o lugar de personagens intervenientes numa realidade de que desconhecemos as regras, e que é suficientemente imprevisível e credível.

O sonho pode ser visto como um teste ao nosso pensamento em resposta a mundos diferentes do que conhecemos. Quem produz esses mundos? Não é o nosso consciente, e quanto ao inconsciente dificilmente podemos chamar-lhe "nosso"! É tão externo quanto a realidade que nos é oferecida, e é por isso que no sonho acreditamos estar a viver uma experiência real.
Como não é uma experiência partilhada, quando regressamos à realidade comum, há uma tendência clara de ser socialmente negligenciada... não o seria se um grupo de pessoas tivesse partilhado o mesmo sonho.

Em contrapartida, como ao individuo é atribuída a criação do sonho, através do seu inconsciente, também o indivíduo pode pensar que a realidade "comum" é produto do seu inconsciente.
Essa convicção solipsista foi especialmente notória na filosofia hindú, ou na concepção de Parménides, e nos resultantes idealismos, de Platão à escola idealista alemã.
No entanto, é indiferente... o que importa é que o indivíduo é sempre colocado perante uma realidade que não controla completamente. Pode acreditar que é o "seu" inconsciente, ou que é "outro" que origina essa realidade que percepciona. Esse "outro" tanto assumir a forma de crença numa divindade consciente, como a forma de crença numa ordem inconsciente (na perspectiva materialista).

Convirá aqui notar que a justificação para certas entidades, ou acontecimentos, não explicáveis pelo conhecimento comum, tem várias formas quase equivalentes. Consoante a época, podemos falar de deuses, magos, vampiros, alienígenas, etc... pouco importa. Não importa a forma, importa a sua essência. Há entidades que surgiram como metáforas literárias a um poder humano submerso, e que ganharam espaço no imaginário, propagando-se de forma errada por interpretação diversa dos leitores, e há outras que têm um conceito diferente.
Podemos chamar "vampiro" a um ser que suga o sangue, no mesmo sentido em que criticamos uma elite ociosa que subsiste do trabalho dos restantes. E neste caso o seu poder forma-se nas trevas, no secretismo, no desconhecimento da população, e tal como o vampiro, não suportará que caia luz sobre si.
Esta figura metafórica de Bram Stoker tanto fez a delícia dos que a compreendiam, como a dos que não compreendiam (apenas se assombravam com tal ideia) e por isso acabou por ser inócua, e fazer parte da cultura popular como um medo, o que até agradou às mesmas elites.
No sentido oposto, creio que se pretendeu depois substituir esses medos por uma ciência primária que ostracizou qualquer ideia de espiritualidade, varrendo todas as ocorrências mais estranhas para debaixo da ocultação. Fica assim confuso perceber o que são apenas manifestações literárias alegóricas, mitológicas, de outras que podem corresponder a verdadeira observação (por exemplo, uma questão serão os eventuais registos arqueológicos de gigantes).

Não se pode experimentar a ideia de morte na realidade "comum", no entanto há sonhos em que o próprio se vê confrontado com uma realidade cujo o único desfecho lógico, mesmo no mundo do sonho, seria a morte. Assim, o próprio pode aceitar nesse sonho a ideia de que morreu, mas dá consigo a pensar sobre isso, e percebe que não pode estar morto. Tem que acordar para outra realidade... e acorda!
Conforme diz Carl Jung, há uma distinção entre a morte individual e a morte dos outros. No espaço da realidade "comum" observa-se a morte dos outros, que se desligam do nosso convívio, e é uma consequência lógica da realidade partilhada por todos. No entanto, o simples materialismo não reconhece as suas contradições, e acaba por inventar umas partículas chamadas "pensões", que não justificam o pensamento, servem antes para financiar a sua ocultação.

Há uma realidade partilhada e uma realidade individual. Só o indivíduo que abdique por completo da vivência dos sonhos, atribuindo a si o que não é seu, chamando-lhe "inconsciente", pode negar essoutra realidade. A realidade partilhada, essa tem um fim previsto, quanto à outra, conforme diz Jung, há fortes razões para pensar que não se esgota nesta realidade. Tem nascimento neste útero da realidade terrestre, onde adquire consciência e ideias primevas, mas nada lógico impede que  prossiga para além desta realidade física.

Acreditar num acaso que formou este universo e mais nenhum outro, acaba por nos remeter e prender a uma visão funesta, redutora para além do necessário, em que é cultivado o excessivo medo da morte. E, como sabemos, os medos são excelentes recrutadores de vontades...
Nem sempre terá sido assim, já que as circunstâncias de guerra implicavam até uma visão voluntarista, em que o modelo de vida, a ideia da morte honrada, seria até usada no sentido oposto - recrutamento de guerreiros que não temiam a morte. Na maioria das vezes esses combatentes desconheceriam pouco mais do que um código de valores eficaz para a fidelidade ao líder, ou à tribo... podendo ser tribo de preservação genética, ou de preservação religiosa. Na prática foram progressivamente usados contabilisticamente por uma inteligência secreta, como autómatos em confrontação.

O que aprendemos em conjunto, e que vai para além desta realidade material, é que há noções abstractas que não são apenas ilusões individuais... e na pior das hipóteses serão ilusão da espécie humana. Essas noções abstractas estão na nossa linguagem, ajudaram a descrever e compreender a realidade comum, mas vão muito para além dela.
Nem calhaus, nem vegetais, pensam abstractamente (pode duvidar-se de alguns animais com comportamento social...), por isso essas noções abstractas só emergem da realidade através do nosso pensamento, e no entanto, pela abstracção matemática, acabamos por constatar que essas ilusões mentais têm afinal algum correspondente na nossa realidade, e servem para modelá-la.
Portanto pretende-se fazer crer que apenas esta realidade é possível, quando é esta própria realidade que nos induz ideias que mostram que ela é apenas um caso particular sujeita a leis de modelação, que até podemos grosseiramente simular em computador.

Poderemos até no futuro ser capazes de simular realidades virtuais, onde os pequenos entes computacionais ganhem cognição capaz de iludir uma auto-consciência, mas isso não faria de nós seus deuses, seríamos apenas criadores, já que as dúvidas sobre criação que levou à nossa própria existência não ficariam resolvidas por esse meio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:43


Alojamento principal

alvor-silves.blogspot.com

calendário

Maio 2017

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D